zap
   

especiais

seções

colunistas

blogs

enquete

Na sua opinião, o Pantanal já sente os efeitos do desmatamento?
Sim
Não
Não sei
Ver resultados

tempo

newsletter

receba nosso newsletters
   
Rádio Independente

expediente

Pantanal News ®
A notícia com velocidade, transparência e honestidade.

Diretora-Geral
Tereza Cristina Vaz
direcao@pantanalnews.com.br

Editor
Armando de Amorim Anache
armando@pantanalnews.com.br
jornalismo@pantanalnews.com.br

Webmaster
Jameson K. D. d'Amorim
webmaster@pantanalnews.com.br

Redação, administração e publicidade:
Aquidauana:
Rua 15 de Agosto, 98 B
Bairro Alto - CEP 79200-000,
Aquidauana, MS
Telefone/Fax (67) 3241-3788
redacao@pantanalnews.com.br

Escritório:
Corumbá:
Rua De Lamare, 1276 - Centro
CEP 79330-040, Corumbá, MS
Telefone: (67) 9235-0615
comercial@pantanalnews.com.br
pantanalnews4@terra.com.br

 
Artigos - 03/03/2010 - 08h25

Paixão Côrtes um garimpeiro da tradição




Por Hiram Reis e Silva

Na esquina da Rivadávia com a Rua Uruguai, entre a casa dos pais e a dos avós maternos, o menino João Carlos ouvia todos afirmarem: foi bem aqui que o argentino José Hernández, depois dos entreveros da Guerra do Paraguai, começou a declamar os primeiros versos do célebre Martim Fierro. Nada melhor para um moleque curioso, que um dia entregaria a vida à pesquisa da cultura popular’. (Carlos Urbim)

- João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes

“Nascido a 12 de julho de 1927, em Santana do Livramento, de pai agrônomo e mãe dotada de boas qualidades musicais, Paixão Côrtes parece ter sintetizado essas duas marcas - formou-se em Agronomia, e é artista também, não do canto, mas da dança - e ao mesmo tempo parece haver ultrapassado os limites do que se poderia esperar de alguém com sua história. Por quê? Porque ele é um dos sujeitos diretamente responsáveis pelo nascimento da atual voga gauchesca. ‘Um dos’ é muito pouco: Paixão Côrtes é um dos dois formuladores e animadores decisivos do movimento tradicionalista gaúcho - o outro é o falecido Luiz Carlos Barbosa Lessa, a quem nosso entrevistado se refere como ‘o Lessa’, um sujeito quieto, com pendor literário e intelectual, de alguma maneira o oposto complementar de Paixão, mais arrebatado, mais homem de ação e iniciativa.

A estrada foi longa e cheia de percalços. Começa, talvez, na vivência campeira. Segue na experiência de peão, desempenhada todas as férias, em contraponto com a vida escolar urbana em Santana, Uruguaiana e Porto Alegre, sucessivamente. Continua, quem sabe, na dura passagem em que perde o pai e precisa trocar o colégio privado pelo público, o diurno pelo noturno, a vida relativamente inconsequente pelo trabalho. Deslancha, a partir de 1947, quando se junta com amigos igualmente interioranos e saudosos da vida agauchada (entre os quais Lessa) e com eles literalmente inventa uma tradição: a de fazer vigília de um fogo tirado à Pira da Pátria, que arderá dali por diante pela imaginária, afetuosa, desejada ‘pátria’ sul-rio-grandense”. (Carlos Urbim - escritor e jornalista)

- Um vizinho ‘folclórico’

Cidreira é uma de minhas opções para descanso, treinamento, confecção de artigos e leitura nos fins de semana. Vagando de caiaque pelas lagoas litorâneas, passeando pelas atlânticas praias, escrevendo ou me dedicando simplesmente ao ócio, recupero celeremente minhas energias. Em Cidreira, volta e meia, encontro um dileto vizinho e amigo que outrora passava horas a conversar na varanda da casa com meu saudoso pai – o mestre Paixão. Meu pai, Cassiano, um carismático contador de estórias, era acostumado a monólogos onde discorria, sem parar, numa roda de prosa, sobre os assuntos os mais variados. Somente diante do Mestre Paixão, meu querido pai se calava e se tornava um ouvinte atento. A cultura do Paixão é invulgar, mas o que, talvez empolgue e contagie a todos que o cercam é a sua sabedoria e a vibração com que trata das coisas do nosso Rio Grande. Há uma energia telúrica que brota da alma do maior nativista que o gauchismo já conheceu. No último fim de semana me presenteou com uma publicação sobre o Laçador, símbolo da terra gaúcha, que acho importante reproduzir.

