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Artigos - 13/09/2016 - 10h40

Ricardo Franco de Almeida Serra (Parte II)




Fotos: Divulgação




Por Hiram Reis e Silva (*)

 Hiram Reis e Silva, Bagé, RS, 13 de setembro de 2016. 

Tenho a honra de responder categoricamente a V. Exª que a desigualdade de forças sempre foi um estímulo que animou os portugueses, por isso mesmo, a não desampararem os seus postos e defendê-los, até as suas extremidades, ou de repelirem o inimigo ou sepultarem-se debaixo das ruínas dos Fortes que se lhes confiaram: e nesta resolução se acham todos os defensores deste presídio (Praça de guerra), que tem a honra de ver em frente a excelsa pessoa de V. Exª a quem Deus guarde muitos anos.
(Cel Ricardo Franco de Almeida Serra)

CAETANO PINTO

 

Nesse encargo o encontrou o novo Capitão-General Caetano Pinto de Miranda Montenegro, ao tomar posse do governo a 6 de novembro (1796). Naturalmente, colheria informações referentes ao militar, caso não lhe bastasse o que porventura já soubesse a respeito do geógrafo. E como recebesse de Coimbra notícias alarmantes acerca da Expedição do Coronel José Espíndola contra os Guaicurus, e, de Lisboa, recomendação para se manter de sobreaviso, em consequência das inquietações provocadas por Napoleão, resolveu confiar a Ricardo Franco o Comando do Forte de Coimbra. E endossou-lhe, com louvável bom senso, todos os projetos de fortalecimento dos meios defensivos, apesar da penúria que o levou a escrever ao Governador de Goiás a 11.03.1797:

aqui carece de tudo – ouro, gente, armas e munições, mas a primeira falta é a que se faz mais sensível, porque sem dinheiro só os Índios silvestres é que sabem atacar e defender-se.

Sabia que fora transferido de Moxos para o Governo de Assunção D. Lázaro de Ribeira, no tocante a cujas hostilidades, esclareceu João de Albuquerque:

sujeito que verdadeiramente não faz mistério de inventar chicanas, e engendrar ideias, para nos incomodar, tendo até mesmo correspondido mal à atenção com que foi tratado pelo Comandante e demais oficiais do Forte do Príncipe da Beira. (Carta de 30.09.1791).

Além da abnegação do Tenente-Coronel, não poderia Caetano Pinto, magistrado mal afeito às apreensões guerreiras, dispor de indispensáveis elementos bélicos referidos por ocasião das hostilidades.

Eu tinha previsto, desde o ano de 1797, mas, com a infelicidade de não terem-me enviado ainda nem da Corte, nem do Pará, nem de São Paulo, nem do Rio de Janeiro, uma única peça de artilharia, uma única espingarda, um único artilheiro, um único cartucho de pólvora, além de outros muitos socorros que desde aquele ano requeri, ou sou tido e reputado por Santo, julgando-se que passo fazer milagres ou aliás sou o pior dos Governadores, pois me expõem a todos os caprichos da fortuna. 

FRONTEIRO IMPÁVIDO 

 

Desprovido de tudo mais, poderia, em compensação, contar com a dedicação inexcedível de Ricardo Franco, a serviço de impávido patriotismo. Sem demora, destacou o ajudante Francisco Rodrigues do Prado para organizar a defesa do vale de Miranda, onde estabelece um Fortim, assim denominado, em homenagem ao Governador no 1° aniversário de sua chegada a Vila Bela. (FILHO)

O Capitão Reformado do Regimento de Milícias destas Minas, Guarda-Mor das Mesmas, e Fiscal dos Diamantes Joaquim da Costa Siqueira assim relata no seu Compêndio “Histórico Cronológico das Notícias de Cuiabá, Repartição da Capitania de Mato Grosso desde o Princípio do ano de 1778 até o fim do Ano de 1817”:

O Tenente-Coronel Ricardo Franco de Almeida Serra, Comandante em chefe da fronteira do Paraguai, participou em data de 23 de agosto que os Índios Guaicurus verificavam a guerra entre nós e os espanhóis, e entre as notícias que davam, diziam que lhes tinham certificado no Forte de Bourbon que D. Lázaro da Ribeira, Governador da cidade da Assunção, era esperado ali para vir atacar o Presídio de Coimbra. Com estas notícias empregou-se o dito Tenente-Coronel em contentar aqueles Índios por todas as formas, comprando-lhe igualmente seus cavalos por baetas, facões, machados e outros gêneros que eles estimam muito, a fim de os não venderem aos espanhóis, que solicitavam esta compra com dois fins, um para que eles sem tantas cavalgaduras lhes não fossem fazer inversões nas suas terras, e outro para privarem-nos deste indispensável auxílio. (SIQUEIRA)

E, em pessoa, dirige as obras do Forte, que deveria substituir a frágil estacada, vista pela espionagem castelhana, quando solertes comitivas, de D. Pedro Benites, sobrinho de Espíndola e outros, inclusive o Ministro da Real Fazenda, D. Barnabé Gonzalez, a visitaram, de maio a outubro. (FILHO)

No dia 12 de setembro, depois de ter pedido socorro a esta Vila, mandando duas canoas armadas com o destino de saberem dos Índios que viviam próximos ao dito Forte de Bourbon o estado e movimento dos espanhóis, sucedendo que passando pelas 03h00 pela Boca da Baía Negra, dez léguas de navegação abaixo do Presídio de Coimbra, ali foram atacados por mais de vinte canoas de Papagúas com alguns castelhanos dentro, sustidas por um grande bote, gritando todos “entrega”, “entrega”, dando fogo às armas, que felizmente não dispararam. Os portugueses deram sete tiros, com que afastaram aqueles Índios, e retiraram-se. (SIQUEIRA)

