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Meio ambiente - 11/12/2008 - 09h20

Poznan: Brasil e países emergentes são ponto de desacordo




Por Lúcia Jardim, Terra

A 14ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-14) se aproxima do fim com muitas pendências, poucas decisões e um grande desafio: conseguir chegar, em dois dias, em um acordo entre os 189 países participantes sobre os termos da revisão do Protocolo de Kyoto, que será acertada em Copenhague no final do ano que vem. Até agora, em 10 dias de evento, poucas questões foram acertadas.

 

O problema é que, aparentemente, as delegações presentes desde o início da conferência, no dia 1º, não têm poder de decisão. Por conta disso, é necessária a chegada dos 100 ministros do Meio Ambiente de todas as delegações - a maioria, como o brasileiro Carlos Minc, desembarcou em Poznan apenas ontem à noite.

"Desde o princípio, Poznan nunca foi uma conferência que traria resultados espetaculares", admitiu o embaixador francês na ONU, Brice Lalonde. "Aqui, queremos acertar o máximo de detalhes possíveis sobre o novo acordo. Tudo de definitivo é previsto para Copenhague".

O Brasil está diretamente ligado a uma das principais encruzilhadas das negociações: a implantação do Redd (Redução de Emissões por Desflorestamento e Degradação), um financiamento para preservação do meio ambiente, e a criação de um Fundo de Adaptação, com orçamento que poderá chegar a R$ 300 milhões e que seria uma fonte importante de recursos financeiros para que os países realizem as construções e adaptações necessárias a fim de se tornarem menos poluentes.

Os países emergentes divergem dos desenvolvidos na proveniência e na gestão deste fundo: enquanto países como Brasil gostariam que o dinheiro fosse proveniente de doações voluntárias e administrado nacionalmente, outros, como os Estados Unidos, preferem que a verba seja oriunda do mercado de carbono, o que, na posição do Brasil, permitiria que os países ricos continuassem com direito indiscriminado de poluir ao comprarem créditos suficientes dos pobres.

O secretário-executivo do painel do Clima da ONU, Yvo de Boer, confirmou ontem em coletiva de imprensa que a questão do financiamento do Redd é a que mais entrava as discussões.

"Uma boa parte já foi resolvida ontem terça-feira à noite, quando as negociações foram até tarde da noite. Mas a questão do financiamento ainda está em aberto e estudamos as diversas soluções possíveis", afirmou de Boer.

O ministro brasileiro chegou ontem à cidade e deverá se apresentar por volta das 16h. A pressão em torno do Brasil é forte: por abrigar a maior parte da Amazônia e por, aos olhos da comunidade internacional, não agir o bastante para conter o desmatamento na região, o país está diante de um xeque-mate para pôr fim à devastação das matas.

Nada menos do que 20% das emissões mundiais de gás carbônico vêm da destruição de florestas. "A pressão é grande, mas estamos conseguindo convencê-los da importância do nosso ponto de vista. Mas ainda tem muita discussão pela frente", afirmou um membro da delegação brasileira na tarde de ontem.

Nos discursos dos dirigentes proferidos nas diversas coletivas de imprensa ¿ as discussões das delegações são fechadas às mídias ¿, a insatisfação com as políticas brasileiras é clara.

Enquanto Índia, China, África do Sul e México são constantemente citados como exemplo de países em desenvolvimento que estão agindo contra o aquecimento global, o Brasil, por outro lado, é citado como exemplo de devastação.

"É preciso fazer uma distinção clara entre o que os países em desenvolvimento esperam dessa convenção e o que se espera que eles façam. Por muitas vezes, temos a impressão de que eles não estão fazendo nada para conter as mudanças climáticas, mas não é verdade. Eles têm muitas propostas, Índia, China, África do Sul e México têm bons exemplos. Essa conferência serve em parte para discutirmos como eles podem se aprimorar e esperamos um comprometimento político formal de todos esses países", analisou de Boer.

A conferência, da qual participam mais de 11,6 mil pessoas, se encerra amanhã à tarde, quando deve ser anunciado o Pacote de Poznan. Por conta da possível falta de acordo entre os países envolvidos, a ONU já prevê novos encontros menores em março, junho e setembro, antes do encontro mundial em Copenhague.

Hoje pela manhã, o secretário-geral da organização, Ban Ki-Moon, participou pela primeira vez desta conferência. Uma coletiva de imprensa com ele é aguardada para às 17h30 (14h30 no Brasil).

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