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Artigos - 02/02/2011 - 08h21

Desafiando o Rio-mar – Rondon e Cruls no Rio Cuminá






Por Hiram Reis e Silva

“Quosque eadem”

Hiram Reis e Silva, Santarém, PA, 28 de janeiro de 2011.

“Recebo carta amiga contando a morte de Gastão CRULS (...) Imagino a saudade com que todos estão recordando aqueles convites para a Rua Amado Vervo, na pequena casa decorada com lembranças da viagem ao Amazonas, o sorriso enternecido à lembrança de suas brincadeiras, que tinham um perfume de meninice, de primeiro-de-abril antigo - os presentinhos anônimos, os cartões disparatados que deixavam risonhos e intrigados os seus destinatários”.

(Rachel de Queiroz - Revista O Cruzeiro - 29 de Agosto de 1959)

Na nossa passagem por Oriximiná fiz questão de fazer uma pequena incursão, a motor, pelas águas do Rio Cuminá, afluente do Trombetas. A narrativa que se segue homenageia dois grandes brasileiros, Rondon e Gastão Cruls, olvidados por grande parte dos brasileiros que desconhecem que um povo sem memória, sem história, sem exemplos que norteiem seus passos não passa de uma horda sem destino e sem futuro. A homenagem a Rondon é, também, um justo preito ao 8º Batalhão de Engenharia de Construção, nosso principal esteio nesta 3ª Fase do Projeto Aventura Desafiando o Rio-Mar, que tem o ilustre Marechal da Paz como patrono.

 - Luís Ferdinand Cruls

O astrônomo Louis Ferdinand Cruls nasceu na província de Brabante, Bélgica. Após concluir o Curso de Engenharia, serviu no Exército belga como engenheiro militar de 1869 a 1872. Em 1874, participou da viagem inaugural do paquete “Orénoque” rumo ao Brasil e, em 1875, publicou um trabalho sobre métodos de repetição e reiteração para leitura de ângulos. O reconhecimento pela excelência do seu trabalho permitiu que fosse admitido como Adjunto no Imperial Observatório do Rio de Janeiro. Seis anos depois assumiu o cargo de Diretor do Observatório.

 “No Observatório, de que era Diretor o Dr. Luís Cruls, praticava, a mesma ocasião, meu companheiro na jornada de 15 de novembro, Tasso Fragoso, e ambos fomos trabalhar sob a direção do astrônomo Dr. Morize”. (Alferes Aluno Rondon)

 Rondon teve seu primeiro contato com os Cruls, em 1890, quando foi designado, pelo Chefe da “Comissão Construtora da Linha Telegráfica de Cuiabá ao Araguaia”, Major Antônio Ernesto Gomes Carneiro, para aperfeiçoar a pratica de observações astronômicas e determinação de coordenadas geográficas no Observatório Nacional, antigo Imperial Observatório que teve sua denominação alterada após a proclamação da república. Em 1892, Cruls chefiou a expedição científica denominada “Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil”. A Comissão, conhecida como “Missão Cruls”, tinha como meta estudar a orologia (ciência da formação das montanhas), condições climáticas e higiênicas, natureza do terreno, qualidade e quantidade de água e uma série de outros quesitos da área do Planalto Central, onde seria construída a futura capital do país, Brasília.

 - Gastão Luís Cruls


Gastão Cruls, filho de Dr. Luís Cruls, foi médico sanitarista, geógrafo, astrônomo e romancista, nasceu na Cidade do Rio de Janeiro, em 4 de maio de 1888, e nela faleceu a 7 de junho de 1959. Formou-se em Medicina em 1910, especializando-se em medicina sanitária. A partir de 1926 dedicou-se exclusivamente à literatura. De 1931 a 1938 dirigiu a revista literária “Boletim de Ariel”. Suas obras procuravam retratar a vida brasileira, em especial a realidade Amazônica. Seu romance “A Amazônia Misteriosa” (1925), baseado nas mitológicas Amazonas, foi transformado em filme em 2005, com o título de “Um Lobisomem na Amazônia”. A sua obra tinha como cenário a região Norte do país, ainda desconhecida pessoalmente pelo autor. Em 1928, Cruls resolveu conhecê-la pessoalmente acompanhando a expedição do General Rondon, que subiu o Rio Cuminá até os campos do Tumucumaque nos idos de 1928 e 1929. A viagem iniciou a 13 de setembro de 1928 e, Cruls retornou após ter chegado aos campos situados ao Sul da cordilheira do Tumucumaque, seguindo o conselho de Rondon, enquanto esse e sua equipe continuaram até chegar às próprias cordilheiras. O livro “A Amazônia que eu vi” é fruto de sua viagem no qual Cruls relata os acontecimentos na forma de um diário de viagem. O relato de Cruls não tinha nenhum interesse econômico ou objetivos científicos, sua função era simplesmente a de ser o “cronista” da expedição. Cruls demonstra, ao contrário dos pesquisadores estrangeiros que percorreram a Hiléia, um profundo respeito pelos costumes e cultura regional reportando as mais singelas informações colhidas junto aos membros mais humildes da expedição.

- A Nomeação de Rondon

A 15 de janeiro de 1927, recebia eu o seguinte ofício do General Chefe do Departamento do Pessoal da Guerra:

n° 36. - Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1927.

Ao Exmo. Snr. General da Divisão, Candido Mariano da Silva Rondon

Do Chefe do Departamento do Pessoal da Guerra.

Sr. General,

Comunico a V. Excia. que o Sr. Ministro, por Aviso n° 9 de 8 do corrente, declara que vos nomeou para proceder à minuciosa inspeção das fronteiras do país, para estudar as condições de seu povoamento e segurança. Outrossim, declara que ora providencia para que, pelo Estado Maior do Exército, sejam organizadas as respectivas instruções.

