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Artigos - 11/12/2012 - 10h53

Rio Branco, Acre – Parte II




Por Hiram Reis e Silva

É um dever sacrossanto manter vivas no pensamento figuras do porte de Francisco Mangabeira que, pelo seu talento, sua bravura, seus relevantes serviços prestados ao Brasil, deixou de se pertencer para pertencer ao mundo! (KALUME)

Hino do Acre
Letra do Dr. Francisco Cavalcante Mangabeira e música de Mozart Donizeti.
http://www.youtube.com/watch?v=5y1gLPvcj30

 
I
Que este sol a brilhar soberano
Sobre as matas que o vêem com amor
Encha o peito de cada acreano
De nobreza, constância e valor...
Invencíveis e grandes na guerra,
Imitemos o exemplo sem par
Do amplo Rio que briga com a terra,
Vence-a e entra brigando com o mar.

Estribilho

Fulge um astro na nossa bandeira,

Que foi tinto com sangue de heróis

Adoremos na estrela altaneira

O mais belo e o melhor dos faróis

II
Triunfantes da luta voltando,
Temos n'alma os encantos do céu
E na fronte serena e radiante
O imortal e sagrado troféu,
O Brasil a exultar acompanha
Nossos passos, portanto é subir,
Que da glória a divina montanha
Tem no cimo o arrebol do porvir.

 
III
Possuímos um bem conquistado
Nobremente com armas na mão
Se o afrontarem, de cada soldado
Surgirá de repente um leão.
Liberdade é o querido tesouro
Que depois do lutar nos seduz
Talo o Rio que rola, o sol de ouro
Lança um manto sublime de luz.

IV
Vamos ter como prêmio da guerra
Um consolo que as penas desfaz,
Vendo as flores do amor sobre a terra
E no céu o arco-íris da paz.
As esposas e mães carinhosas
A esperar-nos nos lares fiéis
Atapetam a porta de rosas
E, cantando, entretecem lauréis.

V
Mas se audaz estrangeiro algum dia
Nossos brios de novo ofender,
Lutaremos com a mesma energia
Sem recuar, sem cair, sem temer
E ergueremos então destas zonas
Um tal canto vibrante e viril
Que será como a voz do Amazonas
Ecoando por todo o Brasil.
 

-    Um Hino de Bravos

Que o bairrismo extremamente acirrado de meus conterrâneos gaúchos me perdoe, mas o mais belo Hino dos estados brasileiros é sem dúvida o Hino do Acre um canto de titâs, um hino  vibrante e viril regido pela honra e pela glória e salpicado por notas de coragem e desassombro. Quem, como eu, já teve a oportunidade de ouvi-lo e senti-lo há de concordar plenamente como que digo.

O Hino foi composto, no dia 5 de outubro de 1903, no Seringal Capatará, situado acima do Igarapé Distração, na cidade de Rio Branco, em um acampamento onde Plácido de Castro estabelecera o Quartel-General do seu exército, pelo médico e poeta baiano Dr. Francisco Cavalcante Mangabeira que prestava atendimento à tropa. A música, por sua vez, foi criada pelo maestro amazonense Mozart Donizeti que conhecia perfeitamente a realidade e historicidade da região, pois residira nas cidades de Tarauacá e Cruzeiro do Sul.

-    Dr. Francisco Cavalcante Mangabeira
    Fonte: Isaac Melo - Francisco Mangabeira: Um Poeta Baiano Na Revolução Acreana
    http://almaacreana.blogspot.com.br/2011/02/francisco-mangabeira-um-poeta-baiano-na.html

O paquete São Salvador havia deixado o porto de Manaus na manhã de 22 de janeiro de 1904. Em um de seus camarotes, o de número 40, estava instalado um jovem médico de apenas vinte e cinco anos. No corpo agonizava as dores do impaludismo e no peito, a saudade de sua terra e de sua gente. (...)

Chegara o dia 27

(...) O sol dos trópicos a tudo abraçava, abrasava e acariciava com suas mãos fulgurantes. Porém, no camarote 40, ainda havia noite e havia frio. (...) Às duas horas da tarde desfalecia um dos mais festejados poetas, à época, e um dos grandes nomes da poesia do final do século XIX, cuja vida foi marcada pelo sonho e pela ousadia, pelo amor e pela aventura, sendo sua obra exaltada e comparada à de Castro Alves.

A Vida

Francisco Cavalcante Mangabeira era o sétimo filho do casal Francisco Cavalcante Mangabeira, um farmacêutico alagoano, e Augusta Mangabeira. (...) Não havia completado ainda dez anos quando perdeu a mãe. Isso o marcou profundamente. Desde então ficara sob os cuidados permanentes de uma senhora, Sinhá Joaquina, ou Quinquinha como ele a chamava, contratada pelo pai, a quem o menino muito se afeiçoou e que exerceria grande importância em sua vida.

