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Artigos - 25/07/2009 - 07h27

Rondon e o Conde de Lippe




Por Hiram Reis e Silva (*)

“A disciplina e a hierarquia são fundamentos ancestrais de nosso glorioso e invicto Exército, herdados da velha Lusitânia e cuja perenidade deve ser preservada, pois como disse o consagrado historiador Gustavo Barroso: Todos nós passamos. O Brasil fica. Todos nós desaparecemos. O Brasil fica. O Brasil é eterno. E o Exército deve ser o guardião vigilante da eternidade do Brasil”

(Manoel Soriano Neto)

 

 

- Conde de Lippe

 

Em 1762, Espanha e França determinaram que Portugal fechasse os seus portos aos navios ingleses, com a recusa por parte do governo português, desencadeou-se a guerra. Tropas espanholas invadiram o território português tomando Miranda, Bragança e Chaves. O Marquês de Pombal, então, por indicação do governo britânico, contratou para comandar as tropas portuguesas que, com ajuda de forças britânicas, se preparavam para entrar em ação, um oficial prussiano, inglês de nascimento, denominado Conde Guilherme de Schaumburg-Lippe. O Conde de Lippe assume o posto de Marechal do Exército e se torna o ‘encarregado do governo das armas de todas as tropas e Diretor-Geral de todas as armas’.

 

Lippe conhecendo a limitação das tropas portuguesas, limitou-se a uma guerra de posições, procurando impedir que os espanhóis invadissem Portugal. Daí o nome de Guerra Fantástica, já que toda ela decorreu sem ser travada uma única batalha digna de nota. A estratégia funcionou, tendo em vista que Espanha, na época, estava mais preocupada com questões de disputas territoriais mal resolvidas na América do Sul. Com a Paz de Fontainebleau, Lippe continuou reorganizando as forças militares, estabelecendo planos, introduzindo novos métodos de instrução, técnicas, táticas, estratégias, sistema defensivo de fronteira, determinando o reparo das fortificações existentes e ordenando a construção de outras. Passou a vigorar, então, a genuína disciplina prussiana, os militares eram ‘disciplinados’ com varadas, açoites, prisões e  fuzilamentos.

 

- Rondon - ‘o Disciplinador’

 

“Em junho de 1894, isto é, 2 meses depois do nascimento de Benjamim, vim ao Rio trazer a família. Passei, por isso, a chefia da Comissão ao comandante do contingente, a quem deixei instruções minuciosas, de modo que, em minha ausência, prosseguisse a construção regularmente. No dia da partida, já a bordo as bagagens, recebi um telefonema: os soldados da comissão haviam-se revoltado e, depois de expulsar os oficiais, entregavam-se no acampamento, em Quebra-Pote, à mais desenfreada orgia, quase todos em estado de embriaguez.

 

O tempo era limitadíssimo para agir. Por outro lado como partir deixando a Comissão entregue à indisciplina? Não hesitei.

 

- Ordenança, o meu cavalo.

 

Embora temendo que me não fosse possível regressar a tempo, acatou minha Esposa essa decisão, habituada já a me ver sair vitorioso nos lances difíceis. Parti em desabalado galope. Montava um vigoroso cavalo preto que, ao chegar ao acampamento, estava branco de espuma. Refreado de súbito, o animal sentou-se. Com um salto, desmontei.

 

- Corneteiro, tocar a reunir soldados acelerado. Repita! Repita!

 

Os soldados obedeceram ao toque, os embriagados instintivamente acompanhando os que ainda conservavam o raciocínio.

 

- Corneteiro, gritei novamente, tocar a reunir oficiais, acelerado. Repita! Repita!

 

Vieram estes se aproximando, deixando a mata onde se haviam refugiado. Formados todos, fiz sentir aos soldados a gravidade do ato praticado. Tinham-se tornado indignos da farda que traziam. Os oficiais foram também severamente admoestados:

 

- Um oficial não pode abandonar o seu posto - nele morre, se necessário for.

