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Artigos - 07/03/2009 - 07h46

Feijoal - Belém - Santa Rita




Por Hiram Reis e Silva (*)

“Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

- Largada para Belém do Solimões (03 de dezembro de 2008)

Partimos para Belém do Solimões por volta das 06:40h do dia 3 de dezembro. Novamente, meus companheiros resolveram seguir um rumo diverso do tomado pelo navegador e optaram pela margem esquerda do rio Solimões enquanto eu seguia pela margem esquerda da Ilha Javarimirim. Mantivemos contato visual durante uma hora aproximadamente até nos aproximarmos de um grande banco de areia que separava a ilha da margem esquerda do rio. Parei para descansar, como havíamos combinado, e tentei contatá-los subindo num grande tronco que existia num local elevado do banco de areia. Gritei em vão por 15 minutos. Resolvi continuar, já que, sem conseguir que me respondessem, achei que não haviam parado e estavam à minha frente.

- Furo Tauarú

Cheguei, sem qualquer dificuldade, ao extremo sul do furo Tauarú. O furo economiza aproximadamente 12 km de navegação e é uma opção importante para pequenas embarcações. Na viagem de avião para Tabatinga eu havia avistado e fotografado o furo e confirmado minhas expectativas de economizar tempo navegando por ele. Aguardei 30 minutos pelos meus parceiros e, como não aparecessem, deduzi que já tinham passado por ali ou seguido pela grande volta do Solimões. O Furo parece uma via expressa, o movimento de pequenas embarcações é enorme. São pequenas montarias, voadeiras, recreios passando a todo o momento. Passei pela Comunidade de Novo Brazão onde cumprimentei seus educados moradores de origem indígena e pedi para que avisassem meus companheiros de minha passagem, caso por ali cruzassem.

- Furo Tauarú/Rio Solimões

A visão do Solimões no extremo norte do Tauarú é impressionante pela beleza e magnitude. A oeste, mal se consegue vislumbrar a margem esquerda. Embora meus amigos de Feijoal tivessem me orientado a seguir pela margem esquerda do rio, para facilitar a orientação, decidi tangenciar a margem direita e me dirigir direto a Belém do Solimões. A opção tornaria meu trajeto bem mais curto embora houvesse necessidade de estar atento às características do terreno para não enveredar inadvertidamente por algum furo e ultrapassar meu objetivo. O vento de proa prejudicou um pouco, mas a velocidade, de acordo com o GPS, foi mantida em torno dos 12 km/h.

- Belém do Solimões

Belém do Solimões domina com imponência a barranca do rio. Não avaliei corretamente a força da correnteza (em torno dos 20 Km/h), não ‘arribei’, como dizem os ribeirinhos, o suficiente e fui empurrando violentamente para jusante do local onde pretendia atracar, um flutuante de captação de água. Depois de muito esforço, consegui amarrar o caiaque a uns 30 metros abaixo do mesmo e desembarquei para fazer contato. O cacique, o representante da Funai, o Padre, o professor Chiquinho todos se encontravam em Tabatinga. Consegui, então, contatar o professor Manoel Mário que nos acolheu em sua escola e providenciou apoio para que o caiaque fosse carregado para lá. Umas três horas depois, chegaram meus esbaforidos parceiros que, espero, depois dos dois últimos contratempos, decidam me acompanhar e não traçar rotas alternativas.

Arribar - navegar mais à montante, ou rio acima.

A Comunidade é bem maior do que a de Feijoal e talvez por isso seus problemas sejam igualmente consideráveis. Não há água potável, as escolas não possuem sistemas de calefação ou ventilação que proporcione conforto a seus alunos e mestres, as ruas estão repletas de lixo, a comunicação é precária. A modernidade, através da mídia, contaminou os jovens indígenas que procuram imitar nos trajes, piercing e mesmo tatuagens seus ‘heróis’ globais. Esta neo-cultura e o homossexualismo ostensivo são vistos com muita reserva pelos impotentes anciãos. O artesanato, pelo que pudemos observar, perdeu em qualidade e utiliza elementos fabricados nos grandes centros como o nylon e contas coloridas. Como em Feijoal, nenhum artesão que trabalhe com a cerâmica Tikuna foi identificado.

Parece que uma destruição, semelhante a que o grande Rio provoca nas barrancas da grande Comunidade, agride nefastamente os costumes do povo Tikuna. O rio, segundo os mais velhos, já levou mais de 200 metros de barranco da cidade.

- Entrevista com o pastor protestante Tikuna Antonio Cruz

Assim como o Solimões solapa as barrancas do rio ameaçando de destruição a Igreja de São Francisco de Assis, inaugurado em 1936, a religião católica vem perdendo espaço junto às comunidades indígenas para os evangélicos. São pelo menos três igrejas de cultos evangélicos diferentes em cada grande Comunidade que visitamos e todos eles geridos por pastores de origem indígena da própria Comunidade. Os nativos, de hoje, preferem ouvir alguém sem sotaque estrangeiro falando-lhes de Jesus Cristo, preferem ter como pastores homens que se preocupam mais com a evangelização do que com a política, preferem líderes religiosos que apontem o caminho da harmonia e da convivência em vez do conflito e do apharteid.