Cuidou, de princípio, de evitar pretexto para a repetição de observadores suspeitos, mediante viagens de pessoas de sua confiança ao posto paraguaio de Bourbon, onde entregassem a correspondência e recebessem as respostas enviadas de Assunção. E como o seu projeto merecesse aprovação do Capitão-General, cumpria-lhe executá-lo a todo o transe, ainda que servisse até de pedreiro, como ocorreu. E a despeito das doenças que o molestavam, por vezes, conseguiu rematar em tempo a remodelação do Forte, onde se gloriou de maiores louros (triunfos). (FILHO)

Novamente recorremos ao General Raul Silveira de Mello que reporta no capítulo III, da Sexta Parte, do seu livro: 

 

SEXTA PARTE - III CAPÍTULO 

 

INICIATIVA, PROJETO E CONSTRUÇÃO DO FORTE

Ricardo Franco conhecia a situação e as condições do velho Presídio. Ali estivera, por intervalos, em 1786, quando chefiava a Comissão de geógrafos que procedeu ao levantamento hidrográfico do Rio, de Baía Negra para o Norte. Não ignorava a história da frágil estacada. Sabia também da vida de penúrias e desconforto que levavam os homens daquela guarnição, visto que participara em 1796 do Governo de sucessão, por morte de João de Albuquerque. Chegando ali a 11.08.1797, em poucos dias de observação, verificou que nada mais se podia esperar da velha paliçada. Estava em lugar baixo, sem comandamento, e sujeita a ser surpreendida e escalada pela retaguarda. O estudo do terreno, do Rio e da situação política, lhe deram a conhecer: 

1° ‒ que era de capital necessidade a construção de um Forte permanente, de boa alvenaria;

2° ‒ que a melhor posição para o Forte seria a uns 130m à esquerda da estacada, a cavaleiro do saliente do morro. A ponta deste, nesse ponto, avança até a beira do Rio, a moda de promontório, e nela estaca bruscamente, formando alterosa barranca, rochosa e a pique.

O lugar era escarpado e de difícil ajustagem a construções. Todavia, dali se podia enfiar, pela vista e pelo canhão, longo estirão, de uns 10km Rio abaixo, e de onde se ficava em condições de bater os flancos da posição até muito além do alcance das armas portáteis. O ponto fraco seria a gola do reduto, à retaguarda, que olhava a encosta e o pico do morro. Haveria um recurso: era dar maior vulto à muralha nessa parte e dispô-la de uma linha de seteiras e órgãos de flanqueamento, que responderiam à possibilidade de assaltos de revés ou da retaguarda. O Forte, assim disposto, ligar-se-ia pela vista com o pico do morro, de uns 100m de elevação, e a 300m de distância, excelente observatório, de onde se descortinava todo o horizonte. Em longo ofício de 02.09.1797, Ricardo Franco propõe a construção do Forte, faz minuciosa exposição do projeto e submete tudo à consideração do Capitão-General. Eis alguns dizeres desse documento:

Na adjunta folha, vão unidos três diversos planos, que a escassez do tempo só me permitiu formar um borrão, todos relativos e anexos ao Presídio de Coimbra. 

O n° 1 é a planta deste Presídio, em que a sua superfície vai lavada de cor escura, as casas de amarelo, e a estacada que forma o seu recinto, de contíguos e pequenos círculos pretos. O Monte pega com o lado da dita estacada, oposto ao da frente do Rio vai espanejado de tinta da China (nanquim). Monte que ficando unido e eminentemente sobranceiro a este Presídio, lhe serve de inaudito padrasto (que domina o terreno).

O n° 2 é a seção do mesmo Presídio no seu maior comprimento [...]

Continua a descrição do projeto, chamando a atenção para o desenho, no qual ele marca, com letras, os sítios e pontos que menciona. A seguir, relaciona o material de que precisa para as construções e acrescenta estas sugestões:

