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Artigos - 30/08/2011 - 14h53

Diário das Três Viagens






Por Hiram Reis e Silva

1ª Viagem

Não estou preocupado apenas com o passado. Estou preocupado com a forma como o passado é trazido para o presente para disciplinar e normalizar. (Thomas Popkewitz)
 
- Velhas e Saudosas Amizades
 
Há algum tempo eu vinha tentando localizar uma cópia do manuscrito do Padre, Padre Nicolino José Rodrigues de Souza intitulado “Diário das Três Viagens (1877-1878-1882) ao Rio Cuminá”. Fiz um apelo aos amigos internautas que gentilmente me auxiliaram nas buscas repassando meu pedido através de seus contatos ou até mesmo de Blogs. Finalmente uma velha amiga Tânia Teixeira (Taninha), que tive a honra de conhecer quando trabalhei na Fundação para o Desenvolvimento de Recursos Humanos do Estado do Rio Grande do Sul (FDRH), me informou que existiam três exemplares na biblioteca da UFRGS. Infelizmente a greve dos servidores inviabilizou meu acesso ao documento.
 
Semana passada o Professor Luis Henrique Rodrigues, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção e Sistemas e coordenador do Grupo de Pesquisa Modelagem para Aprendizagem (GMAP) da Unisinos, ex-aluno do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR/PA), onde fui instrutor, me enviou uma cópia digitalizada do livro. A cópia do manuscrito elaborada pelo Conselho Nacional de Proteção aos Índios (C.N.P.I.), pertencia à biblioteca particular do General Cândido Mariano da Silva Rondon e foi editado, em 1946, pela Imprensa Nacional.
 
Minha curiosidade se prendia ao conflito entre os dias da semana e os dias do mês relatados pelo Padre Nicolino. Encontrei estas discordâncias acessando apenas partes do documento e para descobrir a origem dos erros eu precisava lançar mão do Diário completo. Nicolino deveria ter padronizado a colocação das datas no seu diário o que, sem dúvida, evitaria os erros que ocorreram. Ressalto, porém, que estes pequenos equívocos em nada desmerecem o valor histórico de sua empreitada e o trabalho titânico desenvolvido pelo Reverendo Padre.
 
Rondon, quando dirigia os trabalhos da Inspeção de Fronteiras, confessa: “serviram-me de guia os Diários de Viagens, manuscritos, do Rev. Padre Nicolino José Rodrigues de Sonsa, judiciosamente organizados, sob escrupulosa exatidão”. Rondon comandou pessoalmente a exploração e o levantamento do Rio Cuminá (1928/29), desde sua foz, no Trombetas, até suas mais altas cabeceiras. Vou tecer comentários sobre a primeira viagem deixando a segunda e terceira para outro artigo.
 
- Título
 
Diário das Três Viagens (1877-1878-1882) do Revm° Padre Nicolino José Rodrigues de Sousa ao Rio Cuminá (afluente da margem esquerda do Trombetas, afluente do Rio Amazonas)
 
O próprio título já merece uma consideração especial. A 1ª Viagem iniciou em 25 de novembro de 1876 e as anotações se estenderam até o dia 23 de Fevereiro de 1877, portanto o primeiro número referente às datas das viagens deveria ser o de 1876 e não 1877. O mesmo acontece com a ata da segunda viagem que teve início em 11 de outubro 1877 e não 1878. O certo, portanto seria “Diário das Três Viagens (1876-1877-1882)...”
 
- O Diário
 
DIÁRIO DE VIAGEM DO PADRE NICOLINO JOSÉ RODRIGUES DE SOUSA
ÍNDIO DA FRONTEIRA DO BRASIL COM A GUIANA INGLESA
 
PRIMEIRA VIAGEM AO CUMINÁ GRANDE
 
(...) Assim convencidos, resolvemos a tentar o descimento dos índios do Trombeta o Tenente Leonel e eu, porque nada há de mais agradável a Deus do que a exaltação de sua glória, que na terra ocupa o primeiro lugar a salvação das suas criaturas prediletas.
 
