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Artigos - 02/01/2017 - 08h00

Corsários Franceses no Rio - II Parte




Fotos: Divulgação

Rio de Janeiro (Froger, 1695)



Duguay-Trouin e o Rei Luís XIV



Plano de ataque de Duguay-Trouin



Invasão de Duguay-Trouin
Por Hiram Reis e Silva*

Hiram Reis e Silva, Bagé, RS, 02 de janeiro de 2017.


O Canto do Piaga
(Antônio Gonçalves Dias)

III

Oh! quem foi das entranhas das águas,
O marinho arcabouço arrancar?
Nossas terras demanda, fareja...
Esse monstro... – o que vem cá buscar?

René Duguay-Trouin

René Duguay-Trouin, mais conhecido como René Trouin ou ainda Du Guay-Trouin (1673-1736), conhecido como Senhor de Gué (“Sieur du Gué”), alcançou o posto de Almirante e de Comandante na Ordem de São Luís. Nasceu em Saint-Malo, em 10.06.1673, filho de Luc Trouin de La Barbinais, Capitão e armador. O nome “Duguay” tem origem em uma propriedade da família. Duguay, nas suas memórias, afirma vir:

de família acostumada ao comércio marítimo, de um pai que comandava navios armados tanto para a guerra quanto para o comércio, segundo os tempos, tendo ganhado reputação de coragem e de muito entendido em assuntos de marinha.

Embarcou, em 1689, como voluntário na fragata “La Trinité” e, em 1691, era Capitão de uma fragata de propriedade da família. Luís XIV, lhe confiou, quando tinha 21 anos, o “Profond”, de 32 canhões. Desde 1696, fora a Paris, onde foi apresentado ao Rei. Admitido na Marinha Real com a patente de Capitão de Fragata, envolveu-se em numerosas campanhas, combatendo ingleses e holandeses e participando da Guerra da Sucessão Espanhola (1702 a 1714). 

A RIHGB, de 1884, publicou o artigo “Ataque e Tomada da Cidade do Rio de Janeiro pelos franceses, em 1711, sob o Comando de Duguay-Trouin”, de autoria de Tristão de Alencar Araripe, no seu Tomo XLVII, Parte I, nas páginas 61 a 85. Araripe (1821-1908) escritor, historiador, magistrado, jurista e político brasileiro. Filho do Coronel Tristão Gonçalves de Alencar Araripe e de D. Ana Tristão de Araripe. Em 1845, graduou-se em Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Exerceu cargos públicos importantes e foi membro do IHGB e da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro. Nomeado Ministro do STF permaneceu no cargo até 1894.

Extraído das “Memoires de Monsieur Duguay Trouin, lieutenant général des armées navales de France et Commandeur de l’Ordre Royal Militaire de Saint-Louis” publicadas na França no ano de 1740, e traduzidas para o português por Tristão de Alencar Araripe, em 19.10.1883.

§ 1

Durante esta viagem, comecei a projetar uma empresa contra a Colônia do Rio de Janeiro, uma das mais ricas e numerosas do Brasil. (ARARIPE)

Viagem aos mares da Irlanda no ano de 1710, para apresar navios ingleses vindos da Índia. (Hiram Reis)

ARARIPE: O Sr. Duclerc, Capitão de navio, havia já tentado esta Expedição com 5 navios do Rei e cerca de 1.000 soldados de tropas da marinha; mas não sendo suficientes estas forças para executar semelhante projeto, esse oficial ficara prisioneiro com 600 a 700 homens; o resto morrera no assalto, que dera à cidade e às Fortalezas do Rio de Janeiro. Desde então o Rei de Portugal tratara de aumentar as fortificações da Colônia e para ali mandara logo 4 navios de guerra de 56 a 74 peças e 3 fragatas de 36 a 40 peças com carregamento de artilharia, munições de guerra e 5 Regimentos compostos de soldados escolhidos sob o Comando de D. Gaspar da Costa, a fim de abrigar este importante país contra qualquer insulto. As notícias, pelas quais se soubera da derrota do Sr. Duclerc e das suas tropas, diziam que os portugueses, insolentes vencedores, exerciam para com estes prisioneiros toda a sorte de cruezas; que os deixavam morrer de fome e de miséria em masmorras, e até mesmo que o Sr. Duclerc fora assassinado, não obstante ter-se rendido mediante Convenção. Todas estas circunstâncias juntas à esperança de imensa presa e sobretudo pela honra que podíamos adquirir em tão difícil empreendimento, despertara em meu coração o desejo de levar a glória das armas do Rei a esses climas remotos e aí punir a desumanidade dos portugueses com a destruição desta florescente Colônia. Dirigi-me, portanto, a três dos meus melhores amigos que, em todos os tempos, me haviam ajudado com suas bolsas ou seu crédito nas diferentes expedições que eu formara. Eram o Sr. de Coulange, hoje mordomo (administrador) ordinário do Rei e Inspetor Geral da Casa de Sua Majestade, e os Srs. de Beauvais e de La Sandre Le Fer, de São-Maló, todos três estimadíssimos e mui conceituados personagens. Comuniquei-lhes o meu intento e os persuadi a serem diretores do armamento. Mas exigindo a importância grandeza da Expedição fundos mui consideráveis, fomos obrigados a confiar-nos a outros três ricos negociantes de São-Maló, que eram os Srs. do Belle-Isle-Pepin, de l’Espine d’Anican de Chapdelaine, o que fazia, inclusive meu irmão, sete diretores.

