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Artigos - 28/05/2012 - 10h45

Belarmino Augusto de Mendonça Lobo









Por Hiram Reis e Silva

Os Lusíadas
(Luís Vaz de Camões)

 - Canto I -

 
V

Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.

X

Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno:
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de til gente.
 
-    Desafio de um Amazônico Amigo

Enfim lanço um desafio ao Coronel Hiram para que realize como realizei (nunca de caiaque é claro), a viagem da Serra do Divisor (nascente dos Rio Amônea e Moa) pelo Juruá até Manaus; tenho certeza quase que absoluta que o (...), em função da curiosidade sobre esse período desconhecido que vai reescrever as histórias do Estado do Acre e Militar na Amazônia, o apoiaria integralmente esse Projeto de Pesquisa.

Respondi imediatamente afirmado ao caro amigo Coronel Lauro Pastor, um dos pioneiros da nossa Engenharia Militar, que estava pronto, “De Pé e Á Ordem” embora recomendasse que se planejasse a descida dos Rios Juruá e Purus e que a jornada no Juruá, da Foz do Breu até sua foz no Amazonas (3.283 km) deveria coincidir com o início do período das cheias, dezembro deste ano. Haveria necessidade do caiaque já ter sido transportado, via fluvial, de Santarém, PA, a Porto Velho, RO, por terra, de Porto Velho, até Cruzeiro do Sul, AC, e via fluvial, novamente, até a primeira comunidade brasileira às margens do Juruá que é Foz do Breu. Calculo em seis meses a descida até a foz do Juruá no Amazonas, percorrendo parte do Rio Amônea, e mais 24 dias até Manaus, sete meses mais ou menos. De agosto até novembro de 2012, fecharíamos as pesquisas e relatórios técnicos e o livro estaria pronto e editado em dezembro de 2013. Acho difícil que este sonho se transforme em realidade. As dificuldades encontradas até agora para viabilizar empreendimentos bem menores justificam meu pessimismo. Os tempos das descobertas e das expedições científicas parecem ter findado, o interesse das pessoas e das instituições migraram para temas bem menos relevantes. Mesmo assim tenham certeza de que seria a realização de um ideal percorrer as mesmas águas em que se aventuraram, em 1905, o chefe da Comissão Mista Brasileira-Peruana de Reconhecimento de Reconhecimento do Rio Juruá General Belarmino Mendonça e, quem sabe depois, do Rio Purus Euclides da Cunha.

Desde este repto lançado pelo grande amigo e um ícone da Engenharia Militar Brasileira que tenho pesquisado, planejado e sonhado com este que será a maior de todos os meus desafios. Permita Deus que ele se concretize.

-    Fronteira Brasil x Peru

Quando poucos desviavam suas atenções para o extremo Norte, ele soube conduzir a opinião nacional para a primeira meditação acerca dos destinos dele, obrigações e responsabilidades de que o país precisava tomar consciência.
(Arthur Cézar Ferreira Reis)

Façamos uma pequena digressão histórica para justificar minha expectativa. Os conflitos entre brasileiros e peruanos, no alto Juruá e alto Purus, anunciavam um desenrolar sangrento. O Brasil precisava assumir, no continente, uma posição mais firme nas relações internacionais. Em 1904, o Barão de Rio Branco nomeia, chefe da “Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Juruá”, o General Belarmino Mendonça e, da “Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus”, Euclides da Cunha, cuja missão era mapear os Rios Purus e Juruá desde a desembocadura no Solimões até suas cabeceiras no atual Estado do Acre, definindo as fronteiras do país com a Bolívia e o Peru. A viagem foi patrocinada pelo Ministério das Relações Exteriores e realizada conjuntamente com uma comissão do governo peruano. O trabalho de campo das duas comissões demonstrou a tenacidade invulgar dos dois Chefes vencendo obstáculos de toda ordem e, inclusive, a desconfiança dos peruanos, que identificavam, nas atitudes dos brasileiros, manifestações que poderiam colocar em risco a sua soberania.

-    Acre um Estado que Valoriza o seu Passado

A Fundação de Desenvolvimento de Recursos Humanos, da Cultura e do Desporto do Governo do Estado do Acre havia coeditado com a Editora José Olympio, na Coleção Documentos Brasileiros, “Um Paraíso Perdido”, de Euclides da Cunha, livro projetado por ele, depois de regressar da Amazônia, e interrompido pela morte brutal. “Um Paraíso Perdido” reporta o “Relatório da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto - Purus”, incorporando à Literatura Brasileira as impressões fortes e artísticas sobre o complexo geográfico e humano do Rio Purus.

