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Artigos - 27/11/2008 - 11h10

Quem bate em mulher, o que é?




Por José Pedro Frazão (*)

Alguém já viu cachorro bater em cadela?

Outro dia, um grito da rua invadiu meus aposentos e conduziu-me à janela a tempo de ainda assistir a uma corriqueira briga de casal. Um sujeito pançudo com ar de autoridade discutia, a passos largos, com uma mulher franzina de pisar ligeiro que ele conduzia aos empurrões. O marmanjo freava sua vítima com alternados e violentos puxões de cabelos seguidos de palavrões indizíveis nesta crônica.

Logo atrás, fiel e indiferente, um vira-lata farejava os passos do casal briguento. Mas qual não foi minha surpresa ao ver o meu cachorro abrir o portão e sair eriçado em perseguição ao pequeno transeunte que lhe invadia o território.

À frente dos cães, mais um tapa, mais um puxão, mais um palavrão, mais um grito feminino. Até que o meu cachorro alcançou o outro, e, para alívio de todos, após a identificação olfato-escatológica, percebemos que o intruso se tratava, na verdade, de uma cadela. O respeito e o cavalheirismo instintivos do meu cão pela fêmea o demoveram da idéia de violência e ele ainda voltou satisfeito para casa.

Já dobravam a esquina mais um tapa, mais um puxão de cabelo, mais um palavrão e mais um grito, quando analisei aquela situação e percebi o quanto os cachorros podem nos ensinar em matéria de respeito ao próximo, especialmente pelo sexo oposto.

Não é da natureza dos animais machos agredirem as fêmeas. E nas raríssimas vezes em que ocorre briga de casal é ela que agride o macho. Lembram dos aracnídeos? Certas tarântulas matam o macho após a fecundação. Também há cobras que fazem o mesmo, devorando o companheiro depois da cópula. Há mil exemplos na zoologia, mas nos basta saber que na natureza o macho só bate na fêmea em condições excepcionais.

Os animais só matam para se defenderem ou para se alimentarem. A agressividade dosada é natural em todas as espécies, mas a violência é uma aberração humana, fruto da ignorância, do descontrole, da fraqueza e das neuroses. No reino animal, com raríssimas exceções, os machos só brigam com machos, enquanto as fêmeas brigam com fêmeas. As cadelas, por exemplo, só temem ou odeiam as outras cadelas.

No caso das mulheres (sem nenhuma comparação canina), assim como grande parte delas gosta de andar de mãos dadas, de se acariciar e de trocar elogios e solidariedade (ao contrário da maioria dos homens), parecem, ao mesmo tempo, predispostas a se odiarem. Quando as unhas não alcançam, a língua dá conta do recado. A rivalidade feminina parece fruto da vaidade.

Esta aversão interfeminina e a preocupação de defesa da fêmea pelo macho fazem partes da sabedoria da natureza, onde o sexo frágil tem regalia preservacionista. Afinal, é preciso salvaguardar a fonte da espécie, pois a sobrevivência dos seres vivos depende muito mais das fêmeas. Assim, à luz da ciência natural, é possível compreender por que a agressão recorrente ao sexo feminino é um comportamento de natureza feminina e não masculina.

De acordo com este raciocínio, é possível que o homem que bate em mulher sofra de distúrbios de personalidade, ou seja, o seu lado masculino não é capaz de conter o lado feminino oculto que aflora para agredir a fêmea, que o estaria ameaçando na disputa inconsciente de sexos. A única forma que esses machos humanos encontram para se sentir seguros, firmar sua identidade, sua autoridade e domínio sobre a parceira é a violência.

Este fenômeno do instinto feminino agressivo dá-se até entre os insetos. Mas nos basta o exemplo do cão, que é o melhor amigo do homem, para ensiná-lo que quem bate em mulher não é o lado masculino, mas o seu incontrolável e oculto instinto feminino, o que não acontece com os cachorros e outros irracionais. 

Sem nenhum complexo de gênero, parece-nos que os gays, por exemplo, vivem um conflito de amor e ódio com as mulheres, por um distúrbio diferente ainda em estudo. Apesar de gostarem de homens, tendem a ser mais agressivos com eles do que com elas, a quem invejam e se associam com revelada cumplicidade. No caso dos homossexuais em geral o que aflora é o instinto do sexo sempre oposto, ao contrário dos heterossexuais violentos, cujo problema é a ocultação inconsciente de possível tendência ao homossexualismo.

A apropriação da parceira e o ciúme exagerado, assim como a violência, além de caracterizarem machismo, podem indicar a homossexualidade oculta, revelada pela insegurança e fraqueza emocional (características mais femininas), pois os verdadeiros machos são dóceis com o sexo oposto e têm como característica a segurança no seu poderio masculino. Por isso os machos autênticos não são violentos com as parceiras, nem possessivos, nem tão ciumentos. A exemplo dos cães, são controlados e não batem nas fêmeas. Talvez por isso as mulheres adoram cachorros.

Quem bate em cadela é cadela. Quem bate em mulher é o quê?. Cachorro que bate em cadela é cachorro louco. Homem que bate em mulher é mais que louco, é mais que covarde; é um fraco, doente e carente de masculinidade. Homem que pratica violência contra a mulher é indivíduo desequilibrado emocionalmente que utiliza a força bruta como única arma na guerra dos sexos, na ânsia inglória de firmar sua confusa identidade. E se o meu cachorro não conseguiu explicar, Freud explica.


(*) José Pedro Frazão, da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, é autor dos romances ecológicos Tuiuiú my brother e Nas águas do Aquidauana eu andei.

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