§ 2

Apresentei-lhes uma nota dos navios, oficiais, tropas, equipagens, víveres e todas as munições necessárias, segundo a qual o aparelho desse armamento, afora os salários pagáveis no regresso, devia montar a 1.200:000 libras. O Sr. de Coulange veio ter comigo em Versailles, a fim de assentar em um ajuste formal, e obter do Ministro as condições essencialmente necessárias para o bom êxito do meu projeto. Teve ele necessidade de extrema paciência e grande destreza para vencer todas as dificuldades que a isso se opunham. Por fim o conseguia; e o Sr. Conde de Toloza, Almirante de França, não se desdenhou de tomar grande interesse na questão, de sorte que, pela informação que este Príncipe e o Sr. de Pontchartrain dirigiram ao Rei, Sua Majestade aprovou o plano, e lhe aprouve confiar-me seus navios e suas tropas para levar o nome francês ao Novo Mundo.

§ 3

Apenas tomada esta resolução, fomos para Brest eu e meu irmão, e aí fizemos diligentemente equipar os navios, Lys e Magnanime, de 74 peças cada um, Brilhant, Achilles e Glorieux, todos três de 66 peças, a fragata Argonaute, de 46 peças, a Amazone e a Bellone, outras fragatas de 36 peças cada uma (a Bellone era equipada como galeota com dois grandes morteiros), a Astrée, de 22 peças, e a Concorde, de 20. Esta última era de 400 toneladas, devia servir de transporte em conserva da esquadra e estava principalmente carregada de pipas d’água. Escolhi para embarcar nos navios o Sr. Cavalheiro de Goyon, o Sr. Cavalheiro de Courserac, o Sr. Cavalheiro de Beauve, o Sr. de La Jaille e o Sr. Cavalheiro de Bois de Lamotte. O Sr. de Kerguelin embarcou na fragata Argonaute e as outras três foram confiadas aos Srs. de Chenais-Le-Fer, de Rogon e de Pradel-Daniel, todos três do São-Maló e parentes dos principais diretores do armamento. Ao mesmo tempo mandei armar em Rochefort o Fidèle, de 60 peças, sob o Comando do Sr. de La Moinerie-Miniac, sob pretexto de sair a corso, como era seu costume. A Aigle, fragata de 40 peças, também aí foi equipada, e nela embarcou o Sr. de La Mare-Decan, como para ir às Ilhas da América, e fiz encobertamente (disfarçadamente) preparar dois barcos da carreira da Roxéla, aparelhados como galeotas, cada um com dois morteiros. O navio Mars, de 56 peças, foi igualmente armado em Dunkerque, e nele embarcou o Sr. de La Cité-d’Anican, sob pretexto de ir a corso nos mares do Norte, como ordinariamente fazia; servindo-me para todos estes armamentos de pessoas, a quem eu movia indiretamente. Prestei suma atenção em preparar logo com todo o possível segredo os víveres, munições, tendas, utensílios, e finalmente todo o aparelho necessário para acampar e formar assédio. Cuidei também de assegurar-me de suficiente número de oficiais escolhidos para pôr à frente das tropas e guarnecer bem todos estes navios. O Sr. de Saint-Germain, fiscal da marinha de Toulon, foi pela Corte nomeado para servir de fiscal na esquadra; e sua atividade, junto à notável inteligência, foi para mim de grandíssimo auxílio no decurso desta Expedição. Independentemente destes preparativos e de todos os navios que fazíamos armar, eu e meu irmão contratamos mais dois navios de São-Maló, que se achavam ancorados no Porto da Roxéla, o Chancellier, de 40 peças, comandado pelo Sr. d’Anican du Rocher, e a Glorieuse, de 30, pelo Sr. de La Perche. Tão instante e bem dirigido foi o cuidado que tivemos em acelerar todos os arranjos que, apesar da míngua em que se achavam os armazéns do Rei, todos os navios de Brest e Dunkerque ficaram prontos para velejar dentro de dois meses, contados do dia de minha chegada a Brest.

§ 4

Tivera eu aviso de que na Inglaterra trabalhavam por lançar ao Mar uma Forte esquadra, e não duvidando ser para vir bloquear-me no Porto de Brest, mudei o plano, em que estava, de esperar o resto da minha esquadra pelo de ir reuni-la no Porto da Roxéla, não dando aos meus navios tempo de prontificar-se inteiramente. Com efeito, dei à vela aos 03 do mês de junho (1711) e, dois dias depois, apareceu na entrada do Porto do Brest uma esquadra de 20 navios de guerra ingleses, alguns dos quais avançaram até sob as Baterias, e tomaram 2 barcos de pescadores que os informaram da minha subida, por onde é fácil julgar que, sem a extrema diligência empregada neste armamento e sem a resolução que tomei de dar à vela repentinamente, a empresa ter-se-ia frustrado. Cheguei a 06 no ancoradouro da Roxéla; aí achei o Fidèle, as duas bombardeiras e as duas fragatas de São-Maló, prontos para seguirem.