[...] no caso que V. Exª queira mandar fazer esta obra, para animar estes trabalhadores da guarnição se faz necessário alguma aguardente de cana que todos os dias se dê a provar aos obreiros. Enfim, Senhor, eu julgo esta obra indispensável e só a positiva única e possível segurança deste lugar, que considero como o mais importante dos Estabelecimentos Portugueses do Paraguai; olhado como a mais Austral barreira; aos próximos Espanhóis de Bourbon, de que dista em linha reta vinte e duas léguas. E a rivalidade destes dois vizinhos e diversos estabelecimentos exige que eles se respeitem temam e vigiem reciprocamente; sem que nos possamos avançar mais para o Sul, nem eles para Norte, enquanto existirem Coimbra e Bourbon. Além do que Coimbra é a chave que guarda e cobre os Rios Emboteteu, e Taquari, e ainda Paraguai-mirim; entrando todos no grande Paraguai superiormente a este Presídio, e inferiores em igual distância à Povoação de Albuquerque; a qual não serve de obstáculo algum que possa impedir aos Espanhóis, ou seja como inimigos ou sub-reptícia e clandestinamente o penetrar, ver e navegarem pelos dois nossos privativos Rios Mondego e Taquari e ainda pelo Furo do Paraguai-mirim. As ponderadas vantagens só as tem Coimbra que, sem dúvida, se deve considerar como um passo para a navegação Espanhola pois, apesar da larga inundação das respectivas campanhas, que lateralmente formam as extensas margens do Paraguai, estas alagadas planícies têm suas interpoladas elevações no terreno que veda o passo, e não dão vão aos grandes barcos Espanhóis que só pelo álveo do Paraguai, ou seja no tempo das secas, ou no das águas podem navegar, passando necessariamente entre o Monte de Coimbra e o que lhe fica na oposta margem: circunstância atendível, e que mostra quanto é preferível a segurança deste lugar ao de Albuquerque; que fortificado como exponho a V. Exª fica muito mais respeitável, e ainda defendido do que a dita Povoação. O ofício a respeito dele que tenho a honra de juntamente dirigir agora, com este relativo a Coimbra, a respeitável presença de V. Exª evidencia, na combinação de ambos a preferência e atenção que por todas as faces patenteia e merece este Presídio de Coimbra. Eu já quis dar alguns princípios a esta obra que não deixam de ter alguns defeitos e que só grande despesa e maior Guarnição podem evitar, porém o projeto exposto é o que os pode remediar da mais possível forma. Suspendi porém o dar algum princípio a esta obra temendo nos fizesse ela novidade, ou servisse de algum pretexto aos Espanhóis. Mormente por dizer o Cabo Batista, que foi a Bourbon levar as cartas de V. Exª, que o Padre Perico que ali se acha queria vir até este Presídio a confessar-se com o nosso Capelão. Por todo o expedido, espero as ordens de V. Exª que determinará o que lhe parecer mais justo.

Noutro ofício da mesma data, declara que projeta assentar o Forte na encosta do morro e discute todos os aspectos da defesa do Rio nesse lugar. A seguir, em ofício de 7 de setembro, volta a tratar do projeto do Forte. Diz que o mapa, em borrão, n° 5, representa o terreno contíguo ao Presídio. Passa a descrever a situação deste, o morro adjacente, os canais do Rio, etc. Descreve o morro fronteiro, diz que é escarpado e inacessível, de aspérrima escarpa e sem assentos para opositores, havendo somente acesso praticável pela parte Norte. O cume é composto de furnas e saltos,havendo nele de espaço a espaço umas pequenas e estreitas assentadas que só podem acomodar pequeno numero de ofensores.

Trata a seguir dos arredores do morro fronteiro, do paul (área plana de abundante vegetação que permanece grande parte do tempo inundada) que se estende na frente até ao Rio, da Baía que lhe fica ao Norte, dos baixios em roda e da bateria que lá devia ser colocada para cruzar fogos sobre o Rio com os canhões do Forte.

Este mapa, e os do n° 1 e correspondentes ofícios que faço agora chegar a preclaríssima presença de V. Exª mostram que, se em lugar desta fraquíssima Estacada de Coimbra, se fortificasse com competentes muralhas a ponta (do morro), neste lugar se pode contar com um positivo fecho, que guarda as nossas atuais posições do Paraguai, e navegação do Taquari, Mondego, Paraguai-mirim, o que não guarda nem defende a Povoação de Albuquerque. [...]

Ricardo Franco, tendo chegado ao Presídio a 11.08.1778, a 03 de novembro lançou a primeira pedra das muralhas do Forte, como se lê na planta que ele mesmo desenhou. Esperara até aí a aprovação do projeto e a palavra do Governador para dar início às obras. Escolhera aquele dia, por ser o primeiro aniversário da chegada de Caetano Pinto à Vila Bela. Em 22 de dezembro, Ricardo Franco inicia a muralha e enquanto não chegou o mestre pedreiro que V. Exª remeteu, eu mesmo fui mestre. (MELLO) 

SEXTA PARTE - III CAPÍTULO 

 

INICIATIVA, PROJETO E CONSTRUÇÃO DO FORTE

Em 01.01.1798, Ricardo Franco cai doente e só convalesce, a 20 de fevereiro. O impaludismo, de que era fértil a baixada mato-grossense, assaltava frequentemente o incansável lutador.

A 6 de março (1798), dirige Ricardo Franco longo ofício, 10 folhas de miúda caligrafia, ao Capitão-General. Começa dizendo que chegou ali o Capitão Pedro Antônio Miers, Comandante do Forte Bourbon, trazendo-lhe uma carta de D. Lázaro de Ribera, Governador do Paraguai, em resposta a que lhe escrevera a 6 de outubro passado (1797).

A dita carta de D. Lázaro não deixa de mostrar a hábil subtileza deste distinto oficial que, sem falar do estabelecimento de Mondego, derramou nela expressões vagas e lisonjeiras.

Informa Ricardo Franco que os oficiais espanhóis foram hospedados no Presídio e, quando saíram, foram observando, do meio do Rio, a nova Fortificação que se mostrava na ponta do morro e dava-lhes a ideia de quanto seria alterosa. Declara, em consequência, que espera que D. Lázaro mande qualquer dia um oficial a tratar com ele a respeito [...] da nova Fortificação. Quando assim acontecer:

[...] faço conta de responder o seguinte: Que duas forçosas e pungentes razões me obrigam a isso:

1ª –  que reedificando-se a Estacada que forma o recinto deste Presídio há sete anos, e achando-se ela na maior parte arruinada e podre, sem que, nos largos campos e terrenos que a cercam e por distância de muitas léguas, haja madeiras próprias para esses consertos, esta dificuldade me suscitou e pôs na ideia daquela nova obra; e também a saúde desta guarnição, porque como a superfície da máxima enchente do Paraguai fica quase de nível com o solo e pavimento deste Presídio, sucede que no dito tempo fica [...] como um receptáculo de víboras, sapos, e outros insetos venenosos além da muita umidade que o cerca. O que o faz sumamente doentio.

