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Artigos - 20/07/2009 - 11h57

Rondon e os Bororos




Por Hiram Reis e Silva (*)

“Que sabe o brasileiro em geral de Rondon? Que era de origem índia e dedicou sua vida à reabilitação e à dignidade do silvícola. Que hoje está velho e cego e que no coração da nossa floresta ocidental há um imenso trato de terra batizado por Rondônia - em homenagem a Rondon. Nada mais. Quem foi esse homem, como viveu nos anos que lhe preparam a grandeza, qual o tecido dos fatos, heranças e influências, responsabilidades pela trama integral daquela personalidade de eleição”. (Rachel de Queiroz - 1957).


- Nomeação

 Em julho de 1900, foi nomeado para participar da Comissão Construtora de Linhas Telegráficas cujo objetivo era estabelecer a ligação entre a Capital da República e as fronteiras com a Bolívia e o Paraguai. Rondon, entusiasmado, comenta que para empregar militares neste tipo de missão seria necessário que se lhes modificassem, gradativamente, os hábitos guerreiros, ao mesmo tempo que se lhes incutissem idéias de fraternidade.

 

- A Missão

 

“Comandas. E no olhar tens um tal magnetismo

E tanto em ti confia a grei que te acompanha

Que, às cegas, desceria ao mais profundo abismo,

Galgaria, ao teu mando, a mais alta montanha.”

(Bastos Tigre)

 O paludismo e a polineurite infligiram sérias baixas à comissão. Das 81 praças que haviam iniciado os trabalhos só restavam 30 acometidas pelas doenças. As baixas obrigam Rondon acumular funções o que o faz sem esmorecer e sem perder o foco principal de seu objetivo.

 Paludismo (Malária): é uma doença infecciosa aguda ou crônica causada por protozoários parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos pela picada do mosquito Anopheles.

 Polinevrite (Polineurite): é o acometimento difuso e cinético de vários nervos periféricos mistos onde transtornos sensitivos, motores e autônomos ocorrerão.

 “Regressei ao acampamento a pensar na tremenda responsabilidade quase insuperável, que ia enfrentar em minha vida de soldado e de engenheiro. Ia acumular as funções de meu ajudante, de explorador e locador, às minhas próprias, já tão difíceis, sobretudo porque estava a Comissão incompleta. Mas tudo enfrentaria com a firmeza habitual, sem vacilação, olhos fitos no objetivo que me havia imposto a mim próprio. E o serviço continuou no ritmo habitual, basta ler os diários: ‘distribuiram-se e prepararam-se postes, fizeram-se buracos, continuou o trabalho na picada...’ como se tudo estivesse correndo normalmente.

 Claro que os trabalhos de exploração e locação passaram a ser feitos por mim. Foi quando recebemos a visita do Chemejera Oarinc Ecureu e do pagé Báru (céu) acompanhados de seus respectivos estados maiores e de turmas de caçada. Eram índios de Kejare e de Tatarimana. Partiram, depois da demora habitual, para Itiquira, prometendo visitar a Comissão, quando esta chegasse àquela localidade.

 A 9 recebia telegrama do presidente de Mato Grosso, Almirante Alves de Barros. Animava-me a prosseguir nos trabalhos sem interrupção e assegurava que tudo seria providenciado. Alegrei-me, a despeito do telegrama do Vilhena, informando que não poderia atender ao meu pedido de saque, por não haver verba especial para a construção naquele ano, pelo fato de não ter sido ainda aproveitada a verba de 100 contos votada no ano anterior. Felizmente um telegrama de Dr. Manoel Murtinho comunicava ter o Ministro de Indústria prometido abrir novo crédito de 100 contos.

 Eram cada vez maiores as dificuldades com o pessoal. As 81 praças com que haviam sido iniciados os trabalhos estavam reduzidas a 30. O impaludismo e a polinevrite grassavam; houve muitos casos fatais, tornou-se necessário evacuar os mais doentes para a guarnição de Cuiabá. Deram-se, além disso, 17 deserções. Em tão desanimadoras circunstâncias, lembrei-me de meus amigos bororos. Haviam-me eles prometido visitar-me, para assistir à inauguração da Estação de ltiquira. Não me negariam, certamente, o desejado auxílio. Lancei-lhes, pois, um apelo.

 Realmente, a 20 de março chegava ao acampamento de Curugugua-bárado (ninho de gavião) o Pagé Báru, acompanhado de mais de 120 índios, entre homens, mulheres e crianças. Recebi-os com a cordialidade habitual e, enquanto não chegava a gente do Chemejera Oarine Ecureu, combinei com o Pagé Báru o trabalho de seus índios - fariam a limpeza da picada, trabalho que a remoção de troncos, deixados pela derrubada, tornava penoso.