§ 5

A 09 do mês (06.1711), dei à vela com todos os navios reunidos, à exceção da fragata Aigle, que necessitava de obras de embono para poder resistir ao Mar; designei-lhe para ponto de reunião uma das Ilhas do Cabo Verde, onde eu devia, segundo as informações por mim obtidas, fazer fácil aguada (abastecimento d’água) e achar refrescos. (ARARIPE)

Embono: colocação de reforços no costado do navio. (Hiram Reis)

ARARIPE: A 21 (06.1711), fiz uma pequena presa inglesa, saída de Lisboa, que julguei idônea (adequada) para seguir em conserva (reserva) da esquadra. A 02 de julho, fundeei na Ilha de São-Vicente, uma das do Cabo Verde, onde se me reuniu a fragata Aigle. Aí tive muita dificuldade em fazer aguada e mui pouca probabilidade de achar refrescos; assim de novo dei à vela a 06 (07.1711), com a única vantagem de ter desembarcado as tropas e ter ensaiado a ordem e disposição que deveriam observar no desembarque. Passei a linha a 11 de agosto (1711), depois de ter, por mais de um mês, sofrido ventos tão contrários e frescos que todos os navios da esquadra, uns após outros, desarvoraram os mastaréus de gávea. (ARARIPE)

Desarvoraram os mastaréus de gávea: arrearem imediatamente os mastros menores. (Hiram Reis)

ARARIPE: A 19 (08.1711), reconheci a Ilha da Ascensão, e a 27 (08.1711), achando-me na altura da Baía de Todos os Santos, reuni um Conselho, no qual propus ir, de passagem, tomar ou queimar os navios inimigos que ali se achassem; e para este efeito verifiquei a quantidade de água existente em todos os navios da esquadra; mas achou-se tão pouca provisão que apenas bastaria para levar-nos ao Rio de Janeiro; assim foi decidido que continuássemos a derrota para irmos em direitura (em linha reta) ao nosso destino. A 11 de setembro (1711), achamos fundo, sem todavia haver visto terra. Fiz minhas observações sobre isso e sobre a altura que tínhamos observado, depois do que, aproveitando a brisa fresca, levantou-se ao cair da noite, mandei, não obstante o nevoeiro e o mau tempo, todos os navios da esquadra fazer força de velas, a fim de chegar, como cheguei, ao romper do dia precisamente à entrada da Baía do Rio do janeiro. Era evidente que o êxito desta Expedição dependia da presteza e que cumpria não dar ao inimigo tempo de preparar-se. Sob o influxo deste princípio, não quis demorar-me, mandando a bordo de todos os navios as ordens que cada um devia observar na entrada; eram mui preciosos os momentos: ordenei, pois ao Sr. Cavalheiro de Courserac, que conhecia a entrada deste Porto, que se pusesse à frente da esquadra, e aos Srs. de Goyon, e de Beauve, que o seguissem. Coloquei-me após eles, achando-me assim em situação mui conveniente para observar o que se passava na frente e na retaguarda, e dar ordens. Ao mesmo tempo fiz sinal aos Srs. de La Jaille, e de La Moinerie-Miniac, e enfim a todos os Capitães da Esquadra, conforme a ordem e força dos seus navios, para avançar uns após outros. Executaram esta ordem com tanta regularidade que não me é dado exalçar (exaltar) assaz (em elevado grau) o seu valor e bom procedimento; não excetuo nem mesmo os mestres das duas bombardeiras e da presa inglesa, os quais, sem mudar de rumo, receberam o fogo contínuo de todas as Baterias; tamanha é a força do bom exemplo! O Sr. Cavalheiro de Courserac principalmente cobriu-se neste dia de brilhante glória por sua boa manobra, e pela galhardia com que nos abriu caminho, recebendo o primeiro fogo de todas as Baterias. Forçamos, pois deste modo a entrada do Porto, que era defendida por quantidade prodigiosa de artilharia e pelos quatro navios e três fragatas de guerra, que acima indiquei terem sido mandadas pelo Rei de Portugal para defesa da Praça. Estavam todos atravessados na entrada do Porto; mas vendo que o fogo da sua artilharia, sustentado pelo de todas as suas Fortalezas, não poderia deter-nos, e que brevemente chegaríamos ao alcance de abordá-los e apoderarmo-nos deles, assentaram de cortar os cabos e encalhá-los debaixo das Baterias da cidade. Nesta ação tivemos quase 300 homens fora de combate; e para que possam todos acertadamente julgar do mérito desta entrada, aqui exporei qual é a situação deste Porto, e acrescentarei a da cidade e das suas Fortalezas.

§ 7

A Baía do Rio de Janeiro é fechada por uma garganta um quarto mais estreita que a de Brest: no meio deste estreito está um volumoso rochedo, que obriga os navios a passar ao alcance do tiro de fuzil das Fortalezas que defendem a entrada por ambos os lados. À direita está a Fortaleza de Santa-Cruz guarnecida por 48 grandes peças do calibre 18 a 48, e outra Bateria de 8 peças, que fica um pouco avante desta Fortaleza. À esquerda está a Fortaleza de São João e mais duas Baterias de 48 peças de grosso calibre, que ficam fronteiras à Fortaleza de Santa-Cruz. Dentro, na entrada à direita, está a Fortaleza de Nossa Senhora da Boa-viagem, situada em uma península e Armada com 16 peças de calibre 18 a 24. Defronte está a Fortaleza de Villegaignon, onde há 20 peças do mesmo calibre. Adiante desta Fortaleza está a de Santa-Theodora de 16 peças, que varrem a Praia. Nela fizeram os portugueses um revelim. (ARARIPE)