Dia 25 de novembro de 1876 (sábado) pelas dez horas da manhã partimos do Ageréna propriedade do Sr. Tenente Leonel da Silva Fernandes comigo Padre Vigário em duas canoas. Na mais possante vieram o Tenente Leonel, o Padre José Nicolino de Souza, o Filho do Tenente Manoel Marinho Fernandes o gentio Pedro, o rapaz Vicente. No Uruatapéra embarcarão-se José Agostinho Leandro digo Agostinho Moisinho e João Garcia de Sena. Em outra canoa vieram a gentia Anna Maria de Oliveira, o filhinho Manoel e o filho do Tenente de nome Francisco Marinho Fernandes, que tendo ido adiante foi por nós alcançado abaixo do lugar dito Curralinho. Já com deliciosa sensação contemplava as aprazíveis margens do maravilhoso Trombeta, suas águas cortadas por vigorosos remos mostravam em seus alvíssimos borbulhões a realidade de sua pureza. Chegamos ao Achipicá ao entrar da noite e pernoitamos em casa do ancião Pita.
 
No dia seguinte, domingo 26, pelas 7 horas do dia continuamos a nossa viagem, tendo embarcado José Agostinho Leandro e Anselmo Francisco dos Santos aquele no Achipicá e este no Lago Grande. Pelas 3 horas e meia da tarde chegamos ao repartimento: à direita segue o Cuminá e à esquerda o Rio Grande; seguimos pelo Cuminá e ás 5h entramos pela boca do Salgado em cuja margem tem o Tenente Leonel uma casa aonde chegamos meia hora depois das seis da tarde e pernoitamos. (...)
 
No dia 3, Domingo, pelas 7 horas da manhã fomos visitados pelo súdito francês Monsieur Jule Caillat, que acompanhado somente de uma só pessoa o brasileiro João Felippe já tinha varado a sua não pequena canoa. Foi no abarracamento dele que celebrou-se o Santo Sacrifício da Missa. Oh que doce consolação! Observou-se toda a extensão da cachoeira, que se compõe de 3 bancos horríveis! O abarracamento do Mr. Jule achava-se também já além dos bancos tendo um delicioso porto, onde tomamos aprazível banho. (...)
 
Dia 11, segunda-feira, pomo-nos em caminho às 6h da manhã em busca duma serra, vista às 3h do dia precedente, que indicava estar roçada. Ah! Que lisonjeira esperança raiou em nossos corações, já nos pareciam coroadas as nossas penas, os nossos esforços e sacrifícios, pois já se nos tinha acabado a farinha! Quanto, pois, não nos alegrou aquela serra, que ilusoriamente nos mostrava estar ali o objeto de nossas fadigas? Chegamos à serra às 11 horas e achamos montões de medonhos rochedos que quase não permitiam vegetação alguma, por isso de longe mostrava a aparência de roçados. Que decepção! Que tristeza! Sem farinha por espaço de dias?! Voltamos com os corações serrados, os nossos guias gemiam apenas entre dentes. Ao chegar na choupana encontrada seguimos subindo o rio encontramos cinco velhas choupanas, que indicavam se terem os índios retirado para mais longe, subindo ao Cuminá. A falta de farinha, muitos dos companheiros adoentados decidiram-nos a voltar e viemos pernoitar na margem do mesmo igarapé Ariminaiacurú. Era 1h da tarde quando abarracamos. (...)
 
Dia 5, 6ª feira, tendo passado a nossa canoa no dia precedente continuamos a nossa aporfiada disputa com as águas e pedras, apenas pudemos passar até as 5h da tarde 3 altos bancos da extensíssima cachoeira do Pirarára pernoitamos em uma ilhinha que ficou sendo chamada Ilha do Lautério, que querendo matar um enxame de cabas com a camisa, deram-lhe as cabas tantas ferroadas, que o obrigaram a cair na água. Esta ilhinha é a 3ª junto ao canal por onde passamos.
 
Aqui o autor se perde nas suas anotações e inadvertidamente suprime o dia 6, provavelmente considerando o número 6 da sexta-feira, do parágrafo anterior, como dia do mês. Nicolino continua, porém, a considerar corretamente o dia da semana. O autor estava, certamente, mais preocupado com a fiel observância dos dias da semana do que com os dias do mês. Era necessário de oficiar a Santa Missa nos dias sagrados. (Nota de Hiram Reis e Silva)
 
Dia 7 (seis), sábado, pelas 7h da manhã, começamos o nosso trabalho até as 10 e chegávamos à ilha da Galinha, tendo passado 2 grandes bancos de cachoeira. Dali seguimos passamos as cachoeiras da Torre e da Casinha das pedras, a violenta correnteza do Quebra digo do Bate Canela, donde já se avista a grande ilha do Tracua, do princípio dela 2 estirões acha-se a cachoeira do mesmo nome. que não obstante ser alta não é tão difícil de passá-la, e pernoitamos em uma ilha pouco distante da cachoeira. Eram 5h e meia da tarde, quando ali chegamos.
 
