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Artigos - 13/12/2016 - 13h46

A Epopeia do Juruá – Parte I




Fotos: Divulgação







Por Hiram Reis e Silva*

 Hiram Reis e Silva, Bagé, RS, 12 de dezembro de 2016.

Camaradagem

(D. Duarte – Século XV)

A consciência da mesma missão, da defesa da Pátria, a comunhão dos mesmos princípios e virtudes militares, a vida e as tradições comuns são fatores de camaradagem que levam, se necessário, ao sacrifício da própria vida. Os desafios do combate exigem que entre os soldados a força da amizade se chame “camaradagem”. Este sentimento, que se deve projetar no todo coletivo a fim de alicerçar um forte Espírito de Corpo, é a base do bom viver e da coesão de um Exército. O engrandecimento, o prestígio e a eficácia de uma instituição depende, em grande parte, do “Espírito de Corpo”. Quer no dia a dia, quer no ardor da luta, o querer coletivo e o sentir-se mais do que si próprio é que conduz à vitória porque sempre quer bem a seu amigo, nunca o contrário e assim deseja fazer-lhe o bem por todas as formas. Nunca sentindo entre nós inveja, desordenada cobiça, avareza, desejo ou mostrança de sobranceria.

 

Após minha última incursão pelas amazônicas águas, na primeira semana de novembro deste ano, retardei meu retorno a Porto Alegre com o firme objetivo de agradecer pessoalmente ao General-de-Exército Ítalo Fortes Avena, em viagem pela região, o apoio incondicional que ele me prestou quando da descida do Rio Juruá.

No dia 22 de novembro de 2016, o General-de-Brigada Antonio Manoel de Barros, chefe do Centro de Coordenação e Operações do Comando Militar da Amazônia (CCOp ‒ CMA), foi agraciado com o título de “Cidadão do Amazonas”, conferido pela ALEAM (Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas). À noite, o General Barros recebeu alguns amigos, em sua residência, e eu e o Gen Avena participamos do alegre evento onde tive a oportunidade de reencontrar o caro Irmão Maçom e Amigo.

O Gen Avena foi o prefaciador de meu livro Descendo do Juruá, ainda não editado por falta de patrocínio:

Prefácio

Por General-de-Exército Ítalo Fortes Avena

 

A Região Amazônica sempre me despertou uma enorme admiração. Criança ainda, minha imaginação navegava pelas águas de seus impetuosos Rios e penetrava floresta adentro na busca de uma aventura cujos perigos eram mitigados pela inexperiência de uma vida ainda nos primórdios de sua existência.

Incontáveis vezes a gurizada se reunia para planejar uma aventura amazônica, uma incursão à imensidão verde para conhecer seus mistérios e desvendar suas lendas. Apesar de nunca concretizada, permaneceu latente em nossas mentes, como chamariz para futuros passos.

Quando ingressei no Exército, pensava que minha vocação seria para a Artilharia. Em Cachoeira do Sul – RS, minha cidade natal, admirava os tiros das armas pesadas do então 3º Grupo de Obuses 155. Entretanto, no momento da escolha de arma, foi fundamental o trabalho desenvolvido pelo 5° Batalhão de Engenharia de Construção, “Pioneiro da Amazônia”, para que eu marchasse, sem hesitação, para a mesa onde se encontrava o estandarte da Engenharia, escolha da qual jamais me arrependi. Meses antes, o então Capitão Lauro Pastor passara pela AMAN recrutando os futuros Aspirantes para servirem na Unidade que estava se instalando em Rondônia. Esta se destinava a escrever uma grandiosa história na Amazônia, inflamando os corações dos jovens Cadetes que ansiavam em participar ativamente de um projeto pioneiro e patriótico de conquista e desenvolvimento desta instigante região do território nacional.

