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Artigos - 06/07/2011 - 15h57

Muito Antes de Abu Ghraib









Por Hiram Reis e Silva

Criamos uma geração de inimigos poderosos dispostos a tudo...
(Jornalista Seymour Hersh)
 
Mais uma vez vejo-me na obrigação de dividir com os leitores o belo texto que recebi do amigo e Mestre Coronel Fregapani. Este capítulo do seu livro “No Lado de dentro da Selva II” é lançado, oportunamente, no momento em que o governo tenta fechar, às pressas, um acordo para que o Projeto de Lei que cria a “Comissão da Verdade” seja votado no Congresso, sem debates públicos. A Secretária de Direito Humanos da Presidência da República, dona Maria do Rosário, e alguns de seus asseclas revanchistas continuam lutando para que se implante a Comissão da “Meia Verdade” ou da “Minha Verdade”. A Comissão tem como objetivo apenas esclarecer casos de violação de direitos humanos ocorridos no período revolucionário por parte do Estado deixando de lado os crimes cometidos pelos seus “companheiros sectários”. A abertura dos arquivos secretos do período revolucionário mostraria quem foram os facínoras cruéis que mataram, estupraram, mutilaram, roubaram, delataram seus “companheiros”, e levaram a intranquilidade aos cidadãos de bem deste país. A atitude unilateral da abjeta Comissão nos reporta aos tempos da “degola” da Revolução Federalista e contrariam a boa índole do povo brasileiro e seu comportamento humano mesmo nos tempos de conflagração.
 
“Eles não fizeram uma guerrilha, fizeram um investimento”.
(Millôr Fernandes)
 
A filosofia dos PeTralhas é: degola para os inimigos de outrora e gordas e injustificadas indenizações para os “idealistas” guerrilheiros pretéritos que fazem parte da camarilha palaciana atual.
 
- Abu Ghraib
 
"Kill every one over ten".
General Jacob Hurd Smith - Filipinas
 
Em 2004, as torturas e humilhações impostas a prisioneiros iraquianos de Abu Ghraib por soldados dos Estados Unidos vieram a público. Os presos eram estuprados, eletrocutados e atacados por cães. As tropas americanas, mais uma vez, trataram a população inocente e as tropas adversárias como haviam feito nas Filipinas, II Guerra Mundial e Vietnã.
 
"A primeira vítima, da guerra, é a verdade".
(Hiram Johnson)
 
O jornalista investigativo americano Seymour Myron “Cy” Hersh fez uma série de acusações contra o a Guerra do Iraque e às atrocidades perpetradas na prisão de Abu Ghraib. Seymour ganhou o prêmio Pulitzer e, é especializado em geopolítica, atividades dos serviços secretos e assuntos militares dos Estados Unidos. A respeito da Guerra do Iraque ele faz as seguintes considerações:
 
“Cometemos um dos maiores erros estratégicos de toda a história dos EUA. Estamos perdendo a Guerra no Iraque. Cada vez mais essa guerra se parece com o Vietnã. Em vez de arriscarmos nossas tropas, agora estamos bombardeando cidades inteiras. A imprensa americana não mostra a Guerra no Iraque. Nossos repórteres estão imobilizados pelas ameaças de sequestro ou morte. A imprensa européia e a imprensa do resto do mundo têm mostrado a guerra de uma forma completamente diferente do que vemos aqui nos EUA. As denúncias sobre Abu Grabi e as humilhações sexuais dos prisioneiros nos colocaram em uma situação muito difícil perante o mundo árabe. Nossa cultura valoriza a culpa. A cultura árabe valoriza a vergonha. Alguns desses prisioneiros não podem mais voltar às suas comunidades. Alguns pedem para serem mortos antes de serem libertados. Criamos uma geração de inimigos poderosos dispostos a tudo...”
 
- Muito Antes de Abu Ghraib
Fonte: Coronel R1 Gelio Fregapani
 
Este texto não é um libelo contra os Estados Unidos da América. Tenho consciência de que outros povos podem ter sido ainda piores. Já ouvi terríveis relatos de russos, tchecos, britânicos e franceses, além de outros mais. Graças a Deus essas atitudes por parte de nossa gente são casos raros e esporádicos de Moreira Cesar, Adão Latorre e uns poucos de ambos os lados da revolução de 64. Prepotência e vingança fazem parte da inspiração das forças do mal, e se exacerbam quando agem sobre pessoas que não possam se defender, isto é, sobre os prisioneiros de guerra.
 
