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Artigos - 07/02/2011 - 10h57

Desafiando o Rio-mar – Belterra - Mirando o Futuro sem olvidar o Passado






Por Hiram Reis e Silva

“Weir ensinou o pessoal a fazer enxertos da forma correta. Mas o verdadeiro problema, disse o patologista, era que a Fordlândia não tinha espécimes seguros de onde tirar enxertos. Assim Edsel concordou com o pedido de Weir de viajar ao sudeste da Ásia, para Sumatra e Malásia, a fim de encontrar espécimes garantidos. Weir partiu, em junho de 1933, e obteve rapidamente 2.046 troncos enxertados de uma seleção garantida de árvores de alto rendimento. Embalados em serragem esterilizada, eles deixaram Cingapura no fim de dezembro, cruzaram o oceano Índico, passaram pelo Canal de Suez no início de 1934, atravessaram o Mediterrâneo e o Atlântico e subiram o Amazonas”. (Greg Grandin).”

- Belterra

Somente em 1932, depois do fracasso da baixa produtividade em Fordlândia, a companhia decidiu contratar um especialista no cultivo de borracha, o botânico James R. Weir, que havia trabalhado na American Rubber Mission. James reportou em seu relatório inicial uma série de omissões em aspectos elementares de gestão agrícola, e sugeriu como medida de urgência a importação do Sudeste Asiático, de clones de alta produtividade garantida e sugeriu a troca da área de Fordlândia por uma nova área, de 281 mil hectares a 48 quilômetros de Santarém, que além de permitir a navegação regular de navios de grande calado durante todo o ano, o terreno era melhor drenado, mais ventilado e menos úmido – condições menos favoráveis à propagação do “Mal-das-folhas”. A localização parecia perfeita e Ford denominou o local de “Bela Terra”, mais tarde conhecido como “Belterra”. Belterra era uma “cidade americana no coração da Amazônia”, com hospitais, escolas e casas de madeira, no estilo americano. Ford havia aprendido com Fordlândia e, agora, mesmo a Vila Americana onde residiam os altos funcionários foi construída de madeira, as construções faraônicas que no projeto anterior abrigaram o refeitório, a casa de força e fábrica, foram substituídas por instalações bem mais modestas. A massa de operários que lá era recrutada dentre os ribeirinhos não afeitos à rigidez do regime do trabalho e à disciplina impostos pelos capatazes de Ford foi suprida, em grande parte, por trabalhadores braçais oriundos do sertão nordestino, que fugiam da Grande Seca de 1929. Seis anos depois de ter implantado a Fordlândia, a Companhia Ford tentava, novamente, produzir borracha na Amazônia Brasileira.

Em 1934, chegaram os 53 clones selecionados por Weir, mas apesar da melhor localização, salubridade e seleção das mudas o seringal também foi atacado pelo “Mal das Folhas”. Mas graças à utilização de práticas de manejo, seleção de sementes, emprego de mudas mais resistentes, enxertia de copa e controle com fungicidas, permitiram que o seringal passasse a conviver com o Microcyclus. Belterra de 1938 a 1940 foi um dos maiores produtores de seringa do mundo. Com o final da 2ª Guerra Mundial, e a consequente importação da borracha do sudeste asiático, a grande incidência de doenças nos seringais e, principalmente, a descoberta da borracha sintética contribuíram para a decadência do projeto e a Companhia Ford “abandonou o sonho”.

A “cidade americana” foi transformada, então, em Estabelecimento Rural do Tapajós (ERT), sob a jurisdição do Ministério da Agricultura e, somente em 1997, conseguiu sua emancipação.