 

Destaquei depois um pelotão para ir à mata buscar varas. E durante uma hora, foram os soldados, em forma, vergastados. Depois de deixar cada um no seu posto, regressei amargurado. Doía-me profundamente ter sido forçado a recorrer ao processo do Conde de Lippe. Entreguei-me a amargas reflexões sobre o fato de serem sempre enviados, para trabalhar na comissão, homens indisciplinados, na fase ainda da ‘obediência forçada’. E sob a impressão desse melancólico incidente partimos. (...)

 

Fomos, pois, residir em Cascadura. Mas, não seria de longa duração essa temporada deliciosa, porque eu deveria regressar em breve para minhas funções em Mato Grosso. Ao partir, formara o projeto de regressar por terra do Rio a Uberaba, por estrada de ferro, e de Uberaba a Cuiabá, a cavalo. Para isso incumbira o inspetor Salatiel Cândido de Moraes e Castro de me esperar em Uberaba, com a minha preciosa besta, a Barétia. (...)

 

A viagem realizou-se como planejara. Passei três dias em Uberaba, reorganizando a volta pela picada da linha telegráfica de Uberaba a Goiás, passando por Monte Alegre fronteira de Minas e Goiás - Morrinhos, Atolador e, finalmente, Goiás. Aí permaneci uns dias a fim de combinar com meu colega o melhor meio de executar as ordens recebidas. Era esse o Capitão Eduardo Sócrates, chefe do 15° distrito telegráfico, a quem cabia o trecho de Goiás ao Araguaia. O 16° distrito, a meu cargo, de Cuiabá ao Araguaia, prolongava-se agora até a estação Marechal Floriano, instalada em Goiás, à margem do rio Claro.

 

Prossegui, então, viagem para Cuiabá, passando pela cidade de rio Claro, ainda em Goiás, e Registro do Araguaia. Cheguei, finalmente, ao acampamento da reconstrução da linha, onde, pelos oficiais, tive notícia de graves acontecimentos passados em minha ausência. Fora necessário que o comandante do distrito militar enviasse um reforço com oficiais da guarnição, para tomar conta do acampamento e restabelecer a ordem. Tudo estava sanado quando cheguei, mas a atitude dos soldados era de franca indisciplina - nessa situação é que retomei minhas difíceis tarefas.

 

A construção da linha telegráfica exigia trabalhos penosos a que se não queriam submeter os soldados - eram por isso contínuas as deserções no contingente, a ponto de ser necessário mandar prender os desertores, para manter o princípio de autoridade. É que os soldados enviados ao contingente da Comissão eram os maus elementos indisciplinados, entre eles os cem revoltosos da fortaleza de Santa Cruz.

 

Resolveram eliminar-me: na hora do pagamento, matariam os oficiais e tomariam conta do cofre do contingente. Mas vinte praças que estavam envolvidas na conjura, se acovardaram e fugiram à noite, sendo descoberta a fuga na chamada do dia seguinte. Foi quando um sargento revelou o plano que uma das praças levara ao seu conhecimento, antes de fugir. Mandei organizar dois contingentes, fortemente armados, com ordem de prender os fugitivos ou atirar, caso não obedecessem. Seguiram os dois pelotões pelas duas estradas que conduziam à Bolívia, e um deles conseguiu reconduzir os trânsfugas presos ao acampamento.

 

Expliquei-lhes a gravidade do que haviam praticado e, mais ainda, do que haviam planejado. Expliquei-lhes, por outro lado, que a disciplina do sertão tinha de ser a disciplina de um lugar onde não havia cadeia. Resolvi desligar os menos culpados e fazê-los recolher ao batalhão. Mandei, porém, que o cabeça ficasse em frente à minha barraca, as mãos amarradas ao pau da bandeira, a olhar para o seu comandante, a meditar sobre a sinistra idéia de o querer assassinar. O soldado começou a chorar.

 

- Você se emociona agora, mas não deu provas de sensibilidade quando planejou matar seu comandante e o do contingente.

 

Assim ficou ele durante uma semana, levando as noites a chorar em altos brados. Não convinha torná-lo objeto de pena, por parte dos companheiros. Chamei, pois, o comandante do contingente:

 

- Vamos soltar o soldado. Que ele venha à minha presença, em frente ao contingente formado.

