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Artigos - 07/03/2009 - 08h42

Jutaí - Fonte Boa




Por Hiram Reis e Silva (*)

“Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

- Lauri Corso

O Romeu conheceu o gaúcho Lauri, apaixonado pela terra amazônica, funcionário do IBAMA, que agora faz parte de um grupo que coordena os trabalhos na Reserva Extrativista de Jutaí. Jantamos no Restaurante Natureza, o Lauri contou sua experiência de vida e discorremos sobre temas ligados ao seu trabalho. Depois do jantar, fui até sua casa onde me mostrou sua bota de fibra de vidro, ainda em desenvolvimento, para evitar picadas de cobra.

- Largada para o Flutuante Oderley (18 de dezembro)

Acordamos às 05:00h do dia 18 de dezembro e nossos amigos da Polícia Militar nos auxiliaram no carregamento do material dos caiaques. Passamos na casa do Lauri, que tinha prometido documentar nossa saída, e nos dirigimos ao Flutuante do Daniel, onde aportáramos nossos caiaques. Depois que nos ajudou a carregar a tralha, Lauri resolveu experimentar a navegação nas nossas embarcações. Tiramos algumas fotos e partimos por volta das 06:30h.

- Primeira Parada

Remamos num ritmo forte e cadenciado, aproveitando a correnteza superior a 12 Km/h que nos permitiu desenvolver uma velocidade de 15 km/h. Depois de pouco mais de duas horas de navegação, paramos na margem oeste da Ilha da Guarida, próximo à casa de um ribeirinho. A viagem não apresentara, até então, nenhum fato relevante, nenhum golfinho, apenas um Tucanuçú sobrevoando a copa das árvores e o som dos pássaros saudando a alvorada. Para quebrar a monotonia e abrandar a saudade dos pampas passei a declamar, para mim mesmo, as poesias do augusto poeta do Rio Grande, Jayme Caetano Braun (Galo de Rinha, Amargo, Galpão de Estância, Quero-Quero, Negrinho do Pastoreio e Adaga).

- Segunda Parada

A Ilha da Guarida, em comparação com as fotografias do Google Earth, havia estendido um pouco sua extremidade de jusante e ao contorná-la nos deparamos diretamente com a entrada do furo Aramanduba. A meio curso do furo, por volta das 10:00h, paramos numa bela praia de areias muito brancas. Segundo meus cálculos, estávamos apenas há uns 6 Km do Flutuante de destino. Caminhei ao longo da praia procurando relaxar a musculatura e tirar algumas fotos daquela natureza pujante. Os troncos de enormes árvores caídas e os belos fungos, conhecidos como orelhas-de-pau (Basidiomiceto), chamavam a atenção pelo belo formato e colorido forte.

- Flutuante Oderley

Chegamos ao flutuante do Orlaney que leva o nome do filho Oderley, que morrera afogado há algum tempo. Fomos recebidos com a costumeira cortesia e, em seguida, convidados para degustar um saboroso peixe liso (peixe de couro). Após o almoço, tomamos as medidas de praxe e montamos a barraca no flutuante. A montagem em terra iria nos atrasar na saída. O Orlaney estava envolvido na colocação do forro do flutuante, buscando solucionar o problema do calor provocado pelo telhado de zinco e os mosquitos que infestam a região (carapanãs, miruins e piuns).

- Canoagem

Por volta das 17:00h, o Romeu iniciou as aulas de canoagem com o Orlaney e filhos. Foi um acontecimento único para aquelas crianças ilhadas em um flutuante nos confins da Amazônia. Novamente ficamos impressionados com a destreza daquelas criaturinhas ‘anfíbias’. O equilíbrio e a facilidade com que aprendem a manejar o remo duplo do caiaque são impressionantes.

- Heróis Anônimos

É estranho verificar que estas pessoas, que vivem em condições tão adversas nos confins da floresta, achem nossa aventura um desafio de titãs. Heróis anônimos, titãs da terra das águas são eles que, apesar de enfrentarem todos os rigores de uma natureza hostil, não se dobram, não esmorecem. As políticas públicas, tão benevolentes com a população indígena, muitas vezes subsidiadas por capitais estrangeiros, não os atinge. Sobrevivem graças à sua estirpe heróica e viril e a sua capacidade de trabalhar em regime de mutirões dentro da mais legítima convivência cristã. Em conjunto, irmanados pela mesma determinação de seus antepassados, enfrentam todo tipo de adversidade imposta pela selva e pelas águas. Quero deixar aqui registrado meu preito de admiração e respeito à população ribeirinha do Solimões que, apesar de possuir tão poucos bens, nos apóia quando aportamos em suas pequenas aldeias, numa prova irrefutável do espírito cristão que os anima.