Coronel Antônio Moreira César: o “corta-cabeças” ficou conhecido por ter comandado a execução de mais de cem pessoas na repressão à Revolução Federalista em Santa Catarina. Mais tarde comandou a última investida contra Canudos que culminou com a destruição total de Canudos, a degola de muitos prisioneiros de guerra, e o incêndio das 5.200 casas do arraial.
 
Tenente Coronel Adão Latorre: revolucionário maragato que lutou na Revolução Federalista. A revanchista prática da degola dos prisioneiros não era coisa rara entre as forças rivais. Após a Batalha de Rio Negro, em 23 de novembro de 1893, alguns autores atribuem a ele a degola de 300 chimangos, nas cercanias de Bagé, hoje município de Hulha Negra. O General Maragato João Nunes da Silva Tavares, porém, se refere no seu Diário que 300 foram as baixas totais do inimigo, entre mortos em combate e feridos.
 
Realmente só tenho um conselho para meus camaradas de armas: Nunca se rendam! Quando tiverem gasto o último cartucho, invistam em uma última e inútil carga de baioneta para morrer no meio do caminho, mas não humilhados, torturados e enforcados como nos exemplos que poderão ver a seguir.
 
- O que aconteceu
 
Ao meio dia de 17 de dezembro de 1944 cinco blindados da vanguarda da Divisão Panzer “Libestandarte Adolf Hitler” encontra-se com uma tropa de reconhecimento americana a sudeste da Malmedy. Os blindados abriram fogo, Entre os inexperientes soldados americanos estabeleceu-se uma grande confusão; caminhões trombam com árvores, chocam-se entre si e caem nas valetas. Parte dos americanos se rende e outros se evadem para fora da estrada.
A ponta de lança blindada manda os prisioneiros para a retaguarda e prossegue para seu objetivo, a cidade de Engeldorf. O grosso da Divisão, ao chegar, vendo a coluna americana abre fogo por instantes, antes de constatar que se tratava de prisioneiros com pequena escolta, causando novas baixas. Acontecimentos trágicos, mas compreensíveis no caos da guerra. O relatório do serviço de Saúde americano constata que todos os ferimentos encontrados nos corpos de soldados americanos haviam sido produzidos por estilhaços, portanto sendo impossível que tenham sido fuzilados, como alegou um programa de propaganda dos aliados.
 
- Caso Malmedy
 
O incidente ganha um nome: Caso Malmedy, e servirá de pretexto na construção de uma sistemática criminosa criada depois da vitória para punir o que decidiram convencionar como crimes de guerra. Durante e depois da guerra, a propaganda aliada citava e exagerava a barbárie alemã. Era a hora da vingança. O tribunal de Nurenberg deveria marcar a ordem dos vencedores: “ai dos vencidos”. Procura-se provar que prisioneiros americanos teriam sido fuzilados em Malmedy. Catam-se os prisioneiros dos campos de concentração e os conduzem para o presídio. Já não são mais soldados vencidos, trata-se de provar que são criminosos. Mais ainda, que seus chefes lhes haviam determinado os “fuzilamentos”. Interroga-se os jovens soldados sem sucesso, inicialmente. Sistematicamente quebram-lhes os dentes, racham-lhes os maxilares e esmagam os órgãos genitais. Enfiam-lhes palitos de fósforo sob as unhas e os acendem, ameaçam de entregar suas mães, noivas e esposas aos russos e poloneses para que se divirtam. Condenam a morte por enforcamento aos soldados que se recusam a acusar seus oficiais de crimes de guerra, chegam a enforcar dez deles por dia. A busca de provas é de uma monstruosidade inominável. Os inquisidores querem uma declaração que o comandante da divisão ou alguém dera a ordem para os “fuzilamentos”, mas era difícil, pois isto não tinha acontecido. Um “defensor” orienta com todo cinismo aos quase meninos de 18 anos para assumir uma culpa e inocentar um camarada, já que ele será enforcado de qualquer modo no dia seguinte. Para isto bastaria ele escrever a confissão que lhe seria ditada.
 