 

Disse-lhe, então, depois de rememorar a culpa:

 

- Você vai ser perdoado, primeiro, porque foi antes levado pela energia de seus sentimentos egoístas sem ser propriamente cruel; segundo, porque é um covarde, incapaz de arrostar com as consequências de seus atos. Quero, porém, declarar que é indigno de ser soldado. Vou mandar que se recolha ao batalhão uma vez que na Comissão não poderá continuar. Procure lá dar provas de que se regenerou. A efervescência continuava, porém, bem como os planos de assassinar o chefe, os oficiais e tomar conta do contingente. Assim é que fui forçado a ir de encontro a meus princípios religiosos e lançar novamente mão do processo do Conde de Lippe.

 

Foi quando o Capitão Távora, comandante do 8° Batalhão de Infantaria, em ofício que me dirigiu, reclamou contra medidas disciplinares e métodos de trabalho que considerava prejudiciais aos soldados, entre os quais figuravam praças do batalhão por ele comandado, em serviço da construção de linhas. Tratava-se de um ofício de um capitão para outro, de um comandante de um Batalhão de Infantaria para um chefe de importante Comissão Técnica. Aliás, em boa ética, deveria o Capitão Távora ter-se dirigido ao Capitão Chefe da Comissão Telegráfica, por intermédio do Comandante do Distrito Militar e da Diretoria de Engenharia.

 

Minha resposta foi altiva, reação de intensidade igual à da agressão. Lançara eu mão do único meio de manter disciplina no sertão, entre homens que eram afastados de suas funções, no Rio, justamente por serem insubordinados. Sempre me repugnara o processo do Conde de Lippe, porque, como meu grande chefe prático, punha o bem estar do soldado acima do meu próprio: ‘primeiro o soldado, o oficial fica com as sobras’. Aquele processo ia, além disso, de encontro a meus princípios religiosos. Fora em desespero de causa que me vira forçado a dele lançar mão.

 

Não se conformou o Capitão Távora com a minha resposta. Pondo a questão no pé de ser ele meu superior hierárquico, pelo fato de ser capitão mais antigo do que eu, deu imediatamente parte ao comandante do Distrito Militar, a quem enviou cópia da minha resposta e exigiu Inquérito Militar. Atendendo à requisição do Capitão Távora, foi nomeada uma comissão para instaurar o Inquérito Militar, sendo eu arguido, e diversos soldados.

 

Sustentei que fora levado a tomar pela necessidade iniludível de manter a disciplina e a ordem militar. Resultou desse inquérito a nomeação, pelo comandante do Distrito Militar, de um Conselho de Guerra a que respondi em Cuiabá, sendo o processo enviado para o Rio, ao Ministro da Guerra.

 

Tão penosas ocorrências não me desviavam uma linha das minhas tarefas: a reconstrução da linha telegráfica e a construção da estrada estratégica. A situação prolongou-se e, só depois de alguns meses, em janeiro de 1895, fui chamado ao Rio, para responder ao mesmo Conselho de Guerra a que respondera em Cuiabá.

 

Normalizadas, felizmente, as relações com a República Argentina, abandonou o Governo o plano de construir a estrada estratégica, destinada à passagem de tropas, e suspendeu os trabalhos. Pude, pois, ficar no Rio, à espera da solução do triste incidente. Foi o caso confiado ao General Belarmino de Mendonça(1), ajudante general. Depois de minucioso estudo do processo, enviou-o ao Ministro da Guerra, com as informações necessárias, de acordo com as provas dele constantes e o Ministro determinou que fosse ‘arquivado por improcedente’. Mais tarde, mandou o comandante do distrito que fosse eu em ordem do dia louvado e agradecido por serviços prestados”.

 

(1) O General Belarmino de Mendonça foi chefe da Comissão Mista de Reconhecimento do Rio Juruá em 1904 que tinha como objetivo determinar a fronteira peruvio-brasileira.

 

Fonte: VIVEIROS, Esther de – Rondon conta sua vida - Brasil, Rio de Janeiro, 1958 – Livraria São José.

 

 


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