- Luz Elétrica

O flutuante possui um pequeno gerador a gás que funciona do entardecer até o final da novela ‘Preferida’ da dona da casa e de seus filhos. Jantamos, desta vez um tambaqui e, depois de assistir o jornal, nos recolhemos, pois pretendíamos sair antes do alvorecer.

- Largada para a Fonte Boa (19 de dezembro)

Não foi uma noite repousante. Os mosquitos zumbiam do lado de fora da barraca sem nos incomodar, em compensação, os holofotes dos ‘motores’ que passavam nos focaram a noite inteira. Parece que os vigias dessas embarcações estavam mais preocupados em vislumbrar as intimidades dos ribeirinhos do que se precaver de embarcações ou troncos que venham em rota de colisão.

Partimos às 05:15h do dia 19 de dezembro e, sem muita dificuldade, apesar das nuvens que bloqueavam a luz das estrelas e da lua que nascera há pouco mais de 2 horas, conseguimos achar a entrada do furo Tarara. O Tarara é tortuoso e lento e levamos mais de 2 horas para percorrê-lo. O ritmo que imprimíamos era cadenciado, pois tínhamos plena consciência de que os quase 70 km que nos separavam de Fonte Boa exigiriam muito esforço.

- Primeira Parada

A primeira parada às 07:30h, na confluência do Tarará com o Solimões, foi rápida em virtude da ofensiva dos carapanãs. Só cessaram o ataque quando fiz uso do mau-cheiroso sabonete de alcatrão doado pelo amigo Oscar Luís.

- Alterando a Rota

A partir desse ponto, o rio inflete para o sul numa grande alça. O amigo Antonio Carlos, em Jutaí, havia nos aconselhado a manter a margem direita para evitar erros de percurso. Seguir a orientação facilitaria a navegação em virtude das ilhas existentes na ponta sul da península, mas, em compensação, aumentaria o percurso em aproximadamente 7 km, um luxo que eu não estava em condições de negociar. As pequenas ilhas com vegetação eram representadas bastantes desatualizadas pelo mapa do Google Earth como enormes bancos de areia.

- Segunda Parada

Avistamos a primeira ilha próxima à ponta, na margem esquerda do rio e aportamos numa magnífica e extensa praia. Estiquei as pernas fazendo uma boa caminhada e tirando algumas fotos dos enormes troncos arrastados para aqueles bancos na época das cheias numa fantástica demonstração de força.

- Chuva Amazônica

Partimos com chuva e decidi, mesmo assim, manter a rota alternativa, para ganhar tempo. Determinei ao Romeu que não se afastasse diminuindo a distância entre os caiaques e me aproximei das margens das ilhas por causa da baixa visibilidade. Adaptei novamente o percurso, buscando identificar as ilhas que me permitissem continuar comparando a fotografia aérea com o terreno, embora isso fizesse aumentar um pouco o percurso.

- Dinâmica da Natureza

Era impressionante verificar que os enormes bancos de areia reproduzidos nas fotos haviam se transformado em ilhas de vegetação luxuriante. Precisei viajar no tempo para poder comparar a foto com o terreno. A predominância de imbaúbas e algumas dessas ilhas era a prova de que eu precisava de sua formação recente. As ilhas haviam, também, estendido significativamente suas porções terrestres à jusante da correnteza e com muita imaginação conseguimos, sem maiores problemas, chegar ao furo Cajaraí.

- Frigorífico Pescador

No extremo norte do Cajaraí ancoramos no Frigorífico Pescador. Imediatamente, procuramos o administrador senhor Sabá Franco, indicado pelo amigo Álvaro Cabral, de Tonantins, como um contato importante em Fonte Boa. O Romeu navegou com uma das funcionárias do frigorífico pelo Furo Cajaraí e depois fomos almoçar um tucunaré cortesmente oferecido pelo senhor Sabá. Sabá fez um contato, a meu pedido, com a dona do Hotel Eliana que assegurou um razoável desconto na diária.

- Polícia Militar

Fizemos, como de praxe, contato com a Polícia Militar para levar nosso material até o hotel e tivemos uma desagradável surpresa ao chegar ao nosso destino. O carro era um táxi que cobrou 15 reais pela corrida.