- O Laçador, símbolo da terra gaúcha e sua nova morada

“Antônio Caringi procuro-me em minha residência (na Rua Sarmento leite, 101, em Porto Alegre) para que posasse para o traço de seu lápis, o barro e o gesso de seus dedos. Como possuía uma espécie de museu, com trajes típicos, laços, boleadeiras, esporas, guaiacas, tirador, cuias, bombas e outros apetrechos, Caringi esteve várias vezes em minha casa. Tomava detalhes de mãos, braços, gestualidade e equilíbrio do tronco e pernas, peculiaridades e assentamento de cada peça ao corpo. Estas seções duravam de uma a duas horas, com as devidas paradas. Estava eu com 26 anos.

Assim, na grandiosidade da sua alma de artista, Caringi começava a criar e a modelar o seu ‘Laçador’, símbolo de um dos tipos mais característicos do homem rural gaúcho. Desta forma surgiram aspectos sobre peças do vestuário do futuro Laçador.

1) Tirador: espécie de avental de couro curtido e sovado que identifica sobremaneira a figura do Laçador e que protege a coxa do gaúcho na hora do correr o laço no momento da sujeição do animal. O artista o fez um pouco mais curto para usar melhor harmonia plástica na visão das pernas da figura humana na escultura. E o fez no tamanho perfeitamente dentro dos parâmetros campeiros.

2) Laço: eu havia ganhado do velho campeiraço bageense Severino Paes um laço que, pelo seu tamanho, era bastante raro: 14 braças e trança de quatro tentos. Assim usado em razão da dificuldade que o gaúcho de antanho tinha frequentemente para acercar-se de animais semi-selvagens, muito ligeiros e perigosos, embora o campeiro procurasse montar cavalos ‘buenos de pata’ para laçar ‘campo a fora’. Ao manusear o laço demonstrativamente para Caringi formei uma armada maior, de acordo, abrindo-a adequadamente, de tal modo que essa, na parte inferior, ficasse apoiada no solo e a segurei, junto com as demais rodilhas harmonizadas em uma só mão, à direita, enchendo-a vigorosamente. Foi uma preocupação que tive para evitar eventuais discussões.

O laço, com suas respectivas voltas não pequenas e apropriadamente enrodilhadas, não estava disposto de forma rígida, mas caía bem ao natural, pois era sovado a pealo. Arrematava as extremidades desta peça a característica ilhapa, junto da argola (grande) proporcional ao comprimento do laço de um lado e, na outra, a presilha.

3) Guaiaca: espécie de cinta de couro largo, onde, por meio de repartições, guarda-se dinheiro e documentos, e que se destina a ajustar a bombacha à cintura. Esta usada pelo Laçador teve como inspiração um modelo antigo que eu possuía: de duas fivelas, com flores em relevo (tipo fabricado por Abramo Eberle de Caxias do Sul) e discretos medalhões metálicos ornamentais em sua extensão, aspectos estes a lembrar, através de tais formas cinzeladas, o bom gosto da ourivesaria sul-rio-grandense em peças da vestuária gaúcha. O mesmo cabe para a fivela do tirador.

4) Bombacha: singela, sem exagero de panos, despida de plissados ou ornatos maiores (‘mondonguinhos’, ‘fofos’) e adequada às rudes lides do viver campestre. Enfim, uma bombacha como Mestre Caringi bem conhecia: não festivalesca. Foi dimensionada à sua sensibilidade plástica.

5) Lenço: foi disposto por Antônio Caringi em uso distinto ao do hábito atual. Seguiu modelo dantes. Mostrei-lhe como, passado ao redor do pescoço, tinha suas extremidades bem nas pontas, disposição esta que, num entrevero de ‘ferro branco’, permite ao gaúcho desvencilhar-se do lenço quando eventualmente seguro pelo desafiante durante a peleia. Em razão de o lenço ser dobrado em retângulo deviam aparecer ‘as duas mosquinhas’ (dobras angulares) às costas. O escultor deu-lhe assentamento ao seu gosto estético.

6) Camisa: simples, com gola e mangas dobradas e arregaçadas, adequadas à funcionalidade do laçar, botando a descobertos o vigor muscular dos braços e do peito seminu do campeiro, condizentes ao tipo de exercício árduo do seu trabalho quer nos parecer.

7) Botas: preferiu esculpi-las em modelo rústico, a ‘meio-pé’ (aparecendo dedos e ‘meia planta’ do pé assentada no solo), lembrando a bota ‘de garrão de potro’ modelo artesanal primitivo que lhe mostrei em peça do meu acervo museológico. Este objeto está até hoje longe da vivência campesina. Na concepção simbólica do artista a bota-de-meio-pé dá uma integração mais íntima e telúrica do homem-terra e chão nativo. O Laçador não está descalço e nem de alpargatas ou chinelos.

