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Artigos - 19/01/2011 - 14h09

Desafiando o Rio-mar - Partida para Oriximiná




Por Hiram Reis e Silva

“O Rio Trombetas, que Acuña denomina Cunuris, e na língua geral é Oriximiná, não foi ainda navegado até as suas cabeceiras, porque numerosas e altas cataratas se contrapõem aos viajantes, que lhes vão procurar nos arredores a salsaparrilha e o cravo-do-maranhão. Acima das cachoeiras, dizem que o Rio corre através de campos. A sua bacia inferior é tão plana, como a dos demais afluentes do Amazonas, e comunica-se a ele por um furo Ocidental com o seu vizinho Rio Neamundá (Nhamundá, Iamundás). Até a foz Oriental deste último, calculam os navegantes em seis léguas a distância, que percorremos num dia.
 (Johann Baptist Von Spix e Carl Friedrich Philipp Von Martius. - 1819)

- Partida para Oriximiná (14 de janeiro de 2011)

Fui dormir cedo na véspera da partida, pois havia marcado minha partida para as 4h30 (horário do Pará). O enorme Estado do Pará possui apenas um fuso horário e como o município de Juruti se encontra no extremo oeste dele, isto significava que eu pretendia navegar em torno de duas horas à noite em uma área totalmente desconhecida. Instalei minha lanterna de cabeça e parti na hora marcada. O porto de Juruti é muito concorrido e isso exigia medidas adicionais de segurança. Segui a corrente pelo Paraná de Juruti procurando ficar próximo da Ilha de mesmo nome evitando a rota tradicional das demais embarcações. Como sempre os banzeiros estavam presentes sem dar trégua. Depois de contornar a ilha eu tinha de seguir rumo norte atravessando o canal onde trafegam os grandes navios. Chamei pelo rádio o Sargento Barroso e pedi que ele me ultrapassasse para que eu seguisse na sua esteira. Pretendia aproveitar a luz do holofote de popa para avistar as marolas marotas que surgiam de todos os lados. O Piquiatuba parou de repente para aguardar um grande navio que passava rumo a Manaus. Passados alguns minutos continuamos nossa jornada e pedi que avisassem ao piloto que mantivesse a velocidade de quatro nós (7,2 km/h). Só mais tarde soube que não dispunham de nenhum medidor de velocidade a bordo e apesar da Rosângela informar, insistentemente, o piloto de que eles estavam se distanciando demais de mim nada foi feito até a primeira parada. Embora eu tenha mantido um ritmo bastante forte, de 5 a 6 nós eu não estava conseguindo seguir na esteira da embarcação de apoio e, em consequência, não podia aproveitar as luzes do holofote trazeiro.

O banzeiro diminuiu e, finalmente, consegui manter a estabilidade do caiaque e me comunicar com o piloto determinando que ele parasse para me abastecer de líquido e tratar da forte dor muscular no trapézio. Estava começando a clarear no horizonte e determinei que a partir daquele ponto o Piquiatuba deveria me seguir. Agora já se podia avistar, com alguma dificuldade, a silhueta da ilha de Santa Rita que eu deveria contornar antes de penetrar no Paraná de Cachoeiri ao Norte dela. Entrei no Cachoeiri, às 7h30, e verifiquei que o Paraná possuía uma correnteza forte graças à sua grande profundidade, em torno dos 40 metros. Às 10h45 avistei o Rio Trombetas, rumei para a margem esquerda do Paraná para facilitar sua abordagem. Colado na margem procurei diminuir o ritmo das remadas economizando energia para atravessar o belo afluente do Amazonas. Felizmente o Trombetas ainda estava muito baixo e não tive qualquer dificuldade em passar para sua margem esquerda. Chegamos ao Porto de destino, às 11h15, e depois de um banho ligamos para o irmão Capitão Marcelo, comandante da Polícia Militar em Juruti. Mais uma vez os irmãos da PM demonstraram sua disposição em nos ajudar e conseguimos graças aos seus contatos ficar hospedados gratuitamente no excelente Oriximiná Hotel, administrado pela senhora Kátia Maria Feijão Ribeiro.

- Visita ao Lago Iripixi (15 de janeiro de 2011)

“A natureza é nossa, nós temos que preservá-la. As pessoas não têm a consciência de coletar seu lixo e isso é prejudicial. Aqui a gente não vê mais o boto, muitos peixes já sumiram”. (Dinéa Machado)

Às nove horas abastecemos a voadeira e seguimos rumo ao Lago Iripixi. As areias brancas e as águas limpas do Lago são convidativas. Conversamos com populares, visitamos o belo Parque de Exposições José Diniz Filho e tomamos um revigorante banho no Lago. Infelizmente a beleza da natureza é ameaçada com a poluição irresponsável de quem não se preocupa com o meio-ambiente. Cacos de vidro, plásticos e outros detritos maculavam aquela bela obra da natureza que estava sendo corrompida graças à sua proximidade com o núcleo urbano.