- Rádio Cabloca FM

Depois do banho, saímos para tomar um sorvete e procurar a rádio da cidade onde concedemos uma prévia da entrevista agendada para as doze horas do dia seguinte. Logo fui até a única ‘Lan House’ da cidade. Iniciei o ‘upload’ dos arquivos e concomitantemente conversei com minhas filhas Vanessa e Danielle e os amigos Araújo e Rosangela, quando sobreveio um ‘Black Out’. Fui, então, para o hotel arrumar meus pertences e me preparar para o dia seguinte.

- Novo Black-Out (20 de dezembro)

Acordamos ainda com falta de luz, redigi o artigo enquanto aguardava a volta da energia e o Romeu foi até o frigorífico dar aulas de canoagem para o filho do Sabá, o menino João. Deixei o computador da ‘Lan House’ reservado, subindo as fotos e, às 11:45h, fui até a Rádio Cabocla FM. Novamente a ‘comunicação’ amazônica estava presente. Fomos informados que aquele horário era evangélico e que só à uma hora da tarde seria possível. Fiz os contatos necessários e deixei um aviso para o Romeu no hotel e voltei para a ‘Lan House’. Como passei o dia inteiro envolvido com a atualização dos artigos e ‘uploads’ das fotos, o Romeu fez, sozinho, a entrevista na Rádio local. Infelizmente as rádios comunitárias não ultrapassam os limites de suas sedes, alcançando quando muito pequenas comunidades próximas, o que nos facilitaria, bastante, em termos de apoio. Por volta das 17:00h fui até o Hotel Eliana para almoçar. Embora tenha permanecido sentado o dia todo, estou cansado, pois esqueci de me alimentar até agora. A refeição foi ótima, pirarucu com arroz e feijão.

- Tour e entrevista em Fonte Boa (21 de dezembro)

Contratei um moto-táxi e saímos para fotografar a cidade e arredores. A cidade é nova, sua arquitetura histórica foi toda perdida, pois na década de 70 toda a parte antiga foi arrasada pelo Solimões. Visitando a área rural da cidade observei diversa plantações de açaí e bacaba e uma quantidade significativa de velhas castanheiras que, certamente, foram plantadas pelos nativos. Às dez horas me dirigi à casa do professor Humberto Ferreira Lisboa, autor do livro ‘Fonte Boa - chão de heróis e fanáticos’, que concedeu uma entrevista bastante interessante. Discorremos sobre diversos assuntos relativos à história e geografia da região e, em seguida, dirigi-me à ‘Lan House’.

Bacaba (oenocarpus bacaba) - planta oleaginosa da família das palmáceas. Altura de 10 a20 m com tronco de 20 a30 cm de diâmetro. A madeira é empregada para construções rústicas e esteios. As folhas são utilizadas pelas populações indígenas para a confecção de abanos e bolsas. Seus frutos são muito empregados pela população local para a confecção de um vinho semelhante ao do açaí.

Lenda da Bacaba – “Conta a lenda que na Serra do Tumucumaque existia a tribo dos Badulaques, pequena e fraca, sem muitos guerreiros e cujo chefe, cacique Cabaíba, preferia viver em paz sem invadir as terras de outras tribos. Era considerada uma tribo sem valor e por isso não participava do Grande Conselho das tribos.

Um dia a desgraça se abateu sobre todas as tribos da serra. Poucos se lembravam da grande batalha travada entre o deus Tupã e Catamã, a entidade do mal. Contavam os anciãos que, na batalha, tinha sido devastada uma grande área além da Serra do Tumucumaque e que a luta entre o bem e o mal durara muitas luas até que Tupã, usando de toda sua magia, conseguira aprisionar Catamã no topo da serra por um período de cem anos. Diziam ainda os anciãos que depois desse tempo de guerra, a fome e a doença atingiriam as tribos, prenunciando a volta de Catamã, que tentaria reerguer seus domínios por toda a terra, mas que um guerreiro, nascido em tribo pequena, se sobressairia dentre todos os seus irmãos em caçadas e lutas, podendo vencer o mal e lançá-lo novamente à sua prisão. Os prenúncios da desgraça chegariam quando Catamã já tivesse cumprido três terços de seu exílio, e assim ocorreu.

Primeiro uma grande doença se abateu sobre as tribos. O mal atacava principalmente os pés e as mãos, impossibilitando os guerreiros, assim como mulheres e crianças, de se locomoverem. Logo não puderam mais segurar o arco e a flecha para caçar e centenas morreram de fome.