No dia seguinte, 1° domingo, e 8 (sete) do mês ali passamos, tendo ouvido o S. Sacrifício da Missa às 9h. (...)
 
Sábado dia 4 (três). Deixamos o pitoresco lugar do nosso abrigo e às 6 e meia da manhã, às 8 passamos a boca dum grande afluente denominado Murapí, que despeja uma água negra, não obstante o seu leito ser pedra e areia; às 11 passamos a espera do Bacabal onde pernoitamos, quando subimos; às 2 da tarde um rijo vento Norte inchava as velas do nosso “Desengano das águas do Cuminá” que rápido percorria a imensa extensão do estirão do bom bocado: acha-se este estirão pouco acima da boca da estrada, que fizeram os gentios. para evitarem as cachoeiras da Paciência. Às 4 da tarde abordamos na Ilhinha do Saquinho defronte da boca do Urucuiana, onde subindo tinha mos pernoitado.
 
Domingo 5 (quatro) aí passamos.
 
Dia 2ª feira (cinco) aí igualmente passamos preparando a nossa canoa. Era 5 (quatro) do mês.
 
Aqui o autor conta duas vezes o dia 5 para o domingo e para a segunda-feira corrigindo, não sei se inadvertidamente, o erro anterior. (Nota de Hiram Reis e Silva)
 
Dia 3ª feira, 6, às 6 e meia da manhã partimos. Se na época, em que subimos, estando seco o rio, as cachoeiras eram espantosas, como não é hoje que está o rio bem crescido? Por onde era terra precipitam-se as águas com medonho ruído. Todavia era preciso viajar e quando foi as 5 e meia da tarde estávamos abarracados no meio da cachoeira que fica ao lado esquerdo da Ilha do Resplandor. (...)
 
Dia 5ª feira, 8 do corrente, pelas 7h, saímos e logo medindo com o formidável Banco da Bala, conduzia-se a nossa bagagem, quando por um desses atos de Deus, sempre Pai Carinhoso encontramos os que nos levavam socorro graças os cuidados do Tenente Leonel. Ah que alegria! Pois já não tinha farinha senão para esse dia. As 11 horas já livres do estorvo olhávamos contentes as belas margens que já pelo vigor dos remos já pela força da corrente, pareciam correr para traz a ocultarem-se as nossas vistas. Ao ver de novo essas aprazíveis margens, tão belas posto que incultas, a certeza de que as ia deixar: esta ideia exprimia em meu pobre coração a negra tinta da saudade e mesmo da tristeza; mas enfim a esperança, esta amiga consoladora dos mortais, veio igualmente mitigar a minha pena, persuadindo-me de que já não está muito longe o tempo em que meus concidadãos virão fruir destes incomparáveis presentes, que lhes preparou e lhes oferece a natureza. Às 5 e meia da tarde abordamos na ilha da Cutia acima da boca do Pauána, para quem desce é a primeira que forma a Península da Cuia e aí pernoitamos.
 
O autor repete o dia do mês e continua a contar corretamente o dia da semana. (Nota de Hiram Reis e Silva)
 
Dia 8 (nove), 6ª feira. Pelas 8 da manhã continuamos a nossa viagem. depois de nos ter encomendado a S.S. Virgem. Às mesmas horas do dia antecedente digo às 9 passamos a boca do Pauaná, os gentios que ali habitam são os da tribo da gentia Ana: mas tendo certeza que muitos deles foram vistos no Rio Grande, não quis entrar no Pauaná, pode ser estejam para o Rio Grande, visto o curto espaço de tempo, em que foram encontrados no Rio Grande. Passamos pela cachoeira do Caju-açu às 4 da tarde e viemos pernoitar em uma ilha mística a ilhinha da Barraca pouco acima da Cachoeira da Sereia. Nesse lugar abordamos as 5 e meia da tarde. (...)
 
Dia 6ª feira, 22 (vinte e três) do mês, continuei a minha estada.
 
–  Livro
 
O livro “Desafiando o Rio–Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS, na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br) e na Livraria Dinamic – Colégio Militar de Porto Alegre.
 
Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:
http://books.google.com.br/books?id=6UV4DpCy_VYC&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false.

 

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)
Vice-Presidente da Academia de História Militar Terrestre do Brasil/Rio Grande do Sul
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS)
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional
Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br
E–mail: hiramrs@terra.com.br

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