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Artigos - 07/03/2009 - 07h43

Iniciando a jornada




Por Hiram Reis e Silva (*)

 

“Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

- Largada (01 de Dezembro de 2008)

Depois de tanto planejamento e treinamento exaustivo, chegou, enfim, o dia de iniciar aquela que talvez venha a ser a maior aventura de minha vida. Saímos às 08:00h com um atraso de quase duas horas em decorrência de alguns aspectos logísticos. A Fabiola deixou para arrumar as suas coisas na última hora.

A noite anterior foi sem problemas, dormi bem. Até a largada eu estava reagindo como se estivesse hipnotizado pelas circunstâncias. Ao iniciar a jornada, porém, entrei em estado de êxtase profundo, era um sonho que se tornava realidade. A velocidade da correnteza ultrapassava os 5,5 nós (10 km/h). O Solimões mostrava sua força, sua pujança. À minha frente uma ilha de apenas 15 anos de idade mostrava a dinâmica de um rio em tumultuária evolução.

Navegar, a remo, pelas mesmas águas de um Orellana, de um Pedro Teixeira, era um privilégio para poucos e eu tinha plena consciência disso. Mantive meu ritmo cadenciado e metódico, mais importante que o chegar a cada destino era observar, comparar, fotografar e estudar cada imagem que era captada pelo minha retina.

Francisco de Orellana - partiu de Quito, em fevereiro de 1541, fazendo parte de uma grande expedição espanhola sob comando de Gonçalo Pizarro com a missão de apossar-se do País de Canela e de procurar o legendário El Dourado. Enfrentando graves problemas de abastecimentos Pizarro toma a decisão histórica de determinar que Francisco de Orellana comande uma tripulação de 57 homens, entre eles o frei Gaspar de Carvajal, e parta rio abaixo em busca de gêneros. Os acontecimento evoluem e Orellana é obrigado a continuar descendo o rio e a 24 de agosto de 1542, finalmente, chega ao Oceano Atlântico.

Pedro Teixeira - partiu de Belém com destino à Quito, pelo Amazonas em 28 de outubro de 1637. A expedição era formada por 70 soldados, 1.200 índios e mais de mil civis. Pedro Teixeira foi recebido pelos espanhóis de Quito com surpresa e apreensão, pois desconfiavam das pretensões portuguesas. Embora as duas Coroas Ibéricas estivessem unidas as autoridades espanholas não se sentiam a vontade com a presença de portugueses em seus domínios, já que este fato que atestava a superioridade dos desbravadores lusitanos sobre os espanhóis. A expedição foi recebida com festas, mas incitada a retornar o mais breve possível. Dois jesuítas, um deles Cristobal de Acuña, foram encarregados de acompanhar Pedro Teixeira na sua volta e de fazer uma descrição pormenorizada da viagem ao governo espanhol.

- À espera de um milagre

Inicio minha jornada volvendo os olhos aos céus e suplicando ao Grande Arquiteto do Universo que estenda suas bênçãos à minha querida esposa. Só Ele poderá fazer retornar ao seu rostinho aquela jovialidade e alegria que encantou nossos dias até ser vitimada pela doença e pela imperícia de um médico.

- Os golfinhos e o seu Raimundo

Meus parceiros, contrariando o bom senso de acompanhar o navegador, ultrapassaram-me e estão a uns 300 metros à jusante. Ao chegar ao extremo noroeste da Ilha de Aramacá, os botos tucuxis me brindaram com suas alegres evoluções. Eram, pelo menos, dois adultos e dois filhotes. Avistei um flutuante ancorado na margem esquerda da Ilha e me dirigi até ele. A forte correnteza dificultou um pouco a aproximação e tive de remar vigorosamente. Fomos recebidos pelo seu Raimundo que nos recebeu cortesmente, contou suas proezas em competições de canoagem, exibiu sua galeria de troféus e fez questão de pilotar um de nossos caiaques. Raimundo fabricava as próprias embarcações e se tornara um campeão na modalidade. Ultrapassamos a extremidade Sudeste da Ilha e ancoramos na margem esquerda do Rio, nos arredores na Comunidade conhecida como ‘Capacete’. Descansamos um pouco, fotografei um barco de madeira amarrado à uma árvore, algumas embarcações que passavam e borboletas que pousavam nos caiaques atraídas pelo colorido dos mesmos. Os pontos que eu marcara, pelo Google Earth no GPS, estavam totalmente deslocados. Um erro de aproximadamente 1 km à sudeste de onde deveriam estar. Descartei o GPS, agora usando-o apenas como velocímetro e passei a me guiar principalmente pela minha velha bússola Silva e as cópias dos mapas do Google. A navegação continuou fácil sem qualquer dificuldade.

