especiais

seções

colunistas

blogs

enquete

Na sua opinião, o Pantanal já sente os efeitos do desmatamento?
Sim
Não
Não sei
Ver resultados

tempo

newsletter

receba nosso newsletters
   
Rádio Independente

expediente

Pantanal News ®
A notícia com velocidade, transparência e honestidade.

Diretora-Geral
Tereza Cristina Vaz
direcao@pantanalnews.com.br

Editor
Armando de Amorim Anache
armando@pantanalnews.com.br
jornalismo@pantanalnews.com.br

Webmaster
Jameson K. D. d'Amorim
webmaster@pantanalnews.com.br

Redação, administração e publicidade:
Aquidauana:
Rua 15 de Agosto, 98 B
Bairro Alto - CEP 79200-000,
Aquidauana, MS
Telefone/Fax (67) 3241-3788
redacao@pantanalnews.com.br

Escritório:
Corumbá:
Rua De Lamare, 1276 - Centro
CEP 79330-040, Corumbá, MS
Telefone: (67) 9235-0615
comercial@pantanalnews.com.br
pantanalnews4@terra.com.br

 
Artigos - 17/12/2016 - 06h13

A Epopeia do Juruá – Parte VII




Fotos: Divulgação










Por Hiram Reis e Silva*

 Hiram Reis e Silva, Bagé, RS, 16 de dezembro de 2016.

O Canto do Piaga

(Gonçalves Dias)

 

Oh! Quem foi das entranhas das águas,

O marinho arcabouço arrancar?

Nossas terras demanda, fareja...

Esse monstro... – o que vem cá buscar?

Vamos, finalmente, reportar o fato que gerou esta série de artigos que constam do livro “Descendo o Juruá” que um dia, quem sabe, será editado.

– 13.01.2013 – Partida para a Comunidade São José

Depois de remar durante quatro horas, avistamos a Comunidade Santa Maria. Em todo esse percurso, de 40 km, avistamos somente uma pequena Aldeia dos índios Kulina às margens do Igarapé Penedo próxima de sua Foz no Juruá. Ao ultrapassarmos o Rio Gregório, fomos informados da existência de um Furo próximo à Comunidade Cordeiro. Depois de certificar-me de que não havia nenhum acidente natural ou Comunidade na volta que deixaríamos para trás, decidi experimentar o Furo na forma de um “S” muito aberto. A correnteza obviamente era forte já que, em vez dos quase 07 km, percorreríamos pouco mais de cem metros. O Marçal levou uma queda, mas agilmente montou no caiaque e continuou a navegação. Passamos a chamar o local de “Furo do Marçal” já que este ainda não tinha sido batizado.

Lago Maldito

(Jonas Fontenelle da Silva)

 

Lago em que havia à superfície esparsas

Grandes vitórias-régias e falenas (mariposas)

E em que hoje existe a canarana apenas

E são as praias matagais e sarças... [...]

Tínhamos sido informados que o Furo Cavado (06°47’36,5”S / 70°32’16,2”O) ficava próximo à Comunidade São José e partimos para ele. O Furo localiza-se no final de um trecho em forma de um enorme “W”. O Furo, segundo o Google Earth, estava localizado na margem direita e próximo ao meio da curva à esquerda, mas, considerando que os Rios de terras baixas mudam constantemente, enveredamos pelo primeiro furo que achamos, um pouco mais a montante do “Cavado”. Era na realidade o Igarapé do Pinheiro que dá acesso a um Lago interior coberto de canaranas e a um Igapó que mais parece um infindo labirinto arbóreo. Retiramos os troncos que bloqueavam a entrada e enveredamos pela estreita montanha russa fluvial. Enganchamos, eu e o Marçal, sob um enorme tronco, o Marçal caiu do caiaque e empurrou o meu que estava trancado sobre as enormes toras.