2ª –  e principal razão daquela obra, além da referida, consiste que, resultando das três últimas expedições espanholas contra os Guaicurus, que se tinham acolhido e abrigado nos terrenos que formam o Rio Mondego, ou Emboteteu, o Domínio Português, que estes Índios segundo a paz que tinham contraído com os Portugueses, esperando que nós os coadjuvássemos (ajudássemos) no seu despique (na sua vingança), acharam pelo contrário só uma tácita negativa e repulsa dissuadindo-os dos seus intentos hostis, coibindo-os e embaraçando-os, e ainda com violência, motivo por que veio a maior parte deles a mostrar manifesto alvoroto (alvoroço) derramando-se entre todos o conceito de que os Portugueses os queriam entregar à vingança dos Espanhóis. Conceito, segundo eles constantemente contam, lhes é ministrado pelos Guaicurus, do Capitão-General Montenegro, que vive próximo a Bourbon, com paz e aliança com eles, Espanhóis. Com que fez que alguns se retirassem mais para o interior do país e que outros, em magotes (bandos), dessem sinais da sua costumada cantiga pérfida, chegando a ameaçar-nos e a virem algumas e imprevistas vezes arrostar este Presídio, e só a grande vigilância, que houve com reforçadas e armadas patrulhas faria talvez ver, ineficazes os seus denegridos e bárbaros projetos, e que à vista de todo o referido, vendo-me dentro de uma Estacada podre, de [...] Índios por vezes, para entrarem, arrancarem alguns paus, tudo me obrigou a urgentíssima precisão da segurança deste Presídio, e da sua diminuta Guarnição, construindo na ponta do morro conjunta a ele um muro de pedra e barro para formar um recinto que lhes fosse menos acessível, e não pudessem queimá-lo, e arrancar-lhe alguns paus. 

Assim, Ilm° e Exm° Senhor lanço sobre eles, Espanhóis, a causa desta nova Fortificação, e espero talvez até o fim de maio o dito protesto, e se a V. Exª lhe parecer, que esta minha resposta não é coerente, nem correlativa ao estado político e críticas circunstâncias, em que se acha esta Fronteira me faça V. Exª especial graça em insinuar-me o que devo dizer, pois tenho amor próprio, como a minha reputação, inda que afigure para com estes Espanhóis com luzes alheias, muito Superiores a minha fraca instrução.

Em ofício de 02.10.1798, Ricardo Franco informa ao Governador:

A obra deste Forte estaria mais adiantada a não ser falta de trabalhadores próprios, tendo já assentado o portão principal, e dado princípio ao parapeito, que deve ultimar toda a Tenalha que olha para Poente e domina pelo alto do vizinho Monte: já está respeitável; e se ao concluir-se será a necessária e indispensável segurança da guarnição deste Presídio; que encurralada na antiga e fraquíssima Estacada, corre evidente perigo, pois duas horas não poderiam estas delgadas estacas resistirem a um ataque vigoroso de duas peças de maior alcance do que a de curtíssimo porte deste Presídio, ao mesmo passo que no novo Forte; inda ao alcance de mosquete, enquanto se não abatessem as muralhas só por um lado acessíveis se podia ofender e resistir muito. (MELLO)

Tenalha: pequena obra de duas faces de uma Fortaleza que forma um ângulo reentrante para o lado do campo. (Hiram Reis)

Continua dizendo que, quando os espanhóis vierem ao presídio, dir-lhes-á que tais obras são feitas por causa dos Guaicurus, com o fim de impedir-lhes as correrias que fazem para cometer roubos e traições. Ricardo Franco, não obstante a carência de operários, trabalhava ativamente na construção do Forte, pois sabia que os castelhanos de Assunção, alarmados do que se passava em Coimbra e Miranda, concertavam medidas para precaver-se delas ou contra-arrestá-las. Denota Ricardo Franco certa apreensão, ao informar ao Capitão-General, em ofício de 22 de dezembro (1798), da estada de Lázaro de Ribera no Forte de Concepción, ao Norte do Ipané, consoante aviso que lhe trouxeram Índios daquelas proximidades. Com o ofício de 05.08.1799, Ricardo Franco envia ao Capitão-General os mapas de efetivos das três guarnições e da população da fronteira. Anexa ainda os seguintes dizeres a respeito das obras e da importância militar do Forte e dos recursos que ele precisa armazenar para torná-lo inexpugnável:

As obras deste novo Forte de Coimbra, nos passados seis meses, apenas se trabalhou nelas pouco mais de três, pelas friagens chuvosas que ouve, e pela falta de gente pois quando estão fora deste Presídio, duas condutas ficamos na inação, contudo, a muralha que forma seu recinto, está quase fechada, faltando só uma Face Flanco, e parte dessa cortina, tudo de extensão de quinze braças (33m), pouco dos parapeitos do resto da mais obra, a qual, acomodando e eu atendendo à desigualdade deste monstruoso terreno, tem alguma diferença de configuração da planta que já remeti a V. Exª pelo que devo fazer outra, como na realidade ficar esta Praça, quando se concluir. Esta obra é maior e mais forte do que se pensa, faltando-lhe só sua mais grossa Artilharia, e mantimento dobrado para seis meses: para se fazer respeitável a qualquer atentado dos nossos vizinhos.