- Massacre do Capacete

Segundo nosso amigo Álvaro Cabral, irmão do saudoso prefeito Fábio Cabral de Tonantins, o massacre dos índios Tikuna, também conhecido como ‘Massacre do Capacete’, ocorreu 28 em março de 1988, na região conhecida como ‘Boca do Capacete’, município de Benjamim Constant. A atabalhoada Funai havia iniciado a demarcação da terra Tikuna, e os indígenas se aproveitaram para invadir as terras dos não-índios, que se encontravam ausentes, furtando embarcações, motores de popa e outros artefatos. Antes de partir avisaram às mulheres e crianças, que se encontravam na ‘Comunidade Capacete’, que retornariam para levar outros materiais gerando um clima de grande hostilidade por parte dos posseiros que se armaram para recebê-los novamente. Os Tikuna das Comunidades Porto Espiritual, Porto Lima, Bom Pastor e São Leopoldo tentaram novamente invadir a área e foram recebidos a bala. Quatro nativos morreram na hora, dezenove ficaram feridos e dez desapareceram levados pela correnteza do rio e nunca mais encontrados.

- Ilha de Arariá

Ao sul da Ilha de Arariá, aportamos num grande banco de areia para repouso. A Fabiola ficou preocupada com as enormes vespas que atacavam seu estoque de frutas e queria partir imediatamente. Resolvemos primeiro esticar as pernas, já que as ‘temidas vespas’ não possuíam sequer ferrão. Depois do descanso afastei as vespas do caiaque e fui navegando de ‘bubuia’ para tirar algumas fotografias à jusante depois de avisar ao Romeu que o aguardaria à jusante da ilha de onde continuaríamos a navegação juntos. A forte correnteza me arrastou até a margem direita da ilha. Estava aguardando a dupla quando um piloto que descia o rio me informou que os mesmos estavam descendo pelo lado oposto da ilha. Resolvi descer o rio e esperá-los no extremo leste da ilha. Lá chegando, as informações obtidas com os ribeirinhos eram as mais desencontradas - uns afirmavam tê-los visto do lado esquerdo da ilha e outros do lado direito. Não havia o que fazer e parti rumo a Feijoal.

Bubuia - se deixar levar ao sabor da correnteza.

- Tikunas

Meu contato com os bravos e altivos Tikunas foi extremamente marcante e por isso mesmo dedico grande parte de minhas pesquisas e labor procurando retratar estes guerreiros que representam a maior e uma das mais belas etnias indígenas brasileiras. Ao contrário de deletérios grupos que se autodenominam como nações, os Tikunas são cidadãos brasileiros com direito de escolher seus representantes através do voto. A hostilidade e o apharteid que se verifica, sobretudo, em Roraima hostilizando os membros mestiços do grupo não se verifica entre os Tikunas e a sadia miscigenação pode ser exemplificado pela origem dos próprios caciques; João, da Comunidade de Feijoal, e de seu irmão em Belém do Solimões que embora tenham sangue Tikuna por parte de mãe tem pai paraense.