Os vitoriosos firmaram uma convenção para castigar os “criminosos de guerra” e determinaram diretrizes para procedimentos e julgamento. Ainda que os boletins dos exércitos aliados jamais tivessem relatado sobre atrocidades das tropas em combate, isto tinha havido nos panfletos propagandísticos da seção de guerra psicológica. Era considerado suficiente como “provas”. Começava-se a acusar de criminoso o indefeso subjugado e inerte no chão. Nuremberg haveria de se tornar o marco da nova ordem, onde o estabelecimento anglo-americano imporia seu direito de julgar os outros povos, seus dirigentes e seus soldados. A imprensa aliada, a serviço desse plano, há tempo falava de reais e supostos bárbaros crimes alemães. Basta um panfleto lançar uma afirmativa para que todos repitam suas invenções de monstruosidades sem limites. Os mortos no encontro de Malmedy serviriam bem para uma acusação de fuzilamentos de prisioneiros. A busca começa; em todos os campos de concentração vasculha-se para descobrir os ex-integrantes daquela unidade blindada SS que teria participado do incidente de Malmedy. Propositalmente são os jovens soldados que são retidos, pois destes mais facilmente se arrancariam “confissões”. Os mais velhos e experientes mandados de volta aos campos de concentração, para não influenciarem a garotada.
 
O oficial superior que preside as investigações é de parecer que não houve crime de guerra. Imediatamente é substituído por eficientes especialistas, inclusive emigrados da Alemanha, que sabem melhor como agir para transformar o incidente em crime de guerra. Eles tem que agir com rapidez, pois Nuremberg está a espera das “provas”, e o nome da Divisão Blindada: “Liebstandarte Adolf Hitler”, prestava-se maravilhosamente para caracterizar a barbárie, não só do amaldiçoado regime mas de todo aquele povo. Os encarregados agem rápido e a fundo. Seguindo um plano, criam ali a lenda da ordem de fuzilamento dos prisioneiros de guerra. Como os acontecimentos, por si não confirmavam a estória, inventam certo número de assassinatos e episódios sangrentos, acrescentando-os ao processo, para transformar a marcha da coluna blindada alemã numa rota de crimes hediondos. A versão da ordem de fuzilamento foi montada com sádicas torturas, confissões ditadas e promessas de liberdade, ou de salvar a família, e visava incriminar a totalidade da tropa, a partir do General, para poder estender a condenação a todas as divisões das Waffen SS, marcando-as definitivamente como hordas criminosamente bárbaras. Para isto seria preciso transformar o caso Malmedy em algo especialmente terrível, e então usá-lo como sendo o exemplo de um procedimento padrão. A coleta de provas é de monstruosidade inominável; são obtidas através de ameaças, tratamentos cruéis, uso de injeções de penthatol, execuções fictícias e reais, simulação de julgamentos, astúcia, engodo e falsas promessas.
 
- A coleta das provas
 
Em novembro de 45 chegaram os caminhões trazendo os prisioneiros selecionados para o campo de torturas de Schabich-Hall. Cerca de 1.100 quase garotos, dos incorporados já no final da guerra. Conduzidos a coronhadas e pontapés pela Military Police e subtraídos todos seus pertences, inclusive suas condecorações por bravura, distribuídos entre carcereiros que nem haviam combatido, mas ávidos de troféus ou de vendê-las a colecionadores. Seus gloriosos uniformes são arrancados e recebem calças e camisas listradas. Contra as convenções, não são mais soldados nem prisioneiros de guerra. Agora são apenas criminosos dominados, cujos rostos podem ser esmagados a coronhadas, e com frequência o são. Com um soco na nuca, os jovens indefensos são jogados nas solitárias escuras. O martírio começa com um “aquecimento”: gritos, ameaças de entregar suas mães e esposas aos russos e poloneses para que se divirtam. A seguir, a tortura mais brutal. Passam a ser surrados bestialmente por chicotes de várias espécies. Metodicamente são quebrados seus dentes e esmagados seus órgãos sexuais. Julgamentos são encenados, execuções reais e fictícias de companheiros são assistidas. Condenados à morte, funcionários da Inteligência, vestidos como padres aparecem para ouvi-los na confissão final. O martírio é infindável, sempre com capuzes pretos empapados de sangue, nem vêem a quem lhes bate.
 