Quanto ao ano de 1800, a única notícia que encontrei sobre as obras do Forte é a que consigna Ricardo Franco ao Capitão-General em oficio de 31 de maio, pelo qual se vem a conhecer que as construções prosseguiam com as dificuldades tais e tais, que enumera, faltando ainda 40 palmos de muralha, sem falar talvez as da gola, à retaguarda, como se verá a seguir. No ano de 1801, ano do ataque de Lázaro de Ribera, parece quase nada se fez. Nenhuma informação encontrei a esse respeito no Arquivo Histórico de Cuiabá. Levando em conta que Ricardo Franco trabalhava sempre com reduzido pessoal obreiro e, às vezes, fazendo ele mesmo o ofício de pedreiro e carpinteiro e, além do mais, lutando com a falta de ferramentas e ferragens, de subsistência, etc., a progressão das obras teria sido lenta e penosa. Dá-nos ideia dessas dificuldades e da assombrosa dedicação e atividade do grande soldado este tópico do ofício de 27.02.1802 de Caetano Pinto ao Ministro do Reino:

O Tenente-Coronel Ricardo Franco foi quem me propôs esta obra, foi o primeiro que conheceu a sua necessidade, e o que tem continuado até o ponto em que se acha, com a mesma guarnição, e quase sem despesa da Real Fazenda, servindo ele de Arquiteto, de Feitor, de Mestre Pedreiro e Carpinteiro.

O melhor depoimento, porém, quanto à iniciativa das obras, a carência de meios e esforços para sua realização, é o que nos dá, anos depois, um colega, colaborador e sucessor de Ricardo Franco no Comando do Forte:

[...] logo que foi comandada (a fronteira) pelo Tenente-Coronel Ricardo Franco de Almeida Serra, que conheceu a inutilidade daquela estacada incapaz de defesa, e toda dominada pela montanha contígua, propôs ao sexto General, Caetano Pinto de Miranda Montenegro, o projeto de novo Forte na extremidade da mesma montanha, que abeira o Rio; porém não permitindo o estado já decadente da Província, empreender esta obra, se resolveu o próprio Comandante fazer o que pudesse com a sua mesma guarnição, e sem despesa da Real Fazenda, mais que em algumas ferramentas, e um pouco de pano de algodão já servido em sacos que conduz do Cuiabá os mantimentos para os soldados fazerem camisas e calças, que consumiam no penoso serviço da pedra e barro de que a obra carecia, animando-os igualmente com alguma aguardente e fumo de sua própria algibeira (seu próprio bolso), sendo mais notável a arte que teve em criar pedreiros e carpinteiros de pessoas que não possuíam tais ofícios. Quanto pode a industriosa necessidade! [...] Esta obra foi começada em novembro de 1797, entrando na sua construção pedra e barro, únicos materiais que o local oferecia; e pelo acima exposto se conhece quanto devia ser lento o seu andamento, de maneira que em 1801 ainda restava a fechar parte do recinto, faltando a cortina da tenalha da montanha, e sem que houvesse cômodo ou habitação alguma no seu recinto. Neste estado se achava o novo Forte, quando os espanhóis em setembro do mesmo ano, empreenderam surpreender o Presídio, pois ainda se ignorava o rompimento entre as duas nações; porém, sendo o Comandante Ricardo avisado pelos Guaicurus dos preparativos de guerra que os espanhóis faziam, imediatamente abandonou a estacada, passando-se com a guarnição, e o diminuto número de petrechos, para o incompleto recinto: esta resolução transtornou completamente os planos do General espanhol D. Lázaro de Ribera, que esperava encontrá-los dentro da estacada, segundo as informações que ele havia obtido pelo Frade Espinoza, que dois meses antes tinha estado de visita em Coimbra, para onde tinha sido enviado como espião, a fim de reconhecer o estado do Forte, a força da guarnição, e se ela existia (se encontrava) na estacada.

Por este fidedigno testemunho, de quem conviveu e trabalhou com Ricardo Franco na construção do Forte, se vem a saber que, nem mesmo em setembro de 1801, se achava completa a ossatura externa do Forte. Faltava-lhe a gola ou cortina à retaguarda, que seria, nesse tempo, como foi em 1864, o ponto preferido para o assalto. Quanto ao recinto, nada havia nele, nem uma só coberta; nem se havia começado a desobstrução da rocha para as construções internas. A guarnição alojava-se ainda no velho Presídio. Foi nos dias 14 e 15 e na manhã de 16 de setembro (1801) que Ricardo Franco, ao saber da aproximação da frota castelhana, mudou, às pressas, o armamento, o material prestante e o pessoal para o interior do Forte. Homens e material, tudo ficou ali ao relento. É o que nos diz o valoroso soldado em sua parte de combate de 1° de outubro:

esteve toda esta guarnição, nos nove dias de ataque, no maior incômodo, e no meio do terreno, sem casa, sem abrigo...

Incômodos esses agravados

por causa de um grande vento Norte e não menor tempestade que houve nos dias 23 e 24.

