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Agronegócios - 25/10/2016 - 09h05

Filme pulverizado sobre o pomar protege frutas de pragas e doenças




Paulo Lanzetta


Paulo Lanzetta


Embrapa


Embrapa

Por Assessoria / Embrapa / Redação Pantanal News

Um produto eficiente e prático, de fácil aplicação, desenvolvido pela Embrapa Clima Temperado (RS), está em fase de testes e promete facilitar a vida dos agricultores na hora de proteger suas plantações contra pragas e doenças, além de reduzir o uso de agrotóxicos. Trata-se de um filme protetor à base de quitosana que é pulverizado sobre a planta. A tecnologia foi testada inicialmente em fruteiras de clima temperado como pêssego, maçã, pera, citros e também feijão.

O produto tem apresentado resultados promissores na indução da resistência a doenças e pragas das plantas, com a grande vantagem de que novas moléculas podem ser adicionadas ao filme para aumentar o seu potencial de atuação. A quitosana é a estrutura molecular que forma a carapaça de crustáceos como siris e caranguejos.

A aplicação é simples e conhecida pelo agricultor. Utiliza-se um pulverizador tratorizado que aplica o produto de maneira aérea sobre a planta, atingindo as folhas, ramos ou frutos. Após secagem rápida, o filme fitoprotetor forma uma película brilhante, flexível e porosa que mantém íntegras as partes da planta e pode ser ingerida pelo consumidor, pois não é tóxica. Além disso, não há penetração do biomaterial no fruto.

Diferentemente de outras pesquisas tecnológicas com a utilização de filmes, até o momento esse é o único produto para pulverização foliar, em avaliação a campo. Sua maior vantagem, além do efeito da quitosana sobre as doenças, é o seu poder indutor de resistência sistêmica da planta. O filme é fotoprotetor, com bloqueio de raios de luz das faixas UV-B e UV-C, biodegradável e de baixo custo.

Como a película não bloqueia radiação solar nas regiões do azul e do vermelho, ela não afeta os processos de fotossíntese e pode ser usada como recobrimento fotoprotetor de folhas em qualquer tipo de cultura, desde a convencional até a orgânica. A tecnologia apresenta ainda resistência à chuva e a temperaturas de até 60°C.

Formulação

O filme protetor é um líquido formulado em diferentes diluições de soluções ácidas, que podem ser combinadas com outras substâncias, e forma uma película protetora na superfície das folhas, ramos ou frutos.

Ele utiliza uma substância chamada quitosana, um polissacarídeo amino derivado da quitina, uma das moléculas mais abundantes na natureza, depois da celulose.

A quitosana pode ser extraída do exoesqueleto de insetos, crustáceos e da parede celular de fungos. Por se tratar de uma substância renovável, e por isso abundante, tem sido proposta como um material potencialmente atraente para diversos usos e funções.

Produto permanece até 30 dias na planta

A expectativa é que a utilização de filmes à base de quitosana na agricultura possa aumentar a eficácia dos agrotóxicos, racionalizar seu uso e manter eficiência no controle de pragas. De acordo com a pesquisadora Ângela Diniz Campos, uma das responsáveis pelo desenvolvimento do filme, como a aderência à planta é bastante resistente, as chuvas não alteram o seu efeito. "Por isso, a necessidade de reaplicações é menor, pois o produto se mantém por até 30 dias aderido à planta", diz a pesquisadora.

Outros produtos têm sido adicionados ao filme para testes. "Temos observado que essas substâncias também permanecem por um longo período na planta. No caso da agricultura orgânica, foram utilizados óleos essenciais, que não perderam seus efeitos. O nim e a calda de fumo, por exemplo, continuaram com seus princípios protetores ativos", relata Ângela.

O efeito da adição de minerais ao líquido do filme tem sido testado tanto do ponto de vista nutricional quanto do controle de pragas. "Ao adicionar silício, boro, molibdênio, manganês, zinco, cálcio e cobre ao biomaterial, o filme pode ter mais uma função: fertilizante", revela Ângela.

"Como a aderência é um fator forte do produto, não saindo na água mesmo quando misturado com outras substâncias, o uso de agrotóxicos e suas aplicações são significativamente reduzidos, beneficiando o ambiente, a saúde do agricultor e também do consumidor", destaca.

O filme protetor foi desenvolvido no Laboratório de Fisiologia Vegetal da Embrapa Clima Temperado pela equipe da pesquisadora Ângela Diniz Campos, composta por pesquisadores de diferentes áreas da Empresa e também da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A Empresa indicou o filme para patenteamento no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Há cerca de um ano, a pesquisa agropecuária brasileira apresentou também o produto para ser protegido intelectualmente nos órgãos competentes de licenciamento da propriedade intelectual nos Estados Unidos e na Alemanha. "Esses países foram escolhidos pelo apelo de mercado desta tecnologia, no contexto da produção orgânica e produção sustentável", justifica o chefe-geral da Embrapa Clima Temperado, Clenio Pillon.

Próximos passos

Há a necessidade, ainda, de estudos que verifiquem se o filme sofre  a degradação por microorganismos a campo. Outro ponto importante é saber quanto tempo o produto se mantém na superfície das plantas, qual o número de redução das aplicações e também em que período, após um novo crescimento da planta, é possível realizar reaplicações ou como lidar com contaminações ambientais. É necessário verificar a eficiência da ação fotoprotetora em outras culturas e realizar testes com produtos fotossensíveis, permitindo assim, aumentar o leque de possibilidades para utilização desse produto.

Os pesquisadores pretendem trabalhar em duas vertentes: visando a proteção de folhas e a proteção de raízes. "Na primeira proposta, vamos avaliar e sintetizar estruturas que permitam trocas gasosas efetivas ao preparar filmes em bicamadas, sendo a camada próxima às folhas, hidrofílica e protetora de radiação; e na segunda camada, poderia ser um compósito com nanopartículas com propriedades fotocatalíticas que ajam no sentido de degradar fungos sob a ação do sol", explica Ângela. Na pesquisa do filme para proteção de raízes, a ideia é sintetizar películas com nutrientes que possam ser entregues à planta à medida que ela se desenvolva, minimizando seu desperdício e perda no solo. Os cientistas ainda preveem filmes para cobertura de sementes com propriedades fungicidas.

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