Saúde e Fraternidade

(a) Gen E. Pamplona.

- Início da “Campanha” – “Vencer, até o impossível!”

“Era desejo do Presidente Washington Luiz que a inspeção ficasse concluída até o fim do seu governo. O Ministro da Guerra, General Nestor Sezefredo dos Passos, daria todo o seu apoio, proporcionar-me-ia todos os recursos e o Estado Maior do Exército baixaria as devidas instruções. Para organizar a Comissão, mobilizei meus antigos companheiros de sertão, os veteranos da Comissão Telegráfica. Só a 1° de junho pude instalar a sede da ‘Inspeção Fronteiras’ em uma sala do Instituto dos Surdos Mudos, e iniciar a campanha. Emprego a palavra ‘campanha’, para destacar as fases do programa a realizar - significa ‘rumo ao campo’, isto é, ao sertão ou à fronteira e se traduz nas expedições organizadas cada ano, de acordo com as Diretorias do Estado Maior do Exército e com os recursos ou verbas orçamentárias de que podia dispor. E o lema dessas campanhas era sempre: ‘Vencer, até o impossível! ’ Tracei o plano de iniciar a inspeção pelo Norte, dividindo o trabalho em dois setores de ação: o das fronteiras do Estado do Pará, com três turmas, e o das fronteiras do Amazonas com cinco. A 17 de agosto, embarcava eu no Prudente de Moraes. A Capitania do Porto permitiu a saída do paquete em péssimas condições e levamos arrastando-nos, porque a maior parte do tempo só funcionava uma das caldeiras. Nos portos, iam elas sendo reparadas e em Belém, aonde só chegamos a 3 de setembro, aproveitei nova pausa forçada para visitar a primeira seção da Estrada de Ferro de Bragança. No trem especial de inspeção seguiu conosco, entre outros, o Dr. Gastão Cruls. A 7 de setembro, ancorávamos em Óbidos, aonde o Major Polidoro Barbosa e o Tenente Adriano Silveira, da turma da Guiana Holandesa, vieram-me informar sobre os serviços que lhes haviam sido confiados”. (RONDON)

 13 de Setembro de 1928

“A 13, saíamos de Óbidos para a fronteira holandesa, penetrando no Trombetas pelo furo Maria Teresa. Tomei a penetração pelo Trombetas e seu afluente da margem esquerda, o Cuminá, como eixo principal da exploração, rumo aos afamados Campos Gerais - pela primeira vez descobertos pelo Padre Nicolino e que a exploração de Madame Coudreaux levou até as proximidades da fronteira - cerca de 150 quilômetros aquém da nascente do Cuminá. Era a cordilheira Tumucumaque, divisa com a Guiana Holandesa, considerada inacessível pelo lado brasileiro. Em vista de suas dificuldades, tomei a mim a chefia dessa expedição”. (RONDON)

 “A partida estava marcada para as treze horas, quando a ‘Amazonina’ largou da ponte, começando a subir o Amazonas. Daqui até a primeira cachoeira do Erepecurú, teremos o relativo conforto de uma ‘alvarenga’ (lanchão que navega a reboque), que é rebocada pela lancha a gasolina. O Amazonas, defronte a Óbidos, experimenta a maior angustia do seu percurso: grossas águas que se afundam a mais de cem metros, mas não abarcam dois quilômetros de largura. Aí, segundo Paul Le Cointe, pode-se calcular que, durante a cheia, passam, por minuto, de quatro a doze milhões de metros cúbicos d’água”. (CRULS)

 14 de Setembro de 1928

“A 14, largou nossa embarcação para o acampamento do Tronco, início das cachoeiras do Cuminá - e dos embaraços que se sucederiam em série ininterrupta”. (RONDON)

 “Aí ele se acresce de águas do Jamundá, que lhe envia um braço robusto. Como se vê não devemos andar longe do Reino das Amazonas, pois foi á foz desse último Rio que as lendárias guerreiras atacaram a Orellana e os de sua comitiva: ‘Aqui dimos de golpe en la buena tierra y señorio de las Amazonas’, diz Frei Gaspar de Carvajal, o cronista da viajem, que conheceu de perto a força das nossas Icamiabas, recebendo na ilharga um valente flechaço. Seja real ou fictícia a remota existência da decantada gimnocracia pátria, o fato é que é nesta zona que se encontram os famosos amuletos, servindo de insígnia á mesma tribo, e que têm dado motivo a tantas controvérsias. Na verdade, sobretudo á margem Setentrional do Amazonas e, principalmente, da costa do Parú às cercanias do Jamundá devem-se quase todas as pedras verdes até hoje conhecidas, conforme assinala Barboza Rodrigues, num dos seus trabalhos sobre o assunto. Ainda em Belém, confirmou-me essa asserção o Dr. Carlos Estevão de Oliveira, autor de memória ainda inédita sobre o mesmo tema e em mãos de quem (com que inveja o escrevo!) pude admirar dois dos mais belos muirakitãs que já tenho visto. São eles duas peças zoomórficas, ambas representando rãs, abertas no mais puro jade, e em tudo iguais a uma que é reproduzida nas páginas de Barboza Rodrigues e eu aproveitei para ilustrar a capa da minha ‘Amazônia Misteriosa’, nas suas primeiras edições”. (CRULS)

16 de Setembro de 1928

“A 16 de setembro, atingimos a cachoeira do Mel. Era o início da segunda série de grandes tropeços da navegação do Curimá. A largura do Rio, de 400m. acima da cachoeira do Inferno, reduzira-se a 200, na do Mel, onde fizemos acampamento”. (RONDON)

