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Artigos - 07/08/2009 - 07h57

Os Massacres do Rio Urubu




Por Hiram Reis e Silva

“(...) chorou o último a aleivosia daqueles Tupuias no fatal incêndio de trezentas Aldeias, depois da Mortandade de setecentos homens dos mais valorosos da suas nações, e o cativeiro de quatrocentos (...)” (Bernardo Pereira Berredo)

 

Minha preparação intelectual para a descida do Rio Negro tem contemplado a leitura dos mais diversos temas relativos àquela região. São relatos de historiadores, geógrafos, naturalistas, pesquisadores, militares em missões de demarcação de fronteiras, viajantes e poetas. Fui presenteado, recentemente, pelo venerável mestre e amigo Altino Berthier Brasil com uma obra rara, a terceira edição do livro ‘Annaes Históricos de Bernardo Pereira Berredo’ e sofregamente me debrucei sobre ela procurando identificar fatos que tivessem relação com minha próxima descida pelo Rio Negro. Um deles me chamou especial atenção que foi a missão comandada pelo Sargento Mor Antonio Arnau Vilela no rio Urubu, afluente do Negro. Já havia lido diversas crônicas e mesmo poemas a respeito e achei na obra de Berredo a descrição mais fiel até então reportada e que procuro compartilhar com meus leitores. 

- Aldeamentos e Descimentos 

“(...) A vinda do primeiro governador geral acompanhado de seis jesuítas, entre eles o padre Manoel da Nóbrega, significava um esforço da Coroa para manter a soberania sobre a colônia contra os ataques estrangeiros e, principalmente em submeter os índios inimigos e integrar os aliados. Isso se faria através da guerra justa e da política de aldeamentos, respectivamente. (...) Iniciava-se a política de aldeamentos, cuja função era a de reunir os índios aliados em grandes aldeias próximas aos núcleos portugueses. Ali estabelecidos, inicialmente sob a administração dos jesuítas, iriam se tornar súditos cristãos para garantir e expandir as fronteiras portuguesas na colônia e servir aos colonos, missionários e autoridades, mediante trabalho compulsório num sistema de rodízio e pagamento irrisório. (...)

 Em meados do setecentos, a nova legislação indigenista de Pombal, estabelecida através do Diretório dos Índios, foi o primeiro passo para a política assimilacionista que iria se acentuar no século XIX. Expulsos os jesuítas, a nova lei (escrita inicialmente para a Amazônia e depois estendida às demais regiões da América portuguesa) visava transformar as aldeias indígenas em vilas e lugares portugueses e os índios em vassalos do Rei, sem distinção alguma em relação aos demais. Incentivou-se a miscigenação e a presença de não índios no interior das aldeias. (...)

 Para civilizar e assimilar os índios, procedia-se, conforme as diferentes situações. Assim, em algumas regiões efetuavam-se descimentos e estabeleciam-se novas aldeias; em outras desencadeavam-se guerras consideradas justas e, em áreas de colonização antiga, onde existiam aldeias seculares, pregava-se sua extinção com o argumento de que os índios já estavam civilizados e misturados à população”. (Povos indígenas no Brasil - Maria Regina Celestino de Almeida)

 - Annaes Históricos

 Cruel Epidemia 

“Na sucessão do ano de 1663 se conservava o Estado do Maranhão no mesmo sossego, em que o tinham posto as acertadas providencias do seu Governador; e ainda que uma cruel epidemia, que vagava, por ele havia muitos meses, afligia os ânimos dos seus Moradores, como todos os golpes deste fatal flagelo só descarregavam sobre os pobres índios (ordinário sucesso em semelhantes casos pelas disposições da sua natureza), consolavam a mágoa de tamanha perda com a esperança de ressarci-la com duplicados juros na geral concessão dos seus resgates, além dos descimentos, de que lhes deixava o uso mais livre para os interesses do serviço comum a nova forma de administração, que já tratavam como confirmada, regulando-se pelas promessas dos seus Procuradores na Corte de Lisboa, que esforçava também Ruy Vaz de Siqueira.

 Os Descimentos

 A capacidade deste Fidalgo soube bem atalhar o fatal precipício, a que caminhava aquele Estado na geral comoção de todos os povos; e para fomentar as mesmas esperanças, de que se alimentava o seu sossego, lhes antecipou a posse na expedição de várias Missões, escoltadas de Tropas para as segurarem no ministério de descimentos, e resgates de Índios dos vastos Sertões das Amazonas,e caudalosos rios, que lhe tributam as suas águas.

