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Artigos - 25/10/2010 - 07h21

Bolsa tradução e indústria editorial




Por Bruno Peron Loureiro

Dentro da copiosa produção literária brasileira, parte ínfima dos autores se faz conhecer em nível nacional e menos ainda fora das fronteiras do país. As indústrias editoriais selecionam aqueles de maior potencial para alavancar as vendas no setor. Afortunadamente há políticas públicas que impulsionam os de menor potencial, mas que não deixam por isso de ter qualidade.

O Ministério da Cultura, através da Fundação Biblioteca Nacional, criou o Programa de Apoio à Tradução de Autores Brasileiros, cujo objetivo é ampliar a presença de escritores brasileiros no mercado editorial internacional. O Ministério dedicou R$364 mil para o Programa em 2010 a fim de incluir vários gêneros literários, autores menos conhecidos e de regiões diversas.

A "bolsa tradução", que se dirige a editores nacionais e estrangeiros, é como se alcunhou o Programa que visa a inserir outros autores brasileiros num circuito privilegiado. As traduções ao espanhol, francês, alemão, inglês, etc difundem expressões das culturas nacionais em contextos onde somos tendencialmente estereotipados.

Estrangeiros de países diversos têm interesse em nossas expressões culturais, mas o idioma português é para muitos uma barreira intransponível. As traduções, portanto, despertam a curiosidade na nossa produção científica e na ficcional, que é tão merecedora quanto a de autores de países mais desenvolvidos tecnicamente.

Há que resistir à pressão do desmerecimento de nossa ciência, culinária e idioma. Parte dela se impõe mediante a primazia do inglês nas publicações de artigos científicos em revistas arbitradas, a adoção de hábitos alimentares fúteis e nocivos à saúde, a linguagem de estrangeirismos nos "delivery" de pizzas e os "drive thrus". A "bolsa tradução" insiste no fortalecimento e na divulgação do próprio antes de que nossas obras não precisem mais de traduções.

Com isso, não prego a recusa do estrangeiro, que se soma à disposição acolhedora do Brasil, senão a defesa da soberania cultural e linguística que nos caracteriza como brasileiros.

É preciso realizar o sonho de um mundo em que os pequenos também tenham vez e exportar visões outras que as de meia dúzia de escritores privilegiados.

A Feira do Livro de Frankfurt homenageará o Brasil em 2013 com a oferta bibliográfica de um estande de 2.500 m², o que impulsiona este segmento do mercado editorial. A Feira escolhe um país por ano desde 1988 para apresentar sua produção literária. Recorda-se de que o Brasil já participou em 1994, mas terá nova oportunidade. Ainda assim, um novo presente dos Céus.

Uma crítica que surge é de que o aparelhamento (financeiro, humano, etc) do Brasil para a Feira do Livro de Frankfurt é a resposta a uma política que não é nossa. O país deveria ser, diferentemente, o agente promotor de políticas culturais que nos divulguem no exterior, por exemplo com o fortalecimento dos Centros de Estudos Brasileiros (CEB).

Quando aumenta a leitura de livros de nossos autores e o interesse dos estrangeiros no Brasil, eles vêm para cá e financiam o turismo, geram empregos no setor e anulam as impressões falsas que tinham dos brasileiros. O governo da Colômbia propôs uma política cultural em canais internacionais de televisão, como em Cable News Network (CNN), ao tentar amenizar estereotipos e dizer que, naquele país, o único risco é de que o turista queira ficar.

Este programa governamental que incentiva a tradução de livros brasileiros financia também editoras estrangeiras que, por tabela, incluem outros escritores nacionais.

A questão é: se a produção literária for boa, por que não divulgá-la a um universo mais amplo de leitores? O Programa de Apoio à Tradução de Autores Brasileiros insere nossos escritores num circuito de relevância imensurável. É um acréscimo de ânimo ao escritor saber que seu livro é lido no ultramar e noutro idioma.

Estados Unidos e França divulgam suas culturas e fortalecem suas identidades nas artes visuais. O cinema estadunidense é uma indústria próspera do setor cultural que alavanca outros interesses daquele país, inclusive o militar. Não é à toa que turistas brasileiros pagam caro e passam horas na fila do Consulado em São Paulo para sacar o visto de viagem àquele país.

As políticas do Ministério da Cultura para o setor editorial, portanto, fazem muito mais que dar uma bolsa de alguns milhares de reais para que se traduzam autores brasileiros. É um serviço de divulgação do Brasil no exterior que, a médio e longo prazos, converte-se em ganhos para outros setores nacionais, como o turismo.

Toda a cadeia (produção, circulação e consumo) da indústria editorial aufere benefícios de um Programa como este, desde os direitos autorais do escritor até a publicidade da obra. A cultura é o esteio de políticas públicas em países que levam o ser humano a sério.

 

*Bruno Peron Loureiro é mestre em Estudos Latino-americanos por FFyL/UNAM.

*Bruno Peron Loureiro es maestro en Estudios Latinoamericanos por FFyL/UNAM.



http://www.brunoperon.com.br


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