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Artigos - 07/03/2009 - 09h05

Irmão Guaíba, minha raia




Por Hiram Reis e Silva (*)

“Ama as águas! Não te afastes delas! Aprende o que te ensinam! Ah, sim! Ele queria aprender delas, queria escutar a sua mensagem. Quem entendesse a água e seus arcanos - assim lhe parecia - compreenderia muita coisa ainda, muitos mistérios, todos os mistérios”. (Hermann Hesse - Sidarta)

O lago Guaíba me acolheu, desde o início, com carinho e embalado por suas ternas ondas naveguei por quase dois anos solitariamente, foram mais de 2000 horas enfrentando todo o tipo de obstáculos. Com humildade aprendi com as águas, com os ventos, comecei a entender suas mensagens sutis observando as nuvens, os pássaros e os insetos. Aprendi a reconhecer minha capacidade e minhas limitações, a fazer companhia a mim mesmo e me alegrar com isso, a refletir sobre minhas ações. A declamar poesias enquanto navego educando a respiração enquanto pico a voga. Meu pai, carioca de nascimento e gaúcho de coração, me presenteou, nos meu aniversário de sete anos, com a 1ª edição do livro ‘De fogão em fogão’ em que o Jayme Caetano Braun ensinava, através de sua gaudéria poesia, a beleza da vida campeira, a altivez dos gaúchos e as maravilhas da natureza local. Desde então a poesia do ‘Payador’ tem me acompanhado nas minhas rotas infindas e me inspirou para colocar no logotipo do projeto a imagem do ‘Galo de Rinha’, minha poesia preferida, mas, me pareceu que nos dias de hoje, o símbolo podia ser mal interpretado pelos talibãs da seita do ‘politicamente correto’. O símbolo mostraria a força do ‘guasca vestido de penas’ e não seria, jamais, uma apologia às brigas de rinha. Identifico-me, por demais, com a última estrofe do ‘Galo de Rinha’ e acho que esta poesia do ‘Andarengo’ tem uma energia muito grande que eu gostaria de ter usado no projeto.

Porque na rinha da vida

Já me bastava um empate!

Pois cheguei no arremate

Batido, sem bico e torto

E só me resta o conforto

Como a ti, galo de rinha

Que se alguem me

dobrar-me a espinha

Há de ser depois de morto!

 

Depois de pesar os pós e os contras aderimos á imagem do quero-quero, o sentinela dos pampas, que também é lembrado na poesia de nosso poeta.

 

O próprio Deus rio-grandense

Que te deu esse penacho

E a parada de índio macho

Que tão soberano ostentas,

Fez o pampa onde sentas

Das revoadas interminas,

Que fez o rancho e as chinas

A tapera e o umbú,

Não fez outro como tú,

Velho guardião das campinas!

 

Foram intermináveis horas de aprendizado com o rio e sempre, em cada momento, senti a presença de uma ‘Força’ mágica me conduzindo, me apoiando. Não foram raras as vezes em que depois de remar de

40 a50 quilômetros, de 5 a 7 horas, encontrava energia para nos últimos dez acelerar o ritmo tentando melhorar o tempo, era como se a ‘Força’ canalizasse os ventos para a popa do caiaque e me impulsionasse, sentia uma estranha energia fluindo do casco para o convés me envolvendo e afastando de mim o cansaço e o desânimo. Como posso temer algo se ‘Ele’ está comigo e, em última instância, se alguma fatalidade acontecesse, acho que seria uma boa morte e em boas companhias.

- Falando da Morte

Sempre que posso, no intervalo de minhas remadas infindas, leio poesia. A solidão, as paradisíacas paisagens das praias e ilhas do Lago Guaíba, a suavidade da brisa, o rumor das águas, tudo convida à meditação e embala a alma para estes mágicos devaneios literários. Sentado nas pedras, na Ilha do Francisco Manoel, lia a poesia de Gabriel José Garcia Márquez - Falando da Morte:

“…Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar… Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa…”

De repente, minha memória, madrugando no passado, recolheu imagens de uma entrevista que dera a minhas diletas amigas, professoras Silvana e Patrícia, do Clube de História do Colégio Militar de Porto Alegre, a respeito do Projeto-Aventura Desafiando o Rio-Mar. Na oportunidade, quando me indagaram qual era o meu maior medo, acho que esperavam que fosse algo que atentasse contra a minha vida ao enfrentar as áreas ermas da Hiléia ou as misteriosas águas do Solimões e seus tributários quando respondi que era a possibilidade de não concluir o trajeto elas ficaram surpresas.

- Se - Rudayard Kiplig

Não gostaria, jamais, de partir para a derradeira jornada, amarrado ao catre e cercado de cuidados médicos. Socorro-me novamente da poesia, desta feita pela inspiração do poeta do império britânico para ratificar o que penso:

“E se és capaz de dar, segundo por segundo,

Ao mínimo fatal todo o valor e brilho,

Tua é a terra com tudo o que existe no mundo

E o que ainda é muito mais - és um homem, meu filho!”

- Arita Damasceno Pettená

Encerro com os versos da poetisa, escritora e professora Arita D. Pettená:

“Que importa que haja ondas revoltas,

ameaçando um casco acorrentando.

Quero respirar, no último momento,

a esperança diluindo-se em espumas,

espumas desmanchando-se em esperanças”.

(*) Hiram Reis

Coronel de Engenharia; professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB); presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Rua Dona Eugênia, 1227

Petrópolis - Porto Alegre - RS

90630 150

Telefone:- (51) 3331 6265

Site:http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E-mail: hiramrs@terra.com.br

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