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Artigos - 18/04/2017 - 14h45

Dr. Francisco Cavalcante Mangabeira – Parte I






Dr. Francisco Cavalcante Mangabeira (Garnier, M.J.)



Dr. Francisco Cavalcante Mangabeira (3)
Por Hiram Reis e Silva*

Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 06 de abril de 2017. 

Um Hino de Bravos

(Francisco C. Mangabeira)

 

Fulge um astro na nossa bandeira,

Que foi tinto com sangue de heróis

Adoremos na estrela altaneira

O mais belo e o melhor dos faróis.

 

https://www.youtube.com/watch?v=5y1gLPvcj30

 

Que o bairrismo ex­tremamente exacerbado de meus conterrâneos gaúchos me perdoe, mas o mais belo Hino brasileiro é sem dúvida o Hino do Acre ‒ um canto de titãs, um hino vibrante e viril regido pela honra e pela glória e salpicado por notas de coragem e desassombro. Quem, como eu, já teve a oportunidade de ouvi-lo e senti-lo nas plagas acreanas há de concordar plenamente com o que digo. O Hino foi composto, no dia 05.10.1903, no Seringal Capatará, situado acima do Igarapé Distração, zona rural do Município de Capixaba, AC, em um acampamento onde Plácido de Castro esta­belecera o Quartel-General do seu exército, pelo Médico e Poeta baiano Dr. Francisco Cavalcante Mangabeira que prestava atendimento à tropa. A música, por sua vez, foi criada pelo maestro amazonense Donizeti que conhecia perfeitamente a realidade e historicidade da região, pois residira nas cidades de Tarauacá e Cruzeiro do Sul. Um vate formidável olvidado pelos intelectuais de todos os tempos, um poeta de primeira grandeza do porte de um Antônio Frederico de Castro Alves ou de um Abílio Manuel Guerra Junqueiro. Almachio Diniz, na obra “Francisco Mangabeira” afirma:

Parece que assim deixo, muito claramente exposta, a minha convicção de estarem evidenciados, numa só linha, o poeta do “Hostiário” (F. Mangabeira), o de “A Velhice do Padre Eterno” (G, Junqueiro) e o das “Espumas Flutuantes” (C. Alves), sem confusões, no entanto, não pela sua arte, mas pelo tempo em que se definiram, como os três grandes poetas de maior espontaneidade e da maior independência da moderna literatura portuguesa, compreendida nesta as de Portugal e do Brasil. (DINIZ)

Francisco Mangabeira além de poeta desponta como um herói na Guerra de Canudos, como nos relata o poeta gaúcho Múcio Scevola Lopes Teixeira:

Tornou-se notável a sua coragem em mais de uma ação, conduzindo nos braços os feridos e os moribundos, que ia levantar do ponto onde caiam, atravessando imperturbável o campo de batalha. Disseram-me os meus velhos amigos Carlos Telles e Dantas Barreto, generais a quem o recomendei, que era assombroso o sangue frio com que o juvenil poeta atravessava as linhas onde era mais nutrido o fogo da fuzilaria; e que, enquanto os soldados se resguardavam nas trincheiras, o poeta nem se lembrava de que tinha o peito exposto às balas, de tão preocupado com a intenção de minorar as dores dos feridos.

Dr. Francisco C. Mangabeira

Esta biografia do Dr. Francisco Cavalcante Mangabeira, escrita por um de seus familiares, figura como prefácio de sua obra “Últimas Poesias (Obra Póstuma)”, editado em Salvador, Bahia, nos idos de 1906, pelas Oficinas dos dois Mundos.

NOTAS BIOGRÁFICAS

Francisco Mangabeira nasceu na capital da Bahia a 08.02.1879. Era filho legítimo do farmacêutico Francisco Cavalcante Mangabeira e de D. Augusta Mangabeira, já falecida. Feito o curso preparatório no Instituto Oficial do Ensino Secundário, matriculou-se em 1894, com quinze anos de cidade, na Escola de Medicina.

Por ocasião da terrível campanha de Canudos, Francisco Mangabeira, que cursava então o 3° ano médico, fez parte da primeira turma de acadêmicos, que ofereceram seus serviços gratuitos ao governo e seguiram para o campo da luta crudelíssima.