Revelim: construção externa de duas faces, que formam ângulo saliente, para defesa de cortina, ponte etc., nas fortificações. (Hiram Reis)

ARARIPE: Depois de todas estas Fortalezas, vê-se a Ilha das Cabras ao alcance de tiro de fuzil da cidade, sobre a qual está uma Fortaleza de 4 bastiões guarnecida de 10 peças, e num plano da parte inferior da Ilha está outra Bateria de 4 peças. (ARARIPE)

Ilha das Cabras: trata-se, na verdade, da Ilha das Cobras, e, certamente, os franceses, confundiram-se com a pronúncia das palavras. (Hiram Reis)

ARARIPE: Defronte desta Ilha, em uma das extremidades da cidade, está a Fortaleza da Misericórdia, armada com 17 peças de artilharia, e saliente para o Mar; há ainda outras Baterias do outro lado do Porto, cujos nomes não recordo. Enfim os portugueses, advertidos, tinham assestado artilharia e levantado trincheira em todos os lugares, onde julgaram possível a tentativa do algum desembarque. A cidade do Rio do Janeiro está edificada à borda do Mar entre três montes, que a dominam, e estão coroados de Fortalezas e Baterias. O mais próximo, ao entrar, é ocupado pelos Jesuítas; o que lhe fica fronteiro, pelos Beneditinos; e o terceiro pelo Bispo do Lugar. Sobre a dos Jesuítas está a do S. Sebastião, guarnecida por 14 peças de artilharia e vários morteiros, havendo outra Fortaleza chamada de Santiago, guarnecida por 12 peças de artilharia, e mais outra chamada de S. Luzia, guarnecida por 8, além de uma Bateria com 12 canhões. O Monte ocupado pelos Beneditinos também está fortificado por bons entrincheiramentos e várias Baterias, que olham para todos os lados. O do Bispo, chamado da Conceição, está defendido por uma cerca viva, na qual, de distância em distância, colocaram-se peças de artilharia, que lhe impedem o acesso. A cidade está fortificada por Baterias e redentes, cujos fogos se cruzam; pelo lado da planície é defendida por um campo cercado e por um bom fosso cheio d’água. Dentro deste entrincheiramento, há duas praças d’armas, que podem conter 1.500 homens. (ARARIPE)

Redentes: ângulos salientes e reentrantes do interior de um entrincheiramento. (Hiram Reis)

Neste lugar tinham os inimigos a principal força de suas tropas, que consistiam em 1.200 ou 1.300 homens, pelo menos, inclusive 5 Regimentos de tropas regulares, novamente (recentemente) trazidas da Europa por D. Gaspar da Costa, não incluindo prodigioso número de negros disciplinados.

§ 8

Surpreendido por achar esta Praça em estado tão diferente daquele que esperava, procurei informar-me do que a isso dera lugar, e soube que a rainha Anna de Inglaterra enviara um paquete para dar aviso do meu armamento ao Rei de Portugal, o qual, não tendo navio pronto para levar a notícia ao Brasil, despachara para o Rio de Janeiro o mesmo paquete, a quem tanto favorecera o acaso, que ali chegara 15 dias antes de mim. Foi em consequência deste aviso que o Governador fizera tamanhos preparativos. Passando-se todo o dia em forçar a entrada do Porto, fiz, durante a noite, avançar a galeota e as duas bombardeiras para começar o bombardeio e, ao romper do dia, destaquei o Sr. Cavalheiro de Goyon, com 500 homens escolhidos, para ir apoderar-se da Ilha das Cabras. Imediatamente o executou; e dali expeliu os portugueses tão precipitadamente que esses apenas tiveram tempo de encravar (inutilizar) algumas peças da sua artilharia. No ato da retirada, afundaram dois grandes navios mercantes entre o Monte dos Beneditinos e a Ilha na Cabras, e fizeram soltar dois dos seus navios de guerra, que estavam encalhados sob o Forte da Misericórdia. Quiseram fazer o mesmo com um terceiro navio encalhado na ponta da Ilha das Cabras, mas o Sr. Cavalheiro do Goyon mandou duas chalupas comandadas pelos Srs. de Vaureal, e de Saint-Osman, os quais, apesar do fogo das Baterias da Praça e das Fortalezas, apoderaram-se dele e arvoraram (hastearam) o estandarte do Rei. Não puderam todavia por à nado o navio, porque este enchera-se d’água pelas aberturas, que lhe havia feito o canhoneio. Informando-me o Sr. Cavalheiro do Goyon da vantajosa situação da Ilha das Cabras, fui visitar este Posto e achando-o tal como mo descrevera, ordenei aos Srs. de La Rufinière, de Kerguelin, e Elian, oficiais de artilharia, que ali estabelecessem Baterias de peças e morteiros. O Sr. Marquez de Saint-Simon, 1° Tenente, foi encarregado de proteger os trabalhadores com um Corpo de tropas que lhe deixei. Uns e outros serviram com todo o zelo e firmeza que eu poderia desejar, embora se vissem expostos a contínuo e vivíssimo fogo de artilharia e mosqueteria. Entretanto, faltos d’água os nossos navios, não devíamos perder um momento em desembarcar e assegurar-nos de alguma aguada. Para este fim ordenei ao Sr. Cavalheiro de Beauve, que fizesse embarcar a maior parte das tropas nas fragatas Amazone, Aigle, Astrée e Concorde, e o encarreguei de apoderar-se de 4 navios mercantes portugueses fundeados perto do lugar, onde ou planejava fazer o meu desembarque. Esta ordem foi executada durante a noite tão pontualmente que, pela manhã seguinte, o nosso desembarque operou-se sem confusão e sem perigo. É certo, que eu tinha procurado desviar os cuidados do inimigo por meio do outros movimentos e falsos ataques, que lhe atraíram toda a atenção.