Meu nome é Antonio Cruz nascido aqui na Comunidade de Belém do Solimões no dia 21 de agosto de 1989. Minha mãe me convenceu a me tornar cristão evangélico e pelo desejo dela eu me tornei evangélico. E hoje, para mim, ser evangélico é um dos maiores tesouros da vida indígena que eu encontrei. É a salvação em Cristo Jesus que Deus planejou a eternidade para todos os seres humanos que há na face da Terra. Por isso eu me sinto bastante alegre agora com o senhor que está me entrevistando aqui para que ele possa repassar os relatos de muitas histórias da aldeia e das comunidades. Temos lendas e costumes que estão sendo esquecidos pela população atual devido ao avanço tecnológico. Isso tem feito com que o indígena esqueça da sua cultura, daquilo que ele sabia fazer, como o artesanato, os artefatos que usavam para a caça e para a pesca tornando-os dependentes de tudo aquilo que vem de fora. Isso precisa ser resgatado pelas lideranças locais e pelos governos que precisam olhar com mais amor para a Amazônia. A tribo Tikuna não é muito conhecida apesar de ser uma das maiores. Por isso nesta hora diante do senhor que está me entrevistando sinto-me bastante alegre e quero agradecer por isso, obrigado”.

- Largada para Santa Rita de Weil (04 de dezembro de 2008)

Para compensar os dois dias que passamos em Feijoal, no dia 04 de dezembro resolvi rumar direto para Santa Rita de Weil. Fabiola, bastante estressada, acusou alguns indígenas de terem roubado seu chapéu. Ainda bem que a maioria deles não entendeu nada do que ela disse; o chapéu estava devidamente guardado com nossos demais pertences. O incidente chegou aos ouvidos das lideranças e tive e de me desculpar quando vieram me interpelar justificando o comportamento inadequado da parceira dizendo que ela estava muito cansada e enfrentava ‘problemas de mulher’. Os líderes sorriram e relevaram a falta de educação da moça. Solucionado o primeiro bate-boca, a Fabiola iniciou uma discussão com Romeu, sobre quem iria ocupar a posição de piloto no caiaque duplo. Tive de interromper, pois a altercação estava se transformando em um circo, para a alegria dos Tikuna que a tudo assistiam.

Navegamos direto para a Base Anzol, da Polícia Federal, onde fomos muito bem recebidos pelos agentes. Tomamos o café da manhã com os amigos federais e ouvimos deles relatos sobre as dificuldades que enfrentam na área. Em Tabatinga eu já havia avisado ao delegado local de nossa intenção de ir até à base. Abastecemos nossas garrafas com água potável, já que a água de Belém era imprópria para o consumo. Nas proximidades de Santa Maria, a meio caminho, entre Santa Rita de Weil e São Felix, paramos para descansar. Aproveitei para colocar a malhadeira e apanhei duas sardinhas que foram assadas pela Fabiola e consumidas pelo trio. A vila que ficava a uns 500 metros de distância seria o local de parada caso não tivéssemos permanecido dois dias em Feijoal.

Base Anzol - posto da Polícia Federal que fica na localidade de Palmeiras. O acesso só pode ser feito por helicóptero ou barco. Nos últimos três anos, a Base Anzol foi responsável por 70% das apreensões de cocaína da área.

Malhadeira - rede de pesca.

A navegação continuava facilitada pela força da correnteza e em algumas vezes alcançávamos os 15 Km/h. Paramos em um enorme banco de areia a 13 km quilômetros de Santa Rita, onde pude fotografar e observar um nativo recolhendo a rede em sua ‘montaria’ com uma destreza invulgar e outro que, com seu arpão de bico, aguardava imóvel algum grande e descuidado peixe. Os olhos treinados procuravam, certamente, o ‘bululu’ que identifica a presença da presa ou a ‘siriringa’. Partimos com velocidade para a última perna do dia. O vento norte formou ondas de 40 cm e eu resolvi apertar o ritmo das remadas antes que os ventos aumentassem. Confirmei com um pescador se o canal que conduzia à Santa Rita entre a ilha e o continente estava liberado e continuamos nossa aproximação.

Arpão de bico - formado por uma haste de madeira nobre de mais de dois metros de comprimento e, na ponta da haste é adaptado um bico de ferro em forma de ponta de flecha. A ponta do bico tem aproximadamente três milímetros de raio e vai aumentando o seu diâmetro para cerca de sete milímetros até o chamado ‘alvado’ onde é engatada a ponta inferior da haste. Ao bico é amarrado uma corda de fibra vegetal de mais de uma dezena de metros e a outra ponta da corda é amarrada no barco. Depois de arpoado o peixe o bico solta da haste, esta faz o papel de bóia, e o pescador pode conduzi-lo depois de cansado como se faz com uma linha de pesca.

Bululu - pipocar de borbulhas.

Siriringa - insignificante movimento da superfície da água provocado pelo deslocamento dos grandes peixes nas camadas inferiores.

- Santa Rita de Weil

Fundada por alemães (Weil e Müller), a vila é um retrato escarrado da decadência e desleixo. As casas estão em petição de miséria e o lixo acumulado pelas ruas justifica a presença de urubus que perambulam pelas ruas como aves domésticas. Na escolinha, fomos muito bem recebidos pelo gestor local, que conseguiu que ficássemos abrigados na casa do professor Jorge. As condições da casa eram deprimentes e não se entende como um projeto de escola na área não contemple alojamento para professores, já que todos, sem exceção, moram na sede do município, em São Paulo de Olivença. Tomei banho na água que jorrava pela tampa da caixa d’água da Escola e à noite sai para tirar algumas fotos da escola batista fundada pelos americanos e de outras edificações. Conhecemos, depois, em São Paulo de Olivença, uma senhora, dona de restaurante, descendente dos Müller que nos deu o telefone de um parente seu, de Manaus, que conhecia um escritor que estava trabalhando num livro a respeito dos fundadores da vila. Infelizmente, para nossa decepção, chegando em Manaus, o número do telefone não estava correto.

(*) Hiram Reis

Coronel de Engenharia; professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB); presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Rua Dona Eugênia, 1227

Petrópolis - Porto Alegre - RS

90630 150

Telefone:- (51) 3331 6265

Site:http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E-mail: hiramrs@terra.com.br

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