 Sargento Mor Antonio Arnau Vilela

 Por um destes rios, chamado Urubu, que quer dizer corvo (nome, que tomou de serem assistidas as suas praias de infinito número destas fúnebres aves), entrou uma das Tropas que comandava o Sargento Mor Antonio Arnau Vilela, dando calor a uma das Missões, de que era Diretor o Padre Frei Raimundo, Religioso Mercenário, de conhecido préstimo, para tão santo emprego; e os Principais das nações Caboquenas, e Guanevenas, Tapuias belicosos, buscando logo ambos, empenhadamente os persuadiram com as demonstrações de maior amizade, a que se encaminhassem para as suas terras, que não estavam longe, já com os seguros de que achariam nelas abundância de escravos: e que dos naturais também desceriam algumas Aldeias, para a vizinhança das muitas, que sabiam seguravam bem a sua fortuna na nossa sujeição.

 As liberais promessas, de que se valiam estes bárbaros, eram mui poderosas para os interesses de Antonio Arnau, e o Padre Frei Raimundo; e deixando vencer-se com pouca repugnância da repetição delas, guiados ambos dos mesmos Tapuias, desembarcarão nas primeiras terras do seu domínio com tal satisfação da sinceridade do seu ânimo, que Antonio Arnau, só para mostrar a boa disciplina, levantou logo uma trincheira de pau a pique, junto do mesmo porto, que também cobrindo as embarcações, que tinha nele, segurava a sua retirada: porém estes abortos da racionalidade, que só discorrem com mais que instinto nos desatinos da sua aleivosia, para melhor dissimularem, a que conspirava contra a inocência de tão incautos hospedes, pedirão com instâncias ao Sargento Mor alguns Soldados, que os ajudassem na condução de uns escravos seus, de que lhe queriam, fazer oferta, em fiéis primícias da sua amizade; e como as ambiciosas recomendações da mesma promessa concorriam muita para tirar as dúvidas, nenhuma houve para o conseguirem.

 Dez Soldados, com maior número de Índios, dos de melhor nome, sacrificou Antonio Arnau ao ídolo da sua cegueira; e caminhando todos na companhia daqueles bárbaros já corno arrastados do fatal destino do seu Comandante, assim que entrou a noite, se virão insultados de uma grande emboscada, não só antecipadamente prevenida pelos mesmos traidores, mas também reforçada por eles. Morreram logo quatro Soldados com alguns dos Índios, e todos os mais manietados servirão então de primeiro despojo á sua aleivosia, depois sem dúvida à brutalidade da sua gula; porque nunca mais houve noticia certa destes infelizes.

 Lisonjeados do feliz sucesso de uma traição tão abominável, intentarão segunda; porque sabendo bem, que não haveria testemunhas, que os condenassem para o castigo da primeira, unidos já todos na mesma madrugada, tornaram a buscar o Sargento Mor com a nova ficção de levar atados alguns dos Companheiros com título de escravos; e asseverando, que a escolta que lhes dera, tinha passado mais adiante, para assistir á condução de outros, que necessitavam de mais segura guarda, por ser maior o número. Antonio Arnau, preocupado todo dos fatais influxos das mesmas esperanças, sem mais exame, nem militar cautela, lhes fez patente a sua ‘cahissára’, de que aproveitando-se o aleivoso ânimo daquelas feras racionais, o cercaram logo, como demonstração de fiéis alvoroços; e com os mesmos paus, que levavam nas mãos, que chamam de jucár (que quer dizer matar), ordinárias armas de muita parte das nações Tapuias, lhe descarregaram pelas costas repetidos golpes na cabeça, de que caiu Morto.

 Com iguais circunstâncias o acompanhou na mesma desgraça o Alferes Francisco de Miranda, com mais alguns Soldados, e Índios amigos; e salvando-se só de toda a nossa gente, a que com passos apressados buscou as canoas, que estavam no porto, logrou também esta fortuna o Padre Frei Raimundo com o seu Companheiro; mas ambos mal feridos.

 Alferes João Rodrigues Palheta

 Ficaram estes brutos senhores do campo; mas permitiu a alta Providência, que cantassem só nele o bárbaro triunfo da sua aleivosia; porque sabendo, que o Alferes João Rodrigues Palheta se achava na Aldeia de Saracá (a que dá nome um espaçoso lago, de que bebe todas as suas águas o mesmo rio Urubu), o buscavam também, como nova vítima da sua fereza, com o grande poder de quarenta e cinco canoas, quando já informado do sucesso, se lhe opôs com cinco, acompanhado só de dezoito Soldados: e não se querendo ainda aproveitar das vantagens da terra, os atacou no mar tão valerosamente, e com tanta fortuna, que vingou bem a fatalidade de Antonio Arnau, degolando a maior parte deles.