Os Tikunas fabricavam um veneno de efeito mortífero fulminante conhecido como ‘curare’ e que foi chamado pelos tapuias de ‘Tikuna’, nome que passou a designá-los. Charles-Marie de La Condamine, primeiro cientista francês a participar de uma expedição francesa à Amazônia, foi enviado, em 1735, pela Academia Francesa de Ciências para calcular o diâmetro da terra no equador. O cientista, em 1743, desceu o Amazonas e fez diversas anotações sobre a flora, fauna, e costumes dos nativos. Ele afirma, no seu livro, que testou, com sucesso, o veneno fabricado pelos Tikunas em galinhas durante sua estada em Caiena, na Guiana Francesa. A respeito do veneno, Condamine, relata que:

Esse veneno é um extrato feito por meio do fogo, do suco de diversas plantas, e particularmente de certos cipós. Asseguram que entram mais de trinta espécies de ervas e raízes no veneno feito pelos Tikunas, que é aquele que experimentei, e que é o mais estimado entre os diversos conhecidos ao longo do rio Amazonas. Os índios o compõem sempre da mesma maneira, e seguem sem discrepar o processo que aprenderam de seus antepassados, tão escrupulosamente quanto os farmacêuticos entre nós para a composição da Teriaga de Andrômaco, sem omitir o menor ingrediente prescrito; sem embargo de que provavelmente essa grande multiplicidade não seja necessária no veneno índio, como no antídoto da Europa”.

Os Tikunas são hoje o maior grupo indígena do Brasil com mais de 32.000 pessoas. No Brasil, são encontrados no estado do Amazonas, ao longo do rio Solimões em terras dos municípios de Benjamin Constant, Tabatinga, São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Fonte Boa, Anamã e Beruri e, fora do Brasil, na Colômbia e no Peru.

Os Tikunas falam uma língua isolada e uma de suas características é de fazer uso de diferentes alturas na voz, o que a classifica como uma língua tonal. Os Tikuna estão organizados em clãs agrupados em metades, que regulam os casamentos. Os membros de uma metade devem casar-se com pessoas da metade oposta, sendo que os filhos herdam o clã do pai. Em uma das metades estão agrupados os clãs com nomes de aves - mutum, maguari, arara, japó etc. Na outra metade estão os clãs que possuem nomes de plantas e de animais, como o buriti, jenipapo, avaí, onça, saúva.

- Comunidade Feijoal

A população indígena Tikuna da área se mostrava desconfiada com minha presença e as informações quanto à localização da Comunidade de Feijoal não eram, absolutamente, confiáveis. Conversando, mais tarde, com os policiais federais, da Base Anzol, eles nos informaram que os traficantes colombianos, procurando passar despercebidos, têm lançado mão de pequenas embarcações, a remo, para suas atividades ilícitas. Só comecei a ter algum êxito quando perguntei pelo professor Henrique, cujo nome tinha sido indicado pelo meu amigo professor Sebastião Rocha de Sousa da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em Tabatinga. No seu dialeto, alguns jovens, tentavam me indicar o rumo a ser tomado. O contato que havia feito com o administrador regional da Funai em Tabatinga, o senhor Davi Félix Cecílio, foi de muita valia. Ao chegar procurei o Professor Henrique, que já tinha sido informado de nossa vinda pelo amigo Davi, o professor conseguiu que ficássemos instalados no posto da Funai, com direito a ar condicionado e banheiro. Meus companheiros chegaram uma hora e meia mais tarde, quando já estávamos providenciando uma voadeira e uma equipe de resgate. Tomamos um bom banho e entrevistei as autoridades da Comunidade, o cacique João, o encarregado da Funai, senhor Arsênio, o professor Henrique, dentre outros. Durante as entrevistas saboreávamos a mapati, chamada de ‘uva da Amazônia’.

Voadeira - espécie de canoa, de madeira ou alumínio, dotada de motor de popa, utilizada para a travessia de rios.

Mapati (Pourouma cecropiifolia) - também conhecida como ‘Embaúba de vinho’, os frutos maduros são muito apreciados pelo homem e pela fauna. O fruto maduro é preto, a casca tomentosa, a polpa esbranquiçada é doce e saborosa.

