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Artigos - 07/03/2009 - 08h44

Fonte Boa - Tamaniquá




Por Hiram Reis e Silva (*)

Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

- Polícia Militar de Fonte Boa

Desde nosso contato com Coronel Rômulo, comandante do Policiamento do Interior, os policiais militares do Amazonas foram incansáveis em nos apoiar no transporte de material e contato com autoridades locais. Gostaríamos de deixar registrado o profissionalismo, a urbanidade e a atenção com que nos trataram os policiais de São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Tonantins e Jutaí. Realmente, Fonte Boa foi uma exceção à regra; o descaso e a falta de apoio por parte do comandante do destacamento não são compatíveis com as tradições da instituição que deveria representar.

- Largada para Tamanaquá (22 de dezembro)

O senhor José Antonio, do Hotel Eliana, suprindo a falta da Polícia Militar, conduziu-nos, gentilmente, até o Frigorífico Pescador. Partimos por volta das 8h, depois de agradecer o apoio do senhor Sabá Franco, administrador do frigorífico e paramos duas vezes antes de chegar às proximidades da foz do Juruá.

- Foz do Juruá

Na segunda parada, por volta das 11:35h, verifiquei a enorme discordância da carta com o terreno em relação à margem direita do Solimões perto da foz com o Juruá. Já acostumado com os devaneios deste rio errante, concluí que toda ilha à margem esquerda do Juruá tinha sido violentada pela fúria do rio-mar na sua ânsia de remodelar o relevo a seu bel prazer. A transformação criou um delta na foz do Juruá. A dilapidada ilha da inocência, à jusante da foz, talvez venha a se transformar num ícone da perda da inocência do rebelde rio-menino.

- Nova Matusalém

Na foz do Juruá, parei para tirar algumas fotos, que foram prejudicadas, porém, pela altura da vegetação. Na margem direita da foz, aportamos no local denominado pelas cartas como Porto Colombiano, mas chamado pelos populares ribeirinhos como Nova Matusalém, para um breve descanso. O Romeu se precipitou e foi solicitar pousada na Comunidade e lhe informaram como o presidente e o vice-presidente da Comunidade estavam ausentes isso não seria possível. Minha idéia, desde o início, não era parar naquela pobre Comunidade e sim prosseguir até Tamaniquá, como me orientara o senhor Sabá Franco. A Comuidade de Tamaniquá estava há uns 7 quilômetros à jusante e bastariam 40 minutos de remo para alcançá-la.

- Tamaniquá

Partimos para Tamaniquá, que podia ser avistada no horizonte. Tamaniquá é a cidade natal do amigo Sabá que havia recomendado que procurássemos o Flutuante do Ribeiro. Mais uma vez o Romeu saiu remando freneticamente enquanto eu observava e fotografava as paisagens dos barrancos e embarcações que passavam procurando absorver a magia das paisagens. O Romeu tentou contato com o Ribeiro que não lhe deu a menor atenção. O nosso dia, que começara mal com o ‘calote’ por parte da polícia militar de Fonte Boa e continuara assim com a falta de hospitalidade da Comunidade nova Matusalém, consagrou-se com o descaso do Ribeiro.

- Professor Emanuel Carvalho

Falei com o Ribeiro que iríamos estacionar os caiaques junto ao seu flutuante por questão de segurança, deixei o Romeu descansando no Flutuante do Ribeiro e fui até a escolinha local, onde encontrei seu gestor, o professor Emanuel. O professor foi extremamente educado e receptivo, permitindo que se usasse uma de suas salas de aula para acampar, deixou comigo as chaves da cozinha e me autorizou a fazer uso dos computadores da escola.

- Amigo Chico

Descarregamos o material na sala de aula e fomos, imediatamente, tomar um banho no rio. Revigorados, paramos para degustar os saborosos ‘dindins’ (sacolés) da dona Maria, esposa do Chico. Acabamos com o estoque de dindins de graviola da casa. A graviola e diversos outros frutos são plantados pelos donos da casa e parentes da dona Maria num sítio comunitário da família. Contratamos o Chico para nos levar, de rabeta, até uma Comunidade indígena, Kulina, às margens do Juruá. Terminado o pequeno lanche, saímos pela Comunidade para fotografar.