Liberado, não consegui frear e fui levado pela rápida correnteza, o trajeto lembrava um toboágua natural, passei por cima e por baixo de troncos de árvores caídas e desviei das espinhentas palmeiras javaris (Astrocaryum javari). Depois de diversas curvas, cheguei a um escuro e enorme igapó, à direita de minha rota uma claridade chamou minha atenção e rumei para lá. Chamei, em vão, pelo Marçal, perdera minhas cartas na descida abrupta e não encontrava meus óculos, eu estava desorientado. Achei que, se seguisse a correnteza, poderia sair daquele medonho labirinto e acessar o Juruá. Esperei pelo companheiro e nada, naveguei pelo enorme Lago em forma de meia lua sobre as canaranas, cujas afiadas bordas cortavam e enchiam minha pele de minúsculas farpas, e enroscando nos intransponíveis cipós tiriricas.

Meu colossal caiaque “Cabo Horn” não fora projetado para aquelas paragens, o suporte do leme enroscava na vegetação aquática – o esforço era sobre-humano. Fui forçado a passar por cima de enormes vitórias amazônicas (vitórias régias) e depois de me arrastar por uns 500 metros que mais pareceram dezenas de quilômetros, desisti de encontrar caminho pelo maldito Lago do Pinheiro. Voltei até o ponto de onde abandonara o igapó e tentei navegar entre as árvores submersas e, novamente, a progressão era dificultada pelo tamanho do “Cabo Horn”, depois dessa frustrada tentativa voltei para o Lago para descansar. Recuperei o fôlego e tentei, novamente, achar o caminho pelo igapó, desta vez caminhando a pé por entre as árvores e rebocando o caiaque. Exausto, voltei para o Lago e decidi me preparar para dormir naquele local e tentar encontrar uma saída no dia seguinte.

Tentei pernoitar em um local seguro me amarrando a uma árvore conhecida como pau-de-novato (Tachigali paniculata Aubl.) para dormir, mas ao esbarrar numa de suas bromélias fui expulso pelas terríveis tachi (formigas), desci da árvore e voltei, pois, para uma área limpa do Lago e me preparei para pernoitar a bordo do caiaque.

Tachi: os troncos ocos das “Tachigalia” servem de moradia para as temíveis e ferocíssimas formigas conhecidas na Região Norte como “tachi” que pertencem ao gênero Pseudomyrmex. O botânico alemão Richard Moritz Schomburgk descreve seu primeiro contato com esses pequeninos seres, nos idos de 1844, na antiga Guiana Britânica:

Estava tentando quebrar um de seus galhos quando centenas desses insetos começaram a correr para fora de pequenas aberturas no tronco, me cobriram completamente e no auge da fúria dominaram minha pele com suas mandíbulas e, vomitando um líquido branco, enterraram seus terríveis ferrões em meus músculos. Devo confessar que depois disso um horror misterioso me invadia toda vez que cruzávamos com uma dessas árvores. (SCHOMBURGK)

Fiz uma limpeza sumária no caiaque, vesti o salva-vidas e coloquei sobre a embarcação um material alaranjado que o Angonese comprara para servir de acento e que poderia ser avistado à distância. Era uma temerária decisão já que o Lago era infestado de jacarés-açu, mas eu estava esgotado, fraco, a musculatura enrijecida, cada contração muscular doía, cada atividade física exigia um enorme esforço e consumia uma considerável energia.

O Sol já estava quase sobre o horizonte quando ouvi, ou senti, o ruído de uma rabeta. Depois de alguns minutos, avistei ao longe a silhueta do Marçal, com sua tradicional camiseta vermelha de navegação, de pé em uma voadeira – o suplício terminara. O Sr. Francisco de Assis Cassiano da Costa e seu filho Antônio José da Silva Costa colocaram o caiaque atravessado sobre a voadeira e com extrema habilidade me conduziram, contra a corrente, pelo mesmo Igarapé em que eu entrara. Enquanto o Antônio, na popa, manejava a rabeta com muita agilidade, seu pai Francisco, na proa, corrigia habilmente o rumo com o remo. Um final feliz para um dia de pouca progressão, mas que servirá de ensinamento para o resto da vida de cada um de nós.