O relatório do General Belarmino Mendonça, porém, continuava guardado, há décadas anos, no acervo histórico-cultural do Itamarati. O trabalho, apresentado ao Barão do Rio Branco, em 1906, foi publicado pela Imprensa Nacional, ano de 1907, no Rio de Janeiro, sob o título: “Memória da Comissão Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Rio Juruá e Relatório ao Governo Brasileiro (1904/1906)”.

O escritor Leandro Tocantins mobilizou o governo do Estado do Acre trazendo à público, em 1985, a História do Rio Juruá através da notável obra do General Belarmino Mendonça, para a qual sugeriu o título de “Reconhecimento do Rio Juruá”, onde encontramos a memória da Comissão Mista, redigida por Belarmino Mendonça, com versão espanhola do Comissário peruano D. Nuno Pompílio Leon, e o relatório do Comissário Brasileiro.

-    Relatório Sobre a Geografia Física e a Geografia Humana do Rio Juruá
    Fonte: Leandro Tocantins, Rio de Janeiro, 10 de outubro de 1988.

O Acre, hoje bem definido em suas raízes históricas, políticas e sociais, possui quatro figuras estelares que se constituem personalidades símbolos, por sua atuação criadora, sua presença viva, útil, ativa, na constituição de seu destino: Rio Branco, Plácido de Castro, Euclides da Cunha e Belarmino Mendonça. Eles desenharam o mapa do Acre na comunhão brasileira. (Leandro Tocantins)

Vamos aqui reproduzir apenas parte do prefácio do livro redigido por Leandro Tocantins no qual além da biografia do General Belarmino Mendonça nos apresenta o contexto histórico que provocou a criação das Comissões de Reconhecimento.

O General Belarmino Augusto de Mendonça Lobo nasceu, em 1850, na antiga Província do Rio de Janeiro, filho de Belchior de Mendonça Lobo. Assentou praça, a 4 de março de 1865, no 5° Corpo de Voluntários da Pátria, seguindo para os campos de Guerra paraguaios, onde participa nos combates dos Fortes Curuzu e Curupaiti, e na Batalha de Tuiuti (todos em 1867), sendo elogiado por seu comportamento nas ações militares. Participa, também, das Batalhas de Itororó e de Avaí, o que lhe valeu a promoção de Alferes, por atos de bravura. Em Lomas Valentinas foi gravemente ferido e hospitalizado. Recebe, então, elogio do Ministro da Guerra em nome do Imperador Pedro II.

Em fevereiro de 1869, regressou ao Rio de Janeiro para completar o tratamento de saúde. Seu nome foi incluído no voto de felicitações da Câmara dos Deputados, em agradecimento ao Exército e à Marinha pelos triunfos alcançados na Guerra do Paraguai. Restabelecido dos ferimentos, regressa ao campo de operações militares, a tempo de tomar parte na Batalha de Campo Grande, quando recebe citação especial do Conde d’Eu, Comandante-em-chefe das Forças Brasileiras. Terminada a Guerra, com o posto de Tenente, Belarmino Mendonça volta ao Rio de Janeiro e normaliza sua situação do Exército, matriculando-se, em 1871, na Escola Militar, de onde saiu, depois de sete anos, bacharel em matemática e ciências físicas.

A carreira militar proporcionou-lhe importantes Comissões no Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. Esteve à disposição do Ministério das Relações Exteriores para tratar de assuntos relativos às fronteiras Brasil-Argentina. Fez parte, em 1890, da Assembléia Nacional Constituinte.

No mesmo ano, de 1902, foi nomeado para chefiar a Comissão Construtora da Ferrovia Lorena-Benfica, em São Paulo. Quando exercia este posto, com a patente de Coronel, recebeu convite do Barão do Rio Branco para chefiar a Comissão Brasileira de Reconhecimento do Rio Juruá.

Voltando da Amazônia, em 1906, já promovido a General-de-brigada, reintegrou-se às fileiras do Exército. No ano de 1911, recebe a promoção de General-de-divisão, e, em seguida é nomeado Ministro do Supremo Tribunal Militar, em 1912. No mesmo ano, por motivo de saúde, pediu aposentadoria, galgando o posto de Marechal. Faleceu no Rio de Janeiro a 28 de maio de 1913.