A Escola

Foi no Colégio Marquês de Santa Cruz, aos seis anos de idade, a primeira vez que o menino fora a escola. (...) A escola, depois da morte do administrador, um velho padre, fechara as portas. Fora então matriculado, juntamente com seus irmãos, no Colégio Malhado. O menino não gostara daí, um ambiente perturbador e bagunçado para uma alma quieta e solitária. O pai então os matricula no Colégio Pedro II, onde ele alcança grandes progressos, porém, pouco depois tem que deixá-lo devido o agravamento da doença de sua mãe, que morreria pouco tempo depois. Ao retornar, conclui, no mesmo colégio, os três preparatórios principais. No ano seguinte, 1889, ingressa no Liceu Provincial, para finalmente concluir as matérias fundamentais no Instituto Oficial de Ensino Secundário. É quando integra o Grêmio Evolução, sendo um dos mais jovens integrantes do grupo. Aí começa o pendor do jovem para poesia. Está com cartoze anos.

A Medicina, 1894

Aos quinze anos Francisco matricula-se, por livre vontade, na tradicional Escola de Medicina da Bahia, fato que causou surpresa, sobretudo, a seus familiares. O primeiro ano fora entediante e difícil para alguém que estava destinado a cuidar do males da alma, não do corpo. Dedicara-se apaixonadamente à literatura, enquanto nem sequer pegara em um livro específico de seu curso. (...) Quer desistir. Então, o velho Mangabeira obriga-o a fazer os exames finais. É aprovado. No ano seguinte, no entanto, é reprovado. Todavia, é o ano em que começa a projetar-se e a ganhar fama de poeta, depois que o crítico e escritor riograndense, Múcio Teixeira, publica alguns entusiásticos artigos, na Bahia e no Rio de Janeiro, apresentando-o aos leitores como “um novo poeta baiano”. Das angústias desse ano surgirá a obra-prima do poeta.

Canudos

(...) Fora outra surpresa para a família Mangabeira quando receberam a notícia de que o jovem poeta, juntamente com seu irmão, estava pronto para partir com destino a Canudos, o que, de fato, ocorrera no dia 27 de julho de 1897. Cursava, então, o terceiro ano de medicina, e partira com um grupo formado por 24 estudantes, a integrar a famosa Brigada Girard, comandada pelo General Artur Oscar, para servir nos hospitais de sangue. (...)

Dessa experiência surgirá um dos mais belos textos em versos, senão o mais, acerca de Canudos, o equivalente ao que foi o de Euclides para a prosa. (...) Canudos fizera o poeta rever seu compromisso com os estudos. Tornara-se dedicado e, assim, em 18 de dezembro de 1900, defendendo a tese “Impedimentos de casamento relativos ao parentesco” fora aprovado e diplomado em medicina.

A Profissão

(...) Dirigiu-se então para o Maranhão, no dia 16 de março de 1901, onde fora contratado para trabalhar como médico da Companhia Maranhense de Navegação, que realizava o trajeto entre Bahia e São Luis. Mas aí permanecera pouco tempo. (...) O Amazonas, a pátria das águas, o seduzira como se tivesse ouvido o canto irresistível das iaras. E para o Amazonas partira. Aí é contratado pelo governo amazonense para servir em comissões de saúde pelo interior, a percorrer “todo aquele mundo de rios, de florestas sem fim, exercendo a sua profissão em comissões pelos rios Negro, Juruá, Javari, Madeira, Purus...”. Porém, apegado que era ao pai, aos irmãos e irmãs, a saudade novamente viera abrigar-se em seu peito. Não resistiu aos apelos. E assim retornara à Bahia, ao aconchego dos seus, ao findar de dezembro de 1902.

O Acre e a Revolução

Algo inquietava o poeta, mesmo estando em meio ao aconchego de seus familiares e de sua terra. Quando estivera em Manaus ouvira falar muitas vezes dos acreanos e sua revolução. (...) Comentara o poeta, em carta, assim a um amigo:

“Nada posso afirmar de novo sobre o Acre, enquanto para lá não partir! O que ainda não fiz por falta de vapores”.

(...) O sobrinho biógrafo, Paulo Mangabeira-Albernaz, diz acerca do sonho de seu tio:

“Nada o conseguira prender: nem a saudade inexpremível, nem o amor imensurável à terra do berço, nem a própria felicidade! O apelo do Acre vencera tudo!”

E assim parte o poeta para Manaus, em abril de 1903, com destino ao Acre.