“Travei hoje conhecimento direto com as águas do Cuminá. Sendo o primeiro, o banho não podia deixar de ser dos mais cautelosos. É que se não via nada de atemorizante, tinha a cabeça povoada de bichos horrendos: venenosas arraias de ferrão em riste, famélicas piranhas, traiçoeiros candirús, poraquês eletrizantes, e, até qualquer enorme sucurijú que, ao menor descuido, me transformasse em almôndega, no arrocho dos seus anéis. Assim, foi banho quase que de praia, apenas com o tempo bastante para rápidos mergulhos. Também, mesmo que o quisesse, a pedra era muita e não permitiria amplos movimentos natatórios”. (CRULS)

 28 de Setembro de 1928


“O Gertum, ontem à noite, travou conhecimento com uma tocandira, das mais famosas formigas daqui, não só pelo tamanho, como pelos terríveis efeitos de sua picada. Tão depressa ele foi mordido, em um dos dedos, sentiu logo dormência em todo o braço e, pouco depois, tinha o gânglio axilar a reagir. Com tudo, foi sempre mais benigna essa reação do que aquela sofrida por Spruce que, vítima do mesmo acidente, se sentiu mal por várias horas, com febre alta e vômitos repetidos. É verdade que o naturalista inglês foi atacado por muitas delas. E dizer-se que em muitas tribos indígenas se fazia da picada dessas formigas uma prova de resistência física, exigida aos rapazes que se queriam emancipar. Há mesmo quem afirme ser de uso entre os ritos matrimoniais dos Urucuyanas, fecharem-se hermeticamente os noivos numa rede cheia das mesmas formigas. Assim, os dois jovens, no afã de se livrarem de tão incômodos hóspedes, rápido também se libertavam de qualquer constrangimento ou gesto de pudor que, acaso, os separasse em semelhante conjuntura”. (CRULS)

30 de Setembro de 1928

“O Sampaio fez hoje importante descoberta... arqueológica. Das suas frequentes excursões botânicas pelos arredores do acampamento, voltou trazendo um salto Luiz XV e uma travessa de celulóide. Espanto de todos nós e muitas conjecturas a respeito. A quem se poderiam atribuir tais pertences da exclusiva indumentária feminina? Afora as índias, desde logo afastadas de qualquer cogitação, ao que nos conste, apenas duas mulheres já se perderam por estas alturas: Madame Coudreau a valente exploradora francesa, e Martinha, a tal preta que acompanhou a expedição Diniz, servindo-lhe de intérprete junto aos silvícolas. Ainda que muito saibamos a respeito da faceirice das francesas, não será ao pé de Madame Coudreau que ajustaremos o sapato de salto alto, pela razão muito simples de que ao tempo da sua viajem, ainda não existia o varadouro de que nos vamos servir agora, e ela teve de seguir sempre pelo Rio, através das cachoeiras, sem fazer pouso neste ponto. Ademais, retratos seus, como aquele que ilustra o livro ‘Voyage au Trombetas’, dão-na masculinizada durante as expedições, quando vestia largas ‘pantalonas’ (calças compridas de boca larga) e se enfiava em botas reúnas. Resta, portanto, Martinha. E por que não aceitar que a preta do Erepecurú seja em tudo igual às suas irmãs cariocas, que aberinjelam o rosto com camadas de carmim e, acompanhando a moda do ‘ton sur ton’, só usam meias cor de carne?” (CRULS)

 09 de Outubro de 1928

“Verificando a maneira pela qual os nossos homens fazem o transporte da carga, certifico-me mais uma vez de quão funda e de todos os instantes é ainda a influência indígena sobre os hábitos que observo. Nenhum deles carrega à cabeça (o que, de fato, seria um absurdo, na mata); mas, sim, fazendo fardos que ajeitam às costas e tem por ponto de sustentação não só as alças de sarrapilha, corda ou qualquer embira, que passam aos ombros, como também uma larga faixa, ainda da mesma matéria, que lhes cinge a fronte. Como se vê, processo perfeitamente igual ao de que se servem os índios para transportar os seus ‘panacús’ (cesto grande, de talas, usado em viagens). Aliás, já na habilidade manual, que é inerente a todos eles e a respeito da qual citei mais atrás o nosso carpinteiro, como poderia ainda citar os que vi trançando esteiras com folhas de palmeiras, em todos, eu dizia, trai-se a próxima ligação com o silvícola, por excelência o nosso ‘homo faber’. Apoio em mais um fato o que venho expondo. Quando em Óbidos, tive oportunidade de adquirir, no Mercado da Cidade, uma pequena peneira que era modelo de graça e perfeição, pelo engenho com que fora tecida. Pois bem. Vejo agora, percorrendo as páginas de Crevaux, cujo livro data de 1883, a figura de certa ‘urupema’ (espécie de peneira grosseira, destinada a escorrer o leite do coco, passar a massa do feijão cozido, a massa da mandioca ralada, peneirar o milho, o arroz, a farinha etc.), que ele conseguira dos índios da Guiana e que é exatamente igual àquelas que se vendem hoje em Óbidos e são provavelmente feitas por qualquer caboclo”. (CRULS)

21 de Outubro de 1928

“A 21 de outubro partíamos. Depois de grande azáfama, tomou a monção rumo da fronteira, fazendo vanguarda a canoa capitânea. Eram 10 embarcações, conduzindo algumas delas uma tonelada que era preciso, às vezes descarregar completamente, para vencer as corredeiras, de degrau em degrau. Alargou-se o Rio atingindo 800m. E o seu leito era uma só pedreira, sobre a qual iam os carregadores pulando, com pesados volumes ao ombro, podendo qualquer descuido dar lugar a irremediável desastre. 5 horas e meia levamos para transpor a corredeira Tracuá!” (RONDON)