8) Vincha: fita estreita de pano, ou tento, disposta à cabeça, servia para prender ou sujeitar a abastada cabeleira que os gaúchos de outrora costumavam portar, cabelos estes, muitas vezes, aparados por afiadas facas. Pelos meus registros a vincha aparece com mais frequência na iconografia de ‘los gauchos cisplatinos’. Foi uma opção do escultor. Assim como o acréscimo de esporas ‘encabrestadas’ (tipo ‘chinela’ ou ‘papagaio’ virado para baixo) para dar mais assentamento plástico à figura maior, o motivo, junto ao pedestal de sustentação da estátua. A faca à cintura foi outra iniciativa sua” (Paixão Côrtes).

- Sítio do Laçador

“A ‘nova morada’ do Laçador está situada a 600 metros do antigo local, no oficial Largo do Bombeiro, popularizado erroneamente por Largo do Bombeador. Compreende espaço de 4 mil m² na Avenida dos Estados, em frente ao Terminal 2 do Aeroporto Internacional Salgado Filho, no sentido Porto Alegre-BR 116.

... Contextualmente a área tem os seguintes setores:

Coxilha do laçador: espaço circular e todo gramado. Em seu cume está localizado o complexo com a estátua a 3,50 metros de altura. Por sua vez o Laçador está assentado em pedestal trapezoidal de granito de 2 metros de altura, onde definitivamente está afixado em conjunto basilar de 4,45 metros. Está disposta frontalmente para quem chega à capital gaúcha pela estrada rodoviária da Região Nordeste do Estado ou para quem se desloca do Aeroporto para o Centro de Porto Alegre. Para quem deixa a cidade o Laçador transmite um olhar de adeus ou até breve!

Recanto da Tradição: dispostas retilineamente oito belas palmeiras (Jerivás) homenageiam de forma simbólica os nomes do ‘grupo dos 8’, comandados por Paixão Côrtes, que iniciaram a cavalgada em 1947 e que motivaram o nascimento do atual Movimento Tradicionalista Gaúcho. Bancos de cimento com capacidade para 130 pessoas completam o cenário.

Largo dos gaúchos: área ampla e livre de 1000 m² destinada para atividades de lazer e eventos comunitários. Nesse espaço está localizado colorido desenho da ‘rosa dos ventos’, com efeitos de pedras originais portuguesas.

Plataforma cívica: construção de 70 m² para atos cívicos ou acontecimentos comunitários diversos. Está à disposição para acendimento da chama Crioula do Movimento Tradicionalista ou outros eventos.

Estacionamento: existe um espaço especial para estacionamento de dezenas de veículos, ônibus turísticos e transportes escolares. Ainda, nos 4.000 m² do Sítio destacam-se vários anéis verdes com coloridas flores nativas sobressaindo-se a ‘Brinco de Princesa’, flor símbolo do Rio Grande do Sul”. (Paixão Côrtes).

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)
Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS)
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional


Os artigos publicados com assinatura não representam a opinião do Portal Pantanal News. Sua publicação tem o objetivo de estimular o debate dos problemas do Pantanal do Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso, do Brasil e do mundo, garantindo um espaço democrático para a livre exposição de correntes diferentes de pensamentos, idéias e opiniões. redacao@pantanalnews.com.br

 

Siga as notícias do Portal Pantanal News no Twitter:
www.twitter.com/PantanalNews

Compartilhe


Deixe o seu comentário

Todos os campos obrigatórios. Seu e-mail não será publicado.

Nome:

E-mail:

Seu comentário:
Sistema antispam

Digite aqui o código acima para confirmar:


 

zap2
Comentários
 
Últimas notícias do canal
04/09/2017 - 09h11
3ª Etapa da Expedição Centenária Roosevelt-Rondon (Parte III)
04/09/2017 - 09h06
3ª Etapa da Expedição Centenária Roosevelt-Rondon (Parte II)
04/09/2017 - 09h01
3ª Etapa da Expedição Centenária Roosevelt-Rondon (Parte I)
28/07/2017 - 16h47
Chapéu Bandeirante
24/07/2017 - 09h01
Atentado à Vida de Plácido de Castro
 
Últimas notícias do site
14/09/2017 - 17h12
Vídeo: Ministro oficializa migração de 23 rádios da frequência AM para FM
14/09/2017 - 17h00
Vídeo: Ministro assina documento que autoriza migração de rádios AM para FM em MS
14/09/2017 - 10h45
Raras girafas brancas são observadas em parque no Quênia
14/09/2017 - 10h20
'Geladeira solidária' disponibiliza alimentos de graça em São Carlos, SP
14/09/2017 - 10h05
Corpo de Bombeiros combate incêndio de grandes proporções em frigorífico
 

88

Untitled Document
 ® 2009  

CPN - Central Pantaneira de Notícias
PantanalNEWS - Marca registrada 1998-2009
Todos os direitos reservados.