Os problemas relatados foram, como era de se esperar, referentes à segurança, em decorrência da ação de traficantes e exploradores da mata nativa dentro da área da reserva, à saúde em decorrência da falta de medicação no posto da Funasa e à educação tendo em vista a dificuldade do acesso ao Ensino Superior para os concludentes do 3º ano do Ensino Médio. A principal reivindicação era de uma casa de apoio em Tabatinga onde pudessem ficar alojados quando estivessem cursando a faculdade na UEA, uma reivindicação justa de qualquer sociedade medianamente organizada. Os pontos fortes que observei, junto aos Tikunas de Feijoal, foram o respeito e a confiança depositada nas suas lideranças, a limpeza da Comunidade, o sistema de refrigeração na escola de Ensino Fundamental Marechal Rondon, a água tratada e a energia elétrica.

- Um convite irrecusável

O cacique João Farias Filho me convidou insistentemente a permanecer mais um dia na sua Comunidade. Concordei, após comunicar à equipe que isso exigiria de nós um esforço especial no percurso de Belém do Solimões à Santa Rita de Weil já que para manter a programação teríamos de suprimir o pernoite na Comunidade de Santa Maria. Na manhã de 02 de dezembro sai com o cacique para conhecer a Comunidade quando tivemos a oportunidade de conversar com alguns alunos do Ensino Médio que relataram emocionados, em português e na língua nativa, suas angústias ante a impossibilidade de dar continuidade aos estudos. Logo, em seguida, chegaram meus parceiros e seguimos com o cacique e outras lideranças ao sítio do Arsênio onde tivemos a oportunidade de provar algumas das iguarias locais, como o ingá e a mapati, observar os frutos de cupuaçu e cupuí, ainda fora da época da colheita, e alimentar os tambaquis e outros peixes no lago artificial onde são criados.

Ingá (árvore da Subfamília Mimosoideae) - comum nas margens de rios e lagos, é muito procurado pelo homem e pela fauna por suas sementes envolvidas pela sarcotesta branca e adocicada.

Cupuaçu (Theobroma grandiflorum) - é um fruto parente próximo do cacaueiro. A árvore é conhecida como cupuaçuzeiro, cupuaçueiro ou cupu. Os frutos tem a forma esférica ou ovóide e medem até 25 cm de comprimento, tendo casca dura e lisa, de coloração castanho-escura. As sementes ficam envoltas por uma polpa branca, ácida e aromática.

Cupuí (Theobroma subincanum) - parente do cupuaçu verdadeiro ao qual se assemelha em aparência é, entretanto, bem menor e, ainda que possua polpa mais saborosa e doce não tem o aroma do cupuaçu.

A Fabiola se envolveu com as crianças e essas a convenceram a se deixar pintar com Jatobá afirmando que a tinta sairia depois de uma semana. A cor escura, quase preta, do jenipapo teria atributos anti-sépticos e agia como protetor solar segundo elas. A nossa parceira permaneceu com a tinta escura na pele por mais de dez dias o que não evitou que ela tivesse sérios problemas com queimaduras pelo sol.

Jenipapo (Genipa americana) - da familia das Rubiaceae possui otima madeira para a constuções de moveis. O seu fruto é uma baga subglobosa que geralmente é de cor amarelo-pardacenta, com polpa aromática, comestível, de que se fazem compotas, doces, xaropes, bebida refrigerante, bebida vinosa e licor. Além disso, é possível extrair do fruto uma tinta preta, muito usada pelos indígenas, há milênios, em petróglifos, cerâmica, cestaria, tatuagens, pintura corporal etc.

- Entrevista com o Cacique João Farias Filho

O cacique João é um líder nato exerce sua liderança com sabedoria e bom senso. Lúcido e inteligente está a par dos acontecimentos nacionais e internacionais sobre os quais discorre com uma fluência e conhecimento impressionante.