“Para que maior nos fosse o dia, almoçamos antes de partir e, ás dez e pouco, as canoas, atopetadas de carga e bagagens, sobre as quais nos encarapitávamos da melhor maneira possível, ganhavam o largo. Somos ao todo cinquenta e oito pessoas, divididas por dez canoas, entre outras um ‘batelão’ (canoa curta, de grande boca e pontal, em relação ao tamanho) maior, que vai superlotado e leva muito material. (...) Não há tempo para conhecer o valor dos remadores. Apenas com alguns minutos de percurso, surge o primeiro obstáculo. É a correnteza do Bate-canela, em que uma ou outra canoa, das mais pesadas, precisa ser puxada a cabo. Como o Rio é um enorme atravancado de pedras, saltamos sobre algumas destas e vamos aos pulos, de ‘pedrouço’ (montão de pedras) em pedrouço, acompanhando o trabalho dos nossos homens, que já estão muitos dentro d’água, e se afainam na propulsão dos barcos. Mas isso é apenas um ensaio para o que nos espera pouco depois, quando chegamos ao Tracuá, a primeira cachoeira. Aí, faz-se preciso baldear toda a carga. Embora sejam muitos os canais, todos são maus, e as canoas só lograrão transpô-los estando vazias. E lá se vai o pessoal, em longa fieira sobre o ‘lajedo’ (laje muito extensa), arcando ao peso dos fardos. O Rio tem neste trecho o seu leito totalmente coalhado de blocos de granito, da mais variada forma e dimensão, e só com constantes movimentos de ginástica, aos agachos e espichamentos, se conseguem alguns passos para diante. E já estamos sob o inclemente sol do meio-dia! Felizmente, há bastante vegetação na grande Ilha do Tracúa e, á sua orla, conseguimos sítio sombreiro onde aguardar que as canoas atinjam novo ponto para reembarque. Um propício café com leite, que a todos dessedenta, prepara-nos para os novos transes da tarde, em que, por mais três vezes, temos de abandonar as canoas e andar batendo o pedregal, até que, já ás dezoito e tanto, bastante fatigados, alcançamos, por fim, a Ilha do Santo Sacrifício, onde pousaremos. Nesta Ilha, também acampou o Padre Nicolino, e, nas páginas do seu diário, louvou-se o General para dar-lhe aquela designação...” (CRULS)

25 de Outubro de 1928

“Ricardo, o nosso piloto, não desdiz a sua fama de bom mateiro e, a cada passo, dá-nos informes sobre as plantas que mais nos interessam. Aqui, é uma manaiara com a copa pintalgada de róseo; ali, uma guaxinguba com ramalhetes dourados á ponta dos ramos; acolá, um tororó de frutinhas miúdas, usadas no anzol, como isca aos tambaquis. Mais adiante, além de um renque de pacovas sororocas, há um catauari, cujo fruto, quando cai n’água, igualmente atrai os peixes. Aprendo também que a carapanaúba, de tronco linheiro, dá bons cabos para machado, que a itaúba é das melhores madeiras para a construção de canoas, e que o marupá e o marrãozeiro são excelentes ripeiras. Graças ás suas lições, vou mesmo a ponto de distinguir o tenteiro da guaxinguba, ambos de floração amarela. É que no último, a inflorescência se reúne num único pedúnculo, ereto, ao passo que no tenteiro este se esgalha em várias ramificações. Mas os conhecimentos do Ricardo não ficam nisso e ele, esquecido, talvez, de que fala a médicos, preconiza: as folhas do tarumazeiro dão um chá muito bom nas icterícias; do suco do jutaí, que é travoso, faz-se xarope contra as catarreiras; o cozimento da casca da manaiara serve para lavar feridas; a casca da carapanaúba, também muito amargos a, é que nem quinino, para as febres”. (CRULS)

26 de Outubro de 1928

“A 26, transpúnhamos a linha do Equador - dias e noites com a mesma duração, surgindo subitamente, sem crepúsculo”. (RONDON)

 27 de Outubro de 1928

“Devemos ter dormido ontem sob o Equador. Não houve festas. Aliás, ao contrário do banho de que não se livram os neófitos á sua passagem sobre o bojo dos grandes transatlânticos, o ‘tour de force’ aqui seria que os mesmos, se acaso os há, se obstinassem em passar o dia em seco, sem que ao menos, uma só vez molhassem os pés”. (CRULS)

29 de Outubro de 1928

“A 29, nova série de corredeiras. O Rio transformara-se em pedreira, o leito era vazio, em degraus sucessivos, até atingir 20 metros sobre o nível que trazíamos. Parecia impossível levar a cabo nossa empresa. Mas não esmorecíamos e íamos alando as canoas a cabo, guindando-as, às vezes, sobre escadas que aí se construíam. É que nos empolgava um grande ideal! Depois de dois dias de luta Rio acima, foi preciso reparar as canoas avariadas pelo arrastamento sobre as pedras. E assim prosseguíamos, lutando com as maiores dificuldades. Era uma verdadeira epopeia”. (RONDON)