*

O Coronel de engenheiros Belarmino Mendonça, Chefe da construção do ramal ferroviário militar de Lorena, viera ao Rio de Janeiro a serviço, quando, a 6 de outubro de 1904, foi convidado pelo Barão do Rio Branco para chefiar a Comissão Brasileira, que, junto a peruana, faria a exploração geográfica do Rio Juruá. Belarmino Mendonça aceitou o posto como imperativo de Missão, apesar do parecer negativo de seu médico assistente, Dr. Licínio Cardoso, que, há três anos, o tratava dos efeitos de uma tuberculose, agravada pela malária contraída na demarcação dos limites Brasil-Argentina. O médico não quis responsabilizar-se pela viagem do Coronel Belarmino Mendonça ao Juruá, considerando-a um suicídio. Disposto a cumprir a tarefa, o militar incluiu na Comissão, no posto de almoxarife, um filho seu para dar-lhe assistência, apaziguando os ânimos da família que temia pelos riscos à saúde de seu chefe em tão longa e arriscada viagem. No entanto, o filho contrairia um grave ataque de beribéri e foi obrigado a retornar ao Rio de Janeiro, antes do termino da Missão. O 1° Tenente da Marinha, Henrique Aristides Guilhen, que seria, como Almirante, Ministro da Marinha do Presidente Getúlio Vargas, foi designado ajudante substituto da Comissão.

A 13 de dezembro de 1904, o Coronel Belarmino Mendonça e seus auxiliares embarcam no vapor Alagoas, do Loyde Brasileiro, com destino a Manaus. Na mesma viagem seguiu Euclides da Cunha, Chefe da Comissão Brasileira que ia reconhecer o Alto - Purus. Chegaram a Manaus no dia 30 de dezembro. (...)

Como acontecia na Comissão do Purus, a rotina, a burocracia, a lentidão, tantas vezes reclamadas por Euclides da Cunha em correspondência a Rio Branco, preocupava o Coronel Belarmino Mendonça, que também tinha pressa de seguir viagem. De outra parte, Manaus fervilhava de boatos contraditórios sobre a posição do Peru nas regiões do Alto - Purus e do Alto - Juruá, muito embora o acordo do “Modus Vivendi”, assinado a 12 de julho. De Iquitos, capital do Departamento de Loreto, cidade peruana mais próxima de Manaus, através do Rio Solimões, partia uma ativa propaganda a favor dos interesses do Peru, que o intercâmbio comercial e de pessoas muito estimulava. Persistia, em Manaus, a versão, já antiga, que o Governo de Lima resolvera empregar a força para manter ou ampliar suas posições no Alto - Purus e no Alto - Juruá. Murmurava-se que o Peru tinha planos para invadir o Baixo-Juruá e ocupar a capital do Amazonas.

(...) no dia 11 de abril, às 16h55, chegou a sua vez de partir em direção ao Juruá. A lancha Faceira leva a reboque o Batelão Egas. O grupo do Peru viaja na mesma ocasião, na lancha Iquitos, e, sob reboque, um batelão e outra embarcação menor. O capitão de navios D. Felipe Enrique Espinar desistira de sua renúncia e seguia no comando.

Quando viajava no paraná de Xiburema, às 20h17, ocorreu sério desarranjo na máquina da lancha Faceira, o que obrigou o regresso a Manaus, onde os brasileiros chegariam de madrugada. Na tarde do dia 14, reencetaram (recomeçaram) a jornada fluvial. E a máquina apresentou o mesmo defeito, obrigando-os a fundear em Tefé, com “o tempo indispensável a uma radical reparação, que se tomou possível por ser perito o novo maquinista e dispor a lancha dos maquinismos, ferramentas e mais materiais precisos”, registra o Coronel Belarmino. Estacionara em Tefé de 20 a 22 de abril.

