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Pesquisa no Pantanal - 20/10/2009 - 16h33

Método contra picada de cobras em animais é eficaz há mais de 20 anos









Por Redação Pantanal News/Embrapa Pantanal

O ano era 1986. A região era o Pantanal da Nhecolândia, de acesso difícil por conta das grandes cheias da planície pantaneira. O local, a fazenda Nhumirim, o campo experimental da Embrapa Pantanal. O grupo, pesquisadores do Instituto Butantã, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro e Embrapa Pantanal (Corumbá-MS). Todos liderados pelo então pesquisador da Embrapa Instrumentação Agropecuária (São Carlos-SP), Antônio Pereira de Novaes.

A missão, testar e validar nos animais da fazenda um revolucionário protocolo para tratamento de bovinos, equinos e até cães, em casos de picadas por serpentes do gênero Bothrops – jararaca (a popular boca de sapo), cotiara, jararacussu e outras, bastante comuns na região e em todo o Brasil.

O fator revolucionário era que o tratamento dispensava o uso do tradicional e mundialmente aceito soro antiofídico – preconizado por ninguém menos que Vital Brasil – e defendia apenas o uso de anti-inflamatório não esteróide combinado com diurético.

“O sistema de saúde não liberava [e ainda não libera] soro antiofídico para animais, e eles tendiam a morrer depois das picadas. Tivemos, então, de encontrar uma alternativa”, explica Novaes, que esteve em Corumbá no dia 16, quando foi palestrante de abertura da 3ª Mostra de Agricultura Familiar.

À tarde, ele falou sobre o procedimento antiofídico para pesquisadores e assistentes da Embrapa Pantanal (Corumbá-MS), Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Ação
Novaes explica que o veneno das serpentes botrópicas é cinco vezes menos potente que o da cascavel, e que sua ação ocorre com edema e necrose na região da picada. “Nos casos de picadas de serpentes botrópicas, o soro tem ação ineficaz, pois o edema não o deixa penetrar na área afetada”, afirma Novaes.

“O maior problema é o edema causado pela reação à picada, que pode levar o animal à morte por asfixia, além da necrose e perda de membros ou deformidades. A ação do anti-inflamatório [não esteróides inibidores da síntese de prostaglandinas, a exemplo dos diclofenacos] ajuda a desfazer o edema, e o diurético ajuda a eliminar o veneno sem risco para o animal, pois ele não tem efeito letal na corrente sanguínea. Em até três dias o animal está totalmente recuperado”, diz.

Novaes ressalta que o procedimento opcional, com antiinflamatório e diurético, não serve para casos de picada de serpentes como cascavel e coral verdadeira, pois seu veneno é muito potente e tem ação rápida e letal na circulação sanguínea. “Um boi adulto só seria capaz de sobreviver à picada da cascavel se pesasse ao menos duas toneladas, o que não é o caso”, reforça.

O procedimento desenvolvido por Novaes e seus parceiros é aceito internacionalmente, e em um quarto de século tem ajudado a salvar vidas de milhares de animais sem a necessidade de recorrer ao soro antiofídico, muito pouco acessível, especialmente em regiões remotas do Brasil.

Hoje aposentado da Embrapa e palestrante requisitado pelo setor agropecuário em todo o país, Novaes demonstra grande satisfação em ver a técnica desenvolvida por sua equipe há mais de 20 anos ser largamente aceita e utilizada. “Dia desses vi no Globo Rural o consultor do programa, Enrico Ortolani [professor titular de medicina veterinária e zootecnia da USP], recomendar o nosso protocolo para casos de picada em animais”, orgulha-se.

Obstáculos
Mas nem tudo foi sucesso no desenvolvimento do protocolo. Novaes lamenta duas coisas. A primeira foi o fato de não ter havido divulgação e publicidade suficientes sobre o novo procedimento. “Houve uma certa divulgação na época, mas depois enfraqueceu”, conta.

O outro ponto negativo foi a descrença da comunidade científica no novo método. “Estávamos nos contrapondo, de certa forma, ao célebre Vital Brasil, e isso foi visto com maus olhos por muitos no nosso meio. Diziam até que se tratava de ‘cascata’, papo furado. Mas não ligamos muito para isso e focamos no resultado, que é positivo e aceito até hoje”, conclui.

Para o chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Pantanal, Thierry Tomich, o retorno de Novaes à Unidade representa um resgate histórico de uma pesquisa depois de tantos anos. “É um marco para nós, pois se trata de dar retorno sobre uma pesquisa cujo resultado é importantíssimo para o Pantanal, para o Brasil e o mundo”, afirma.

Pesquisadores, produtores rurais, veterinários e zootecnistas, além de professores e estudantes, podem baixar o artigo de Novaes e sua equipe em formato PDF através da Internet, no
site da Unidade de Aperfeiçoamento Científico (Unac International). A partir de hoje, o artigo de Antônio Novaes está disponível, também, para download na página da Embrapa Pantanal, na seção ‘Acesse Também’.

 

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