“Logo de saída, mata-se a primeira anta. A nossa canoa retarda-se na colheita de plantas e ainda estamos longe quando se ouvem os tiros que a prostram. Chego, porém, a tempo de ver esquartejar o animal e, no meio da sangueira, aproveito a oportunidade para aumentar de mais alguns exemplares a minha coleção de carrapatos, destinada a um amigo do Rio. Afigurou-se-me enorme o tapir, mas objetaram-me que há maiores, principalmente entres os de pelagem rosilha. Este é preto. O General recomendou que não lhe desprezassem o couro, bom alimento para os cachorros, que vão também passando as suas privações. Soube, depois, que o assobio dessa anta, revelador da sua presença no ponto em que foi abatida, se sucedeu aos gritos de um ‘gavião-pinhé’ (gavião carrapateiro), voando nas adjacências. Contou-me o General ser muito frequente essa coincidência, tida pelos índios como um apelo daquele animal para que o rapineiro lhe venha catar os carrapatos. O tapir responde aos guinchos do gavião, indicando o sítio em que se acha e onde se deita preguiçosamente, à espera que a ave baixe das alturas e a venha libertar dos incômodos parasitas. Saiu-lhe mal, entretanto, a prova de hoje, pois que eu também a despojei dos carrapatos, mas já depois de morta”. (CRULS)

Gavião-pinhé (Milvago chimachima): ave da família dos falconídeos de cerca de 40 cm de comprimento de asas e cauda longa, dorso marrom-escuro, cabeça, pescoço e partes inferiores branco-amareladas. Alimenta-se de carrapatos e bernes, além de lagartas, cupins e pequenos frutos. Conhecido pelos nomes de caracará-branco, caracaraí, caracaratinga, carapinhé, chimango, papa-bicheira, pinhé, pinhém, chimango, chimango-branco e chimango-carrapateiro e chimango-do-campo. O seu nome advém do grito agudo que emite e soa como "pinhé”.

03 de Novembro de 1928

“Apenas com quarenta minutos de percurso, começamos a ‘fraldejar’ (pela fralda ou encosta de monte, serra; costear) a ‘penhasqueira’ (série de penhascos; penhascal) do Resplendor e não leva muito estamos defronte das inscrições rupestres que serviram à designação da cachoeira. São quatro desenhos, de dimensões iguais, provavelmente com qualquer significação simbólica, que se repetem de espaço a espaço, sobre um paredão de granito. Como se vê de uma das nossas gravuras, há uma esquematização humana no lineamento dessas figuras, cujas cabeças se encimam de uma serie de raios em semicírculo. Madame Coudreau enxerga em tal diadema ou resplendor a representação de um ‘acangatara’ (espécie de diadema de penas usado pelos índios nas solenidades) indígena e não será para desprezar a sua comparação. O curioso é que, com ligeiras variantes essas figuras aparecem em outros petróglifos da Guiana, conforme me certifico no livro de ‘Im Thurn: Among the Indians of Guiana’. Assim, há no Rio, Corentine, a jusante da Cachoeira Uanitoba, certa pedra lavrada cujo desenho é muito parecido com os que vemos aqui. Apenas, afasta-os a diferença de tamanho. O do território inglês mede mais de quatro metros de comprimento enquanto os nossos não vão além de cinco largos palmos”. (CRULS)

