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Meio ambiente - 22/03/2017 - 08h03

Assoreamento, poluição e poucas iniciativas condenam lagos à extinção

No Dia Mundial da Água, riscos ambientais definem cenário alarmante para reservatórios públicos da capital.




André Bittar

Capivaras se alimentam nas margens do Lago do Amor. Bancos de areia invadem a água e revelam o avançado estado de assoreamento.
Por Anahi Gurgel do Campo Grande News / Redação Pantanal News

Construções desenfreadas, falta de escoamento da água da chuva e avançado processo de erosão estão colocando na guilhotina alguns dos mais tradicionais pontos de lazer e turismo de Campo Grande. Destinados à proporcionar melhor qualidade de vida, os poucos lagos e lagoas localizados em áreas públicas do município estão cada vez mais ameaçados pela poluição e assoreamento.

Escolha certa como passeio para quem vive nas proximidades da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), o Lago do Amor, que já teve o formato de um coração, está prestes à perder o seu. Com a crescente e desplanejada urbanização do entorno, bem como a inexistência de estruturas para drenagem das águas pluviais, em pouco mais de 20 anos o lago poderá não mais existir.

Em pleno Dia Mundial da Água, as previsões são tão assustadoras quanto reais. Foram dadas a partir de um levantamento batimétrico, que é a medição da profundidade de rios e oceanos, e da análise multitemporal, que vem quantificando a evolução de área de volume do lago ao longo de 9 anos.

"Nesse período, seu volume diminuiu 58,5 mil m² por processo de assoreamento, cerca de 30%. A área corresponde a aproximadamente 3 campos de futebol. Considerando a taxa de variação, o reservatório estará completamente cheio de sedimentos no ano de 2038", anuncia o professor doutor Teodorico Alves Sobrinho, integrante do grupo de pesquisa HEroS: Hidrologia, Erosão e Sedimentos, da UFMS, que é a responsável pelo Lago do Amor.

Os estudos foram realizados em agosto de 2008, novembro de 2011, fevereiro e novembro de 2013, outubro de 2014, março de 2016 e março de 2017. A área manteve decréscimo linear de 21%, representando 20,7 mil m² nesse período.

"O local de maior redução das margens é onde desagua o córrego Bandeira, que possui ações de loteamento, muitos terrenos sem cobertura vegetal, implantação de vias urbanas. Percebe-se pouca preocupação com aspectos conservacionistas do solo, inexistência de estruturas de contenção de águas, concessões indevidas de empreendimentos com risco de impacto ambiental", detalha Teodorico.

 
É possível observar a evolução do assoreamento do Lago do Amor por meio do Google Earth.É possível observar a evolução do assoreamento do Lago do Amor por meio do Google Earth.

"Vai secar como aconteceu com o lago do Rádio Clube. É um desrespeito com a natureza. Falta de bom senso de todos", define o estudante Marco Antônio da Silva, 17 anos.

Ele tem razão. Não muito distante dali, cerca de 2 km, ao longo do córrego Bandeira, encontramos "morto", quase sem vestígio de que já foi área alagada, o lago do Rádio Clube que, num passado recente, foi cartão postal da cidade.

"A quantidade de obras na região e falta de planejamento para escoamento da água foram as principais causas da extinção do lago. Os grandes alagamentos no período chuvoso e "carreamento" de sedimentos, intensificaram o assoreamento e o lago não resistiu", avalia Teodorico acerca do reservatório, que se transformou numa imensa cratera tomada pelo mato.

No entorno da área banhada, que foi originada no barramento dos córregos Cabaça e Bandeira, mensalmente ocorre limpeza, quando são retiradas até 2 toneladas de entulho. Segundo Teodorico, essas ações ajudam muito pouco, devido à velocidade com que o assoreamento avança. Um processo ininterrupto, dinâmico e contínuo.

​"A UFMS vem sendo autuada pelos órgãos ambientais de forma injusta. O problema nasce fora dos limites da universidade. Esses impactos podem ser evitados se forem tomadas medidas técnicas preventivas e administrativas. É fundamental a elaboração de planos diretores", alerta.

