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Artigos - 09/10/2017 - 13h29

Epopeia Acreana - Parte VI




Fotos: Divulgação










Por Hiram Reis e Silva*

 Rio Branco, AC – Porto Acre, AC

Hiram Reis e Silva, Xapuri, AC, 09 de outubro de 2017

O sábio teme o céu sereno; em compensação, quando vem a tempestade ele caminha sobre as ondas e desafia o vento. (Confúcio)

 

Ama as águas! Não te afastes delas! Aprende o que te ensinam! Ah, sim! Ele queria aprender delas, queria escutar a sua mensagem. Quem entendesse a água e seus arcanos – assim lhe parecia – compreenderia muitas coisas ainda, muitos mistérios, todos os mistérios. (HESSE)

Quando parto às escuras, lembro-me de minhas jornadas anteriores em que faço sempre questão de sair antes do amanhecer. Na descida dos Rios Aquidauana-Miranda, no Mato Grosso do Sul, meu parceiro, menos propenso à “Litania das Horas Mortas”, abandonou a jornada no terceiro dia. Gosto de navegar solitariamente usufruindo das belezas naturais que me cercam e enfrentar todo tipo de obstáculos acompanhado de longe pelo Grande Arquiteto do Universo. Saindo antes do amanhecer tenho a rara oportunidade de me entranhar nos sutis meandros aquáticos, de imergir literalmente no momento mágico que é o despertar de um novo dia. A uniformidade da flora vai ganhando novos contrastes, novas cores, novas luzes, numa invulgar explosão que apresenta progressivamente a pujança extrema da biodiversidade tropical. A fauna preguiçosa, ao acordar, entoa uma ode maravilhosa sob a batuta do Astro-rei, tons diversificados, emitidos pelas mais diversas gargantas, irmanadas numa sinfonia única acompanhada eventualmente, de longe, pelo som melancólico dos bugios. Nestas horas adentro solenemente nos umbrais de um templo sagrado e avisto, extasiado, a “Terceira Margem do Rio”. Somente os verdadeiros canoeiros são capazes de aprender humildemente com as águas, com os ventos, e entender suas sutis mensagens observando as nuvens e os seres da mata. Aprendi com eles a reconhecer minha capacidade e minhas limitações, a fazer companhia a mim mesmo e me alegrar com isso, a refletir sobre minhas ações ou omissões. A declamar poesias educando a respiração enquanto pico a voga. Meu coração e minha mente seguem a par e passo, literalmente, as estrofes da “Litania das Horas Mortas” de Da Costa e Silva, o Príncipe dos Poetas Piauienses e autor da letra do Hino do Piauí.

Litania das Horas Mortas

 (Antônio Francisco da Costa e Silva)

Por estas horas de silêncio e solidão,

Eu gosto de ficar só com o meu coração.

É nestas horas de prazer quase divino

Que eu me sinto feliz com o meu próprio destino.

Por estas horas é que a cisma me conduz

Por estradas de treva e caminhos de luz.

É nestas horas, quando em êxtase medito,

Que sinto em mim a nostalgia do infinito.

Por estas horas, quando a sombra estende os véus,

A fé me leva além dos mais remotos céus.

É nestas horas de tristeza e de saudade

Que desperta em meu ser a ânsia da Eternidade. [...]

É nestas horas de tristeza e esquecimento

Que eu gosto de ficar só com o meu pensamento.[...]

Por estas horas transitórias e imortais

Se desvanecem minhas dúvidas fatais. [...]

Por estas horas, meu instinto morre, com

A intenção de ser justo, o anseio de ser bom. [...]

Por tuas horas silenciosas, benfazejas,

Deusa da Solidão, Noite! bendita sejas!