10 de Novembro de 1928

“Por volta das oito e meia, junto á margem direita, no sopé de uma barranca, que se diria bastante trilhada, foram vistas mais duas ou três ubás. Tudo indicava que estivesse ali a entrada para algum aldeiamento e o General decidiu saltar. Acompanhavam-no o Benjamin e o Maravilha, enquanto nós outros, obedecendo às recomendações do Chefe, ficávamos ainda embarcados, guardando mesmo certa distancia do pequeno Porto onde foi abicar a sua canoa. Escoado algum tempo de angustiosa espera, acreditamos fracassado o intento de contato com os índios, porque os nossos companheiros regressaram sem ter visto um só deles, embora não lhes restassem dúvidas de ser ali mesmo uma das malocas, pois que haviam chegado até as suas habitações. Os silvícolas, mais uma vez, deviam ter fugido à aproximação dos visitantes, que em vão chamaram por eles e acabaram deixando-lhes alguns presentes. Quando, já desanimados, reencetávamos a marcha, alguns gritos surpreenderam-nos e, em pouco, dois vultos se entremostravam a medo, protegidos pelos esgalhos da barranca. Tornou atrás a canoa do General e foi então melhor sucedida. Os índios, provavelmente ainda cheios de temor, haviam voltado á maloca, mas aí foram ter de novo o General e o Benjamin, que, finalmente, acabaram por vê-los. Não levou muito que o Benjamin, no intuito de fazer-lhes novas dádivas, viesse até a beira do Rio e pedisse a aproximação da canoa que transportava o caixote contendo machados. Como essa era justamente a nossa, o General distinguiu-nos a mim e ao Sampaio, com um convite para que descêssemos por alguns momentos. Seria impossível tornar o oferecimento extensivo a todos. Entre tantos estranhos, os índios ficariam muito assustados. Foi assim que, pela primeira vez, vi alguns dos nossos aborígines, vivendo ainda da maneira a mais primitiva, quase como os devem ter encontrado, quatro séculos atrás, os primeiros navegadores. Infelizmente, eram muito poucos: três homens e uma mulher velha. Sem dúvida, ali mesmo, existiriam outros componentes do grupo, a julgar pelo número das redes suspensas na casa grande, e esses, que nos apareciam, seriam apenas os mais resolutos. Aliás, mulheres e crianças, em tais ocasiões, quase sempre são postas ao abrigo do olhar estrangeiro e, por certo, antes do nosso desembarque, houvera tempo bastante para que esses e outros elementos buscassem refúgio na mata. Tive excelente impressão dos tipos que nos rodeavam, sobretudo dos homens. Como já disse, a mulher era velha e algo adiposa. Afora o pequeno retalho de pano que lhes protegia o sexo, todos estavam inteiramente nus e, pintados de urucu, da cabeça aos pés, tinham extraordinária semelhança com figuras egípcias. Para isso contribuíam, além do colorido artificial, bem vermelho da pele, não só os traços fisionômicos, de olhos achinados e malares ligeiramente salientes, como também os cabelos pretos e luzidios, renteados em franja sobre o meio da testa e descendo até os ombros. Os homens, embora não muito altos, eram de bela compleição, com certo ‘entono’ (altivez) do porte e musculatura harmoniosamente desenvolvida. Dos três, um acusaria quarenta anos, no máximo, enquanto os outros eram bem mais jovens, talvez rapazes de vinte e poucos. A índia, a guisa de tanga, trazia um trapo encarnado pendente sobre o baixo ventre. Os homens, porém, usavam o ‘calimbé’ (espécie de tanga), ou rabo, faixa que, quando aberta, tem a forma de um T, cujo ramo longitudinal volteia o períneo e, já nas costas, de novo vai passar sob a cintura, para pender, por vezes, numa ponta, de onde aquele nome de rabo que lhe dão os habitantes do Rio Branco e Oiapoque. Esse traje, se assim me posso exprimir falando de indumentária tão estrita, é peculiar aos índios da Guiana e talvez lhes viesse do contato com os escravos fugidos. André Gide, reportando-se aos negros do Congo, descreve o mesmo ‘encacho’ (tanga). Quando o Sampaio e eu galgamos o talude, foi para cair logo em terreno bem roçado, onde, ladeando uma pista estreita, se viam arvores frutíferas e outras plantas cultivadas. Mais para diante, já em trecho de mato, esse caminho cortava uma grande área circular e bem limpa, talvez um centro de reuniões e festas, e só depois ia ter ao local das habitações, novo pedaço bem ensoalhado. A maloca era constituída por uma casa grande, arredondada, toda coberta de palha, e por dois outros ranchos ou tapiris, de proporções avantajadas. Foi nas suas imediações que nos demoramos mais tempo, distribuindo presentes e recebendo em troca algumas comezainas. O intérprete fez-nos imensa falta e embora déssemos de língua reciprocamente, só a mímica nos tirava de embaraço e permitia ligeiro entendimento com os silvícolas. Achei curiosíssima a maneira por que eles falam, sempre muito apressadamente e emitindo silabas bem ‘escandidas’ (destacando as sílabas). Essa linguagem picadinha, reunida à fixidez das suas fisionomias, ainda lhes imprime maior caráter ao tipo francamente asiático. Aliás, todos eles pareciam extremamente nervosos com a nossa presença e talvez não os víssemos tais como se apresentam na realidade. (...) O urucu é das matérias corantes mais em voga entre os indígenas, não só do Brasil como de outros pontos da América do Sul, e varias são as hipóteses feitas para explicar o hábito, muito frequente entre eles, de se pintarem, da cabeça aos pés, com a bela tinta vermelha que lhes fornece o invólucro das sementes daquela planta. Como não é raro que à mesma eles associem um óleo vegetal ou gordura animal, e também qualquer substancia aromática, como a ‘almécega’ (resina da aroeira), houve quem pensasse que por meio desse revestimento cutâneo eles se precatassem contra a picada de mosquitos e outros insetos. Crevaux, que a respeito interrogou um índio do Japurá, ouviu deste que com tal ‘induto’ (camada protetora) ele visava se conservar quente, isto é, resguardava-se das oscilações da temperatura ambiente. Para o Dr. F. Tripot, viajante da Guiana Francesa em 1907, o urucu, pela sua cor vermelha, deve proteger a pele contra os ardores do sol e destarte os indígenas, por simples intuição, usam o produto corante que, propondo-se a tal fim, lhes seria aconselhado pelos físicos e químicos mais avisados. Diz ainda o mesmo autor que, tendo-se avistado com numerosos indígenas, jamais encontrou algum que apresentasse cicatrizes de varíola e como esta doença é das que mais os atacam após o contacto com o civilizado, ele conjectura que ao induto de urucu, atuando propiciamente como em tais casos acontece com a luz vermelha, talvez se deva a falta de estigmatização por aquela febre eruptiva, uma vez que, sem dúvida, um ou outro dos silvícolas por ele observados, haveria de ter sofrido o seu acometimento. A menos que a doença, por extremamente virulenta, conduzisse sempre a um êxito letal, o que não é para acreditar. Em abono desse ponto de vista do medico francês, informou-me o Dr. Sinval Lins que em certas localidades do interior de Minas, visando à proteção da pele dos variolosos, há a pratica de se pintarem os mesmos com urucu. Tudo isso, que se mantinha até agora em plenos domínios do empirismo, vem de ser confirmado por curiosíssimas e ainda inéditas pesquisas do Professor Álvaro Ozório de Almeida, que assim se podem resumir: (...) Em suma: o índio nu, mas pintado de urucu, quando sob a ação dos raios solares, acha-se aproximadamente nas mesmas condições de um homem que, também nu, estivesse á sombra”. (CRULS)

Álvaro Ozório de Almeida: nasceu em Porto Alegre, RS, em 6 de novembro de 1882, doutorou-se em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1905, e faleceu a 6 de maio de 1952. Publicou estudos sobre a uremia, secreção antitóxica do rim, débito urinário, timbó, ancilostomose, sal industrial, papel do urucu na proteção da pele contra os raios solares, e o café.