As Comissões brasileira e peruana reencontraram-se a 25 de abril na foz do Juruá, onde se iniciam as observações astronômicas para fixar coordenadas geográficas. Fundearam ao lado da Ilha da Consciência, uma ilha sociologicamente peculiar na foz de certos Rios amazônicos, como no Rio Negro (a Ilha do Marapatá), no Purus, no Juruá, nos grandes Rios da borracha. Traz o seu mito dos tempos de prosperidade econômica do látex, o ciclo do ouro negro, quando milhares de imigrantes se internavam pelos caudais miraculosos, a fortuna em ronda permanente. Eles deixavam a consciência na boca desses Potosis (tesouros) fluviais, e, ricos, ao regressarem a terra natal, recuperavam-na com espírito purificado: pelo menos, a consciência ficara ali, resguardada de contaminações perigosas... Euclides da Cunha em “À margem da História” classifica a Ilha da Consciência de “prodígio de fantasia popular”, e interpreta: “É o mais original dos lazaretos - um lazareto de almas”.

Lazareto: local onde se recolhe, normalmente, indivíduos portadores de moléstia contagiosa, na alusão Euclidiana, de almas aflitas e pecadoras.

(...) Cruzeiro do Sul, a hoje próspera, simpática cidade de 20.000 habitantes, sede do município, o segundo centro populacional e comercial do Estado do Acre, era, no dia 2 de junho de 1905, quando nela aportou o Coronel Belarmino Mendonça, um mero Porto de Cabotagem, embora recentemente promovida à capital do Departamento do Alto - Juruá. Havia um sobrado coberto de telhas, o barracão da Prefeitura, 14 casas mais e quatro galpões cobertos de palha, em meio de uma pequena clareira aberta na floresta. O Coronel Belarmino nos adianta poucas informações:

A sede da Prefeitura do Alto - Juruá, denominada Cruzeiro do Sul, está situada a menos de duas milhas da boca do Moa.

O Coronel Taumaturgo de Azevedo, nomeado seu primeiro prefeito, estava ausente, pois a Comissão Brasileira foi visitada pelo prefeito interino, Capitão-tenente Florio Pitombo. (...)

O Coronel Belarmino Mendonça era um militar inteiriço: caráter reto, cumpridor rígido, das leis e dos regulamentos, e muito sensível aos princípios éticos e morais. Um homem de rara tenacidade que talvez herdasse das lutas nos campos de Batalha do Paraguai, sua primeira escola de vida, jovem “Voluntário da Pátria”, que lhe atribuía momentos de rara coragem pessoal. Seu aspecto físico, revelando a magreza de uma tuberculose contida, parecia não condizer com um espírito insuspeitável de tenacidade, energia, impavidez. (...)

Continuando, o militar lembra os penosos sacrifícios a que vinha se submetendo para realizar o trabalho, apesar de sua frágil saúde:

No mesmo dia em que aceitei o honroso convite de V. Exciª, havia um médico assistente Sr. Dr. Licínio Cardoso declarado a pessoa da família que antevira a possibilidade do Governo mandar-me ao Amazonas, importar minha vinda num assassinato da parte de quem me mandasse e da minha num suicídio. Estava eu em tratamento de tuberculose desde cerca de três anos e anteriormente sofrido de impaludismo larvado (doença que se apresenta com aspecto anormal e cujos acessos são benignos e pouco frequentes) durante oito anos, como tive a lealdade de declarar a V. Exciª (...). Mais uma vez sintomas de moléstia regional grave me têm invadido o organismo, levando o médico da Comissão a aconselhar-me a pronta retirada para evitar agravamento. Ultimamente fui vítima de queda de uma árvore que me produziu intensa e extensa contusão. Nada disso me influiu para que eu deixasse o meu posto.

O chefe da Comissão Brasileira, quando escreveu este ofício, a bordo de uma pequena canoa, já estava com sua missão vitoriosa. Pouco antes, atingira as nascentes do Juruá e agora descia o Rio de regresso a Manaus.

Este material histórico e autobiográfico forma um complexo de informações sociologicamente válidas para uma tentativa de interpretação de personalidade e da ação do Coronel Belarmino Mendonça no Juruá. É possível utilizar a História, a biografia e a relação entre as duas com a sociedade para entender as características de certos tempos e de certos espaços, resultando as situações concretas, tal como aconteceu no Juruá e no Purus, dois Rios criadores de fatos, de relações, de símbolos que originaram uma importante fronteira política.

O Barão do Rio Branco sabia usar os homens em seu verdadeiro lugar. Era uma de suas predisposições psicológicas que, certamente, o levaram a grandes vitórias diplomáticas. E mais: ele sabia fazer História. O historiador por excelência, aquele que estuda História e sabe depois aplicar seus ensinamentos em situações em que participa com intimidade. Aplicar segundo as disposições específicas e necessária inteligência de cada caso. (...)