Depois vieram as guerras. Tribo contra tribo. As mortes se sucedendo e as nações indígenas enfraquecendo-se cada vez mais. Na época também a tribo dos Badulaques foi atingida e muitas mulheres morreram. Tarirã, uma das esposas do cacique Cabaíba, estava grávida de muitas luas e o cacique temia que fosse atingida pelas pragas ou morta pelas lanças dos guerreiros inimigos. Numa noite Tupã foi até o cacique e em sonhos disse-lhe:

- Teu filho será um bravo. Irá se sobrepor à todos os guerreiros e se chamará Bacabá. Somente ele poderá livrar a nação do mal e destruir para sempre a encarnação da perversidade.

Por três noites os membros da tribo dançaram, agradecendo a dádiva de Tupã. Duas luas depois nasceu o menino, que cresceu e foi treinado nas mais diversas práticas de combate, assimilando com incrível facilidade os ensinamentos dos pajés e anciãos. Manejava o arco e a flecha como se tivesse nascido para caçar. Sua grande vitória foi quando o conselho o designou chefe de todas as nações indígenas.

As maldições de Catamã continuavam. Certa noite um feiticeiro apareceu na forma de um feroz cachorro do mato e entrando na tenda do chefe matou Tarirã, que já se encontrava em idade avançada. Pela manhã o corpo da índia foi encontrado dilacerado e Bacabá, furioso, entoou seu canto de morte, que atravessou os vales. Estava iniciado o confronto.

Pela manhã, Bacabá reuniu-se com o Grande Conselho, anunciando que iria enfrentar Catamã no topo da serra. O pajé, tocado pelo deus Tupã, deu-lhe um saquinho de couro contendo a mistura de muitas ervas, que deveria ser jogada no olho da divindade, tornando-a cega. Depois de despedir-se de seus irmãos de sangue, Bacabá armou-se de uma lança, arco e seus apetrechos de guerra e saiu no rumo da serra. Quando alcançou o topo, a figura de um imenso cachorro do mato atravessou-lhe à frente. A fera, com olhos injetados de sangue investiu contra o índio, iniciando uma batalha. Embaixo, milhares de guerreiros assistiam a tudo. Tupã proveu Bacabá de poderes para fazer frente à divindade do mal e o local da batalha transformou-se em uma imensa clareira. Contam os índios mais velhos que a contenda foi terrível. Durante duas noites o confronto prosseguiu e depois o silêncio foi total. Os guerreiros, temerosos, esperavam que o vencedor se manifestasse. O silêncio, no entanto, reinava no cume da Serra do Tumucumaque.

O cacique Cabaíba reuniu seus bravos e subiu à serra, seguindo os rastros de destruição, até que sobre um amontoado de pedras encontraram um imenso cachorro, com os olhos arrancados e uma lança cravada no peito. A seu lado o corpo do guerreiro, dilacerado pelas garras e dentes do monstro. Bacabá venceu, mas a façanha lhe custou a vida. Seu corpo foi sepultado ao lado da mãe, em um cortejo que reuniu milhares de guerreiros, todos lhe prestando a derradeira homenagem.

Muitas luas se passaram até que o cacique Cabaíba, sentindo a perda do filho, foi vê-lo. No local onde tinha sido sepultado, havia, por benevolência e homenagem de Tupã ao mais bravo guerreiro da face da terra, uma palmeira solitária com as folhas em forma de lanças, da qual sobressaíam-se flores de cor branco-amarelo e frutos pequenos avermelhado-escuros. O chefe Cabaíba recolheu os frutos e mandou as mulheres da tribo fazerem um vinho que chamou de bacaba. Da bacabeira, de caule forte, como os braços do guerreiro,são feitos arcos e lanças, que, dizem as lendas, serem abençoados por Tupã”. ( www.amaparte.com.br )

- Entrevista com o escritor Humberto Lisboa

Eu sou o professor Humberto Ferreira Lisboa, nascido e criado em Fonte Boa, professor de História do ensino médio e um estudioso sobre a cidade. A mais de oito anos pesquisei para formar um livro sobre a cidade e consegui, embora pouca coisa, hoje com mais amadurecimento a gente acha que esse livro merece uma segunda edição, melhorando o conhecimento sobre a cidade, ou seja, ser mais profundo no que a gente pensava que estava acabado.

Fonte Boa começa com o projeto europeu de transformar a América em um povo civilizado pela ação das missões. Começa com o trabalho do jesuíta Samuel Fritz que pensa em formar uma grande cidade, aí nasceu o núcleo missionário chamado Nossa Senhora das Neves.