15 de Novembro de 1928

“Em comemoração à data de hoje, o General pensava dar descanso ao pessoal. O nosso pouso era, porém, tão acanhado, que ele julgou mais acertado prosseguir a marcha até que se nos deparasse qualquer local para acampamento mais confortável. É seu desejo aproveitar-se dessa parada para reorganizar os serviços. Como o consumo de víveres vem diminuindo dia a dia a nossa carga, já não temos necessidade de tantas canoas e algumas vão voltar ao Breu para serem carregadas de novos gêneros e virem depois ao nosso encontro. Deste modo, não só teremos garantido um suprimento que já se nos ‘antolha’ (põe diante dos olhos) indispensável, como, pela supressão de muitas bocas, o que ainda nos resta, e não é muito, poderá prover por maior tempo ao sustento dos que ficam. As decisões do General são sempre prontas e assim que encontramos um pouso mais propício, situado á margem direita, onde desembarcamos ás dez horas...” (CRULS)

21 de Novembro de 1928

“O General considera esses campos de Tumucumaque como o Planalto do Norte ou Planalto Equinoxial, em contraposição ao Planalto Central do Brasil. Como acontece com Este último, o seu terreno também não é salitrado, mas isso em nada estorvará a indústria pastoril que aqui se há de desenvolver, em grande escala, mais cedo ou mais tarde. Para tanto, apenas será preciso fácil via de acesso à região, naturalmente uma estrada de rodagem que, partindo do Norte de Óbidos, passe pelos campos do Ariramba e do Urucuyana, onde o gado já encontrará bons sítios de repouso. Aliás, a necessidade dessa estrada, cujo comprimento total talvez não exceda de quatrocentos quilômetros, já se vem fazendo sentir desde que o Padre Nicolino certificou-se da existência dos campos, e outro não foi o motivo da viajem de Valente do Couto, a quem o Governo do Pará confiara à missão de estudar-lhe o traçado. Uma curiosidade desta região é que nela se reúnem elementos da flora e da fauna tanto dos campos do Sul como dos do Rio Branco. Assim, aqui medram o sobro e o catipé, duas árvores frequentes nos chapadões de Mato Grosso, mas que não existem no Norte. Em compensação, as codornizes que aqui se avistam, são as mesmas que voam no Rio Branco e campos da Venezuela. Por outro lado, as floras se aproximam e, como em Mato Grosso, vicejam aqui o capotão, a lixeira, a maria-preta e a semana. Apenas variam as designações que lhes dá o vulgo. A lixeira de lá é o caimbé daqui; a semana do Sul é o merixi do Norte; o merici acaule é a orelha de veado dos campos do Rio Branco”. (CRULS)

5 e 6 de Dezembro de 1928

“Ontem, pela primeira vez, não pude tomar uma só nota. Vou resumir agora o que foi a nossa tormentosa excursão ao Pão de Açúcar, da qual só tornamos hoje, ás dez horas da manhã, cansadíssimos e esfomeados. (...) o General resolvera ficar aqui por mais um dia, a fim de visitar aquele pico, de onde deveria obter excelente vista sobre a cordilheira. Para fugir as tediosas e intermináveis horas de estagnação no acampamento, o Gertum e eu assentamos de fazer o mesmo passeio e, ás sete horas, um pouco antes do General e do Benjamin, que logo a seguir nos vieram alcançar, pusemo-nos em marcha, através dos campos. De tal modo enganam as distancias que o Pão de Açúcar nos parecia, então, a três ou quatro quilômetros, e eu e o meu companheiro seguimos na certeza de que, quando muito, ao meio dia, poderíamos estar de volta. Tanto assim que partimos inteiramente desprevenidos de qualquer provisão de boca e nem mesmo o seu cantil, que nunca o abandona, foi lembrado pelo Gertum. Não tardou, entretanto, que nos apercebessem os de quanto era grande a nossa ilusão. Já havíamos andado umas boas duas horas e o Pão de Açúcar, sempre á nossa frente, ainda não mudara de aspecto e parecia tão longe como quando deixáramos o acampamento. E, assim, lá se foram mais outras duas horas; ainda a passo acelerado, quase sempre por terreno suave e limpo; mas, algumas vezes, atufados nas macegas, rompendo por brocotós e minhocaes, ou ainda transpondo cerros de solo pedregoso e híspido. Se minutos antes do meio-dia tínhamos atingido a falda do bloco de granito ainda nos foi preciso varar o espesso capão de mato que o circunda, e onde baldadamente andamos a procura de qualquer nascente ou veio d’água que nos dessedentasse. Durante todo o percurso não encontráramos uma só cabeceira e há muito já trazíamos a boca grossa e seca. Apenas, á entrada daquele mato, um providencial lagedo escavado guardava, de mistura com folhas mortas e outros detritos orgânicos, uma pouca de água de qualquer chuva recente e sobre ele nos acurvamos sôfregos, mais para refrescar os lábios do que mesmo para mitigar a sede, pois para tanto não dava o que ali se nos oferecia como uma dádiva divina. Agora, restava escalar o alcantil... A rocha, com aclives de 45° a 55°, surgia-nos escalvejada e escorregadia e por todo ponto de apoio nada mais víamos do que mesquinhas touças de ervas esturricadas e uma ou outra piteira, de longas folhas agressivas que, aqui e ali, muito espacejadamente, lhe mordiam a superfície. Contudo, foi a custo dessa vegetação de ramas urticantes e caules espinescentes que, aos agachos e recuanços, ferindo as mãos e rasgando as roupas, logramos gatinhar-lhe a lombada. Muitas vezes, cosidos à pedra e já a certa altura da penhasqueira, tivemos de retroceder caminho, pois diante de nós a escarpa novamente se apresentava desnuda e era preciso ir em busca de outras crostas de capim seco ou esgalhos de sarça bravia onde fincar os dedos, manter um pé ou escorar os joelhos, até que avançássemos mais alguns palmos. O Benjamin, de botinas grampeadas, tinha melhores pegadas sobre o granito resvaladiço e assim pode vencê-lo por onde o General, o Gertum e eu vimos baldadas algumas tentativas. Eram quase quatorze horas quando, exaustos e banhados em suor, atingimos o alto do pico, magnífico belveder sobre a cordilheira que estadeava à nossa vista a sua extensa cadeia de montanhas. Com exceção de alguns morros de Este, talvez as cabeceiras do Parú de Almeirim, apenas ervecidos, toda a serrania é em floresta, - uma fechada e portentosa floresta que se inicia ainda no plano, não longe da base do Pão de Açúcar e, logo a seguir, ganha os primeiros contrafortes e reveste todos os outros espigões. Ao alto do pico, há uma pequena coroa de vegetação xerófila e foi á sua sombra, bafejados por agradável brisa, que nos refizemos um pouco da árdua escalada, embora na aridez circunjacente não víssemos amostra de gota d’água com que suavizar a nossa sede cada vez mais ardente. Só nos demoramos por aí o espaço de alguns minutos, mas era de igual modo difícil a descida do respaldo clivoso (escarpado, em declive), do qual não nos livramos antes das quinze e meia e por onde, sempre aos escorregões, andamos novamente em luta com os caules espinhosos e as folhas farpantes”. (CRULS)