Quando o Itamarati tratou de organizar as Comissões destinadas a explorar geograficamente o Purus e o Juruá, o chanceler Rio Branco deve ter meditado na escolha dos respectivos comissários. Ele precisava de dois homens íntegros, que pelas características de personalidade compusessem o tipo que se exige em expedições semelhantes.

Euclides da Cunha e Belarmino Mendonça eram portadores de um “curriculum”, e, também, de certas predisposições espirituais necessárias ao desempenho da empresa. (...)

Da parte do então Coronel de engenheiros Belarmino Mendonça, escolha pessoal de Rio Branco, que apenas conhecia o seu excelente “curriculum”, tudo se conduziu tranquilamente. “O homem certo para o lugar certo”. O destino pareceu encaminhar seus passos no rumo da missão. Nem a tuberculose estacionária, sob cuidados médicos, o impedira de ir a luta contra os desertos do Juruá. Acometido de beribéri durante a jornada fluvial, escapando de morrer no tombo de uma árvore sob a imposição do regime fluvial, leito seco, paus, salões, queda brusca de temperatura - o fenômeno da friagem - que para os seus fracos pulmões era tão perigoso, o Coronel Belarmino cumpriu adequadamente a missão. Como agente de Governo típico: o militar e o engenheiro, o diplomata e o político. Venceu os grandes percalços que a natureza armou, as emboscadas de índios e as pretensões indevidas do Comissário peruano, que contrariavam as “Instruções” e a própria verdade geográfica e histórica presenciada por ambas as Comissões no Alto - Juruá.

É um militar representativo: ordem e disciplina, rigoroso cumpridor de missão, preocupações, ao lado dos problemas estratégicos, de administrador civil, dentro dos objetivos de seu cargo de Comissário, do qual evoluíram tarefas políticas e diplomáticas. A angústia de preservar a saúde frágil, debilitada com a incidência do beribéri amazônico, talvez pesasse menos do que a firme determinação de ir ao fim de um mandato quase apostólico: demarcar o Rio, fixá-lo em suas origens, produzir o Relatório. Neste ponto há um perfeito encontro dos dois Comissários brasileiros. Viveram uma aventura dramática, cheia de perigos e de conflitos, armada de tensões, e que, finalmente, foi cumprida com extrema competência e absoluto êxito. No Juruá e no Purus. (...)

No alto Juruá o processo, ou tentativa de ocupação de última hora dos peruanos, era o mesmo. As desinteligências entre as Chancelarias peruana e brasileira chegaram a um estágio delicado. O Governo do Peru mantinha posição intransigente, e mandou instalar uma aduana na foz do Rio Amônea, território ocupado, explorado, há muitos anos, por brasileiros.

Para fazer frente a situação o Brasil envia ao Alto - Juruá, sob o comando do Major Cipriano Alcides, uma força de 225 homens do 15ª Batalhão de Infantaria, que estacionara em Manaus. Tanto o Brasil como o Peru fizeram encomenda de armamento alemão. As notas trocadas entre o Barão do Rio Branco e o Ministro do Peru, no Rio de Janeiro, Hermán Velarde, revelavam um desencontro total de pontos de vista. (...)

O posto aduaneiro instalado arbitrariamente na foz do Amônea exigia da navegação brasileira, a única do Rio Juruá, pagamento de impostos, direitos, taxas, além de ocorrer o hasteamento do pavilhão do Peru. O Coronel Taumaturgo de Azevedo, prefeito do Departamento do Alto - Juruá, resolveu, então, enviar o Capitão Francisco d’Ávila e Silva, do Exército Brasileiro, acompanhado de dez praças, para entender-se com o major Ramirez Hurtado, Chefe do Destacamento militar e da aduana do Peru na foz do Amônea. O oficial levava uma cópia do “Modus Vivendi”, de 12 de julho de 1904, para convencer os peruanos a subirem o Rio até a foz do Breu, onde, segundo o ajuste diplomático, deveriam estacionar.