Em Manaus, onde já era muito estimado, o poeta partilhara com seus amigos o sonho que acalentava de ir para o Acre. (...) Imperava a máxima de que poucos sobreviviam ou retornavam do Acre: local de difícil acesso, isolado e empestado de doenças tropicais e, agora, em guerra. (...) Porém, nada dissuadia o poeta de seu firme propósito. De modo que, no dia 28 de maio de 1903, no navio Amazonense, como médico do 40º Batalhão de Infantaria, comandado pelo Coronel Valadares, partia ao encontro de seu bem amado, o Acre. (...) em 02 de junho, encontrara pela primeira vez o chefe da Revolução, Plácido de Castro, que descia a Manaus depois que o General Olímpio da Silveira havia destituído o exército acreano. Ficara impressionado com o caudilho:

“E então, pareceu-me que, ao brilho de energia extraordinária e impressionadora de seu semblante, ele crescia, e seu capacete se tornava de bronze e seu peito se recobria de aço”.

As águas baixaram drasticamente e, à boca do Pauini, o Amazonense não pode seguir adiante. O poeta prosseguiu, então, em pequenas lanchas, em canoa a varejão e, por fim, a pé, em varadouros por entre a mata:

“A viagem a pé, quando havia um guia, era suportável, mas às vezes, era feita sem um mateiro, e imaginem 40 homens no mato, seguindo um trilho que de repente se bifurca, e mais adiante dava numa estrada de seringueiro de onde partiam três ou quatro caminhos! Uma vez andamos oito horas perdidos no mato e, para aumentar a aflição, uma chuva torrencial desabou sobre nossas cabeças”.

A viagem fora uma epopeia. Mas, finalmente, chegara ao seringal Empresa, onde estava acampado o 27º Batalhão de Infantaria. Era agosto de 1903.

Hino acreano

Em 21 de março de 1903, o governo brasileiro, por meio do grande diplomata Barão do Rio Branco, juntamente com o governo boliviano assinaram um acordo de “modus vivendi”. Os bolivianos já haviam se rendido ao exército de Plácido. Cessara a luta no fronte, a batalha agora era no campo da diplomacia. O Acre encontrava-se politicamente dividido em duas administrações: Meridional, sob o comando de Plácido de Castro, e Setentrional pelo Governo militar de Cunha Matos. Por duas vezes, como assevera o historiador Leandro Tocantins, o Barão do Rio Branco sugeriu ao Governo de La Paz, e este concordou, a extensão do prazo do “modus vivendi”, de 21 de julho até 21 de outubro. A ansiedade tomava conta de todos. Qual seria afinal o resultado dessas discussões diplomáticas? Que acordo seria firmado?
 
Enquanto isso, Plácido de Castro organizava seu exército em pontos estratégicos do Acre Meridional, pronto para nova luta conforme o resultado das confabulações diplomáticas entre os dois países. No seringal Capatará estava assentado o Quartel-General de Plácido. Ao fundo do barracão erguiam-se as barracas de lona, a alojar os soldados. Numa delas está Francisco Mangabeira. Desde que cessara os combates aí passara a atender os feridos da guerra e à população ribeirinha que o procurava. É nesse ambiente, impressionado pela natureza, pelo ideal de liberdade, pelos combates e pelo sentimento da terra que o jovem poeta comporá, em 05 de outubro de 1903, o magnífico poema que se tornará o Hino Acreano.

Aproximava-se o término do “modus vivendi”. O poeta encontrava-se, com a tropa, acampado em Boa Fé. Estavam irriquietos e decididos: ou o Acre seria do Brasil, ou recomeçaria a luta. A tropa, a 21 de outubro, fora reunida diante do mastro do qual pendia a bandeira acreana. Conta, em carta, Francisco Mangabeira:

“A meio dia, pouco mais ou menos, reunida a oficialidade, resolve-se mandar imediatamente cem homens para o Gavião. Antes disso, porém, com uma cerimônia tocante, foi lido o Hino do Acre”.

Pela voz do próprio poeta pela primeira vez o Hino Acreano percorria as matas e o coração daqueles caboclos titânicos, num misto de alegria e esperança. O resultado das confabulações diplomáticas e, consequentemente, a incorparação do Acre ao Brasil só veio um mês depois, a 17 de novembro, quando em Petrópolis, com a genialidade diplomática do Barão do Rio Branco, fora assinado o Tratado de Petrópolis. Mangabeira tentara o máximo permanecer em solo acreano depois do término da Revolução. Porém, caira gravemente enfermo, e fora levado nos braços, no último dia de dezembro de 1903, até a embarcação que o conduziria a Manaus, aí chegando dia 10 de janeiro de 1904. Findava o sonho acreano do poeta da mesma forma que se aproximava o seu fim.

Fontes:

- ALBERNAZ, Paulo Mangabeira. Francisco Mangabeira: sonho e aventura. Campinas: Livraria M. Teixeira, s/d.
- KALUME, Jorge. Francisco Mangabeira: médico, poeta e herói. Brasília: Gráfica do Senado, 1981.
-    Livro do Autor

O livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS e na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br). Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:
http://books.google.com.br/books?id=6UV4DpCy_VYC&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.
E-mail: hiramrs@terra.com.br
Blog: http://www.desafiandooriomar.blogspot.com

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