- Tour em Oriximiná

À tarde o Mário conseguiu um veículo com um amigo, o que nos permitiu conhecer a bela cidade. O ponto mais marcante foi, sem dúvida, a Praça do Centenário idealizada pelo ex-prefeito de Oriximiná: Raimundo José Figueiredo de Oliveira (1975/1985). Criada com o objetivo de comemorar os 100 anos de Oriximiná a Praça foi totalmente remodelada pelo Prefeito Luiz Gonzaga Viana Filho e inaugurada em dezembro de 2003. Um projeto arquitetônico inovador e harmonioso que incluiu espelhos d’água em diversos níveis onde repousam enormes tambaquis.

- Tudo Justo e Perfeito

“Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união. É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes. Como o orvalho de Hermom, e como o que desce sobre os montes de Sião, porque ali o SENHOR ordena a bênção e a vida para sempre”. (Salmo 133)

Os caros irmãos da Loja Maçônica Vitória Régia convidaram a mim e ao Teixeira para um fraternal bate-papo. O convívio fraternal foi acompanhado de muitas histórias, lendas e boa música que reproduziremos em artigos futuros e no próximo livro.

- Visita ao Lago Caipuru e ao Rio Cuminá (16 de janeiro de 2011)

“Recebo carta amiga contando a morte de Gastão CRULS (...) Imagino a saudade com que todos estão recordando aqueles convites para a Rua Amado Vervo, na pequena casa decorada com lembranças da viagem ao Amazonas, o sorriso enternecido à lembrança de suas brincadeiras, que tinham um perfume de meninice, de primeiro-de-abril antigo - os presentinhos anônimos, os cartões disparatados que deixavam risonhos e intrigados os seus destinatários”. (Rachel de Queiroz - Revista O Cruzeiro - 29 de Agosto de 1959)

Às dez horas partimos de voadeira rumo ao Lago Caipuru. As raízes retorcidas da vegetação de várzea me fizeram lembrar Mamirauá. Descemos nas belas praias e registramos suas imagens para a posteridade. Partimos, então, para o Cuminá. A simples lembrança de que Rondon ali estivera, acompanhado de Gastão Cruls, fazia com que a emoção tomasse conta de todo o meu ser. A decisão de Cruls de abandonar os livros de lado e se embrenhar definitivamente na Hiléia para vivenciá-la tinha muito a ver com minha decisão de levar adiante o Projeto Aventura desafiando o Rio-mar.

Gastão Cruls, filho de Dr. Luís Cruls, foi médico sanitarista, geógrafo, astrônomo e romancista, nasceu na Cidade do Rio de Janeiro, em 4 de maio de 1888, e nela faleceu a 7 de junho de 1959. Formou-se em Medicina em 1910, especializando-se em medicina sanitária. A partir de 1926 dedicou-se exclusivamente à literatura. De 1931 a 1938 dirigiu a revista literária Boletim de Ariel. Suas obras procuravam retratar a vida brasileira, em especial a realidade Amazônica. Seu romance “A Amazônia Misteriosa” (1925), baseado nas mitológicas Amazonas, foi transformado em filme em 2005, com o título de “Um Lobisomem na Amazônia”. A sua obra embora tenha como cenário a região Norte do país, era ainda desconhecida pessoalmente pelo autor. Em 1928, Cruls resolveu conhecê-la pessoalmente acompanhando a expedição do General Rondon, que subiu o Rio Cuminá até os campos do Tumucumaque nos anos de 1928 e 1929. A viagem iniciou a 13 de setembro de 1928 e, Cruls retornou após ter chegado aos campos situados ao Sul da cordilheira do Tumucumaque, seguindo o conselho de Rondon, enquanto esse e sua equipe continuaram até chegar às próprias cordilheiras. O livro “A Amazônia que eu vi” é fruto dessa viagem que Cruls relata na forma de diário de viagem. O relato de Cruls, ao contrário dos demais viajantes que o antecederam, não possuía nenhum interesse econômico, e outros integrantes da equipe, por sua vez, se encarregavam dos objetivos científicos, sua função na expedição era simplesmente de ser o seu “cronista”. Cruls demonstra, ao contrário dos pesquisadores europeus, um profundo respeito pela cultura regional reportando as informações colhidas junto aos membros mais humildes da expedição.

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)
Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS)
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional
Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br
E–mail: hiramrs@terra.com.br

Os artigos publicados com assinatura não representam a opinião do Portal Pantanal News. Sua publicação tem o objetivo de estimular o debate dos problemas do Pantanal do Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso, do Brasil e do mundo, garantindo um espaço democrático para a livre exposição de correntes diferentes de pensamentos, idéias e opiniões. redacao@pantanalnews.com.br

 

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Comentários
Raimundo Carvalho, em 22/01/2011 - 00h42

Muito bom

 
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