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Artigos - 21/03/2011 - 10h37

Trabalho escravo e religiosidade




Por Bruno Peron Loureiro

A América Latina coleciona casos de precarização, exploração e escravização do trabalho.

Números vultosos de pessoas, outrossim, não se importam de laborar em condições degradantes em troca de um salário que lhes permita pagar o mínimo de contas porque é a única opção que resta ou porque têm que sustentar uma família.

Mal passa pela cabeça destes trabalhadores o significado de produtos supérfluos, tão caros na propaganda dos meios de comunicação. Tampouco lhes preocupa aos trabalhadores infantis, imigrantes ilegais e indigentes que os patrões se enriqueçam às custas do suor de sua fronte.

Deste modo, algumas cooperativas, em vez de cumprir o papel de defensoras dos direitos de quem labora, prostituem-se, precarizam as condições de trabalho e asseguram que os trabalhadores não tenham vínculo empregatício com o patrão, um ente distante.

A "Administración Federal de Ingresos Públicos" (AFIP) da Argentina, instituição responsável por executar políticas aduaneiras, tributárias e de arrecadação de recuros para a seguridade social, realizou operativos nas províncias de Misiones, Corrientes e Chaco a fim de descortinar as condições sub-humanas de trabalho a que alguns trabalhadores se submetem. Agentes desta instituição encontraram mais de 60 trabalhadores em condições quase escravas.

Em Corrientes, a AFIP descobriu 21 trabalhadores que dormiam num ônibus precário sem as condições mínimas de conforto e higiene. Encontrou igualmente 30 empregados em trabalho sub-humano numa plantação de erva-mate na província argentina de Misiones.

A localização destas províncias entre Brasil e Paraguai aproveita-se do fluxo de migrantes e trabalhadores temporários, sobretudo do segundo país. Muitos trabalham sem registro em carteira de trabalho e outros são terceirizados, cuja modalidade de apropriação da mão-de-obra distancia o patrão do empregado e dificulta os processos trabalhistas na justiça.

O trabalho informal e escravo mancha o desenvolvimento social na Argentina.

Flagraram-se crianças na colheita de erva-mate em Puerto Esperanza, a 260 km de Posadas, sem água potável, energia elétrica e sanitários. Crianças e estrangeiros ilegais amontoam-se em barracas e manipulam produtos agrotóxicos sem o mínimo de segurança.

Que mundo as crianças singelas se obrigam a vivenciar desde cedo! Quem descumpre o dever frente à sociedade: a família que as põe no mundo ou o governo que elabora as políticas públicas para crianças e adolescentes?

A proximidade fronteiriça da Argentina com os gigantes do desrespeito ao trabalhador, Brasil e Paraguai, incita algumas províncias daquele país a seguir o mau exemplo.

Aqueles que deveriam promover os direitos dos trabalhadores no Brasil, os advogados trabalhistas, pouco fazem pela categoria além de compor máfias em busca de dinheiro fácil.

O Brasil padece do enfraquecimento e a burocratização dos sindicatos, o trabalho infantil na lavoura e na indústria, e a remanescente escravidão por dívidas, recorrente nalgumas regiões remotas do país. Por meio desta, o trabalhador deve pagar até mesmo pelas ferramentas de trabalho de tal forma que o patrão nunca deixará de ser seu senhor de engenho, antiga forma de domínio do período colonial.

O objeto de exploração continua o mesmo em vários estados tupinicas: o açúcar.

A lida nas plantações de cana-de-açúcar, ademais, é das mais penosas para a dignidade de qualquer ser humano. Migrantes do Norte e Nordeste do Brasil jorram suor para cortar toneladas de cana sob sol escaldante.

Temos ciclos agrícolas e industriais que enalteceram a presença econômica tupinica no mundo, por um lado, mas apresentaram um retrocesso em condições de trabalho, por outro. A produção de borracha no Norte do Brasil foi um deles.

Que papel cabe ao trabalhador diante da precarização de sua mão-de-obra?

Primeiramente o trabalhador deve certificar-se de que as cooperativas sustentam seus direitos em vez de compor um mecanismo de redução das garantias de quem labora. Logo deve reforçar a organização sindical como local de canalização de suas inquietações e demandas e não locais de elos corruptos entre líderes sindicais e gestores do governo.

Parte do trabalho precário se deve à aceitação dos empregados de laborar em tais condições, visto que amiúde não veem alternativas para o sustento da família. A necessidade do dinheiro para sobrevivência, portanto, convida-os a aceitar qualquer condição.

Esta é a realidade que move crianças e imigrantes ilegais a trabalhar em locais degradantes na Argentina, no Brasil e noutros países da América Latina, conforme mencionado.

Mineiros dinamitam, perfuram e extraem prata do Cerro Rico de Potosi, na Bolívia, como se fazia séculos atrás. E sem perder a alusão ao "Tio", deus criado pelos espanhois para subjugação dos indígenas e hoje protetor do sub-mundo da exploração das montanhas.

A religiosidade complementa a degradação dos trabalhadores a troco de muito pouco. Por isso o "Tio" guarda a entrada das minas, único foco de luz natural diante das trevas.

A razão tarda para desfazer apologias, crenças e mitos inúteis, que sugam as energias de povos submissos através da desvalorização de sua mão-de-obra. Quem sabe alguma "fé raciocinada" nos adiantaria enquanto espécie para que o trabalho nos traga dignidade.



http://brunoperon.com.br


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