Retirado o capuz, frente a ofuscantes holofotes, um “julgamento”. Do outro lado de uma mesa, oficiais americanos lhes mostram as condecorações de seus ex-chefes, recebidas certamente por lhes terem ordenado o massacre. Os torturadores insistem enquanto lhe acertam os órgãos genitais.
 
–  Por que não confessam que receberam ordens? Só queremos condenar os oficiais!
 
E mostram um pátio onde os que cooperaram parecem felizes e até tem cigarros para fumar, mas é difícil ao soldado acusar seu comandante de ordem que ele não deu para um massacre que nem sequer ocorreu. E o martírio continua... Face a uma negativa final de ter recebido ordem para o massacre, é considerado culpado. Um estranho “defensor” lhe sugere: “de qualquer modo você será enforcado nas próximas 24 horas por que não salva um camarada, assumindo toda culpa e o inocentando? É só escrever o que vou lhe ditar”. O resto desta história é conhecido... as execuções sem julgamento... - o Tribunal de Nuremberg. Além disto, não vem mais ao caso. Tudo foi esquecido quando do início da Guerra Fria.
 
O pensamento que me move é apenas mandar-lhes esta mensagem: “NUNCA SE RENDAM”. Nem na guerra, nem face a um assalto, seja lá qual for a situação. Gastem o último cartucho, invistam em uma última e inútil carga de baioneta para morrer com honra no meio do caminho, mas não humilhados, torturados e enforcados como nos exemplos acima. Isto não é um libelo contra os Estados Unidos da América. Tenho consciência de que outros povos podem ter sido ainda piores.
 
- A Mais Linda das Histórias da Guerra
 
Para nossa alegria, transcrevo os fatos narrados em um capítulo do livro “No Lado de dentro da Selva II”, sobre como nós brasileiros, tratamos os prisioneiros de guerra, pelo menos durante o último conflito mundial.
 
Na selva, muitas vezes ensinei aos meus alunos que devemos evitar a violência desnecessária ao cumprirmos uma missão. Que a bondade e a misericórdia não só facilitam a paz no futuro como também, em certas circunstâncias, pode contribuir para a vitória. O exemplo de Caxias mandando alimentar as famílias dos inimigos é muito marcante entre nós, mas contava-lhes também outras histórias mais modernas. Numa época em que qualquer simpatia pela esquerda política podia destruir uma carreira no Exército, eu procurava mostrar-lhes, (com muito cuidado para não parecer comunista, o que nunca fui), que Mao Tsé Tung vencera sua guerra mais com relações humanas do que com operações militares. Que os soldados de seu adversário normalmente não eram pagos nem alimentados; viviam de saques. Mao orientou aos seus a “pagarem o que consumissem, consertarem o que quebrassem, devolver o que pedissem emprestado e pedirem licença antes de entrarem em uma casa”. Não era necessária muita perspicácia para sentir de que lado ficou a população.
 
Contava-lhes ainda que vietcongues por vezes tratavam os prisioneiros de forma bem diferente do que aparece nos filmes, principalmente quando estes eram negros ou latinos: diziam-lhes que não eram seus inimigos mas dos que os haviam mandado para lá; que portanto não eram seus prisioneiros mas seus hóspedes por uns dias para que se conhecessem; ofereciam-lhes a melhor comida que tinham e depois de longas e amigáveis conversas não só os liberavam como até os escoltavam de volta às suas linhas, pedindo apenas que, se fossem obrigados a atirar contra eles procurassem atirar para cima, para não prejudicar seus “amigos”. Claro, davam-lhes também uma faca de brinde, que serviria de “salvo conduto” em caso de novos encontros. Muitos soldados americanos, depois de tal tratamento revoltaram-se contra seus chefes, particularmente se sofressem alguma injustiça ou discriminação. Houve, e não foram poucos, assassinatos de seus oficiais quando os quiseram forçar a combater. Um tratamento duro e cruel aos prisioneiros certamente teria resultado inverso. Entretanto, se tratando de bondade, talvez a mais linda história de guerra tenha ocorrido na II Guerra Mundial, e é quase desconhecida. Quem me contou foi um meu parente, o General Dionísio Nascimento, já falecido.
 