Muita confusão depois que a colonização portuguesa entrou em conflito com os espanhóis. Samuel Fritz se retirou e também retirou a sua missão. Mais tarde os portugueses retomaram e criaram uma outra missão com o nome de Nossa Senhora de Guadalupe. Depois os carmelitanos que tomaram conta da cidade esqueceram da própria missão, abandonado-a por mais de 30 anos e a cidade perdeu o nome. Por sinal, começou a chamar-se Taraquatiua, depois transformada em vila por decreto do Marques de Pombal, mais tarde ela seria elevada a categoria de cidade, ainda na república.

Daí em diante Fonte Boa vai atravessar diversas fases de transformação e de lutas, por exemplo: vai surgir o ciclo da borracha, vai existir conflitos de coronéis, de controle dos rios, de controle das pessoas, enfim da política local. O que se pode dizer é que toda a história de Fonte Boa se permeia por aí, pelas brigas, pelas fofocas. Mas, sempre vai ter presente a luta do caboclo contra os coronéis o que é bonito é isso, os descendente de índios legítimos querendo participar da política local.

Mais tarde, pela década de 60, Fonte Boa eclode em uma revolta, cassando o último prefeito. Começa a surgir a primeira praça, os primeiros calçamentos de rua, ou seja, as primeiras frentes de trabalho. Algum tempo depois vem a queda do barranco que desmorona toda parte antiga da cidade, o traço da cidade. As pessoas não têm ajuda do governo estadual para fazer suas casas, refazer suas vidas, isso vai ficar marcado para sempre na história do povo fonteboense, essa falta de assistência do governo estadual naquele momento difícil da vida de Fonte Boa.

Começa pela década de 60 e vai perdurar por quase 12 anos. Algumas pessoas continuam chamando a atenção do governo federal para que ajude Fonte Boa a reconstruir seus espaços urbanos, a refazer o saneamento que haviam começado. É uma nova cidade que começa, um novo processo que se forma. Na realidade, ao meu livro deu-se o nome de ‘Fonte Boa chão de heróis e fanáticos’ por esse motivo. Fanáticos porque ele se dividiu em favor de preservação da política coronealista e os heróis foram aqueles que ficaram aqui mesmo com a falta de assistência. Resistindo na casa de barranco, resistindo àquela falta de emprego, àquela falta de trabalho e permanecendo aqui em Fonte Boa.

Por isso é um livro que vamos procurar aperfeiçoar para ficar com a próxima geração fonteboense e também aqueles que quiserem vir aqui fazer pesquisas nós iremos oferecer o livro, na 2ª Edição a partir de março, já com mais ênfase, com mais renovação, com mais maturidade do que se está falando e até mais pesquisa.

É o que eu tenho a dizer no momento ao coronel Hiram que nos procura querendo informação sobre Fonte Boa, é um povo muito hospitaleiro, inteligente. Diga-se de passagem que nós chegamos a concorrer com Parintins. Éramos o 2° Folclore do Amazonas em termos de boi bumbá e de outras festividades. Fomos visitados por turistas estrangeiros, nacionais e fomos homenageados pela imprensa pelo esforço e pela criatividade e agora nós não sabemos como que vai ficar, porque a falta de compromisso com a cultura, com a educação é muito séria, mas quem sabe se houver uma mudança e nós voltaremos a ser o 2° Festival Folclórico do Amazonas”.

Boi-bumbá fonteboense - como outras manifestações folclóricas do país tem origem na grande diversidade de povos que aqui se estabeleceram propiciando a fusão de diversos elementos culturais. Nos início era uma brincadeira realizada nas ruas e terreiros das residências. Eram dois bumbas: o Estrelinha, do centro da cidade, e o Tira Prosa, do bairro São Francisco. No período de 1980 até 2002 passaram a se apresentar na quadra de esportes municipal. Na década de 90 o evento evolui bastante e a disputa entre os bois tomou ares de ‘guerra’ na arena. O Tira Prosa, com as cores vermelho, e o Corajoso, com as cores azul e branco, se tornaram famosos em todo estado do Amazonas.

- A queda do barranco e da história de Fonte Boa

As comunidades vizinhas de Fonte Boa a chamam de ‘Foste Boa’ em referencia à catástrofe que destruiu toda parte antiga da cidade. Parece, também, que o rio Solimões que provocou a chamada ‘queda do barranco’ pelo professor Lisboa levou consigo muito da história, da memória de uma cidade que se mostra diferente das demais. O frenesi constante que envolve a cidade parece ser uma vã tentativa de remover da lembrança as agruras do passado.

(*) Hiram Reis

Coronel de Engenharia; professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB); presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Rua Dona Eugênia, 1227

Petrópolis - Porto Alegre - RS

90630 150

Telefone:- (51) 3331 6265

Site:http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E-mail: hiramrs@terra.com.br

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