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Artigos - 24/07/2017 - 09h01

Atentado à Vida de Plácido de Castro




Divulgação

Por Hiram Reis e Silva*

  “Morte” de Plácido de Castro (JCA, n° 552)

O ano de 1905 foi pródigo em notícias alarman­tes sobre atentados à vida do herói acreano. As notícias que pipocavam sistematicamente, na imprensa nacio­nal, eram desmentidas nas edições seguintes. Uma de­las porém, um atentado perpetrado em um hotel da capital manauara, apesar de verídica passou pratica­mente desapercebida da mídia e pesquisadores ao lon­go dos tempos.Correio do Norte, Manaus, AM, n° 058

 

Coluna Acreana – 29.03.1906

Território do Acre

[...] Vamos hoje examinar as garantias de liber­dade, de vida e de propriedade de que gozam os habitantes do Amazonas desde o tempo em que ele está sob o governo dos Ramalhos.

Já tivemos ocasião de descrever o nosso caro pessoal ‒ fomos perseguido, espoliado, proibido de exercer a nossa profissão de engenheiro civil e quase assassinado.

Ramalho I não admitia o exame de seus atos, assim é que mandou a sua polícia empastelar ([1]) os jornais “Pátria” e “Manaus”. Os redatores do primeiro, os srs. Carlos Eugênio Chauvin e Demétrio de Oliveira tiveram que abrigar-se sob a proteção do Capitão do Porto de Manaus. Infe­lizmente, porém, esta proteção não se tornou efetiva, pois Ramalho I os reclamou e eles foram entregues à polícia para serem assassinados. Não fosse a generosidade do Sr. Mesquita, sócio da casa Andresen & Ciª, a mesma cuja firma Ramalho I havia falsificado em uma letra de 28:000$, conforme já descrevemos, não fosse a generosidade do Sr. Mesquita, dizemos, que exigiu de Ramalho I a soltura do preso, sob pena da publicação de sua infâmia, e teria sido consumado esse duplo assassinato.

Mas, deixemos Ramalho I e tratemos de Ramalho II. O jornal “A Federação”, de propriedade de Euclydes Nazareth, que havia sido o órgão do partido dos Ramalhos, ousou intentar uma pequena oposição ao governo de Ramalho II, publicando as bases desse escandaloso empréstimo externo de que falamos em nosso ultimo artigo.

Não foi preciso mais, o Sr. Néri, ou melhor Ramalho II, mandou comprar por um amigo o prédio em que funcionava esse jornal. No mesmo dia foi lavrada a escritura e o novo proprietário obteve um mandado de despejo. A polícia, sob a direção em pessoa do chefe de segurança pública, tornou efetivo esse mandado, e o material foi recolhido ao depósito público e os tipos empastelados pela própria polícia. Foi o que se poderá chamar ‒ um empastelamento judicial! Mais tarde foi o jornal “Quo Vadis” a vítima da sanha de Ramalho II. Mas desta vez o processo empregado foi outro.

Os Ramalhos são férteis nesses processos.

Era preciso dar um exemplo que perdurasse na memória de quantos assistissem esse ato de autoridade de Ramalho I: o edifício onde funcio­nava o “Quo Vadis?” com todo o seu material foi incendiado!

Ramalho II quer o Acre e para conseguir os seus fins não olha processo, tudo lhe serve, até mesmo o assassinato do chefe dos acreanos.

Quando, após a assinatura do Tratado de Petrópolis, o Coronel Plácido de Castro veio a esta capital, teve necessidade de demorar-se alguns dias na cidade de Manaus. Estava hospedado no Hotel Cassino e, quando, em um dia, escrevia em uma pequena mesa junto à sala das refeições, foi procurado por uma mulher de cor preta.

O Coronel Plácido continuou sentado e a mulher que, apesar do calor, tinha sobre os ombros um chalé, sob o qual ocultava as mãos, subitamen­te, aproveitando-se de um momento de distra­ção do Coronel Plácido, com um revólver Smith & Wesson, deu-lhe um tiro no rosto. Felizmente, apenas a pólvora lhe chamuscou a face. Eram 11 horas da manhã e a sala das refeições estava completamente cheia de hóspedes. O Coronel Plácido subjugou a mulher, tomou-lhe o revólver e explicou da porta, a qual havia cerrado, aos curiosos que acudiram, que não havia sido nada, que o seu revólver havia disparado. A mulher lhe declarou que por forma alguma diria quem a havia mandado assassiná-lo.

O Coronel Plácido manteve o mais completo silêncio sobre esse atentado à sua vida, mas não haviam decorrido 10 minutos e batia à porta de seu quarto um Sr. Simões, português e repórter do jornal “Amazonas”. Havia ido dizer ao Coronel Plácido que Silvério, ou Ramalho II, acabava de dar todas as providências para que a sua vida fosse garantida em Manaus e que estava pesaroso pelo que se havia passado.

O Coronel Plácido respondeu que nada se havia passado e que estava surpreendido da emoção do Sr. Simões, e que podia dizer ao Sr. Gover­nador que ele mesmo, Plácido, era o zelador de sua vida, a qual o Sr. Silvério não podia garantir nem dela dispor.

Este fato nos foi fielmente narrado pelo Coronel Plácido.

Eis as garantias de vida asseguradas pelos Ramalhos do Amazonas.

Nos dispensamos de fazer comentários, mas o público não se admire se ler algum telegrama de Manaus, agora que para lá foi o Coronel José Plácido de Castro, dizendo que foi feita uma nova tentativa de assassinato ou que o Coronel Plácido foi de fato assassinado, pois Ramalho III é irmão de Ramalho II.

Já viu o público que no Amazonas não só se rouba – assassina-se também quando há neces­sidade de facilitar o roubo.

O acreano conhece todas estas misérias.

E com tais exemplos poderá ainda alguém acreditar que os acreanos não protestarão, até com as armas na mão, para se livrarem de semelhante quadrilha?

Continuaremos.

Orlando Corrêa Lopes

Rio, 2 de março de 1906. (CDN, n° 58)

Fontes:

 

CDN, n° 058. – Coluna Acreana - Território do Acre Brasil – Manaus – Jornal do Comércio do Amazonas – n° 058, 29.03.1905.

JCA, n° 552. Plácido de Castro – Brasil – Manaus – Jornal do Comércio do Amazonas – n° 552, 28.09.1905.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);

Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br


[1]    Empastelar: inutilizar temporariamente oficina gráfica, redação de jornal ou revista, danificando-lhe o equipamento, misturando ou danificando seus tipos e matrizes.

[2]    Orlando Correa Lopes: em novembro de 1900, comandou uma força, que ficou conhecida como “Expedição dos Poetas” ou “Expedição Floriano Peixoto”, que tinha como objetivo tomar o Acre da Bolívia e criar uma República Independente. Essa força foi equipada graças à intervenção pessoal do Governador do Estado do Amazonas, Silvério Néri.

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