21.09.2017 – Partindo de Rio Branco

A estada em Rio Branco foi providencial. As dores musculares diminuíram, fiz minhas marchas diárias de três horas, ao alvorecer, abandonei a dieta a base de castanhas e bananas, dormi em uma cama seca, tomei banho quente e bebi água insípida, inodora e incolor, tudo de bom. Estabelecemos contato com a Prefeitura de Porto Acre e a Agência Fluvial de Boca do Acre, Marinha do Brasil, esperando que os apoios sejam concretizados para que possamos pernoitar um dia em cada uma destas cidades mais confortavelmente. A barraca, que me abriga contra os mosquitos antes do entardecer transforma-se literalmente em uma sauna seca. Não existem árvores e os arbustos são raros, é época da seca, acampo onde, no período da alagação, é o leito do Rio.

Acordei às 04h22 e parti às 05h15, apoiado, mais uma vez, pelo 7° Batalhão de Engenharia de Construção.

Em vez da costumeira e agradável névoa da evapotranspiração o que se via e sentia era a macabra fumaça das queimadas que dificultam a visibilidade, a respiração e irritam os olhos. Um costume ancestral arraigado nos corações e mentes dos trabalhadores rurais que teimosamente persistem nesta prática extremamente criminosa. Os reflexos desta deletéria prática são, a longo prazo, o empobrecimento do solo, degradando e afetando sua fertilidade, e, em consequencia, diminuindo a produção agrícola em virtude da eliminação de nutrientes essenciais como nitrogênio, potássio e fósforo, além de  reduzir a umidade da terra acarretando sua compactação, desencadeando, com isso, um processo erosivo, que, certamente, estará comprometendo o futuro e a segurança alimentar da humanidade. Outro grande malefício oriundo desta infeliz prática é a liberação de uma grande quantidade de CO2, ‒  principal gás do efeito estufa, sem mencionar os efeitos altamente nocivos à saúde humana e à sobrevivência de nossa biofauna.

Avistei um ribeirinho que carregava sua canoa com bananas para vendê-las em Rio Branco e comprei-lhe duas pencas por quatro reais. As bananas que ganhei em Xapuri tinham acabado.

Um enorme boto vermelho fez uma evolução a bombordo do caiaque balançando a embarcação. Mais adiante, uns dois km, não sei se o mesmo boto realizou manobra semelhante a bombordo e boreste.

Avistei, ao longe, três homens em uma canoa e, ao me aproximar, identifiquei dois idosos, um na proa e outro na popa e um rapaz de pé empunhando uma calibre doze (09°53’35,90”S / 67°38’13,70”O). A cachorrada latindo em ambas as margens chamou minha atenção para um enorme capinxo macho (capivara – Hydrochaeris hydrochaeris) que nadava rapidamente tentando escapar dos seus vis algozes. 

Acampei, na margem esquerda (09°47’37,70”S / 67°34’57,80”O), adiante do ponto marcado, e montei a barraca à sombra de uma embarcação encalhada na areia. Conversei, aos berros, com o Sr. Cid e esposa, que moram na margem direita defronte ao meu acampamento, eles empoleirados no alto do barranco eu na praia da margem esquerda. Mais tarde o Cid apareceu para conversar e me mostrou uma gigantesca cabeça de Jau que ele tinha encontrado. Estávamos conversando animadamente quando, por volta das 16h00, começou um temporal.

Consegui escorar a barraca para que ela não fosse arrastada pela força do vento. Entrei na barraca apoiando os estais para que não dobrassem. Meia hora depois a chuva acalmou. A vantagem da repentina chuvarada foi que a temperatura amainou e pude relaxar um pouco. 

Total 1° Dia (Rio Branco – AC 07a)               =     63,2 km

22.09.2017 – AC 07a – Porto Acre

Depois da chuvarada da tarde passada a temperatura ficou bem mais agradável e dormi bem.