Essas eram as condições materiais do Forte ao ser atacado por Lázaro de Ribera a 16.09.1801. Veremos depois que não menos desfavoráveis – irrisórias até ‒ eram as condições da artilharia, da munição de guerra e de boca e do efetivo da guarnição; apenas sobrava intrepidez no destemido Comandante e nos poucos homens que lhe foram fiéis. Da análise do desenho do Forte tiram-se as seguintes conclusões: é um polígono irregular, atenalhado e redentado na frente e à esquerda, e abaluartado à direita e à retaguarda. (MELLO)

Redente: é uma obra de fortificação com duas faces, sem flancos, projetada da linha da murada formando um ângulo saliente voltado para o lado de um possível ataque. (Hiram Reis)

Baluarte: construção situada nas esquinas e avançada em relação à estrutura principal de uma fortificação. (Hiram Reis)

Um pronunciado saliente, como ponta de lança, justapõe os dois baluartes morro acima. Os redentes beiravam o Rio e as rampas rochosas de onde não se podia esperar assalto. Os baluartes, pelo contrário, olhavam as encostas do morro, únicas direções vulneráveis a investidas e assaltos do inimigo. O desenho faz ver um fosso na frente abaluartada. Todavia, esse fosso não chegou a ser construído. Seria difícil cavá-lo na rocha viva, e, em Coimbra não ficou vestígio algum de que ele fosse realizado. Para supri-lo, nessa frente ao menos, as muralhas teriam sido mais altas, variando de 3,30 e 5,50m de altura. É o que diz Ricardo Franco em sua Memória sobre a Capitania de Mato Grosso ao descrever a construção do Forte:

Tem as suas muralhas dez palmos (2,2m) de grosso, e de quinze (3,3m) até vinte cinco palmos (5,5m) de alto, sobre desigual terreno e áspera subida; pelos dois lados edificados sobre o angulo reto que este monte faz no Paraguai, e uma rocha cortada a prumo, e pelos outros dois mais praticáveis, cercado por um escavado recinto de áspera penedia, na áspera escarpa e descida deste íngreme monte [...].

O desenho mostra ainda que a irregularidade do traçado obedeceu à irregularidade e natureza do terreno, todo ele rochoso, íngreme e acidentado. Em tais condições de local e de penúria de recursos, fez o construtor o que pôde. Adaptou a obra, tática e arquitetonicamente, ao terreno. Objeta-se que o recinto se apresentava, à maneira de um alvo, às vistas do inimigo e aos tiros diretos do canhão. Grave foi esse defeito, inclusive na forma atual do Forte. Veja-se no desenho que os atiradores, nas seteiras do baluarte posterior, ficavam expostos, pelas costas, aos disparos diretos partidos do Rio ou do morro fronteiro. Para corrigir esses defeitos seria necessário fossem construídos no interior do Forte três planos ou pavimentos providos de anteparos murados, não só para desenfiamento e proteção das comunicações internas, como para cobrirem as barbetas e banquetas escalonadas em altura. O desenho não da idéia dessas construções. Só figuram nele as muralhas externas. Pelo estado atual do Forte, todavia, pode concluir-se que o recinto fora disposto, da frente para a retaguarda, em três pavimentos, ficando os alojamentos do pessoal e a administração no primeiro plano a frente, e, ainda assim, visíveis aos que passavam no Rio. (MELLO)

Barbeta ou barbete: é uma plataforma de uma fortificação onde estão instaladas bocas de fogo que disparam por cima do parapeito. (Hiram Reis)

Banquetas: degrau ao longo da parte interna das muralhas das Fortalezas, pelo qual sobem os combatentes para atirar contra o inimigo, devidamente protegidos. (Hiram Reis)

Os outros dois pavimentos, de 2ª e 3ª ordem, estariam protegidos por anteparos de alvenaria, atrás dos quais haveria barbetas e pátios. Numa depressão do segundo plano, a esquerda, vê-se o lugar para o paiol de pólvora a prova de bomba. O portão principal dava para a direita, onde ficaria a ponte sobre o fosso, se este tivesse existido. Outro portão secundário (porta), ao centro da face esquerda, permitia saída para esse lado. Não há indicação de saída pela gola do Forte, à retaguarda. Veremos na reconstrução do ano de 1874, as alterações introduzidas que ainda se podem ver no estado atual do Forte, em ruínas. (MELLO)

Gola: espaço compreendido entre as extremidades dos lados de um ângulo saliente, nas fortificações. (Hiram Reis)

A par das providências relativas à construção do Forte de Coimbra outras medidas se fizeram necessárias como demonstra o Registro de Ordens do Forte redigido por Ricardo Franco:

Registro de Ordens do Forte

 

Tendo em 22 ou 24 de Agosto (1801), alguns Índios Guaicurus participado, que os Espanhóis vinham em marcha para atacar esta fronteira, fiz os avisos necessários para a Capital, e pedi socorro de gente e mantimento a Cuiabá.

Em 29 de agosto (1801), mandei alguns Guaicurus de confiança até Bourbon para verificar esta notícia, e tardando estes Índios mais do que deviam, mandei no dia 12 de setembro (1801), o cabo Antonio Baptista em duas canoas, e mais três dragões, até os Índios Cadiéus, vizinhos de Bourbon, a ver se davam alguma notícia dos outros, ou da guerra que nos tinham anunciado.

Pelas três horas da noite desse dia 12 para o dia 13 (09.1801), defronte da Boca da Baía Negra, indo as ditas canoas em descuido, navegando pela força da corrente (como de costume de noite), viram as embarcações espanholas, ancoradas; foram logo cercados por vinte pequenas canoas espanholas, gritando “entrega Portugueses” e que os pôs em algum embaraço, por irem em descuido. O dragão Manoel Correa de Mello deu seis tiros nas ditas canoinhas, que as pôs em desordem, causandolhes algumas mortes; e as nossas se retiraram.