Boa tarde coronel! O senhor foi muito bem recebido na Comunidade. Meu nome é João Farias Filho, eu sou o cacique da Comunidade Feijoal representando mais de 2000 pessoas. Eu quero levar ao conhecimento de todos que na nossa Comunidade, embora o senhor tenha elogiado a sua infra-estrutura, está faltando ainda muita coisa na área educação, saúde e saneamento básico. Eu quero levar este recado para que o senhor possa agir pela gente. Na nossa escola os alunos não tem espaço para desenvolver suas habilidades, não tem uma área de lazer, uma sala de informática que possam fazer uso após as aulas. Nos já temos computadores, mas falta a conexão com a internet. Eu queria que o governo auxiliasse nossos mais de 1000 alunos oferecendo a eles outras possibilidades como cursos profissionalizantes e acesso à internet para que eles possam verificar como anda mundo lá fora. Por isso que nosso jovem, e de outras Comunidades também, sem maiores perspectivas, acaba por se envolver com as drogas e a violência. Nós temos vários projetos para levar avante que foram apresentados aos políticos mas até agora nada foi feito”.

- Um jantar especial

Compramos uns peixes (traíras e jaraquis) e o Arsênio nos instou a que o mesmo fosse preparado na sua casa. Deixamos os peixes com ele e fomos nos preparar para o jantar. Chegando à casa do amigo retiramos os chinelos na varanda da casa e nos dirigimos aos fundos da casa onde a tia do Arsênio preparava o jantar num fogo de chão montado na ampla sala. Conversarmos um bom tempo sobre os assuntos mais variados, os amigos Tikunas estavam muito bem informados sobre tudo que ocorria no Brasil e no mundo, pois, como havíamos documentado, quase todas as casas possuíam televisão. A curiosidade maior foi a posição das antenas parabólicas, na horizontal, já que esta era a posição ideal para quem estava instalado nas proximidades da linha do equador onde se localizam os satélites geo-estacionários.

Jaraqui (Prochilodus brama) - peixe teleósteo, caraciforme, caracídeo, muito comum no Amazonas, o corpo apresenta listras negras horizontais na parte superior da linha lateral, mais acentuadas na parte posterior. Semelhante ao curimatá.

O cacique João, evangélico fez-se presente e antes da refeição, encabeçou uma prece em agradecimento ao Senhor Sentados, cerimoniosamente, no chão, consumimos o delicioso jantar preparado pela tia de Arsênio. Durante a refeição, provoquei o cacique para que nos relatasse algumas de suas lendas e costumes. Ele nos relatou como foi criado o Povo Tikuna e a festa da Moça Nova.

- Povo Tikuna – mito da criação

Como as lendas se confundem com a própria origem dos povos indígenas, que eram ágrafos, a tradição oral permite, de acordo com a vivência e conhecimento do seu interlocutor, matizá-las, castrá-las ou incrementá-las mantendo intocado apenas o cenário de fundo. Embora tenha ouvido a mesma lenda contada em cinco oportunidades diferentes em cada uma delas observei novas ou diferentes nuances. Há, por exemplo, uma divergência muito grande na série de relatos ouvidos desde a morte até a ressurreição de Nutapá. Procurei, então, reproduzir abaixo um resumo mais ou menos comum a todas elas embora tenha suprimido alguns detalhes que não eram comuns a todos relatos.

No início havia uma separação entre Tempo e Espaço. Antes da criação do mundo, no Tempo, Nutapá e sua mulher Mapana viviam às margens do Igarapé Eware em lugares distintos, numa época de fartura em que a caça e a pesca eram abundantes. No primeiro dia de caça os dois se desentenderam e Nutapá amarrou a mulher à uma árvore para morrer porque ela não tinha órgão sexual para lhe gerar filhos. Um pássaro, chamado Canã, que sobrevoava o local se transforma em gente para desamarrá-la e, mais tarde, participa do plano de Mapana para assassinar Nutapá.