§ 9

A 14 de setembro, todas as nossas tropas, em número de 2.200 soldados e 700 a 800 marinheiros, armados e exercitados, estavam desembarcados; o que formou, inclusive Oficiais, Guardas-marinha e voluntários, um Corpo de quase 3.300 homens. Tínhamos, além disso, perto de 500 homens atacados de escorbuto, os quais desembarcaram ao mesmo tempo; e no fim de 4 ou 5 dias ficaram em estado de incorporar-se ao resto das tropas. De tudo isto reunido, formei 3 Brigadas de 3 Batalhões cada uma; a que servia de vanguarda era comandada pelo Sr. Cavalheiro de Goyon; a da retaguarda pelo Sr. Cavalheiro de Courserac; e eu coloquei-me no centro com a terceira, cuja direção dei ao Sr. Cavalheiro de Beauve. Formei ao mesmo tempo uma Companhia de 60 Cabos de Esquadra, escolhidos em todas as tropas, com certo número de Ajudantes de Campo, Guardas-marinha, e voluntários para acompanhar-me na ação e dirigir-se comigo a qualquer lugar, onde minha presença fosse necessária. Fiz também desembarcar 4 morteirotes portáteis e 20 grandes morteiros fundidos, a fim de formar uma espécie de artilharia de campanha. O Sr. Cavalheiro de Beauve inventou para isto estaleiros de madeira de 6 pernas ferradas, que se cravam no chão, e nos quais se colocavam os morteiros mui solidamente. Esta artilharia marchava no centro do Corpo do Batalhão e, quando parecia conveniente servir-nos dela, abria-se o Batalhão. Desembarcadas as nossas tropas e munições, mandei o Sr. Cavalheiro de Goyon, e o Sr. Cavalheiro de Courserac ambos avançarem à frente das suas Brigadas, para apossarem-se de duas Colinas, de onde se descortinava toda a campina e parte dos movimentos executados na cidade. O Sr. de Auberville, Capitão dos Granadeiros da Brigada do Goyon, expeliu algumas partidas inimigas de um bosque, onde estavam escondidas para observar-nos; depois do que as nossas tropas acamparam na seguinte ordem: a Brigada de Goyon ocupou a Colina, que olhava para a cidade; a de Courserac estabeleceu-se no Monte oposto; e eu coloquei-me no meio com a Brigada do centro. Nesta situação estávamos nós ao alcance de sustentar-nos uns aos outros, e ficaríamos senhores da Praia do Mar, onde as chalupas faziam aguada e traziam continuamente dos nossos navios as munições de guerra e boca, de que precisávamos. O Sr. de Ricouart, Intendente da esquadra, prevenia todas as faltas e fornecia-nos todos os materiais necessários ao estabelecimento das nossas Baterias.

§ 10

A 15 de setembro (1711), querendo eu examinar se poderia cortar a retirada dos inimigos e mostrar-lhes que éramos senhores da campanha, ordenei que todas as tropas se pusessem em armas e as mandei avançar para a planície destacando, até o alcance de tiro de fuzil da cidade, partidas (soldados armados), que mataram animais e saquearam casas sem encontrar oposição, e até sem que os inimigos fizessem movimento algum. Era desígnio de eles atraírem-nos aos seus entrincheiramentos, que eram os mesmos, onde tinham metido e derrotado o Sr. Duclerc. Penetrei sem custo o desígnio, e vendo que continuavam imóveis, mandei retirar as tropas em boa ordem. Entretanto prestei toda a atenção em reconhecer bem o terreno; achei-o tão embaraçoso que, ainda que eu tivesse 15.000 homens, ter-me-ia sido impossível impedir que esta gente salvasse as suas riquezas nos bosques e nas montanhas. Ainda mais convencido disto fiquei quando, observando uma partida inimiga ao pé de um Monte, e expedindo tropas à direita e à esquerda para cortá-la, depararam estas com um pântano e tojos (planta de folhas espinhosas), que logo as detiveram e as obrigaram a retroceder. A 16 (09.1711), avançando um dos nossos destacamentos, os inimigos atacaram um fornilho, com tanta precipitação que não nos fez mal algum. No mesmo dia, encarreguei aos Srs. de Beauve e de Blois de estabelecer uma Bateria de 10 peças em uma península que ligava obliquamente as Baterias e parte dos entrincheiramentos da Colina dos Beneditinos. (ARARIPE)

Fornilho: buraco em que se depositam engenhos pirotécnicos (munições de todos os tipos, pólvora) que são acionados por mecanismos de explosão à distância. Os fornilhos são construídos nas trilhas por onde se espera que passem as tropas inimigas e são, normalmente, conjugadas com emboscadas. (Hiram Reis)

