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Artigos - 02/05/2011 - 07h53

Boa sorte, vizinho Pepe!




Por Bruno Peron Loureiro

José Mujica, que sucede Tabaré Vázquez na presidência da República Oriental do Uruguai desde março de 2010, é um ex-guerrilheiro e ex-preso político que representa setores progressistas no país, mas nem por isso descuida o empresariado nacional.

Em realidade, é praticamente impossível que algum presidente latino-americano se sustente no poder sem a troca de favores com os grupos econômicos mais fortes do país, que fazem lóbi nas instituições governamentais a fim de que se lhes estenda o tapete. Há poucos que tratam de não fazê-lo, como Chávez na Venezuela, ou os que não quiseram fazer e foram destituídos, já que desde algumas décadas a política deixou de se fazer nas ruas para a televisão.

O Uruguai recebeu elogios do moribundo Fundo Monetário internacional (FMI) pelo crescimento econômico elevado. A pequena potência ao leste da Argentina anima o "Pepe" (hipocorístico para se referir aos Josés no mundo hispânico, assim como se diz "Lalo" para os Eduardos e "Paco" para os Franciscos) e reduz os riscos de descrédito no Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) devido às assimetrias entre os membros, fator que a miúdo hesita Paraguai e Uruguai sobre a permanência no bloco.

Ao contrário, o Uruguai levou ao pé da letra a disposição da presidenta Dilma Rousseff de priorizar as relações com a América do Sul, por conseguinte Mujica reitera o vigor do MERCOSUL, ao qual por enquanto pertencem Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, mas tudo indica que a Venezuela será brevemente bem-vinda.

Houve um entendimento entre o presidente uruguaio José Mujica e o Alto Funcionário do MERCOSUL, o debutante brasileiro Samuel Pinheiro nesta função, que acordaram em abril de 2011 aprofundar a integração sul-americana com a entrada da Venezuela ao bloco, finalmente ratificada pelo Legislativo brasileiro em dezembro de 2010 mas pendente no paraguaio, e desenvolver conjuntamente os setores produtivos.

Mujica enxerga no Brasil o potencial de dilatação do comércio, embora ainda distante do ideal de "mercado comum" que há vinte anos se celebrou entre os mercosulenhos. A proposta do Tratado de Assunção era de que se alcançasse este nível de integração até 1994, mas sequer um livre comércio se tem depois de duas décadas.

O dinossauro brasileiro José Sarney acaba de fazer a declaração de que o MERCOSUL estaria mais avançado caso o processo tivesse integrado gradualmente os setores industriais.

Em março de 2011, José Mujica reuniu-se com empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), onde discutiram a viabilidade de uma moeda comum e alternativa ao dólar para o comércio do MERCOSUL. O Uruguai mandou um grupo de empresários e ministros a fim de aquecer as relações comerciais com o Brasil, cujo discurso de aproximação tem sido constante quando Mujica se refere ao país vizinho.

Virou mania os presidentes da região voarem com seu jatinho aos encontros internacionais acompanhados de outro avião com lotação máxima de empresários ávidos de fazer negócios. Na falta de assento para todo mundo, deve ter aqueles suportes de mão fixados no teto para ir de pé e evitar a sobra de espaço no avião.

Foi assim com a tropa de empresários brasileiros que foram à Nigéria, Iraque, Irã. Não perdoaram nem o Haiti, devastado por desastres naturais e humanos, sob pretexto de auxiliar na "reconstrução" da infra-estrutura do país. Se deixarem, EUA mete a mão em tudo.

O Uruguai conforta-se na mesma estratégia brasileira de inserção internacional, mas com a diferença de que ainda não se promoveu ao nível BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), "países emergentes" alcunhados pelo grupo financeiro Goldman Sachs em 2001. Já se propôs o alargamento desta sigla para a inclusão de México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia.

Logo se encaixa mais um emergente econômico e desastre social na categoria bricqueana.

A participação nas trocas comerciais, o crescimento do Produto Interno Bruto e da renda per capita melhoram a imagem de países para investidores, que criam conjuntos de regiões geográficas onde julgam que vale a pena colocar seu dinheiro e empreender. Estes indicadores permitiram ao suspeito FMI sinalizar positivamente sobre a economia uruguaia.

A bola passa dos pés dos craques brasileiros para o Uruguai, uma vez que o Relatório Global do Fórum Econômico Mundial declarou que esta República Oriental é um dos cinco países latino-americanos e caribenhos que estão na lista dos cinquenta mais desenvolvidos mundialmente em tecnologias da informação. Os demais destaques da região são: Barbados, Chile, Porto Rico, e Costa Rica. Suécia, Cingapura e Finlândia lideram a lista de 138 economias neste quesito.

As intenções de José Mujica são claras: o mandatário quer projetar o Uruguai para além de sua pequena porção territorial, que está às sombras da Argentina, e não teme as assimetrias do MERCOSUL nem se sente despreparado frente aos desafios tecnológicos. Mujica, para completar sua ambição econômica, é um dos principais alentadores da efetivação da Venezuela no bloco sul-americano de integração do qual faz parte.

Boa sorte, vizinho "Pepe"!



http://brunoperon.com.br


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