- Batalha de Collechio-Fornovo
 
Eu havia pedido a ele que me contasse sua participação na batalha de Collechio-Fornovo, onde nossas tropas capturaram uma Divisão de Infantaria alemã e remanescentes de outra italiana. Como a Divisão capturada fora a única que os aliados conseguiram capturar inteira em todo o “front” ocidental, antes da rendição geral, foram feitos inquéritos pelo comando aliado, para saber as razões dos brasileiros conseguirem tal feito. Lá, ele ainda como capitão, havia sido um dos heróis que receberam todas as condecorações brasileiras, americanas, inglesas etc. pelo grande feito. Passemos a palavra ao General Dionísio, que na ocasião da batalha era ajudante de ordens de um General da FEB.
 
“Gelio”, disse-me ele, “aquilo não foi o grande feito militar como todos pensaram. Os alemães nos procuraram deliberadamente para se renderem”.
 
Como assim? – perguntei-lhe.
 
“Você sabe, nossa gente tem bom coração. Quando começamos a fazer prisioneiros, não os maltratávamos como os demais faziam. Ao contrário, ficávamos com pena deles. Éramos proibidos de ajudá-los pelas normas americanas, mas dávamos um jeito de burlá-las; quando os víamos olhando famintos abrirmos uma lata de compota, comíamos só um pouco e a deixávamos no chão com a colher em cima. Eles pegavam e agradeciam discretamente, pois se isto fosse observado pela Polícia Militar americana nos causaria uma série de embaraços. Muitas vezes nossos soldados acendiam um cigarro só para fingir dar uma tragada, e deixavam o cigarro aceso em cima de um muro para que eles o pegassem. Esse tratamento, totalmente espontâneo, por parte da tropa, terminou por ser conhecido do lado alemão. Quando eles se viram mal, preferiram se entregar a nós”.
 
- Bem, mas como foi a batalha?
 
“Foi em abril de 1945. Os alemães tinham retraído da Linha Gótica depois da nossa vitória em Montese, e provavelmente pretendiam nos esperar no vale do rio Pó, mais ao Norte. Nosso Esquadrão de Reconhecimento, comandado pelo Pitaluga, os avistou na Vila de Collechio, um pouco antes do rio. A pedido do General fui ver pessoalmente e lá, por ser o mais antigo, coordenei a noite um pequeno ataque com o esquadrão e um pelotão de infantaria, sem intenção maior do que avaliar, pela reação, a força do inimigo. Sem defender efetivamente o local, os alemães passaram para o outro lado do rio e explodiram a ponte. Então observamos que se tratava de uma tropa muito maior do que poderíamos ter imaginado. Eram milhares deles e nós tínhamos atacado com uma dezena de tanques e pouco mais de cinquenta soldados”.
 
“Informamos ao comando superior que o inimigo teria lá pelo menos um regimento. O comando, numa decisão ousada, pegou todos os caminhões da artilharia, encheu-os de soldados e os mandou em reforço à pequena tropa que fazia frente a tantos milhares.” – ” Considerei cumprida a minha parte e fui jantar com o Coronel Brayner, que comandava a tropa que chegara” prosseguiu Dionísio. “Durante a frugal refeição de campanha, apresentaram-se três oficiais alemães com uma bandeira branca, dizendo que vieram tratar da rendição. Fiquei de interprete, mas estava confuso; no início nem sabia bem se eles queriam se entregar ou se estavam pensando que nós nos entregaríamos, face ao vulto das tropas deles, que por sinal mantinham um violento fogo para mostrar seu poderio”.
 
“Esclarecida a situação, pediram três condições: que conservassem suas medalhas; que os italianos das tropas deles fossem tratados como prisioneiros de guerra (normalmente os italianos que acompanhavam os alemães eram fuzilados pelos comunistas italianos das tropas aliadas) e que não fossem entregues à guarda dos negros norte-americanos”.
 
“Esta última exigência merece uma explicação: a primeira vista parece racismo. Que os alemães são racistas é óbvio, mas porque então eles se entregaram aos nossos soldados, muitos deles negros? Bem, os negros americanos naquela época constituíam uma tropa só de soldados negros, mas comandada por oficiais brancos. Discriminados em sua pátria, descontavam sua raiva dos brancos nos prisioneiros alemães, aos quais submetiam a torturas e vinganças brutais. É claro que contra eles os alemães lutariam até a morte. Não era só uma questão de racismo”.
 