A 17 (09.1711), os inimigos queimaram alguns armazéns que havia na Praia do Mar, e estavam cheios de caixas de açúcar, massame (cordame de navio) e munições. Também fizeram saltar (explodir) o terceiro navio de guerra, que estava encalhado debaixo das trincheiras dos Beneditinos. Também queimaram as duas fragatas do Rei de Portugal. Durante estes movimentos, algumas partidas inimigas, conhecedoras dos caminhos locais, prolongaram-se pelos desfiladeiros e bosques que margeavam o nosso acampamento, e depois de tentar diversos ataques de dia, surpreenderam de noite três sentinelas nossas, que levaram consigo sem rumor algum. Também alguns dos nossos merodistas caíram em suas mãos, e isto despertou-lhes a ideia de um estratagema singularíssimo. (ARARIPE)

Merodistas: patrulhas que agem para inquietar e saquear as tropas inimigas. (Hiram Reis)

§ 11

Certo Normando chamado “du Bocage”, que nas precedentes guerras comandara um ou dois navios franceses armados em corso, havia depois passado ao serviço de Portugal. Aí se naturalizara e conseguira embarcar em seus navios de guerra; comandava no Rio de Janeiro o segundo daqueles que nós achamos, e depois de o ter feito saltar, encarregara-se da guarda das trincheiras dos Beneditinos; cabalmente desempenhou este encargo e com tanto acerto empregou os seus canhões, que as nossas bombardeiras foram muito incomodadas e várias chalupas nossas ficaram maltratadíssimas; entre outras uma, carregada com 4 grandes peças fundidas, foi traspassada por duas balas, e soçobraria se, por acaso, eu a não visse no regresso da Ilha das Cabras (Cobras) e a não tomasse a reboque do meu escaler. Este “du Bucage”, querendo fazer-se notável e ganhar a confiança dos portugueses, aos quais como francês sempre era suspeitoso, imaginou disfarçar-se como marinheiro com um boné, gibão, e calças alcatroadas. Neste caso fez-se conduzir por quatro soldados portugueses para onde os nossos merodistas e as nossas sentinelas aprisionadas achavam-se encarceradas. Puseram-no a ferros com esses companheiros e ele deu-se como marinheiro da equipagem de uma das fragatas de São-Maló que, afastando-se do nosso acampamento, fora preso por uma partida portuguesa. Tão perfeitamente desempenhou o seu papel que arrancou dos nossos pobres franceses, iludidos por esse disfarce, os esclarecimentos que o podiam certificar do Forte e do fraco das nossas tropas, pelo que resolveram os inimigos atacar o nosso acampamento.

§ 12

Para este fim, mandaram subir dos seus entrincheiramentos, antes de clarear o dia, 1.500 homens de tropas regulares, que avançaram sem ser descobertos até o sopé do Monte ocupado pela Brigada de Goyon. Estas tropas foram seguidas por um Corpo de milícias que se postou a meio caminho do nosso acampamento, abrigado por um bosque e em posição de proteger aqueles que nos deviam atacar. O Posto avançado, que intentavam tomar, estava situado na encosta de um Monte, onde havia uma casa seteirada, que nos servia de Corpo de Guarda, e 40 passos acima havia uma cerca viva fechada por uma cancela. Os inimigos, ao alvorecer do dia, fizeram passar vários animais em frente da cancela. Um dos nossos sargentos e quatro soldados sôfregos, avistando os animais, no intuito do apossá-los, abriram a cancela sem prevenir ao oficial mas, apenas deram alguns passos, os portugueses emboscados fizeram fogo sobre eles, e mataram o Sargento e dois soldados; depois entraram e subiram para o Corpo da Guarda; o Sr. de Liesta, que defendia este posto com 50 homens, embora surpreendido e atacado vivamente, manteve-se, e deu tempo ao Sr. Cavalheiro de Goyon mandar o Sr. de Boutteville, Ajudante-mor, com as Companhias dos Srs. de Droualin e d’Auberville. Ao mesmo tempo despachou um Ajudante de Campo para informar-me da ocorrência e, esperando as minhas ordens, pôs toda a Brigada em armas e pronta para atacar. Imediatamente expedi 200 granadeiros por um caminho fundo com ordem de agredir os inimigos pelo flanco, apenas vissem empenhada a ação, e pus as demais tropas em movimento. Corri depois ao lugar do combate com a minha Companhia de Cabos, e cheguei a tempo de testemunhar o valor e firmeza com que os Srs. de Liesta, de Droualin e d’Auberville sustentavam inabaláveis o embate inimigo. Ao aproximarem-se as tropas que me acompanhavam, os inimigos retiraram-se precipitadamente, deixando no campo de batalha vários soldados mortos e muitos feridos. Interroguei a estes últimos, e informado por eles das circunstâncias que acabo de referir, não julguei conveniente penetrar no bosque e nos desfiladeiros. Assim mandei fazer alto aos granadeiros e a todas as tropas que se achavam em marcha. Se tomasse resolução diversa, cairia na emboscada, onde se achava postado o Corpo de Milícias. O Sr. de Pontlo do Coetlogon, Ajudante de Campo do Sr. Cavalheiro de Goyon, foi ferido nesta ocasião e tivemos 30 soldados mortos ou feridos. Neste mesmo dia a Bateria, que eu entregara aos cuidados dos Srs. do Beauve e de Blois, começou a atirar contra as fortificações dos Beneditinos.