Em 1898, publicou o seu primeiro livro de versos ‒ “Hostiário” ‒ que o sagrou vate (poeta) inspirado e ilustre cultor das letras. Antes disso, em 1896, o notável escritor Múcio Teixeira havia feito pela imprensa na Bahia, como na Capital da República, uma apresentação ruidosa e entusiástica do novo poeta baiano cuja lira vibrava ainda os seus primei­ros ensaios. (MANGABEIRA)

Múcio Scevola Lopes Teixeira: escritor, jornalista, diplomata e poeta brasileiro. Múcio nasceu em Porto Alegre, no dia 13.09.1857 e faleceu no Rio de Janeiro, 08.08.1926). (Hiram Reis)

MANGABEIRA: Em 1900, deu à estampa (publicou) a sua maravilhosa “Tragédia Épica”, composta de uma série de admiráveis poemetos, que lhe inspirara a guerra que tantas vidas consumira no interior do sertão. Neste mesmo ano, doutorou-se em medicina, aos 18 de dezembro, tendo dissertado, na tese inaugural, sobre “Impedimentos do Casamento relativos ao parentesco”.

A 16.03.1901, partiu para o Maranhão, como médico contratado da Companhia Maranhense, conservando-se neste posto poucos meses, e dirigindo-se depois para o Estado do Amazonas, cujo governo lhe deu importante Comissão nas regiões do Juruá, Javari, Madeira, Negro, Purus, etc., que ele percorreu. Saudades intensas da família e da pátria querida fizeram-no regressar à Bahia, em 24.12.1902, onde permaneceu até 02.04.1903.

Seguindo de novo para o Amazonas, com destino ao Acre, onde exerceu de modo brilhantíssimo as fun­ções de médico e de correspondente do Diário de Notícias, enviando para este órgão da imprensa uma série de Cartas do Amazonas, grandemente aprecia­das pelo público baiano e transcritas em vários outros jornais de diversos Estados da República.

Os serviços que Francisco Mangabeira prestou, espontaneamente ao Exército Brasileiro [tendo encontrado em Manaus o 40° Batalhão de Infantaria, impossibilitado de prosseguir a sua marcha em virtude da falta de médicos militares, ofereceu-se para acompanhá-lo gratuitamente, e, durante alguns meses, se conservou naquele posto, abrindo mão a todas as remunerações a que fazia jus]. Nessa jornada de sacrifícios que o seu gênio patriótico e aventuroso, lhe impôs, nas regiões inóspitas do Acre, conquistaram-lhe os aplausos dos chefes da expedi­ção, manifestados em honrosos ofícios e ordens do dia, publicados pela imprensa. Desligando-se de seus excepcionais compromissos, como médico gratuito das tropas brasileiras, Francisco Mangabeira travou relações intimas com os chefes revolucionários, merecendo da confiança de­les ocupar o cargo de secretario da revolução acre­ana, posto em que um raro talento, e um raríssimo civismo o fizeram nobilitar o seu e o nome da pátria. (MANGABEIRA)

Reporta-nos Isaac de Melo em um belo artigo intitulado “Francisco Mangabeira: Um Poeta Baiano na Revolução Acreana” editado no Site Alma Acreana, no dia 28.02.2011.

Hino acreano

 

[...] Plácido de Castro organizava seu exército em pontos estratégicos do Acre Meridional, pronto para nova luta conforme o resultado das confabulações diplomáticas entre os dois países. No seringal Capatará estava assentado o quartel-general de Plácido. Ao fundo do barracão erguiam-se as barracas de lona, a alojar os soldados. Numa delas está Francisco Mangabeira. Desde que cessara os combates aí passara a atender os feridos da guerra e à população ribeirinha que o procurava. É nesse ambiente, impressionado pela natureza, pelo ideal de liberdade, pelos combates e pelo sentimento da terra que o jovem poeta comporá, em 05.10.1903, o magnífico poema que se tornará o Hino Acreano. Aproximava-se o término do modus vivendi. O poeta encontrava-se, com a tropa, acampado em Boa Fé. Estavam irriquietos e decididos: ou o Acre seria do Brasil, ou recomeçaria a luta. A tropa, a 21 de outubro, fora reunida diante do mastro do qual pendia a bandeira acreana. Conta, em carta, Francisco Mangabeira: “A meio dia, pouco mais ou menos, reunida a oficialidade, resolve-se mandar imediatamente cem homens para o Gavião. Antes disso, porém, com uma cerimônia tocante, foi lido o Hino do Acre”. Pela voz do próprio poeta pela primeira vez o Hino Acreano percorria as matas e o coração daqueles caboclos titânicos, num misto de alegria e esperança. (DE MELO)