Mapana atirou um ninho de cabas nos joelhos de Nutapá quando este retornava da caça. Nutapá foi ferroado pelos animais em ambos os joelhos. Um grande tumor se formou nos joelhos ferroados e o grande chefe mandou abrir para ver se havia algum bicho nas feridas. Dentro dos tumores estavam dois meninos e duas meninas fazendo zarabatanas, flechas, alforjes, venenos e muitas outras coisas, boas e más. Nutapá tirou do joelho direito um casal de meninos e chamou o menino de Djói e a sua irmã de Movaca. Do joelho esquerdo um outro casal que ele batizou de Ipi e Aucana. Djói fabricou a zarabatana e o curare e Ipi o arco e a flecha. Aucana fabricou o cesto e a bolsa e Movaca a maqueira e a peneira. As crianças foram os artífices de todos os objetos que os Tikunas usam até hoje.

Igarapé - rio pequeno que tem as mesmas características dos grandes e que é geralmente navegável; os maiores denominam-se igarapés-açus e os menores, igarapés-mirins.

Caba (marimbondo) - designação dada aos insetos himenópteros, vespídeos.

Maqueira - rede artesanal.

Um dia quando os meninos pescavam com Nutapá este foi engolido por uma onça depois de ter cruzado uma pinguela sobre o igarapé Eware. Djói e Ipi tentaram rastrear a onça e como não conseguissem voltaram ao local de travessia e passaram no tronco, estendido sobre o igarapé, gosma de peixe e de frutas. Enquanto esperavam, foram fazendo piranhas - pretas, vermelhas, brancas, afiando os seus dentes como haviam afiado os seus. Quando a onça tentou passar pelo tronco, escorregou e caiu na água, e as piranhas a mataram. Djói e Ipi secaram o igarapé, tiraram o couro da onça e recolheram do seu estômago os pedaços de Nutapá, levando-os para casa e ressuscitaram o ançião.

A copa da grande samaumeira cobria o mundo escurecendo tudo e os irmãos Djói e Ipi tentaram abrir um buraco na copa da árvore, jogando-lhe caroços de arara-tucupi e, como não conseguissem, chamaram o pica-pau, que tentou, em vão, cortar o duro tronco com o bico. Resolveram então tirar o machado da cutia arrancando-lhe a perna de trás, que era o seu machado. Ipi começou a cortar a árvore, mas o corte tornava a fechar. Djói resolveu tentar e, com ele, o corte se mantinha aberto. Depois de cortar um bocado, passou o machado a Ipi, que continuou a cortar e agora o corte não se fechava mais. O corte era profundo e mesmo assim a árvore não caía. Os irmãos olharam para cima e viram que era uma preguiça que a sustentava. Chamaram o acutipuru pequeno (Serelepe, caxinguelê, quatipuru ou caxixé) para subir e tirar a mão da preguiça do galho. O acutipuru subiu com formigas de fogo para jogar nos olhos da preguiça e conseguiu atingir os olhos da preguiça. A samaumeira caiu, e daí por diante se pôde ver o sol, o céu, as estrelas. A recompensa do acutipuru foi casar com a irmã dos irmãos.

Samaúma ou Sumaúma (Ceiba pentranda) - considerada, pelos nativos, como a ‘rainha da floresta’. Os indígenas a consideram a ‘mãe-das-árvores’. Conhecida como ‘Árvore da Vida’ ou a ‘escada do céu’. É uma das maiores árvores do mundo, atingindo 90m de altura. Suas sapopembas alem de ornamentais, podem ser transformadas em habitações pelos povos da floresta.

Arara-tucupi (Parkia pendula) - conhecida vulgarmente como angelim saia. Tem ocorrência natural na Amazônia brasileira e possui madeira com características atrativas para o mercado madeireiro.

Acutipuru (Sciurus vulgaris) - admirado pelo seu aspecto peculiar, o Serelepe ou esquilo brasileiro também é conhecido na região por caxinguelê, caxinxe, catiaipé, quatimirim, quatipuru, acutipuru. O Serelepe é um animal arborícola, vive nas copas das árvores. As sementes, insetos e frutas são as principais fontes de alimentação. Quando adulto, seu corpo chega a medir 25 cm e o rabo de 25 cm ou mais.