§ 13

A 19 (09.1711), o Sr. de la Rufinière, Comandante da artilharia, avisou-me que tinha na Ilha das Cabras (Cobras) 5 morteiros e 18 canhões de calibre 24 prestes a bater na brecha, e que esperava as minhas ordens para desmascarar as Baterias; julguei ser tempo do intimar o Governador, e mandei um tambor (mensageiro) levar-lhe a seguinte Carta:

O Rei, meu amo, querendo, Senhor, tirar satisfação da crueldade exercida para com os oficiais e tropas que aprisionastes o ano passado, e estando Sua Majestade bem informado que, depois de terdes feito assassinar cirurgiões, a quem tínheis permitido desembarcar dos seus navios para cuidar dos feridos, deixastes ainda morrer de fome e de miséria a parte restante destas tropas, retendo todos em cativeiro contra o teor da Convenção de trocas ajustada entre as Cortes de França e Portugal, mandou-me Sua Majestade empregar seus navios e suas tropas para obrigar-vos a entregar-vos à discrição e restituir todos os prisioneiros franceses, assim como também obrigar os habitantes desta Colônia a pagar contribuições bastantes para puni-los da sua crueldade, e que possam amplamente indenizar a Sua Majestade da despesa, que fez com armamento tão considerável. Não quis intimar-vos para render-vos antes de ver-me em estado de obrigar-vos a isso e reduzir a cinzas o vosso país e a vossa cidade, se vos não renderdes à discrição do Rei, meu amo, que ordenou-me que não destruísse aqueles que de boa vontade se submetessem e se arrependessem de o ter ofendido na pessoa dos seus oficiais e das suas tropas. Sei também, Senhor, que foi assassinado o Sr. Duclerc, que as comandava; não quis usar de represália contra os portugueses que caíram em meu poder, por não ser intenção de Sua Majestade fazer guerra do modo indigno de um Rei cristianíssimo; e eu quero crer que sois honrado, e portanto não tereis tido parte neste vergonhoso assassinato; mas isto não basta. Sua Majestade quer que me nomeeis os autores do crime para fazer-se exemplar justiça. Se demorardes em obedecer a sua vontade, nem todos os vossos canhões, nem todas as vossas trincheiras, nem todas as vossas tropas me impedirão de executar as suas ordens e levar o ferro e o fogo por todo este país. Espero, Senhor, vossa resposta; dai-a pronta e decisiva; do contrário conhecereis que, se até agora vos poupei, foi tão somente para poupar a mim mesmo o horror de confundir inocentes com culpados.

Sou, Senhor, mui perfeitamente etc.

O Governador despediu o meu tambor com esta resposta:

Vi, Senhor, os motivos que vos obrigaram a vir de França a este país. Quanto ao tratamento dos prisioneiros franceses, foi ele segundo o uso da guerra, não lhes faltou pão de munição, nem outro qualquer socorro, embora o não merecessem pelo modo por que atacaram este país do Rei, meu amo, sem Comissão do Rei cristianíssimo, mas praticando apenas a piratagem. Entretanto concedi a vida a 600 homens como estes prisioneiros poderão certificar. Eu os defendi contra o furor dos negros, que pretendiam passar todos a fio de espada; enfim não lhes faltei com coisa alguma, tratando-os segundo as intenções do Rei, meu amo. A respeito da morte do Sr. Duclerc, cumpre-me clarear que, por solicitação sua, o pus na melhor casa desta terra, onde ele foi morto. Quem o matou? Eis o que se não pode verificar por mais diligências que se fizessem, tanto por minha parte como por parte da justiça. Asseguro-vos que, se se descobrir o assassino, será punido como merece. Em tudo isto nada se passou que não seja pura verdade, tal como vo-lo exponho. Quanto à entrega desta Praça, quaisquer que sejam as ameaças que me façais, tendo-ma confiado o Rei, meu amo, não tenho outra resposta para dar-vos senão que estou pronto a defendê-la até a última gota do meu sangue. Espero, que o Deus dos Exércitos não me abandonará em tão justa causa, como a da defesa desta Praça, da qual quereis apoderar-vos sob frívolos protestos e fora de tempo.

Deus guarde a V. Sª.

Sou, Senhor etc.