MANGABEIRA: Em princípios de Novembro, Mangabeira veio a enfermar, acometido por moléstias de pele. Achava-se ele, por este tempo, em Capatará. Quando se levantou do leito onde permaneceu longos dias, o seu semblante pálido e esquelético já refletia a pobreza de um organismo exausto. Aconselharam-no a regressar para Manaus. Ele, porém, não quis. Sentia-se forte e plenamente capaz de percorrer a rota planejada, indo ter aos extremos das águas do Xapuri. E fez-se de viagem para cima. Pouco adiante, o impaludismo o assaltava. O corpo depauperado não pode resistir a novo embate. Desde então, ele começou a definhar. Um dia, um seu amigo, de passagem naquela terra mefítica (pestilenta), encontrou-o doente no abandono. Ofereceu-se para levá-lo a Manaus. Ele aceitou. A 31.12.1903 partiu do lugarejo.

A 10 de janeiro (1904), chegava à Capital do Amazonas, depois de uma viagem penosíssima, em que passara dez dias a bordo de um calhambeque, em condições de higiene e de conforto, suficiente para levarem ao leito os próprios vigorosos e sadios. Chegou à noite em Manaus. No outro dia, pela manhã, corria toda a Cidade e a imprensa assinalava com palavras de piedade e carinho, a notícia de sua volta do Acre em perigoso estado de saúde, que ainda se agravara na travessia daqueles Rios infectos, fermentados pela morte. Hospedou-se num hotel. Os primeiros amigos que o foram visitar demoraram estupefatos diante de sua fisionomia, onde boiava a imagem de um crepúsculo nascente. Em todo o caso, seus lábios só tinham palavras de alegria e afeto, de saudações e lembranças. Sentia-se forte, aquele mal era insignificante, havia de passar como outros que se foram...

No dia imediato, um seu grande amigo e colega, Dr. Vivaldo Lima, foi buscá-lo do hotel para a casa de sua família. Ali, recebeu ele as homenagens do afeto, que conquistara no seio da sociedade amazonense, onde estivera longos meses e em cuja imprensa colaborara de contínuo. Foi logo planejada uma conferência, na qual tomaria parte grande número de clínicos. O diagnóstico acusou polinevrite (polineu­rite) palustre, que encontrando um organismo exausto, o dominara de todo. Urgia o tratamento, que, infelizmente, parecia inútil...

Mangabeira, no entanto, julgava-se ainda forte. Era seu grande desejo partir para a Bahia, onde, no conchego do lar, havia de tratar-se. Todos os dias, a toda hora, a todo instante, quem quer que se lhe abeirasse do leito, havia de receber-lhe dos lábios palavras comovedoras, que eram pedidos de informação sobre os vapores que iam seguir para o Sul, sobre o motivo porque o não tinham embarcado – a ele, que tinha tanta certeza de que ia ficar bem no seio de sua família, aos ares de sua terra... Enfim, como falhassem todos os recursos, deliberaram embarcá-lo para a Bahia, satisfazer a ilusão, que tanto o acalentava.

A 22 de janeiro (1904), partiu de Manaus o paquete S. Salvador. Anunciaram-lhe a viagem. Ele rejubilou-se, começou a fazer as despedidas, oferecendo seus préstimos, prontificando-se a conduzir objetos e correspondências. No dia aprazado, logo pela manhã, compareceu o comandante da policia, seu particular amigo, acompanhado por polícias, trazendo uma grande maca para conduzi-lo até a bordo. Esse transporte foi concorridíssimo. Médicos, bacharéis, engenheiros, farmacêuticos, jornalistas e poetas; grande número de colegas, patrícios, amigos e admi­radores do inditoso poeta enfermo acompanharam-no tristemente até o seu beliche.