“Eu perguntei ao interprete do lado alemão (nos entendíamos em uma mistura de inglês, italiano e alemão), por que queriam se render, com tropa muito superior aos nossos efetivos e ocupando uma boa posição do outro lado do rio. Ele me respondeu que a guerra estava perdida, que tinham quatrocentos feridos sem atendimento, que estavam gastando os últimos cartuchos para sustentar o fogo naquele momento e que estavam morrendo de fome. Que queriam aproveitar a oportunidade de se render aos brasileiros porque sabiam que teriam bom tratamento”.
 
“Combinada a rendição, cessou o fogo dos dois lados. Na manhã seguinte vieram as formações marchando garbosamente, cantando a canção ‘velhos camaradas’, também conhecida no nosso Exército”.
 
“A cerimônia era tocante” – prosseguiu Dionísio. “Era até mais cordial do que o final de uma partida de futebol. Podíamos ser inimigos, mas nos respeitávamos e parecia até haver alguma afeição. Eles vinham marchando e cada companhia colocava suas armas numa pilha, continuando em forma, e seu comandante apresentava a tropa ao oficial brasileiro que lhe destinava um local de estacionamento. Só então os comandantes alemães se desarmavam. A primeira Unidade combatente a chegar foi o 36 Regimento de Infantaria da 9° Divisão Panzer Grenadier. Seguiram-se mais de 14 mil homens, na maioria alemães, da 148° Divisão de Infantaria e da Divisão Bessaglieri Itália que os acompanhava”.
 
“Entretanto houve um trágico incidente: Um nosso soldado, num impulso de momento, não se conteve e arrancou a Cruz de Ferro do peito de um sargento alemão. O sargento, sem olhar para o soldado, pediu licença a seu comandante para sair de forma, pegou uma metralhadora em uma pilha de armas a seu lado e atirou no peito do brasileiro, largou a arma na pilha e entrou novamente em forma antes que todos se refizessem da surpresa. Por um momento ninguém sabia o que fazer. Já vários dos nossos empunhavam suas armas quando o oficial alemão sacou da sua e atirou na cabeça do seu sargento, que esperou o tiro em forma, olhando firme para frente. Um frio percorreu a espinha de todos, mas foi a melhor solução”  - Concluiu Dionísio.
 
Ao ouvir esta história, eu já tinha mais de dez anos de serviço, mas não pude deixar de me emocionar. Não foram as tragédias nem as atitudes altivas o que mais me impressionaram. O que mais me marcou foi o bom coração de nossa gente, a magnanimidade e a bondade de sentimentos, coisas capazes de serem reconhecidas até pelo inimigo. Capazes não só de poupar vidas como também de facilitar a vitória. É claro que isto só foi possível porque os alemães estavam em situação crítica; noutro caso, ninguém se entregará só porque o inimigo é bonzinho, mas que a crueldade pode fazer o inimigo resistir até a morte, isto também é real. Na História Pátria podemos ver como Caxias, agindo com bondade, só pacificou, e como Moreira César, com sua crueldade, só incentivou a resistência até a morte em Canudos.
 
O General Dionísio e o interprete alemão – Major Kludge, se tornaram amigos e se corresponderam até a morte do primeiro, no início dos anos 90. O General Mark Clark, comandante do 5° Exército norte-americano, ao qual a FEB estava incorporada, disse que foi um magnífico final de uma ação magnífica. Dionísio disse apenas que a história real é ainda mais bonita do que se fosse somente um grande feito militar.
 
– Blog e Livro
 
Os artigos relativos ao “Projeto–Aventura Desafiando o Rio–Mar”, Descendo o Solimões (2008/2009), Descendo o Rio Negro (2009/2010), Descendo o Amazonas I (2010/2011), e da “Travessia da Laguna dos Patos I (2011), estão reproduzidos, na íntegra, ricamente ilustrados, no Blog http://desafiandooriomar.blogspot.com.
 
O livro “Desafiando o Rio–Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS, na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br) e na Livraria Dinamic – Colégio Militar de Porto Alegre. Pode ainda ser adquirido através do e–mail: hiramrsilva@gmail.com.
 
Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:
http://books.google.com.br/books?id=6UV4DpCy_VYC&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false.


Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)
Vice-Presidente da Academia de História Militar Terrestre do Brasil/Rio Grande do Sul
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS)
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional
Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br
E–mail: hiramrs@terra.com.br
 

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