Recebido cordialmente pelo major Ramirez Hurtado, houve confraternização entre os soldados dos dois países e promessa de suspender a cobrança de impostos. O oficial peruano alegava não haver recebido de seu Governo a cópia do “Modus Vivendi”. Os acontecimentos se precipitaram em novembro (1904), quando os peruanos intimam o vapor Contreiras a parar e a submeter-se ao fisco, na foz do Amônea, lugar agora chamado de Nuevo Iquitos. O navio arrancou para montante sob uma saraivada de balas.

Sob o comando do Capitão d’Ávila e Silva, um pequeno destacamento militar alcançou, por terra, a foz do Amônea, e exigiu a saída dos peruanos. A resposta foi uma fuzilaria que durou quarenta e oito horas, terminando com o pedido de armistício dos peruanos, que se transferiram para o Breu, depois da entrega de uma carta humano a e cordial do Major Ramirez Hurtado.

Foi a única luta armada, em toda a campanha do Acre, em que participaram forças regulares em combate, da parte do Brasil. Eram sempre os seringueiros estabelecidos na região, e na fase de Plácido de Castro seringueiros adestrados por ele nas Artes de Guerra. E o conflito do Amônea assinala o último encontro de armas entre brasileiros e peruanos, tanto no Juruá como no Alto - Purus.

No ano seguinte (1905) dessas ocorrências e que se efetivou a expedição mista brasileiro-peruana ao Rio Juruá. Os ânimos estavam senão exaltados, pelo menos prevenidos. E a realidade era bem outra daquela que os peruanos pretendiam. O povoamento brasileiro, em todo o Rio Juruá, é maciço, ininterrupto e produtivo. Como no Purus, só nas mais remotas partes do alto-Rio apareciam os primeiros vestígios de “caucheros” peruanos.

O Coronel Belarmino Mendonça observa que “os núcleos senhoriais dos seringueiros, mais geralmente conhecidos por barracões, constituídos por agrupamentos de casas, tomam às vezes as proporções de pequenos povoados e pontilham as várzeas e os firmes, atestando o povoamento regional”. O Comissário brasileiro, no baixo-Juruá, contou setenta e um desses agrupamentos, na margem direita, e oitenta na margem esquerda. E prossegue: “são em número de oitenta e nove seringais à margem direita do médio-Juruá e setenta e três na margem esquerda”. A estatística está impressa em seu Relatório.

A sucessão de propriedades brasileiras naturalmente persuadia o comissário peruano de que eram frágeis as alegações do governo de seu país. Mas, a 15 de outubro (1905), D. Nuno Leon apresentou ao seu colega certas contestações fundamentadas num livreto de D. Manuel Pablo Vilanueva, Fronteras de Loreto. Era um trabalho já conhecido anteriormente. Uma literatura de fatos irreais, como a da existência de um “pueblo de caucheros” na foz do Breu, a pretensas ameaças brasileiras contra as atividades dos peruanos “em quase todo o rio”. Criava a ficção do povoado “Nuevo Iquitos”, desde 1898, quando o próprio comissário D. Nuno Leon, em sua reclamação de 15 de outubro ao Coronel Belarmino Mendonça, só apontou “tres casarios situados en la margen izquierda del Juruá, frente a la boca del Breu”.

O Coronel Belarmino Mendonça não concordou com essa tese de súbito povoamento peruano, dirigindo-se ao seu colega em ofício de 25 de outubro (1905):

Ao primeiro item teria a opor que em nenhum dos três pontos existem casarios ou multidão de casas, mas apenas alguns ranchos de palha. Não são moradas fixas de patrões nem de “caucheros” peruanos que constituem população adventícia pela razão imperiosa de somente o caucho os atrair a sua extração feita a custa da vida da árvore (...) Nem famílias habitam (...) Na zona descrita, notadamente nas duas margens do Breu, existem 54 brasileiros com residência fixa, ocupados na extração da borracha e no cultivo de alguns cereais (...) desde fins de 1897.

Mais uma vez D. Nuno Leon baseava-se nas teses de Manuel Pablo Villanueva no folheto “Fronteras de Loreto”. Mas o Coronel Belarmino Mendonça persuadiu seu colega a prosseguir Rio acima para localizar as verdadeiras nascentes do Juruá. Assim, a 24 de novembro alcançaram o Paxiuba, principal formador do Juruá. (...)