"Está muito triste ver o lago desse jeito, cheio de areia. Vinha aqui pequena com minha família e vejo a diferença. Pior são as pessoas que jogam lixo no chão, mesmo tendo lixeiras espalhadas", frisa a estudante Natália Almeida, 18 anos, durante passeio no Lago do Amor.

 
Cratera tomada pelo mato na área que já foi o lago do Rádio Clube, morto pelo assoreamento. (Foto: Alcides Neto)Cratera tomada pelo mato na área que já foi o lago do Rádio Clube, "morto" pelo assoreamento. (Foto: Alcides Neto)

Situação preocupante também vem passando os dois lagos do Parque das Nações Indígenas, que integram um complexo de recreação e lazer de 119 hectares. A área do banhado do lago maior, que recebe as águas dos córregos Prosa e Revelleau, possui 43,3 mil m², e encontra-se em avançado processo de assoreamento.

"Constantemente fazemos a retirada de sedimentos das águas. Os trabalhos mais recentes estão concentrados no lago menor, desde outubro de 2016. Tivemos que usar máquinário mais pesado e o volume retirado quadruplicou. Mas é uma medida paliativa. Entra muita areia com a água da chuva. Está difícil, mas não podemos parar. Precisamos esperar a obra da Prefeitura", explica Leonardo Palma, gerente de Unidades de Conservação do Imasul (Instituto de Meio Ambiente).

Ele se refere às obras de canalização das vias da Vila Nascente e região, especialmente na Rua Hiroshima, quase esquina com a Avenida Mato Grosso. "A chuva traz lixo e sedimentos dessas ruas e também das partes altas recém-urbanizadas, como dos condomínios e novas construções no Parque dos Poderes", diz.

"As obras, que incluem a construção de um lago de contenção, estão paralisadas devido ao período chuvoso, mas deverão ser retomadas em abril com previsão de conclusão até o fim do ano", informou o secretário municipal de Infraestrutura, Transporte e Habitação, Rudi Fiorese. 

 
Lago de contenção em área do Parque das Nações Indígenas. Trabalho de desassoreamento vem sendo realizado diariamente desde outubro de 2016. (Foto: Gelson Walber/ Arquivo)Lago de contenção em área do Parque das Nações Indígenas. Trabalho de desassoreamento vem sendo realizado diariamente desde outubro de 2016. (Foto: Gelson Walber/ Arquivo)

Exemplo de recuperação - Metade dos mais de 6 bilhões de litros de água que abastecem Campo Grande é proveniente do Guariroba, que atravessa a BR-262 e várias propriedades rurais, na saída para Três Lagoas.

O lago, que acumula a água que abastece a Capital há exatamente 30 anos, já enfrentou sérios problemas ambientais devido à ação do homem, principalmente de pecuaristas, cuja atividade sem regras estava destruindo as nascentes que formam o manancial e a mata ciliar ao redor.

Pressionados pela justiça, Prefeitura e a concessionária Águas Guariroba desenvolveram o programa "Manancial Vivo", em prol da recuperação e da preservação de 36 mil hectares, para permitir a contínua produção de água pela bacia. A iniciativa surgiu em 2010, sendo caracterizada pelo pagamento por serviços ambientais para preservação da Área de Proteção Ambiental do Guariroba. 

"Uma das primeiras etapas do programa foi a elaboração do Plano de Manejo da Bacia do Guariroba, que traçou um diagnóstico ambiental da região e definiu as regras de uso e ocupação do solo", explica Fernando Garayo, coordenador de meio ambiente e qualidade​ da Águas Guariroba.

 
Represa do córrego Guariroba, na saída para Três Lagoas. (Foto: Divulgação)Represa do córrego Guariroba, na saída para Três Lagoas. (Foto: Divulgação)
 
Trabalhador realiza plantio de mudas no entorno do reservatório do córrego Guariroba. (Foto: Divulgação)Trabalhador realiza plantio de mudas no entorno do reservatório do córrego Guariroba. (Foto: Divulgação)
 

Para execução do programa, o córrego foi dividido em 5 sub-bacias."Até o começo de 2015 o programa atuava apenas em 1 delas. Atualmente foram abertos novos editais e mais de 70% dos produtores rurais da bacia aderiram ao programa", conta.