Seja em operações militares ou mesmo nos deslocamentos de ribeirinhos, os Furos devem ser usados com muita cautela, tendo em vista as radicais modificações a que estão sujeitos. Da noite para o dia, seu curso pode ser interrompido ou obstaculizado por árvores caídas. Nos deslocamentos onde se utilizem diversas embarcações, devem-se empregar precursores devidamente assessorados por habitantes locais (hablocs). A economia de tempo e combustível determina que estes atalhos sejam utilizados devidamente. Não há, porém, condições de se manter atualizadas as informações sobre cada um deles, tendo em vista a inconstância tumultuária do Rio Juruá, basta ver a quantidade de arrombados, sacados e furos que são criados continuamente.

O Mário, preocupado conosco, desencadeara uma verdadeira operação de guerra. Abastecera as rabetas dos ribeirinhos da Comunidade São José e do Boia (senhores Daniel Gomes da Silva e Francisco Gomes de Souza) com nossa reserva de combustível e, graças a isso, não tivemos de experimentar um solitário e perigoso pernoite no Lago do Pinheiro, povoado pelos temíveis e monstruosos jacarés-açu que já tinham vitimado alguns ribeirinhos em circunstâncias similares.

Ficamos hospedados, naquela noite, na sala da casa do Sr. Francisco de Assis Cassiano e o Marçal preparou um saboroso carreteiro para treze pessoas, nosso anfitrião tem quatro filhos homens e quatro mulheres. Durante a refeição, comentei com ele que o Santo Padroeiro da Engenharia Militar é São Francisco de Assis, seu homônimo, e que meu pai se chamava Cassiano, uma interessante e agradável coincidência.

Graças à ação da equipe de apoio eu sobrevivera a este perigoso incidente e esta equipe me acompanhava graças à intervenção oportuna e determinante de meu Amigo e Irmão General Avena.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);

Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

Os artigos publicados com assinatura não representam a opinião do Portal Pantanal News. Sua publicação tem o objetivo de estimular o debate dos problemas do Pantanal do Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso, do Brasil e do mundo, garantindo um espaço democrático para a livre exposição de correntes diferentes de pensamentos, idéias e opiniões.

Compartilhe


Deixe o seu comentário

Todos os campos obrigatórios. Seu e-mail não será publicado.

Nome:

E-mail:

Seu comentário:
Sistema antispam

Digite aqui o código acima para confirmar:


 

zap2
Comentários
 
Últimas notícias do canal
13/11/2017 - 08h00
Expedição Centenária – F. Coimbra – Corumbá I
09/10/2017 - 13h44
Joaquim Francisco de Assis Brasil
09/10/2017 - 13h43
Assis Brasil, Acre
09/10/2017 - 13h34
O Assassinato de Chico Mendes
09/10/2017 - 13h31
Epopeia Acreana - Parte VII
 
Últimas notícias do site
13/12/2017 - 08h34
Acumulada, Mega-Sena sorteia prêmio de R$ 33 milhões nesta quarta-feira
13/12/2017 - 07h58
Azambuja se reúne com empresa e dá posse ao novo secretário de Saúde
13/12/2017 - 06h54
'Dog itinerante': Este cachorrinho já visitou mais cidades que muita gente
13/12/2017 - 06h38
Dia amanhece com sol entre nuvens, mas previsão é de temperatura alta
12/12/2017 - 14h30
Produção de grãos em MS cresce 40%, alta acima da média nacional
 

88

ZAP NOVO
Untitled Document
 ® 2009  

CPN - Central Pantaneira de Notícias
PantanalNEWS - Marca registrada 1998-2009
Todos os direitos reservados.