 João Rodrigues Palheta era natural da Vila de Serpa, uma das Províncias do Alentejo, e filho de Manoel Martins, que assim como a Pátria (por serem ambos pais de tão honrado filho) merece bem as recomendações da posteridade, que também se deviam de justiça aos mais Companheiros na gloria do triunfo, se nas memórias dele ficassem a dos seus nomes; lastimoso silencio, de que se queixam todas as Histórias nas ações mais ilustres da nação Portuguesa.

 Tenente General Pedro da Costa Favela

 Festejou a notícia desta ocasião o Governador Rui Vaz de Siqueira com as demonstrações, que ela merecia; mas como ao mesmo tempo teve também a da aleivosia daqueles bárbaros Tapuias, não se dando ainda por satisfeito de tão justa Vingança (...)

 (...) nomeou por seu Tenente General a Pedro da Costa Favela, que saiu do rio de Belém do Pará em 6 Setembro com uma Armada de trinta e quatro canoas, que guarneciam quatro Companhias de Infantaria, governadas pelos Capitães Francisco Paes, João Duarte Franco, Francisco da Fonseca e Gouvêa, e Francisco de Valadares Souto-Maior, fazendo este último o ofício também de Ajudante de Tenente General, e o primeiro de Sargento Mor, a que assistiam por Ajudantes Manoel Coelho, Antonio Corrêa Lobo, Manoel Coutinho, e Antonio Manso, e quinhentos Índios, que obedeciam aos Principais das suas nações; e depois de alguns dias de favorável navegação, tomou terra na grande Aldeia dos Tapajós, a que dá o nome um dos soberbos rios, que desembocam no das Amazonas, como já fica referido.

 Aqui se deteve Pedro da Costa até 24 de Outubro na proveitosa recondução de muitos Principais da sujeição do Estado, que atemorizados dos belicosos Caboquenas, e Guanevanas, à que não podiam fazer oposição por falta de forças, se refugiaram com todos os vassalos no centro dos Sertões dos seus próprios domínios; e buscando agora menos a guerra, que os ameaçava, do que a sua vingança, a seguravam no valoroso braço de Pedro da Costa, que se fez à vela naquele mesmo dia na derrota do primeiro porto dos inimigos, em que entrou ditosamente em 25 de Novembro.

 Desembarcou logo as suas Tropas; e separando delas as que lhe pareceram necessárias para a defesa das embarcações, que segurou bem com uma trincheira sobre o mesmo porto, com todas as mais se pos em marcha, na qual o deixarei penetrando destemidamente os ásperos Sertões daqueles bárbaros, por pertencer ao ano seguinte a relação deste sucesso na ordem das memórias.

 O guerreiro espírito do Governador, que não sossegava na expedição das suas providencias para o castigo dos Índios aleivosos, sem que de mais perto interessasse nele a mesma pessoa, logo que despediu o seu Tenente General, se empregou todo na formatura de novos esforços; e seguido dos maiores do Estado, depois de, vencidos os fortes embaraços, que se lhe opunham, saiu da Cidade de Belém pelos princípios de Novembro na direitura da Fortaleza do Gurupá, onde desembarcou dentro de poucos dias; mas ainda que se adiantou a toda a diligencia da sua atividade até a grande Aldeia, que recebe o nome do rio Xingu, como as dependências do governo político das Capitanias o chamaram com pressa, não continuou naquela jornada, muito apesar dos marciais ardores, que o conduziam; e encarregando um crescido socorro ao Sargento Mor Antonio da Costa, se recolheu ao Pará já no fim deste ano, último sucesso para as memórias dele.

 Sargento Mor Antonio da Costa

 Entrou a nova sucessão de 1.666, e o Sargento Mor Antonio da Costa, que seguia os passos do Tenente General, o achou já bem ensanguentado no merecido açoite dos inimigos; mas reforçado mais com este socorro, multiplicou tanto os seus estragos, que chorou o último a aleivosia daqueles Tupuias no fatal incêndio de trezentas Aldeias, depois da Mortandade de setecentos homens dos mais valorosos da suas nações, e o cativeiro de quatrocentos, que arrastando cadeias na Cidade de Belém do Pará, como aparatos da vitória, fizeram maior a celebridade nos interesses dela. Todos os que se acharam nesta expedição tão cheia de perigos, grangearam créditos para a sua fama; porém além dos Oficiais já nomeados, só nos deixou especial memória, na distinção do nome, o Alferes Antonio de Oliveira”. (Berredo).

 

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)

Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br

 

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