 Os índios chamavam Rondon de Pagmejera (grande chefe). Os caciques se tratavam por uma titulação menor: Chemejera. Quando os visitava Rondon era saudado efusivamente:
 Paqui-megera, aregodo! Boe-migera curireu!
 Nosso grande chefe chegou! O grande chefe bororo!

 Uma semana depois chegava um emissário do Chemejera Oarine Ecureu. Estava ele acampado nas proximidades, sem poder prosseguir, por causa de um índio doente, para o qual pedia remédio a Pagmejera. Ao chegar a Meajau haviam os cachorros do índio - da turma de caçada - acuado uma onça. Correu ele a acudir-lhes e travou luta com a fera. Tratava-se, porém, de uma onça preta (adugo choreu) e ‘quem matar adugo choreu ou veado mateiro’, dizem os índios, ‘morrerá dentro de pouco tempo e não de morte natural’. O índio limitou-se, pois, a defender-se ficando bastante ferido. Enviei medicamentos, com as instruções necessárias e, passados alguns dias, chegava ao acampamento de Cugaroboreu (areia preta) onde nos encontravamos, o Chemejera Oarine Ecureu, com 150 índios, entre eles o índio ferido, convalescente e com as feridas cicatrizadas.

 Como a turma do Pagé Báru, traziam tudo quanto lhes pertencia, inclusive seus papagaios e araras. Depois dos habituais discursos, longos, cheios de palavras amáveis e expressivas figuras de pensamento, combinei com os dois chefes que seriam seus companheiros utilizados na derrubada e limpeza da picada. A fim de se não romperem os hábitos dos índios, seria, para esse trabalho, uma turma diariamente designada pelos chefes. Forneceria à Comissão alimento para os índios que trabalhassem e suas famílias. Como essas turmas se revezavam, continuariam os índios, de modo geral, entregues às suas ocupações habituais de caça e pesca, para as quais era muito propícia a região. Por outro lado, poupava à Comissão víveres que seriam insuficientes para tanta gente.

 Facilmente se sujeitaram os índios ao regime militar e ao trabalho acurado, com a condição de serem comandados pessoalmente por Pagmejera e por seus chefes. ‘Alferes não vê, não entende nada, não sabe - ioroduo bôqua - Pagmejera é que os trata com paciência e bondade e que lhes fala em língua bororo’. É que, durante a reconstrução da linha de Cuiabá ao Araguaia, após a pacificação dos índios do rio das Garças e depois de conseguir deles amizade e confiança, aprendi a sua língua - língua do Bóe. Dei ao Chemejera e ao pagé uma corneta. Assim, ao toque de faxina do acampamento, respondia a dos índios. Dizia o Chemejera: a corneta do acampamento fala ‘braide’, brasileiro, e a corneta que nos deu Pagmejera fala língua bororo.

 E seguiam os dois contingentes. Os índios carregavam um quarto de boi e um saco de milho que eram postos a cozer, logo que chegavam ao local de trabalho, em grandes tachos cuidadosamente areados. Assim estava, pelo meio-dia, o alimento perfeitamente cozido. Enquanto os soldados comiam a sua matula (abreviatura de matalotagem) contornavam os índios os grandes tachos de onde retirava cada um o que desejava, para pratos de barro, por eles fabricados, deliciando-se com abundante caldo que bebiam, servindo-se de ato (conchas) existentes no fundo das baías.

 Matalotagem: provisão de víveres.

 No repouso que se seguia à refeição, recordavam seus antigos feitos ou comentavam os dos antepassados que, naquelas mesmas paragens, tinham enfrentado os civilizados, então seus inimigos, ou repelido, em seus próprios aldeamentos, ataques dos fazendeiros do Piquiri e do São Lourenço. Quando se recolhiam, à tarde, recebiam farinha, carne, milho, rapadura e fumo, para si e suas famílias.

 

Fora muito bem resolvido o problema de incutir respeito às famílias dos índios que nos vieram auxiliar quando o desânimo ameaçava desorganizar o serviço. Mandei formar o contingente e os índios, com seus chefes. Falei-lhes então com solenidade:

 

- Ficam os soldados proibidos de ir ao aldeamento, a não ser acompanhados e com autorização. Por outro lado, para evitar que seja essa ordem esquecida, devem os índios agarrar quem a transgredir e trazer a Pagmejera o faltoso, para o merecido castigo. Tudo correu às mil maravilhas até que uma noite despertei com verdadeiro alarido no acampamento. Não tardaram em aparecer, seguidos pela tribo a gritar e gesticular, quatro índios trazendo suspenso, acima das cabeças, um soldado desobediente.

 Reunidos, com solenidade, contingente e tribo, exprobrei, com energia, a grave falta do soldado, que atraíra, com sua conduta irregular, tamanha vergonha para o contingente. Como já fosse alta noite, adiei para o dia seguinte o julgamento definitivo, deixando o culposo entregue a uma escolta. Ninguém dormiu. Logo cedo estavam os índios a postos, ansiosos por conhecer a decisão de Pagmejera - que foi a prisão do soldado, no tronco, uma vez que não havia cadeia. Oarine Ecureu exultou.

