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Geral - 21/09/2016 - 07h31

Quando achou que nunca seria adotado, João descobriu os pais dentro da escola




Por Paula Maciulevicius do Campo Grande News / Redação Pantanal News

Argemiro, Giselle e a peça que faltava neles: João. (Foto: Wilson Mariz de Santana)Argemiro, Giselle e a "peça" que faltava neles: João. (Foto: Wilson Mariz de Santana)

As fotos resumem a alegria de João, ao descobrir que não era velho para ser adotado. Com 12 anos, desde os 9 a casa dele foi o abrigo Vovó Miloca, até que em agosto deste ano a secretária da escola e o professor de informática deram a ele o significado de família.

Antes mesmo da guarda definitiva sair, os três se reuniram no Parque das Nações Indígenas para dizer ao mundo que João era a peça que lhes faltava. Único filho de Giselle e Argemiro, a adoção entrou na vida do casal depois de perderem o terceiro bebê, por conta de uma doença genética do pai. 

 

De início, a secretária admite que teve muita resistência, mas aceitou pelo marido. "Eu era totalmente contra, queria que fosse do meu ventre, eu tinha outra mentalidade", justifica Giselle Cavalcanti de Barros Quevedo, de 40 anos.

 
A felicidade dos pais e de João se encontram num só sorriso. (Foto: Wilson Mariz de Santana)A felicidade dos pais e de João se encontram num só sorriso. (Foto: Wilson Mariz de Santana)

Entre março e abril, o Tribunal de Justiça abriu o curso para adoção e eles foram aprender como era o processo para se tornarem pais. "Foi o curso que mudou meu coração. A primeira coisa que a juíza falou foi: 'você não tem que estar aqui por causa do marido'. Eu tinha aquela mentalidade de que ele viria com a genética da família, mas o curso foi o que abriu meu coração totalmente", explica Giselle.

No penúltimo dia dos dois meses de palestras quinzenais, João se apresentou ao grupo de casais que desejavam adotar. As palavras ouvidas aquele dia não saíram da cabeça da mãe. "Meu nome é João, tenho 11 anos, vou fazer 12 semana que vem e eu vim aqui porque o meu sonho é ter uma família", repete a mãe.

Foi paixão à primeira vista. "Ele olhou pra mim, eu olhei pra ele. Ele veio até nós e era o destino de Deus. Ele estuda onde a gente trabalha e eu nunca tinha visto, meu marido quem reconheceu. São as coincidências", acredita Giselle.

Naquela noite ela dormiu pensando no menino e no dia seguinte, recebeu a visita dele na secretaria da escola. João bateu no vidro, disse 'oi tia' e perguntou se a intenção deles era de adotar e ter uma família. "Eu falei: não sei, talvez. Aí ele me disse: a gente podia ser uma família, não é? Eu falei para ele pedir para Deus, que se fosse da vontade dele...", conta. Ao marido, ela não só falou da conversa, como sugeriu que eles apadrinhassem João.

 
À espera, casal fotografa o tênis do filho que chegou aos 12 anos. (Foto: Wilson Mariz de Santana)À espera, casal fotografa o tênis do filho que chegou aos 12 anos. (Foto: Wilson Mariz de Santana)
 
João já veio com nome, que o casal escolheu amar. (Foto: Wilson Mariz de Santana)João já veio com nome, que o casal escolheu amar. (Foto: Wilson Mariz de Santana)
 

No último dia de curso, o casal perguntou se poderiam se tornar padrinhos, mas ouviram que João tinha uma família interessada, no Rio Grande do Sul. "Quando ouvi aquilo, eu falei não, não, ele vai ser nosso e corremos atrás de toda documentação", recorda Giselle.

Todos os dias ela via o filho, mesmo que perante a Justiça, eles ainda não formassem uma família, o lanchinho para ele era levado diariamente e o coração batia forte esperando o horário de entrada de João. "Ele vinha e perguntava, e aí tia? Eu falei que tinha ido pedir para adotá-lo e aí foi indo a paixão, o amor. Até que uns dias depois ele perguntou se podia me chamar de mãe".

No dia 20 de julho, aniversário de Argemiro, o casal conseguiu autorização para levar João ao passeio e depois vieram as apresentações para a família e à avó que reconheceu de cara o menino como o neto dos seus sonhos e ao casal que fotografou o ensaio.

Até que às 2h30 da tarde do dia 10 de agosto, o telefone tocou. "Oi, você já quer vim buscar o João? Eu falei o que? Não acredito...", narra Giselle. Entre lágrimas ela foi até a juíza e depois ao abrigo pegar o filho. João estava com a mochilinha pronta para ir para a casa.

"Ele perguntava: mas é de verdade mesmo? Eu vou para dormir? A gente agora vai ser uma família feliz?" recorda o casal o diálogo lá no abrigo.

 
João virou a casaca. De corintiano virou flamenguista pelo pai. (Foto: Wilson Mariz de Santana)João virou a casaca. De corintiano virou flamenguista pelo pai. (Foto: Wilson Mariz de Santana)

"Eu? Eu estou mais feliz, por causa que estou com uma família feliz e é bem legal estar com uma família, é o que eu sempre quis". João Vitor tem um sorriso lindo, uma alegria que contagia e um carinho na voz que dá vontade de abraçá-lo. Na entrevista, ele ainda tem receio, no período de adaptação, se percebe o medo que tem daquilo não ser para sempre.

"Você era a peça que faltava, a mamãe e o papai estão mais felizes depois que você chegou?", pergunta Giselle. De supetão, João responde "acho que sim". O casal frisa "muito mais feliz meu filho, você é a peça que faltava para a gente".

Desde o primeiro "mãe", a secretária conta que já ficou babando. Era o sonho de uma vida ser chamada assim. O pai se realizou na comemoração do segundo domingo de agosto. "Parece que aquele vazio do Dia dos Pais foi preenchido. E todo dia é uma novidade para mim e para ele. Tem dia que ele me conhece melhor, tem dia que eu o conheço melhor e a gente vai se completando", descreve Argemiro Leite de Quevedo Junior, de 42 anos.

No quarto novo, que é só dele, João fala que tem um novo nome: João Vitor Cavalcanti de Quevedo e responde, com toda alegria do mundo, sobre a descoberta de que não era velho para ter uma família. "Antes eu não achava que seria adotado. Achava que não ia conseguir, porque eu já era grande e ninguém ia me adotar. Com essa idade? Ninguém adota. O que eu senti? Felicidade no meu coração, não é? Eu fiquei muito alegre".

Sobre a adoção tardia e João não ter nascido dela, Giselle explica que o amor fez essa dúvida ficar no passado. "Adoção tardia? Por ele ser uma criança grande? Tudo o que eu vi no curso, apaga mesmo... Eu não vejo que o João não saiu de mim, não tem como, parece que ele sempre esteve aqui".

João não só descobriu que poderia ser adotado, como também ser muito amado pelos pais. (Foto: Wilson Mariz de Santana)João não só descobriu que poderia ser adotado, como também ser muito amado pelos pais. (Foto: Wilson Mariz de Santana)

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