No dia 14 (09.1801), chegaram a Coimbra com esta notícia, nesse dia, e no dia 15 (09.1801), nos mudamos para o Forte, onde não havia ainda casa alguma, e no Armazém apenas meio saco de farinha, um saco de arroz, e coisa de 5 libras (2,26 quilos) de toucinho. (MELLO)

Continuando com o escritor Virgílio Correia Filho ‒ Revista Trimestral do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (RIHGB), Volume 243, abril/junho – 1959:

Apenas ultimada a mudança, apontou no Estirão (trecho retilíneo do Rio) a flotilha fluvial, que D. Lázaro movimentara ansioso de concretizar os planos políticos de Azara (José Nicolás de Azara), pela expulsão dos moradores de Coimbra e Albuquerque. Confiante em sua Força de 600 a 800 homens, em três sumacas, armadas de peças de calibre quatro, seis e oito, começou o canhoneio pela tarde de 16 (09.1801), sem prévia declaração, que julgou dispensável, pois sabia que rompera a guerra entre a Espanha e Portugal.

Malograda da ofensiva, Lázaro de Ribera recorreu à intimidação, por meio de um atrevido “ultimatum”. No dia 17.09.1801, por volta das oito horas da manhã, depois de içarem a bandeira branca, o Tenente D. José Theodoro Fernandes entregou uma carta a Ricardo Franco com o seguinte teor:

Ayer a la tarde, tube el honor de contestar el fuego que V. S. me hizo; y habiendo reconocido en aquellas circunstancias que las fuerzas con que voy imediatamente atacar ese Fuerte son muy superiores a las de V. S., no puedo menos de vaticinarle el último infortunio; pero, como los vasalles de S. M. Catolica saven respetar las leyes de la humanidad, aun en medio de la misma guerra, requiero, portanto, a V. S. se rinda prontamente a las armas del Rey mi Amo pues de lo contrario el cañon y la espada decidirán la suerte de Coimbra, suffriendo su desgraciada guarnición todas las extremidades de la guerra, de cuyos estragos se verá libre si V. S. conviene com mi propuesta, contestandome categoricamente en el término de una hora.

 

A bordo de la sumaca Nuestra Señora del Carmen, 17.09.1801.

S.or Comandante del Fuerte de Coimbra.

De V. S. su atento y reberente servidor – Lázaro de Ribera.

 

Não necessitaria Ricardo Franco do prazo marcado para a resposta. Pesando bem as palavras e as consequências a que dariam lugar, retruca em termos incisivos.

Ilm° e Exm° Sr.

Tenho a honra de responder categoricamente a V. Exª que a desigualdade de forças sempre foi um estímulo que muito animou os portugueses, por isso mesmo, a não desampararem os seus postos e defendê-los, até as suas extremidades, ou de repelir o inimigo ou sepultar-se debaixo das ruínas dos Fortes que se lhes confiaram: nesta resolução se acham todos os defensores deste presídio (Praça de Guerra), que têm a honra de ver em frente a excelsa pessoa de V. Exª a quem Deus guarde muitos anos.

Coimbra, 17.09.1801.

Ilm° e Exm° Sr. D. Lázaro de Ribeira.

Ricardo Franco de Almeida Serra.

Não tinha, na frase, a fanfarronice do agressor, nem os recursos bélicos de que este se achava munido, mas sabia cumprir heroicamente o seu dever. (FILHO)

Aqui cabe novamente uma ressalva. Quem teria tomado a iniciativa do confronto, quem teria dado o primeiro tiro: D. Lázaro de Ribeira ou Ricardo Franco? Voltemos ao livro do General Raul Silveira de Mello.

SEXTA PARTE - IV CAPÍTULO

 

FUNDAÇÃO DO PRESÍDIO DE - MIRANDA E MAIS PROVIDÊNCIAS
DE RICARDO FRANCO NA FRONTEIRA SUL

Em ofício de 09.11.1802, Ricardo Franco esclarece:

Em 16 de setembro (1801), dia da chegada dos espanhóis, mal eles dobraram a ponta da Ilha (Ilha do Coração) e se expuseram em franquia [...].

Está bem claro que a frota castelhana, assim que ultrapassou a ponta Norte da Ilha do Coração, tomou o dispositivo de combate e abriu fogo contra o Forte. Quanto, porém, a quem coube a iniciativa do rompimento do fogo, subsistia até hoje divergência entre as duas partes de combate e a intimação de Lázaro de Ribera. Este alega que teve “el honor de contestar el fuego de ese Fuerte”, e Ricardo Franco, pelo contrário, faz entender, numa e noutra parte, que a frota castelhana, vencida a ponta Norte da Ilha, pôs-se em franquia e abriu fogo. Estava eu na firme suposição, pouco antes, de que a abertura de fogo partira da frota castelhana e não de Ricardo Franco. E entendi ainda que o dizer de Lázaro de Ribera “contestar el fuego” ‒ não significava uma réplica, mas um jogo de palavras, de que ele era fértil, para descartar-se da responsabilidade do rompimento sem prévio sinal, pois que, no ataque paraguaio de 1864, Barrios só desencadeou o canhoneio após a troca de mensagens. Tal suposição, porém, se desvaneceu de todo quando deparei, por último, um apógrafo (uma cópia) da Biblioteca Nacional, em que se contém o relato principal (Ordens) de Ricardo Franco sobre o ataque de 1801. Nesse documento, o grande soldado põe em evidência que os primeiros disparos não partiram da frota castelhana, mas dos canhões do Forte. 