Graviola (Annona muricata) - fruta originária das Antilhas a graviola é uma árvore de pequeno porte (4 a6 metros de altura), encontrada em quase todos os países tropicais, com folhas verdes brilhantes e flores amareladas, grandes e isoladas, que nascem no tronco e nos ramos. Os frutos tem forma ovalada, casca verde-pálida, são grandes, chegando a pesar entre 750 gramas a 8 quilos e dando o ano todo

- Pernoite

Para nos livrarmos dos mosquitos, dormimos na barraca montada dentro da sala de aula. Ficamos livres dos mosquitos, mas não do calor. O gerador desliga às 23:00h e, a partir daí, foi difícil conciliar o sono em decorrência do calor com os latidos de cães à noite toda.

- Visita ao Juruá (23 de dezembro)

O Chico, como bom caboclo, deixou tudo para a última hora - preparação do barco e compra de combustível, talvez para não fugir à regra ou talvez querendo nos adaptar ao ‘ritmo amazônico de fazer as coisas’. Atalhando por um Paraná, dois furos e um lago, chegamos à Comunidade. O percurso se reveste de uma beleza sem igual. Longe da impetuosidade dos grandes mananciais, estas artérias têm um ritmo dolente; o motor de 6,5 Hp nos impulsiona com vagar, permitindo admirar a natureza ao redor.

- Mário Quintana

Perguntaria, intrigado, o leitor, como recordar Mário Quintana, um poeta da cidade, no coração da selva hostil. A lembrança nos veio ao avistar os formidáveis colossos arbóreos tombados junto às margens. Troncos e galhos desfolhados e esbranquiçados pelo tempo imitavam a agonia das ‘mãos de enterrados vivos’ do Quintana (‘As árvores podadas parecem mãos de enterrados vivos’).

Mario de Miranda Quintana - poeta, tradutor e jornalista, nasceu em 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete. Em 1915 conclui o curso primário, na escola Antônio Cabral Beirão em Alegrete. Aos 13 anos, em 1919, é matriculado no Colégio Militar de Porto Alegre, CMPA, em regime de internato. É no CMPA que publica seus primeiros trabalhos na revista Hyloea, da Sociedade Cívica e Literária dos Alunos do Colégio Militar.

- Evolução das espécies

Lembrar Charles Darwin talvez seja mais racional ao divagarmos sobre a adaptação da Amazônica Biodiversidade. As árvores tombam com facilidade porque as raízes que as sustentam são por demais superficiais. O solo pobre não estimula a que procurem nutrientes, aprofundando suas raízes. Algumas árvores, porém, mais sábias, mais adaptadas ou evoluídas, utilizam de verdadeiros estais para procurar manter sua estabilidade que na região são chamados de sapopemas e para sobreviver, parcialmente submersas, raízes respiratórias.

Há uma profusão de plantas flutuantes, como o capim-memeca, canarana, alface d’água e o aguapé que descem os rios em enormes ilhas flutuantes por ocasião da chuvas ou das cheias. Sobre estas exuberantes ilhas flutuantes vivem diversas espécies de insetos enquanto nas águas criam-se enormes populações de mosquitos e outros dípteros irritantes. A mata que sofre inundação por rios de águas brancas costuma ser chamada de várzea enquanto as banhadas pelas águas pretas e claras (ou azuis) de igapós. A várzea é muito mais rica em decorrência dos nutrientes carreados pelas águas. Em relação à biota aquática os rios de água branca são ricos em peixes, enquanto os rios de água preta são ‘rios da fome’.

- Povo Kulina ou Madija

O povo Kulina tem seu habitat tradicional nas planícies dos rios Juruá e Acuraua, afluentes do Solimões e pertencem à família linguística arawá. Os Kulina se autodenominam madija, que significa ‘os que são gente’. Os kulina formam um grupo de pouco mais de 700 membros e ainda preservam sua língua e cultura.

 

Em fevereiro de 2009 os Kulinas ocuparam as manchetes sensacionalistas de jornais de todo o mundo que os acusavam de canibalismo. Há anos as drogas vêm ocupando cada vez mais espaço dentro das comunidades e o consumo de crack associado às bebidas alcoólicas pode ter deflagrado o ato de canibalismo na cidade de Envira (AM). A polícia afirma que um grupo indígena matou e ingeriu partes do corpo de Océlio Alves de Carvalho. O crime teria ocorrido nos primeiros dias de fevereiro de 2009, quando a vítima desapareceu, e só veio á tona quando um índio da mesma aldeia denunciou o caso às autoridades.