Djói usando isca de macaxeira foi até o igarapé Évare e pescou peixes que transformou em gente logo que eram retirados da água criando o povo Magüta, que significa ‘povo pescado do rio’, ascendentes dos Tikuna.

- Festa da Moça Nova

A Festa da Moça Nova, ou seja, da menina que se torna mulher para os Tikunas é muito importante, pois eles consideram a fase da puberdade muito perigosa, período em que as jovens podem ser influenciadas por maus espíritos. O ritual tem por objetivo iniciar as meninas-moças na vida adulta e é composto por eventos expressivos, como:

                                                       Clausura - construção do local (turi) onde a menina ficará isolada;

                                                       Convite - aos Tikuna de outros clãs;

                                                       Pintura Corporal – da Moça Nova e dos convidados;

                                                       Ornamentos - carregados de profundo significado;

                                                       Mascarados - representando seres mitológicos;

                                                       Músicas e instrumentos musicais - selecionados especificamente;

                                                       Pelação - momento em que os cabelos da moça nova são arrancados;

                                                       Purificação - representada pelo banho.

 

A partir da primeira menstruação, a menina é conduzida para um local reservado (turi), construído para este fim com esteiras ou cortinados, sem aberturas a este ou a oeste de acordo com o seu clã, onde permanecerá enclausurada por um longo período só podendo se comunicar com a mãe e a tia paterna. Neste período receberá as orientações necessárias de caráter místico e profano para que possa conduzir com eficiência sua vida dali por diante com o objetivo de estabelecer uma nova família enquanto os familiares se encarregam de convidar os Tikunas de diversos clãs para o evento.

O pai, uma semana antes do evento, se dedica a estocar grande quantidade de caça e pesca que será devidamente moqueada para resistir até o dia da festa quando se consumirá grande quantidade de comida e pajuarú.

Moquear - quer dizer tornar seco, enxugar; assar a caça ou a pesca com o couro em um gradeado de madeira ou diretamente sobre as brasas. O produto assim tratado pode ser consumido até uma semana após submetido ao este processo.

Pajuarú - bebida inebriante feita da mandioca fermentada e azeda.

A cerimônia começa oficialmente com um brinde de pajuarú na casa do pai da moça. Os parentes e convidados pintam o corpo com jenipapo. A tia da moça traz feixes de fibras de palmeiras (babaçu, buriti e tucum) que simbolizam a fertilidade e serão utilizadas nas danças tribais. Durante o corte do tronco de envira, de onde se tira o material para tecer o cocar, os convivas entoam melancólicas cantigas e o curaca realiza rituais de pajelança para atrair os seres da floresta e alimentá-los.

Curaca - chefe temporal das tribos indígenas brasileiras.

Buriti (Mauritia flexuoxa) - presente nas várzeas e margens dos igarapés, a palmeira é conhecida como coqueiro-buriti, miriti, muriti, muritim, muruti, palmeira-dos-brejos, carandá-guaçu, carandaí-guaçu. Fornece a palha para cobrir cabanas e do broto tira-se a envira, fibra que serve para tecer redes, tapetes e bolsas.

Os mascarados surgem momentaneamente quando a moça sai da reclusão para a primeira pintura corporal pela manhã. As máscaras são confeccionadas de acordo com a realidade de cada Comunidade e imitam entidades ou animais representando os espíritos demoníacos, que num tempo mítico massacravam os tikunas, lembram à jovem índia que o perigo existe.

