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Artigos - 11/10/2010 - 07h57

Popularidade e urna-mania




Por Bruno Peron Loureiro

    
O processo eleitoral de urnas eletrônicas é eficiente, rápido e seguro no Brasil, o que justifica os elogios internacionais. A técnica, porém, avança num ritmo muito mais rápido que a cultura política onde dois fenômenos marcaram as votações de primeiro turno em 3 de outubro de 2010: a busca de alternativas e o voto na popularidade do candidato.

A candidata ecologicamente correta mas politicamente dúbia Marina Silva, do Partido Verde (PV), angariou um quinto dos votos para a presidência e superou a expectativa rotineira de número baixo para terceiro lugar. Pouco mais de 19% do eleitorado buscaram uma opção distinta dos "joysticks" do "video-game" capitalista, representados esta vez por Dilma Rousseff (46%) e José Serra (34%).

Além da pré-seleção que as emissoras de televisão fizeram de candidatos para a participação nos "debates", personalidades da comédia, esporte e sexualidade fizeram valer sua popularidade para a conquista de votos. Assim o divertido Tiririca e o craque Romário garantiram seus lugares na Câmara de Deputados, uma vez prestigiosa casa de leis tupinica.

Muitos eleitores afobaram-se para se livrar da votação, obrigatório para qualquer cidadão tupinica de entre 18 e 70 anos, e votaram, por conseguinte, em protesto ou escolheram de última hora em quem depositar seus votos de confiança. Num futuro próximo, nem recordarão de seus semblantes, quanto menos cobrarão pelas promessas que os vencedores fizeram em campanha.

O Tribunal Superior Eleitoral criou uma Central do Eleitor de modo a facilitar a relação entre os cidadãos e a Justiça Eleitoral. Mais um "canal de comunicação" que faz de tudo para ocultar qualquer rastro da meia-cidadania, tão imanente à cultura política do país.

De um universo de pouco mais de 135 milhões de eleitores, 24 milhões (18%) abstiveram-se e 111 milhões (82%) compareceram às urnas. 3,13% votaram em branco e 5,51%, nulo para o cargo de presidente. É um grande avanço a mobilização deste número de pessoas num único dia, a despeito das faltas signiticativas, e a definição dos resultados poucas horas depois do voto do último eleitor ainda que não se houvessem apurado todas as urnas.

O processo eleitoral no Brasil desperta a reação de líderes latino-americanos. Hugo Chávez demonstrou preferência a que vença Dilma Rousseff no segundo turno, enquanto Evo Morales se dispôs a ser parceiro de qualquer que ascenda vitorioso, embora o mandatário admire explicitamente o presidente em despedida Luiz Inácio Lula da Silva, cuja sombra persistirá no Palácio do Planalto conforme declaração dele mesmo.

A discussão sobre o processo eleitoral no Brasil reaparece no momento em que os meios de comunicação hegemônicos (jornal O Estado de São Paulo, revista Veja, canal de televisão Globo, etc) manifestam preferência pelo candidato José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Algumas vezes esta opção é patente. O editorial do jornal tradicional O Estado de São Paulo "O mal a evitar", de 26 de setembro de 2010, manifesta o apoio a Serra.

A Globo e a Record tiveram a audácia de excluir vários outros candidatos dos "debates" na televisão com a justificativa de que não pontuaram suficientemente nas insidiosas e oportunas pesquisas de intenção de voto. Como uma parcela considerável da população escolhe seus candidatos pelo filtro da televisão, acabam por desconhecer propostas outras.

O caduco Plínio Arruda Sampaio, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), preferiu o caminho da crítica e a difamação de seus adversários à apresentação de propostas convincentes da esquerda. Desperdiçou parte do precioso tempo que lhe concederam para falar através da ágora digital dos tempos atuais, pois se perdeu na papelada da mesa e apresentou poucas propostas.

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), Partido da Causa Operária (PCO) e Partido Comunista Brasileiro (PCB) formaram uma frente de esquerda com a expectativa de ganhar visibilidade, mas pouco transcenderam os círculos dos sindicatos e as universidades. Seus idealizadores ainda não conseguiram atualizar os velhos motes e convencer, portanto, um eleitorado mais amplo.

O protesto não pode ser tamanho a ponto de promover o convite de astros da piada e do futebol para alavancar seus eleitores nas próximas eleições.

Houve eleitores que leram programas de governo, assistiram a entrevistas e revisaram propostas a fim de escolher seus candidatos, enquanto outros resmungaram dos poucos minutos que passaram no domingo de 3 de outubro de 2010, como se a atividade fosse onerosa demais para desvio de rotina, e digitaram números que não caberão na memória.

O voto eletrônico não é novidade no país, mas a busca de alternativas dentro de um leque selecionado pelos meios de comunicação é um passo que o eleitorado dá a fim de manifestar que está mais ativo no processo eleitoral. A tentativa, no entanto, é incipiente e de pouco vigor.

O moderno sistema eleitoral deste país convive, destarte, com o tradicionalismo da cultura política.

O desconhecimento do processo eleitoral torna o eleitor vulnerável a desperdiçar seu voto a fim de se livrar do "fardo" (para muitos) do comparecimento às urnas.

A Justiça Eleitoral avança anos-luz onde falta dignidade nas salas de aula.



http://www.brunoperon.com.br

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