D. Francisco de Castro Moraes.

§ 14

Em vista desta resposta, resolvi atacar vivamente a Praça; fui com o Sr. Cavalheiro de Beauve examinar a costa para reconhecer os lugares por onde mais facilmente poderíamos forçar os inimigos. Observamos 5 navios portugueses ancorados perto do Convento Beneditino, os quais me pareceram idôneos para depósito das tropas, que eu destinasse para atacar este posto. Por precaução, mandei o navio Mars avançar por entre as nossas duas Baterias e estes cinco navios, a fim de que ficasse ele em posição conveniente de defendê-los, quando fosse oportuno. A 20 (09.1711), dei ordem ao Brillant para vir fundear perto do Mars. Estes dois navios e as nossas Baterias abriram fogo contínuo, que arrasou parte dos entrincheiramentos, e dispus tudo para dar assalto na manhã seguinte ao romper da aurora. Para este fim, apenas cerrou-se a noite, mandei embarcar em chalupas as tropas destinadas para o ataque das trincheiras dos Beneditinos com ordem de meterem-se, com menor ruído possível, nos 5 navios que tínhamos observado. Dispuseram-se elas a executar a ordem mas, sobrevindo tempestade, o clarão dos relâmpagos denunciou a manobra, e os inimigos fizeram sobre as chalupas ativíssimo fogo de mosquetaria. As disposições que eu notava na atmosfera, levaram-me a prever este contratempo e, para o remediar, tinha, antes de anoitecer, mandado ordem ao Brillant e ao Mars e a todas as nossas Baterias para, ainda de dia, apontar todos os canhões contra as trincheiras, e conservarem-se prontos para disparar no momento em que vissem partir um tiro de peça da Bateria, onde eu me colocara. Assim apenas começaram os inimigos a atirar contra as nossas chalupas, eu mesmo pus fogo à peça, que devia servir de sinal, a qual foi instantaneamente seguida de fogo geral e contínuo das Baterias e dos navios que, junto ao repetido estrondo de horrendos trovões e aos relâmpagos que se sucediam uns aos outros quase sem interrupção, tornava esta noite medonha. A consternação entre os habitantes foi tanto maior quanto pensaram que eu ia dar assalto durante a noite. A 21 (09.1711), pela madrugada avancei à frente das tropas para começar o ataque pelo lado da Conceição, e ordenei ao Sr. Cavalheiro do Goyon que corresse a costa com a sua Brigada e atacasse os inimigos por outro ponto. Ao mesmo tempo mandei ordem às tropas metidas nos 5 navios para assaltar as trincheiras dos Beneditinos. No momento em que tudo ia mover-se, o Sr. de La Salle, que servira de Ajudante de Campo ao Sr. Duclerc e ficara prisioneiro no Rio do janeiro, apareceu e veio dizer-me que a plebe e as milícias amedrontadas com o nosso grande fogo, apenas este começara e persuadidas de que se tratava de um assalto geral, achavam-se dominadas de tamanho terror que, desde logo, tinham abandonado a cidade com tal confusão, que a noite e a tempestade tornaram extrema, e que, comunicando-se este terror, as tropas regulares tinham sido arrastadas pela torrente; mas que, retirando-se, tinham incendiado os armazéns mais ricos, e deixado minas nas Fortalezas dos Beneditinos e Jesuítas, para que aí perecesse ao menos, parte das nossas tropas. Que vendo de quanta importância era advertir-me em tempo, nada desprezara para isso e aproveitara a desordem para evadir-se. Todas estas circunstâncias, que a princípio pareceram-me incríveis, e que todavia eram verdadeiras, determinaram-me a apressar a marcha. Assenhoreei-me sem resistência, mas com precaução, das trincheiras da Conceição e das dos Beneditinos; depois, pondo-me à frente dos granadeiros, entrei na Praça e apoderei-me de todas as Fortalezas e outros postos dignos de atenção. Ao mesmo tempo dei ordem para averiguação das minas, depois do que estabeleci a Brigada do Courserac no Monte dos Jesuítas para guarnecer as Fortalezas ali existentes. Entrando na cidade abandonada, fiquei surpreendido de achar logo em caminho os prisioneiros subsistentes da derrota do Sr. Duclerc. No meio da confusão, tinham eles arrombado as portas da prisão, e tinham-se espalhado por todos os pontos da cidade, a fim de saquear os lugares mais ricos. Isto excitou a avidez dos nossos soldados e induziu alguns a debandarem-se; imediatamente mandei aplicar severo castigo, que os deteve, e ordenei que todos estes prisioneiros fossem conduzidos para a Fortaleza dos Beneditinos e ali encerrados.

§ 15

Fui, depois disto, reunir-me aos Srs. de Goyon e de Beauve, aos quais deixara o Comando do resto das tropas, sendo facílimo combinar com eles sobre as providências que devíamos tomar para impedir ou ao menos diminuir o saque em uma cidade aberta, por assim dizer, por todos os lados. Depois mandei postar sentinelas e estabelecer Corpos de Guarda em todos os lugares necessários, e ordenei que se rondasse de dia e de noite com proibição, sob pena de morte, aos soldados e aos marinheiros de entrar na cidade. Em uma palavra, não desprezei precaução alguma praticável, mas o furor da depredação sobrepujou ao temor do castigo. Os que compunham os Corpos de Guarda e patrulhas foram os primeiros a aumentar a desordem durante a noite, de sorte que, na manhã seguinte, três quartas partes dos armazéns e casas estavam arrombadas, vinhos derramados; os víveres, as mercadorias e as alfaias espalhadas pela Rua e na lama; tudo enfim em desordem e em inexprimível confusão. Fiz, sem remissão, saltar a cabeça de muitos que estavam no caso do bando publicado; mas não sendo todos os reiterados castigos capazes de deter este furor, deliberei, para salvar alguma coisa, empregar as tropas desde pela manhã até à noite e recolher em armazéns todos os efeitos (bens que tivessem valor negociável), que se pudesse reunir, e o Sr. de Ricouart aí pôs escrivães e pessoas de confiança. A 23 (09.1711), mandei intimar a Fortaleza de Santa Cruz, que se rendeu, o Sr. de Beauville, Ajudante-General, tomou posse dela, assim como das Fortalezas de São-João, e de Villegaignon e das outras da entrada. Por ordem minha, cravou ele todos os canhões das Baterias que estavam desencravados.

§ 16

Entrementes, soube por diferentes negros trânsfugas (desertores), que o Governador da cidade e D. Gaspar da Costa, Comandante da frota, tinham reunido suas tropas dispersas e estavam fortificados em distância de uma légua de nós, onde esperavam poderoso socor

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