 Comandante do Distrito, que lhe conhecia de perto os inolvidáveis serviços prestados às forças militares nos acampamentos do Acre, foi até lá cumprimentá-lo. As despedidas foram feitas entre lágrimas, que se contrastavam com os seus sorrisos de saudações, de oferecimentos e agrados.

Do Amazonas para o Pará, foi piorando pouco a pouco, malgrado a atividade do profissional de bordo, Dr. Álvaro Rego, e do cuidadoso enfermeiro, Eugênio de Barros, especialmente contratado para servi-lo durante a travessia.

Conservava a razão, por isso que correspondia aos passageiros que iam visitá-lo. De quando em vez, no entanto, apresentava indícios de uma grande fraque­za cerebral. Quando alguém o chamava doutor ‒ ele respondia:

‒  Eu não sou doutor. Eu sou poeta.

Uma feita, indo umas. crianças visitarem-no ao camarote, encontraram-no de pé, ficaram estupefatos e foram chamar o enfermeiro que, chegando, lhe perguntou para onde ia, recebendo, então, a resposta seguinte:

‒  Para o Acre.

Num dos acessos nervosos que teve, lançou mão do anel, colocou-o entre os dentes e separou a garra do aro, machucando-o. À primeira pessoa que apareceu ao camarote disse então:

‒  Olhe. Não sou doutor. Até o anel me roubaram. Eu sou poeta.

E, de fato, não tinha no dedo o anel, sendo este depois encontrado em sua própria boca.

Perguntava de instante a instante em que lugar se achava, si longe ou perto da Bahia. Sempre lhe diziam que perto, o que o fazia sorrir, alegre e satisfeito.

Quando a morte estava próxima, ele conheceu-a.

No dia 27, amanheceu pensando na aproximação do desastre, a lembrança de pai e irmãos começou a afligi-lo, dizia que, em casa, as suas irmãs estariam rezando para que ele chegasse bom. E já ia alto o dia, quando, fortalecendo-se a visão da morte, ele exclama:

Como é que morre um poeta com vinte e cinco anos!

Recebeu ainda algumas visitas. Quando a ultima delias se retirou do beliche, ele agarrou-se a um ferro do leito e soluçou:

‒  Morro sem abraçar meu pai!

Minutos decorridos, o enfermeiro percebeu-lhe nos olhos os primeiros sinais da morte. Chamou o médico. Este veio, mandando logo deitar-lhe a vela na mão.

E, assim, às 2 horas da tarde de 27 de janeiro de 1904, na altura de Gapuri, entre Belém e São Luís, a 18 horas deste último porto, ele morreu, no beliche num. 106 do camarote número 40 do paquete nacional São Salvador.

Dadas as participações, vestiram o cadáver com uma roupa parda e levaram-no para o xadrez de ré onde permaneceu até as 15h15 da tarde imediata, coberto pela bandeira nacional.

O seu enterramento foi feito no cemitério de S. Luís do Maranhão.

Foram extraordinárias as sagrações com que, em todo o país, se assinalou o trespasse do poeta.

Na Capital Maranhense, o povo soube prestar-lhe grandes homenagens. Abriu-se logo na imprensa uma subscrição para ser erigido sobre seu túmulo um rico mausoléu. Como, porém, a família do extinto tencionasse transportar-lhe os restos para o Cemitério do Campo Santo, na Bahia, ficou sobre a sua sepultura, em vez de mausoléu, uma grande pedra mármore, onde, além das insígnias de médico e poeta, o nome de Francisco Mangabeira se destaca, em grandes letras doiradas, reverenciado, na morte, pela ‒ “Homenagem do Povo Maranhense”. (MANGABEIRA)

Fontes:

DE MELO, Isac. Francisco Mangabeira: Um Poeta Baiano na Revolução Acreana – Site Alma Acreana, 28.02.2011.

 

DINIZ, Almachio. Francisco Mangabeira – Brasil – Rio de Janeiro – Tipografia da Escola Profissional, 1929.

 

MANGABEIRA, Francisco. Ultimas Poesias (Obra Póstuma) – Brasil – Salvador – Oficinas dos dois Mundos, 1906.

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);

Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

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