7 de Dezembro de 1928

“À hora do jantar, o General expõe-nos nova organização, que lhe parece urgente dar ao serviço. Escassos como vêm sendo os recursos de caça e pesca, é impossível pensar em levar até a fronteira um grupo tão numeroso como ainda somos, principalmente porque, daqui por diante, já não se poderá ter mais o auxílio das canoas e tanto o material como as provisões de boca terão de ser levados ás costas dos carregadores. Por outro lado, a marcha na cordilheira vai ser das mais penosas, uma vez que se trata de espessa floresta, exigindo a abertura de uma picada. Por tudo isso, é idéia sua que do Pão de Açúcar para cima, apenas sigam ele, o Benjamin e quatro a cinco homens, - o mínimo indispensável à boa realização do serviço. Deste modo, nós outros, os restantes, deveremos regressar á Base das Colinas, onde ainda temos uma pequena reserva de gêneros e mais fácil será a nossa estada. Conforme observou o General, com o alcance do Pão de Açúcar, a bem dizer está concluída a Inspeção de Fronteiras, que visa apenas o estudo das condições locais, sob o ponto de vista militar e nada tem com a demarcação de limites, afeta a outra Comissão. Ele, entretanto, não se contenta com o que já foi feito e quer chegar até pontos mais afastados, que lhe permitam conhecer de ‘visu’ não só as cabeceiras do Cuminá, na linha de fronteira propriamente dita, como ainda a Leste e a Oeste, fazer respectivamente o reconhecimento das cabeceiras do Parú de Almeirim e do Trombetas”. (CRULS)

22 de Dezembro de 1928

“Olho para todos esses sítios como quem se despede e faz um derradeiro adeus. Mas quem sabe lá? Se no início deste ano alguém me houvesse vaticinado vir finalizá-lo nos limites da Guiana Holandesa, isso se me afiguraria o maior dos absurdos. E, no entanto, aqui estou. Quando eu decidi esta viajem, não foram poucas as vozes que me clamaram:- ‘Mas que loucura! O que é que você vai fazer no Norte? Você não tem medo das febres? ’ Era-me difícil responder, mesmo porque muita gente ignora a existência de certas criaturas que já nasceram roídas pelo tédio e em cuja alma se pode ler o ‘Quosque eadem’? de Sêneca”. (CRULS)

Quosque eadem (Quê! Sempre as mesmas coisas?): Sêneca exprimia, com exatidão, a opinião que grassava entre os entediados pessimistas do seu tempo quando escreveu: “Há-os que, saciados de fazer e de ver sempre as mesmas coisas, tomam à vida não ódio, mas tédio (fastidium). É o estado a que nos leva a filosofia, quando dizemos: Quê! Sempre as mesmas coisas? (Quosque eadem) Acordar, dormir, estar saciado, ter fome, sentir frio, ter calor; nenhuma coisa tem fim, antes todas se sucedem eternamente no mundo umas às outras; fogem agora para logo se seguirem. A noite afugenta o dia, o dia a noite; o estio termina no outono, ao outono sucede o inverno, que dá lugar à primavera: tudo passa para voltar de novo (omnia sic transeunt, est revertantur); nada de novo faço, nada de novo vejo. Acontece algumas vezes que se é assaltado por um enjôo de tudo isto. Muitos são os que julgam que, se não é acerbo viver, é pelo menos supérfluo”.

11 de Janeiro de 1929

“Duas cousas nos fazem saltar em Oriximiná: conseguir um pouco de pão, de que andamos saudosíssimos, e visitar a igreja em que jazem os restos do Padre Nicolino. Esta está em ruínas e já não é mais a ermida que, no dizer de Gonçalves Tocantins, ‘se avista de longe como uma bonina’. Contudo, chegamos até os seus escombros e, sob um altar velho, abaixando-nos com grande dificuldade, podemos divisar uma lápide de cuja inscrição só conseguimos ler o Souza. Quase ás dezenove horas, já em águas do Amazonas, bate-me fortemente o coração, quando vejo, a certa distância, um pontilhado de luzes, que nascem á beira d’água e sobem tremulando pela encosta. É Óbidos, a Cidade que ainda há quatro meses me parecia tão humilde e pequenina e agora avulta aos meus olhos como um grande centro de civilização”. (CRULS)

 

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)
Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS)
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional
Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br
E–mail: hiramrs@terra.com.br

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