Ao ser declarado Aspirante-a-oficial, fui impedido de servir na Amazônia pelos que me antecederam na escolha. Devido a isso, decidi preencher uma vaga no Nordeste, mais precisamente no 3° BEC, onde aprendi os fundamentos básicos para a implantação e pavimentação de rodovias. Lá fiquei até cursar a EsAO. Após este curso, chegou o momento de concretizar o sonho amazônico, região onde viria a servir durante quatorze anos, seis deles às margens do Juruá, Rio que teria uma presença fundamental na minha vida.

Incontáveis vezes singrei, em embarcações toscas, suas barrentas águas e planejei inúmeras expedições das mais diversas naturezas – logísticas, operacionais, humanitárias – tanto no curso principal quanto nos afluentes de sua extensa Bacia.

Faço esta digressão para afirmar que, por conhecer bem o Juruá, posso avaliar a grandiosidade desta expedição realizada pelo Coronel Hiram. Arrisco a dizer que talvez tenha sido a mais difícil realizada em seu périplo amazônico. Não pela dificuldade de navegação, porque já enfrentou Rios mais caudalosos e mais acidentados, mas principalmente pelas características da região que teve de atravessar, pela complexa missão que se propôs a cumprir.

Engana-se quem pensa que a Amazônia é uma região uniforme, com os mesmos parâmetros em toda a sua extensão. Ao contrário, cada lugar envolve características específicas e peculiaridades que o distingue dos demais.

Ao ler os seus escritos, percebo claramente que se houve magnificamente bem. Seu relato, claro e fluente, é uma lição de história em um espaço geográfico que foi palco de muitas operações heróicas, nas quais se sobressaíram homens de vontade férrea, de caráter pétreo, que permitiram a incorporação de uma extensa e opulenta região ao território brasileiro.

 

A Bacia do Juruá foi testemunha de um período épico de nossa história, de intenso sacrifício, no qual patriotas venceram inclusive a incompreensão daqueles que não conseguiam entender a importância de lutar por uma região que poderia ter-se transformado em um enclave britânico em nossa fronteira Ocidental.

Da mesma forma, o Coronel Hiram tem enfrentado um cipoal de dificuldades para realizar suas históricas Expedições. Muitas vezes fico sem entender o porquê de não receber o merecido apoio oficial para a realização voluntária de um trabalho que deveria ser incentivado pelos órgãos que executam ações institucionais na região. Fico pasmo ao ver seus apelos para completar um orçamento enxuto, no qual constam apenas os custos essenciais.

 

Por outro lado, há um valor imenso naquela lista de contribuintes espontâneos que se cotizam para apoiar seus empreendimentos, proporcionando um caráter exclusivo em relação a outras iniciativas da mesma natureza.

 

O trabalho desenvolvido por este destemido explorador não é para qualquer um. Ouso dizer que é para poucos, porque envolve minucioso planejamento, desprendimento, coragem e habilidade pessoal. Tenho certeza de que, ao apreciar o conjunto de sua obra, as gerações atuais e futuras vão render a devida homenagem a este intrépido desbravador, ao corajoso pioneiro, ao nobre cidadão, que não hesita em enfrentar as enormes limitações que se antepõem à realização de seus projetos.

 

Estes não envolvem qualquer interesse pessoal, mas a rija determinação de deixar para a posteridade um trabalho que só pode ser feito por pessoas especiais como ele.

 

Portanto, caros leitores, passem a partir de agora, a absorver o conteúdo deste importante livro, que vem a acrescentar relevantes conhecimentos sobre uma região pouco conhecida da maioria dos brasileiros.

 

Ao autor, deixo o meu incentivo, lembrando o brado de honra da nossa Engenharia de Selva: Avante... remar... SELVA!!! 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);

Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

Os artigos publicados com assinatura não representam a opinião do Portal Pantanal News. Sua publicação tem o objetivo de estimular o debate dos problemas do Pantanal do Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso, do Brasil e do mundo, garantindo um espaço democrático para a livre exposição de correntes diferentes de pensamentos, idéias e opiniões.

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