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Carnaval - 24/02/2009 - 11h00

Tambores se calam na noite de segunda em Recife para lembrar antepassados negros




Por Juliana Cézar Nunes, da Agência Brasil

 

O silêncio e a escuridão marcaram a meia-noite da segunda-feira de carnaval, quando os tambores das 23 nações de maracatu de baque virado calaram-se para homenagear os antepassados negros do povo pernambucano. Apagaram-se as luzes no pátio da Igreja do Terço.

O espaço é simbólico. Foi usado para a comercialização, castigo e até mesmo sepultamento dos que foram escravizados na África e trazidos para Pernambuco. Hoje, reis, damas e batuqueiros recriam a corte real em um dos momentos mais especiais do carnaval de Recife: a Noite dos Tambores Silenciosos.

Nem a chuva torrencial que alagou as ruas do bairro São José afastou foliões, religiosos, líderes sociais e políticos. No Pátio do Terço, em meio a construções coloniais e abandonadas, eles renovaram o compromisso com a luta dos negros, que ainda enfrentam preconceito e segregação.

Cerca de 20 mil pessoas se uniram à meia-noite para ouvir o babalorixá Raminho de Oxóssi reger o coro de mães-de-santo que rezam com ele aos antepassados, evocando ancestrais das nações nagô. Robson Oliveira recebe a benção do babalorixá há 10 anos. Ele faz parte do Maracatu Axé da Lua e representou este ano as baianas no bloco da nação.

“Os maracatus de baque virado se reúnem e fazem uma louvação evocando a alma desses ancestrais para que eles tenham o descanso eterno e nos abençoem pelo restante do ano. Todo ano eu venho, não perco por nada nesse mundo. Tenho uma sensação de dever cumprido por estar reverenciando os antepassados. Isso também é uma forma de demonstrar respeito, além de participar da cultura”, disse ele.

O pátio onde se realiza a Noite dos Tambores Silenciosos, durante o carnaval, recebe o nome de Pólo Afro Luiz de França, em homenagem a um babalorixá de Olinda que liderou até 1997 a Nação Maracatu Leão Coroado, criada há 146 anos. França lutava contra o racismo em Pernambuco.
Para Vera Barone, da Sociedade de Mulheres Negras de Pernambuco Uiala Mukaji, essa luta ainda faz muito sentido. Na noite dos tambores, ela rezou, mas também denunciou casos de intolerância em Recife.

“A gente aqui em Recife e em Olinda vive muitos casos de intolerância. Seja cultural, seja racial, seja religiosa. Então, agora mesmo, estou sabendo que em uma igreja católica do bairro da Mangueira, aqui em Recife, tem uma missa chamada Missa dos Anjos, e o padre, de uma certa maneira, impede que as pessoas vestidas de branco participem, por entender que aquela missa é só para cristão e não para quem é do candomblé”, afirmou Vera.

“Nós entendemos que todos os templos religiosos devem estar abertos para quem tem fé e para quem não tem. Vai ser mais uma ação que precisaremos fazer nos próximos dias para fazer valer a liberdade de crença e culto.”

Segundo o prefeito de Recife, João da Costa, o governo local tem atuado no sentido de garantir a promoção da igualdade racial. Uma diretoria para tratar do assunto funciona na Secretaria de Assistência Social.

Políticas de combate ao racismo institucional na saúde, por exemplo, têm sido elogiadas pelo movimento social negro, que também reivindica a criação de uma secretaria específica de políticas de promoção da igualdade racial. O prefeito afirma que essa estrutura pode ser discutida.

“Nossa preocupação é formular políticas e que essas políticas sejam transversais e tenham eficiência e produzam resultados na melhoria de qualidade de vida do povo. A estrutura para isso funcionar é sempre uma possibilidade que pode ser discutida”, disse João da Costa.

As nações de maracatu atuam não apenas no carnaval. Elas são ponto de referência para as comunidades. Promovem cultos religiosos e oferecem cursos de música para jovens e crianças. Os integrantes das nações são considerados exemplos a serem seguidos. Que o diga o artista popular Sandro José Feitos, rei da nação de maracatu mais antiga, a Maracatu Elefante. Ele lidera uma nação de 209 anos.

“Ser o rei da nação é seguir a tradição. Essa noite dos tambores representa uma celebração muito importante contando a história dos negros, dos africanos, que não tinham direito a uma igreja, nem para tomar banho, dormir e descansar em paz. Por isso ficou marcada essa data. Para mim é uma honra estar aqui.”



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