- Visita a Belterra (3 de fevereiro de 2011)

Agendamos uma visita a Belterra onde fomos gentilmente recebidos pelo senhor Valdemar Sanches da Silva, Chefe de Gabinete do Prefeito Geraldo Irineu Pastana de Oliveira. Valdemar discorreu, com entusiasmo, sobre a história e os projetos que estão em andamento na sua cidade. Diferente do descaso e da omissão verificada pelos políticos de Fordlândia a Prefeitura de Belterra partiu corajosamente na busca de parceiros para recuperar seu patrimônio e sua história. Acompanhados pelo Chefe de Gabinete passeamos pela cidade e conhecemos a oficina – que ainda utiliza máquinas da década de 30, do século passado, recuperadas pelos zelosos funcionários da Prefeitura. Conhecemos a Casa Um, a Vila Americana, a Vila Mensalista e a Vila Operária. Infelizmente poucas são as casas que mantém seus jardins bem cuidados como nos tempos áureos da borracha e, infelizmente, todas exibem cercas em seus terrenos que não existiam na época do Projeto de Ford. Curiosamente na gigantesca Caixa D’água de metal ainda existe o mesmo apito que tocava e ainda toca nas mesmas horas do longínquo pretérito em memória de um sonho americano que não vingou.

A Casa Um, localizada na estrada 02, tinha vista privilegiada para o Rio Tapajós. Possui ampla varanda, grande salão e várias dependências. Existem, ainda, no local, utensílios originais deixados pelos americanos. Esta casa foi projetada para servir de residência a Henry Ford quando ele visitasse Belterra, o que nunca aconteceu. A Vila Americana era residência dos funcionários do primeiro escalão da Companhia Ford. A Vila Mensalista era residência dos funcionários do segundo escalão da Companhia que recebiam seus pagamentos mensalmente, daí a origem do nome da Vila. As residências são menores que as da Vila Americana. A Vila Operária era restrita aos funcionários do terceiro escalão, formada por carpinteiros, mecânicos, motoristas e outros. Estes operários eram pagos quinzenalmente. As casas eram bem mais simples e não possuíam varandas. Passamos pelo Hospital, necrotério e encerramos nossa visita no Centro de Memória de Belterra.

- Visita ao Centro de Memória de Belterra

Encontramos no Centro de Memória o professor Osenildo Maranhão, agente de atendimento, filho de seringueiros da Companhia Ford que nos apresentou entusiasmado os projetos e o acervo do Centro. A instalação servia, antigamente, de residência para os médicos do “Hospital Henry Ford” e foi o primeiro prédio histórico restaurado pelo Projeto “Muiraquitan Brasil”, fruto da parceria com o Instituto Butantan e a OSCIP (Organização de Sociedade Civil de Interesse Público) Ama Brasil. O Centro localiza-se na Vila Americana nº 108, Bosque das Seringueiras.

“Pesquisadores do Butantan em conjunto com o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) trabalham de forma intensa na reconstrução do acervo histórico desta cidade e este Centro serve de apoio ao trabalho de pesquisa e possibilita o acesso as informações para os moradores e estudantes da região”.
 (Otavio Azevedo Mercadante, diretor do Instituto Butantan)

O Centro, inaugurado em 01 de maio de 2010, tem a missão de incentivar e divulgar pesquisas sobre a história do Município através de projetos e ações educativas destinados à valorização do patrimônio e da memória local. Para atingir esse objetivo o Centro recolhe, cataloga, preserva e disponibiliza acervos históricos adquiridos para consulta pública. O Projeto é bastante amplo e pretende mudar, parcialmente, a face da cidade fazendo-a retornar ao seu antigo visual. É uma missão árdua que tem o Prefeito Pastana e seus colaboradores pela frente, mas que, certamente, se for concretizada, trará benefícios para todos seus moradores.

É um exemplo louvável e que deve ser imitado por administradores de todos os níveis de governo e em todas as regiões do país. Um país que não cultua o seu passado, que não valoriza suas origens, que não é capaz de aprender com os acertos e os erros pretéritos certamente não merece, nem será capaz de empreender uma marcha segura para o futuro.
 

Fontes: GRANDIM, Greg. Fordlândia: Ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva. Rio de


Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)
Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS)
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional
Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br
E–mail: hiramrs@terra.com.br

Os artigos publicados com assinatura não representam a opinião do Portal Pantanal News. Sua publicação tem o objetivo de estimular o debate dos problemas do Pantanal do Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso, do Brasil e do mundo, garantindo um espaço democrático para a livre exposição de correntes diferentes de pensamentos, idéias e opiniões. redacao@pantanalnews.com.br

 

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