Estavam concluídas as operações técnicas de reconhecimento geográfico do caudal. O Juruá, longo e tortuoso curso, fora medido de sua foz às nascentes, numa extensão de 3.283 km, percurso cumprido em sete meses e dez dias - de Manaus ao Cerro das Mercês. Satisfizeram-se as “Instruções” depois de uma penosa subida do Rio, em pleno verão, e agora, mês de novembro, as primeiras águas dos repiquetes do inverno auxiliariam o regresso: Em dois meses de baixada, alcançaram Manaus, no dia 23 de janeiro de 1905, a Comissão Brasileira, a 24, a Comissão Peruana. (...)

O Coronel Belarmino Mendonça chegara a Manaus muito enfraquecido. A avitaminose, doença muito comum na Amazônia daquela época, o atormentara durante a viagem, mas ele próprio informa ao Barão que apresentava sinais de restabelecimento:

Tenho experimentado tão seguidas melhoras do beribéri com o tratamento homeopático que me foi prescrito pelo Sr. Capitão-de-corveta Lessa Bastos.

O Comissário Brasileiro desta vez instalou-se numa casa da Rua Luiz Antony, 63, onde ele e D. Nuno Leon trabalharam na redação da Memória, e o próprio Coronel Belarmino escreveu seu Relatório. O brasileiro redigia a Memória da Comissão Mista e o peruano transpunha-a para o espanhol, num clima de entendimento. Alguns dias de trabalho eis que surge a primeira desinteligência, que, na verdade, correspondia a assunto já discutido no Alto - Juruá, em torno de descabidas pretensões peruanas. (...)

Afinal, prevaleceu o ponto de vista brasileiro, que era o das “Instruções”, documento sancionado pelos dois países. E a 12 de maio de 1906, os dois Comissários assinaram a Memória da Comissão Mista, redigida bilíngue, pondo termo a todas as questões invocadas por D. Nuno Leon. O documento transmite a exata posição dos estabelecimentos brasileiros no Juruá, e, no alto Rio, a passagem aleatória dos caucheiros peruanos, além de conter as posições astronômicas do Juruá, da foz as nascentes.

O Rio, prova-se incontestavelmente, estava quase todo povoado por brasileiros estabelecidos na produção de borracha. Os peruanos percorriam as cabeceiras, a procura de caucho, que é uma exploração predatória e não fixa o homem à terra. A árvore do caucho é abatida, extrai-se a goma, e o caucheiro prossegue em suas andanças na floresta, à procura de novas espécies. A área também era atravessada por varadouros que levavam os peruanos ao vale do Rio Ucaiale.

Em fins de abril, o Governo Federal promove, por merecimento, a General-de-Brigada, o comissário Belarmino Mendonça, que, junto aos membros de sua Comissão, embarca para o Rio de Janeiro, a bordo do Manaus, no dia 27 de maio de 1906, chegando a capital do país a 12 de junho. (...)

O livro do General Belarmino Mendonça é uma literatura sem fervores estilísticos, mas expressivamente empreendedora de notícias e de valores inspirados no realismo do meio - o geográfico e o social. Qualquer coisa de cientifico na exatidão e no austero com que apreende e apresenta as realidades do Juruá, sem nenhuma exteriorização pictórica, ou caracterização exótica, como ele, o próprio autor, é: seco, angular, grave. Basta examinarmos o sumário do livro para constatar a pluralidade de dados, de situações de fatos que proporcionaram ao Barão do Rio Branco os elementos definitivos, capazes de estabelecer o acordo com o Peru assinado a 12 de setembro de 1909, com data de 8 de setembro: “Tratado entre o Brasil e o Peru, completando a determinação das fronteiras entre os dois países e estabelecendo princípios gerais sobre o seu comercio e navegação na bacia do Amazonas”. Como ficou registrado nos anais diplomáticos dos dois países. (...)

O Barão e sua notável consciência histórica e política. É assim que podemos agora dispor de duas importantes obras reeditadas tão oportunamente pela Fundação Cultural do Acre, no 80° aniversário da presença dessas duas Comissões Técnicas na Amazônia, decidindo sobre o destino de terras acreanas. (TOCANTINS)

-    Livro do Autor

O livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS, na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br) e na Associação dos Amigos do Casarão da Várzea (AACV) – Colégio Militar de Porto Alegre.

Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:
http://books.google.com.br/books?id=6UV4DpCy_VYC&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false.

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil - RS (AHIMTB - RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br
E-mail: hiramrs@terra.com.br
Blog: http://www.desafiandooriomar.blogspot.com


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