Os resultados efetivos e significativos poderão ser vistos nos próximos anos dado que as ações em larga escala estão sendo realizadas", espera. A próxima etapa é a efetiva execução das obras de conservação de solo, estradas, cercamento de APPs e plantio de mudas nas novas propriedades que aderiram ao programa.

O Manancial Vivo abrange ainda a bacia do córrego Lageado, responsável por 13% do abastecimento da capital. Com investimentos de R$ 1 milhão, o desassoreamento da represa e reconstrução do vertedor de captação, em 2003, aumentou capacidade do lago e melhora na qualidade da água distribuída. Os trabalhos consistiram na remoção de 26 milhões de litros de lama, e construção de um canal e comportas para desviar a água durante as manutenções. 

Beleza poluída - Talvez seja um dos melhores cenários para contemplar o pôr do sol de Campo Grande. A Lagoa Itatiaia, localizada na região urbana do Bandeira, possui 9 hectares de água.

Há cerca de 25 anos, a área era constituída por pequenas propriedades rurais, que foram sendo loteadas aos poucos, o que intensificou a ação antrópica sobre a lagoa. Chegou a um extremo que toda a área banhada havia sido tampada pelos loteamentos.

A revitalização ocorreu há cerca de 12 anos, quando a Promotoria do Meio Ambiente exigiu providências da Prefeitura mas, o que se vê atualmente, ainda é grande quantidade de lixo jogada às margens da lagoa. A última limpeza ocorreu há 3 anos.

Publicação da Zona Ecológica Econômica de Campo Grande, concluída em fevereiro. (Foto: André Bittar)Publicação da Zona Ecológica Econômica de Campo Grande, concluída em fevereiro. (Foto: André Bittar)

Em busca de solução - Para resolver os problemas de poluição e assoreamento de lagos e lagoas da cidade, a Prefeitura, por meio da Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano), vem trabalhando no que acredita ser uma ferramenta revolucionária para a gestão ambiental a partir da configuração territorial do município.

Trata-se do ZEE (Zoneamento Ecológico-Econômico) de Campo Grande, que começou a ser elaborado em 2015, tendo como referência o ZEE de Mato Grosso do Sul. O documento acaba de “sair do forno”. Consiste em um instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente, instituída pela lei 6.938, de 1981, e tem como diferencial identificar as bacias hidrográficas como unidades de planejamento.

“O objetivo é fundamentar, complementarmente, as decisões dos agentes públicos e privados quanto a planos, programas, projetos e atividades que, direta ou indiretamente, utilizem recursos naturais. E tudo isso de forma vinculada, com recomendações que assegurem a sustentabilidade dos nossos ecossistemas”, explica Berenice Maria Jacob Domingues, diretora-presidente da Planurb.

Para isso, o grande desafio – e, segundo a equipe técnica, o principal resultado do trabalho - foi inserir todas as 169 bacias hidrográficas do município em 5 zonas ecológicas e econômicas: APA (Área de Preservação Ambiental) Ceroula, Zona Urbana, Guariroba e Lageado, Anhanduí e Ribeirão Lontra.

“Dessa forma, será possível fazer análises mais pontuais dos problemas de cada região, entender o comportamento local, no que se refere à ocupação do solo, identificar potencialidades em todos os âmbitos, e tomar providências e medidas preventivas para o equilíbrio socioeconômico e ambiental, que inclui, claro, os recursos hídricos”, acredita a gestora.

Ela complementando que o ZEE de Campo Grande pode contribuir para o planejamento de ações emergenciais de infraestrutura e abastecimento e, num futuro próximo, solucionar gargalos como o do escoamento superficial e infiltração.

O empenho do Planurb, agora, é transformar o ZEE em lei. O projeto, disponível no site da Planurb, já foi apresentado ao Conselho Municipal de Desenvolvimento e Urbanização e será detalhado em abril ao Conselho de Meio Ambiente. Logo deve estar em tramitação na Câmara Municipal.

Diretora-presidente da Planurb durante reunião técnica nesta terça (21) sobre o ZEE. (Foto: André Bittar)Diretora-presidente da Planurb durante reunião técnica nesta terça (21) sobre o ZEE. (Foto: André Bittar)

 

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