Alvorada às 04h20, como sempre começo arrumando a tralha de dormir na mochila vermelha. O aprestamento foi lento e minucioso, tinha previsto minha chegada em Porto Acre por volta das 13h00, portanto, não havia pressa, eram pouco mais de 50 km. Parti às 05h10, graças à chuva o ar estava bem mais puro embora volta e meia ainda se pudesse sentir o cheiro da vegetação queimada. Deixei o celular ligado para que ele identificasse os raros locais onde tivesse sinal e com isso consegui saber se o Cabo Rogério da Silva Ribeiro, do 7° BEC, que mora em Porto Acre, tinha conseguido contatar a Srta Leidiany Honório Rodrigues a respeito do apoio da Prefeitura em alojamento e alimentação.

A viagem transcorreu sem alteração. Os ribeirinhos, são desconfiados e muitas vezes não respondem a um simples bom dia ou a um aceno de mão. Que diferença do nosso Gaudério que já mandaria o Taura passar para diante, lhe mandaria tomar acento e estenderia de pronto um mate amargo em nome da nossa proverbial hospitalidade. Como seria bom se todos fossem capazes de corresponder a um aceno, um cumprimento, um sorriso. O dia ficaria mais alegre, mais leve e matizado com cores mais cordiais.

Nas proximidades de Porto Acre o tempo fechou, nuvens escuras e vento vindo de Este a mais de 40 km/h. Segurei o remo com força e me aproximei ao máximo da margem direita. Piquei a voga de maneira a vencer logo a curva a esquerda (09°38’40,06”S / 67°32’06,34”O) que estava logo à minha frente e que me permitiria ficar protegido do vendaval. Logo que consegui meu intento uma chuvinha gelada e fina caiu. O corpo cansado e castigado pela canícula recebeu sofregamente aquele providencial fluído.

Falei com o Cb Rogério pelo celular e o mesmo me indicou o local onde deveria aportar. Ele e o irmão carregaram o caiaque até a residência de amigos, Sr. Admilson e Srª Maria José, e depois fomos procurar o hotel providenciado pela Prefeitura. Fui hospedado no “Hotel e Restaurante 03 Irmãos” administrado pela Dona Francisca e sua fiel escudeira Srª Raquel.

Visitei, mais tarde, a Sala Memória e acompanhado pelo Sr. Artur Sena, seu titular, fomos até a Prefeitura agradecer à Srª Leidiany o apoio prestado. Esta é a primeira vez, no Acre, desde nossa Descida pelo Rio Juruá que recebemos apoio de uma Prefeitura. Sempre tivemos o suporte do Exército, Polícia Militar, Bombeiros Militares em cada cidade acreana pela qual passamos, mas como nenhuma dessas instituições se faz presente em Porto Acre a única alternativa seria essa. Agradecemos sinceramente ao Prefeito Benedito Cavalcante Damasceno e sua equipe pela cordial acolhida. Graças ao amigo Antônio Jony da Costa Noronha, o Capitão-Tenente (AA) Gerson Garcia de Carvalho, Agente Fluvial de Boca do Acre, contatou-nos e nos aguarda, é a Marinha do Brasil apoiando nosso Projeto.

Total 2° Dia (AC 08a – Porto Acre)               =   54,2 km

 

Total Geral (Rio Branco – Porto Acre)            = 117,4 km

 

Total Geral (Inãpari – Porto Acre)                 = 643,1 km

Vídeos da Epopeia Acreana - Assis Brasil, AC / Boca do Acre, AM

 

Parte I:   https://youtu.be/2jYSjm2Q_A0

Parte II: https://youtu.be/_S4a2TsKMPA

R. Globo:  https://www.youtube.com/watch?v=aXoFphkU7Zo&t=24s

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

Os artigos publicados com assinatura não representam a opinião do Portal Pantanal News. Sua publicação tem o objetivo de estimular o debate dos problemas do Pantanal do Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso, do Brasil e do mundo, garantindo um espaço democrático para a livre exposição de correntes diferentes de pensamentos, idéias e opiniões. 


 

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