                                                       Mawü – mãe dos ventos e dos morros;

                                                       O’ma – mãe da montanha e da tempestade;

                                                       Tôo – os micos;

                                                       Yurwü – parente do demônio

 

As senhoras do seu clã iniciam a pintura com um sabugo de milho que molham na tintura e passam pelo corpo da moça, de cima para baixo, em duas grandes linhas curvas, abertas, para fora, na frente e atrás. O rosto é pintado em linhas que cobrem a face e a testa. Depois de seca a primeira pintura derramam tinta de jenipapo no corpo da moça espalhando-o com as mãos, escurecendo totalmente o tronco. O objetivo da pintura é criar uma nova pele que ao ser removida naturalmente carrega com ela toda as mazelas passadas simbolizando o renascimento de uma nova fase. Por volta do meio dia as mulheres mais velhas incluindo a mãe e a avó vão até o turi colocar os adornos na Moça Nova e pintá-la. Cada um dos ornamentos tem uma preparação bastante elaborada e um significado muito especial:

Coroa de penas vermelhas de arara - as penas de arara vermelha representam o sol e tem poderes sobrenaturais já que, normalmente, é usada pelo curaca. A coroa é confeccionada com a fibra do tururi e possui duas pontas das asas da arara. É colocada na testa da Moça Nova de maneira a cobrir-lhe os olhos para que ela não possa ver.

Ubuçú ou Buçu (Manicaria Sacifera) - palmeira com frutos em forma de cocos pequenos, da família das Palmáceas, abundante nas margens das várzeas e ilhas da Amazônia. A palha é utilizada por ribeirinhos na cobertura de casas. O cacho que pende da palmeira é protegido por um invólucro semelhante a um saco de material fibroso e resistente chamado de tururi.

Tanga Vermelha - feita pela avó ou pela mãe deve ser pintada com folhas de crajiru, semente de urucum ou com a fruta da pacova. O vermelho representa a vida, o sangue, sobre essa tanga, a menina usa uma pequena tanga de miçangas coloridas.

Crajiru (Arrabidaea chica) - As folhas trituradas, esmagadas em água, cozidas ou cruas, rendem uma tintura marrom ou enegrecida usada pelos tikunas em pintura de vestuário e da face.

Urucum (Bixa orellana) - seu nome popular tem origem na palavra tupi ‘uru-ku’, que significa ‘vermelho’. De suas sementes extrai-se um pigmento vermelho usado pelas tribos indígenas como corante e como protetor da pele contra os raios solares intensos.

Banana Pacovan (banana-chifre-de-boi, banana-comprida ou banana-da-terra) -são as maiores bananas conhecidas, chegando a pesar 500 g cada fruta e a ter comprimento de 30 cm. É achatada num dos lados, tem casca amarelo-escura, com grandes manchas pretas quando maduras, e polpa consistente, de cor rosada e textura macia e compacta, sendo mais rica em amido do que açúcar, o que a torna ideal para cozinhar, assar ou fritar.

Colares - cruzados à altura do peito servem apenas de adorno. As penas de arara tem um significado especial, pois representam o Nutapá e o seu uso representa que somos feitos à imagem Dele.

Braçadeiras e perneiras - feitas de penas e fios são colocadas nos braços e nas pernas.

Depois da colocação de todos os adornos é a hora da terceira pintura. Os braços são enfeitados com penas coladas ao corpo com uma substância colante, nas cores vermelha e azul feita de urucum e resina de madeira. Agora ela pode finalmente sair do seu turi. E sua chegada à sala de festa ocorre de forma especial, dançando com pessoas da família, conduzida por alguém especialmente escolhido para essa tarefa. É um momento muito esperado por todos.

Juntam-se a eles muitos dos convidados e continuam dançando. Ao chegar à parte externa da casa, o condutor inclina a cabeça da moça nova para trás, fazendo com que o rosto dela receba a luz do sol que ela tinha ficado sem ver durante a reclusão. Os convidados continuam dançando em volta da casa de braços dados em grupos de 4 a 6 pessoas deslocando-se para frente e para trás.

A pelação significa renovação, mudança, pois a menina já se tornou moça. Ela deve retirar todo o cabelo para renovar-se e redimir-se das faltas cometidas e para ser incentivada a assumir uma postura de pessoa adulta. O processo de retirada dos cabelos é manual sendo arrancado em pequenas mechas. A Moça Nova é sentada sobre um tapete de palhas no centro da sala enquanto ao seu lado todos os participante

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