Registro de Ordens do Forte (Ricardo Franco)

 

Em o dia 16 de setembro (1801), a favor de um vento Sul, se viram vir remontando o Paraguai três grandes sumacas espanholas, um grande barco, e vinte e tantas canoas pequenas; e pelas 4 horas da tarde desse dia, tendo entrado pelo canal d’além da Ilha, e vencida a sua ponta de cima, iam navegando o Paraguai, pelo lado oposto a este Forte. Mandei-lhe fazer um tiro com a maior peça que tinha, de calibre 1, e levantar a bandeira, e continuando a navegação lhe mandei fazer segundo; então içou o inimigo a bandeira, e logo uma sumaca, e depois outras duas fizeram fogo aturado até as Ave Marias (18h00).

No dia 17 (09.1801), pelas oito horas da noite, saíram seis canoas espanholas pelo Rio acima, e dobrada a ponta do estirão, fizeram fogo de mosquete em que deram 60 tiros contra canoas que se supôs seriam alguns desertores.

Em 18 (09.1801), pelo meio-dia, desaferrando do ponto onde estavam, avançaram a reboque até mais da metade do Rio, e postas as três sumacas em batalha, fizeram um fogo terrível sobre a Praça por mais de três horas; e vendo que a nossa artilharia, pelo seu pequeno calibre e curto alcance não os ofendia, vieram a reboque, encostando-se à margem do Poente do Rio, e descendo até emboscarem pelo campo, que estava alagado, pouco acima da Boca chamada Barrinha, a primeira e segunda já estavam ancoradas, os inimigos todos fardados, e armados de espada e armas, e gente embarcada nas canoas pequenas para desembarque, quando, fazendo-se fogo de mosquete sobre as duas primeiras que avançaram, em uma caíram 5 homens ao Rio, na outra 2 fazendo-se igualmente fogo sobre as mesmas sumacas, que deixou a gente exposta por um movimento de leme mal executado, com o que se retiraram para o meio do Rio. Esta ação durou quatro horas, e de noite se foram ancorar no pouso da noite antecedente.

Dia 19 (09.1801), desde a meia-noite do dia antecedente até a tarde deste dia, nos fizeram um fogo constante e vago das três sumacas, e findo eles levantaram ferros e desceram o Rio pelo Canal de lá da Ilha que saltaram, e vieram a fundear no Canal de cá, de frente da Horta do Paratudo, de onde continuaram o fogo.

Dia 20 (09.1801) continuaram o mesmo fogo.

No dia 21 (09.1801) continuaram o mesmo fogo contra o portão, saltaram alguns em terra, apesar de estar ainda cheia de lodo, e alguma água da cheia, e principiaram a colher cebolas e couves da horta, e depois a laçar porcos e gado que ali encontraram; nesta diligência os colheu de emboscada o Anspeçada de pedestres Joaquim de Souza Buenavides, com dez pessoas armadas, que deram dez tiros com os quais ficou um Espanhol morto no lugar, dois mortalmente feridos, que os Castelhanos conduziram às costas, e outros três bem feridos, que foram conduzidos e arrastados pelos braços dos outros. (MELLO)

Anspeçada: nome que se dava antigamente ao posto militar acima de Soldado e subordinado ao Cabo. (Hiram Reis)

Em 22 (09.1801), fizeram um ativo fogo, advertindo que as peças eram de calibre 8, 6, 4, e 3, e uma sumaca se veio postar na ponta da Ilha, sobre a qual fizemos fogo com a peça de um, suposto que por elevação, porém ativo; ela quis se retirar, o General a mandou ficar no seu posto, começou a fazer água, e querendo passar duas canoas da ponta da Ilha para adiante, com o fogo de mosquete, que se lhe fez, se retiraram. Não se continuando o fogo sobre aquela próxima sumaca, por haverem apenas 23 balas do dito calibre 1, que se guardaram enquanto se não fizeram outras de chumbo, para alguma ocasião em que as ditas sumacas estivessem mais próximas, ou para algum desembarque.

No dia 23 (09.1801), não houve fogo, ocuparam-se no conserto da sumaca, e em aterrar o terreno para a descarregarem.

Em 24 (09.1801), finalmente postas as três sumacas em linha atravessando o Rio, e muito próximo do Forte, principiaram pelas três horas da tarde, uma depois das outras, um terrível fogo na frente do portão em que deram 100 tiros até as Ave-Marias, uma sumaca foi postar-se na ponta da Ilha, e as outras duas à margem fronteira a ela, e pelas 8 horas da noite, com o grande escuro que fazia, desceram o Rio, foram pousar no lugar do Rebojo, e se retiraram. Estas foram em suma resultas da gloriosa defesa deste Forte, no qual, além de não haver mantimento como fica dito, havia apenas, ou constava a sua guarnição de 37 dragões, 12 pedestres e 60 paisanos, dos quais vinte e tantos eram uns negros de cabeça já branca. (MELLO)

As autoridades, tão logo chegou o pedido de socorro do Tenente-Coronel Ricardo Franco, buscaram, imediatamente, tomar as urgentes e devidas providências. O Capitão-General Caetano Pinto de Miranda Montenegro determinou ao Mestre de Campo José Peres Falcão das Neves, que selecionasse Oficiais e Praças que deveriam acompanhá-lo em socorro da fronteira, e ao Juiz de Fora Joaquim Ignácio da Silveira Motta que providenciasse gêneros e muniç&otild

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