 Infelizmente o incidente se repetiu, quase ao findar a expedição. Pensou um soldado poder penetrar no aldeamento sem ser pressentido. Agarrado, como da primeira vez, fui forçado a agir com maior energia e usar o processo do Conde de Lipe. Ao dirigir-me ao culpado, ante contingente e índios formados, disse:

 - Esta surra é a que os índios tinham o direito de lhe aplicar. Penso que, para sua dignidade, é melhor que seja vergastado por ordem de seu próprio comandante.

 Houve triste ocorrência a registrar:

 Quando o acampamento foi estabelecido, na ponta do contraforte Água Branca, soubemos que havia sarampo em Coxim. Procurei impedir que os índios lá fossem, mas sua aguda curiosidade os levou a transgredir a ordem de Pagmejera e, assim, em breve irrompia violenta epidemia no acampamento. Atacou de preferência os índios, que morreram em grande número porque a febre os levava a se banharem no córrego, para suavizar a alta temperatura, malgrado os esforços do médico; só Pagmejera conseguia, embora a custo, dissuadi-los de tal prática, infelizmente depois de muitos casos fatais.

 Tem os bororos muito desenvolvido o culto dos mortos e viam-se, no acampamento, privados de realizar integralmente as cerimônias fúnebres; embora, afastados do contingente, sentiam-se fora de seu ambiente. Foram, todavia, cultuados os mortos. Regavam-lhes abundantemente as sepulturas, para apressar a decomposição e assim, ao partir, foi possível exumar os ossos e guardá-los cuidadosamente em baquités enfeitados com carinho. De regresso à aldeia seriam completados os ritos do culto que mais empolga os bororos.

 A mulher do Chemejera Oarine Ecureu, atacada pelo sarampo, ficou cega. Lamentava, em gritos, a cegueira que a privava de ser útil ao marido. Ao mesmo tempo que procurava consolá-lo pela perda da felicidade que haviam desfrutado até aí, esforçava-se por convencê-lo da necessidade de se unir a outra mulher, capaz de o servir, de fazer por ele o que lhe era agora vedado.

 Inaugurou-se a Estação telegráfica do Itiquira, com estrondosa festa cívica, a 21 de abril de 1901 - dia de Tiradentes. Houve um banquete aos soldados e aos índios que participaram dos trabalhos e, à noite, realizaram estes formidável, bacorôro, organizado pelo Cacique Oarine e pelo Pagé Báru, apresentando-se muitos dos índios com mantos de pele de onça, como traje de gala.

 “esforcei-me para que a sociedade se interessasse de fato pela sorte desses irmãos primitivos, sem cujo auxílio não me teria sido possível levar a cabo as tarefas que me haviam sido confiadas pelas autoridades da República”. (Rondon)

 Depois de tão valiosa e eficaz coadjuvação, foram bem merecidas as manifestações de júbilo e reconhecimento que receberam. Um ano inteiro trabalharam os índios conosco, na melhor harmonia, estreitando-se cada vez mais as relações de amizade entre os chefes. Mas o pantanal já estava seco, era época de realizarem as caçadas prediletas - de onça. Assim, a 17 de maio, ao atingir a Comissão a zona de Coxim, encetando nova campanha para a frente, separamo-nos à margem do rio Tauaari com a frase de Oarine Ecureu:

 - Aqui fico, bororo não entra em terra de caiamo, terra de terena, guaiacuru, uachiri...

 Foi tocante a despedida dos índios.

 Carregando os baquités que levavam para sua aldeia de Kejare, repetiam, cada um por sua vez:

 - Quiaregodo-augai! Quiaregodo-augai ! Hú! Aregodugue... que saudades! que saudades de vocês! Sim! Não mais voltarei.

 Partiram a 19; uma turma, a de Oarine Ecureu, seguiu rumo do Piquiri, para onde se encaminhava o traçado da linha, declarando o cacique que voltariam de tempos a tempos, para nos ajudar. A turma do Pagé Báru desceu o Itiquira, em busca do baixo São Lourenço. Com a verba do Almirante Alves de Barros, compramos valiosos presentes para esses bons amigos”.

 Fontes: VIVEIROS, Esther de – Rondon conta sua vida - Brasil, Rio de Janeiro,1958 – Livraria São José.

 

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Comentários
José Márcio Xavier de Queiroz (Márcio Bororo) PAR, em 21/07/2009 - 14h39

Este relato é a mais pura verdade. Entre os muitos bororos que trabalharam encontrava-se o meu avô Jacinto Lopes Xavier casado com a índia Bororo Andrelina minha avó. Sem falar no próprio Marechal Rondon que é primo primeiro de minha falecida avó por parte de meu pai que chamava Francisca Leite de Sá todos de famílias Bororos do Mimoso. Parabéns

 
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