- Comunidade Kulina

No início, como de costume, o cacique Francisco se mostrou bastante reticente e só autorizou que nós o entrevistássemos. O cacique é o único professor e ministra aula do primeiro ao quarto ano. Durante a entrevista, em uma das salas de aula da escolinha, a Comunidade foi chegando aos poucos e depois da entrevista as mães nos procuraram, insistentemente, para que seus filhos fossem fotografados. A falta de apoio por falta da prefeitura de Juruá ficou patente no pronunciamento do cacique.

- Festa da Partilha - Dossehé

A festa da partilha é um dos rituais mais importantes para os Kulina e que, normalmente, pode envolver praticamente toda a aldeia.

As mulheres, quando notam que não há mais carne na aldeia, ficam descontentes e reclamam da preguiça dos homens. Durante a noite, então, elas decidem mandá-los caçar, na manhã seguinte. Um grupo de mulheres, dentre as mais jovens, vão, cantando, de casa em casa, uma canção que diz: temos fome, nós mandamos vocês caçarem, traga-nos carne. Entre as cantoras, uma jovem aproxima-se de um homem e começa a tirar-lhe a veste, em meio a risos e piadinhas. A maior parte dos homens age como se nada estivesse acontecendo. Um rapaz, porém, começa um combate com a jovem, que significa: eu quero trazer-lhe carne, quero ser seu parceiro sexual. O pai, o irmão e o primo paralelo e o marido da jovem não podem ser seus possíveis parceiros nesse ritual.

Após a partida dos homens, para a caça, as mulheres continuam com suas tarefas cotidianas, além de preparar uma bebida não-fermentada para oferecer aos caçadores na sua volta à aldeia. Depois elas se preparam para a volta dos caçadores: tomam banho, vestem as roupas mais bonitas, se enfeitam, se perfumam etc. Nesse ritual o homem nunca pode ter duas mulheres, mas às mulheres lhes é dado ter dois homens. À tarde, os homens anunciam seu retorno, tocando uma trompa de argila cozida. Enquanto as mulheres preparam parte da carne trazida, os homens vão tomar banho e se vestir. Homens e mulheres comem em separado, mas ao mesmo tempo. Após a refeição se iniciam os ‘jogos’ entre homens e mulheres: elas o ‘caçam’ e eles fogem, mas se deixam ‘caçar’. As crianças imitam a brincadeira. Esse jogo é seguido de uma noite de danças. O ritual é fortemente marcado pelo erotismo e sensualidade. As mulheres também se utilizam desse ritual para obter dos homens outros serviços como a pesca, a coleta etc. Esse tipo de caça se distingue da caça habitual por ter um conjunto de motivações. Enquanto a caçada tradicional é feita em grupo, essa última é individual, para permitir aos jovens acesso às jovens mulheres e, principalmente, possibilitar a iniciação sexual”. (Marco Antonio Gonçalves)

- Retorno

Na maior parte do tempo enfrentamos chuva e um ‘banzeiro’, vencido com facilidade pela destreza do Chico. Somente na foz do Juruá, onde eu pretendia tirar umas fotos, a chuva deu uma pequena trégua. O Romeu preparou um arroz com sardinha e enquanto descansava, preparando-se para a aula de canoagem para a gurizada, eu utilizei o computador da escolinha para descarregar as fotos, no 4shsred.com, (mais de cem) e escrever este artigo.

Estou ansioso para conhecer a Reserva de Desenvolvimento de Mamirauá e espero que o apoio por parte do Exército em Tefé seja total, já que as Prefeituras, com as quais não tínhamos maiores vínculos, não pouparam esforços em nos agradar.

(*) Hiram Reis

Coronel de Engenharia; professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB); presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Rua Dona Eugênia, 1227

Petrópolis - Porto Alegre - RS

90630 150

Telefone:- (51) 3331 6265

Site:http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E-mail: hiramrs@terra.com.br

Os artigos publicados com assinatura não representam a opinião do Portal Pantanal News. Sua publicação tem o objetivo de estimular o debate dos problemas do Pantanal do Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso, do Brasil e do mundo, garantindo um espaço democrático para a livre exposição de correntes diferentes de pensamentos, idéias e opiniões. redacao@pantanalnews.com.br

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Comentários
José Araújo, em 07/03/2009 - 18h48

Quero cumprimentá-lo pela iniciativa dessa missão. Qualquer medida que aponte no sentido da consolidação de nossa soberania na Amazonia é digna de louvor.

 
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