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Agronegócios - 27/01/2016 - 06h00

Técnica seleciona ovinos que geram mais cordeiros




Ivan Marinović


Saulo Coelho


Ana Carolina Souza

Por Embrapa / Redação Pantanal News

Cientistas da Embrapa desenvolveram uma técnica que aumenta a prole de ovinos da raça Santa Inês. Eles detectaram que certas ovelhas têm uma alteração natural no gene GDF9 (Growth Differentiation Factor 9) que aumenta a taxa de ovulação e, consequentemente, permite a geração de mais cordeiros por estação reprodutiva. A ideia, então, foi reproduzir os animais que tinham essa alteração para que um maior número de ovelhas do rebanho tenha a capacidade de produzir mais cordeiros. 

O trabalho realizado na Embrapa Tabuleiros Costeiros (SE) é o de reproduzir esses ovinos mais prolíficos da raça Santa Inês para que suas matrizes, reprodutores, sêmen e embriões possam estar disponíveis para os produtores. A maioria das ovelhas tem apenas um filhote por gestação, pois elas são, na sua maioria, mono-ovulatórias, ou seja, só liberam um óvulo por ciclo. O uso da tecnologia aumenta a chance de ocorrer gestações de gêmeos também conhecidas como gemelares ou múltiplas.
 
A taxa de ovulação, que pode variar com a raça, idade e condição nutricional da ovelha, é regulada por ação de diversos genes. No entanto, existem genes de efeito principal, como o GDF9 que contribuem de forma preponderante para a determinação da taxa de ovulação e consequentemente da prolificidade ou número de cordeiros por parto por ovelha.
 
Alterações genéticas naturais em genes que controlam a taxa de ovulação e prolificidade podem ser encontradas em ovinos de várias raças. No caso da raça Santa Inês, os pesquisadores da Embrapa encontraram o FecGE (FecG-Embrapa – Fecundity Gene) do gene GDF9. Assim, descobriu-se que  ovelhas com a variante FecGE têm uma taxa de ovulação 82% maior que as outras que não possuem essa alteração. 
 
É possível detectar o alelo FecGE por meio de exame laboratorial desenvolvido e patenteado pela Embrapa e que está disponível para laboratórios de genética. "Trata-se de uma metodologia de genotipagem, baseada em técnicas de biologia molecular, que permite identificar de forma rápida e eficiente essa mutação em qualquer rebanho", explica o pesquisador Eduardo de Oliveira Melo, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF), que liderou o desenvolvimento do protocolo para os exames laboratoriais.
 
Além do trabalho da pesquisa de multiplicação e validação do uso de ovinos prolíficos, o produtor também pode, com base nos resultados laboratoriais e na constatação da capacidade de gerar mais cordeiros das ovelhas, direcionar os cruzamentos do seu rebanho a fim de obter crias portadoras da variante FecGE que serão utilizadas como reprodutores e matrizes. Com o uso intensivo dos animais FecGE em acasalamentos, a cada geração, haverá um aumento gradativo da prolificidade média e, consequentemente, da produção de crias no rebanho. Assim, o produtor poderá planejar os cruzamentos no seu rebanho de acordo com as suas estratégias e necessidades.
 
Pesquisa de mais de uma década
 
 "Essas pesquisas iniciaram-se na Embrapa há mais de 15 anos com raças lanadas e a partir de 2005 com raças deslanadas", conta o pesquisador Samuel Rezende Paiva, atualmente no Programa Embrapa Labex Estados Unidos, que, na época, trabalhava na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia como coordenador desse projeto. "A principal característica do sucesso dessa pesquisa e de seus desdobramentos atuais foi a integração entre equipes de várias Unidades da Embrapa: Tabuleiros Costeiros, Caprinos e Ovinos e Pecuária Sul, bem como instituições de ensino e pesquisa como Universidade de Brasília e a Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária da Paraíba (Emepa)", complementa.
 
Durante mais de seis anos, o pesquisador da Embrapa Tabuleiros Costeiros Hymerson Costa Azevedo e sua equipe trabalharam na coleta e análise de amostras de sangue de inúmeros animais de várias gerações do Núcleo de Conservação de Ovinos Santa Inês, do Campo Experimental Pedro Arle, localizado no Município de Frei Paulo, no agreste central sergipano. Dessa forma o cientista identificou, selecionou e multiplicou animais portadores da variante FecGE de diferentes famílias, mantendo com isso uma diversidade genética dentro do rebanho.
 
Vale ressaltar que a variante sozinha não é capaz de propiciar o aumento no número de crias. O desempenho dos animais é reflexo da combinação entre seu potencial genético e as condições do ambiente em que vivem. Assim, a utilização da genética FecGE requer melhorias no manejo geral, especialmente nutricional, que, por sua vez, podem gerar aumento de custos. Mas o benefício do aumento da produção deve compensar o aumento dessas despesas devendo cada produtor decidir se é vantajosa a adoção da tecnologia.
 
A pesquisa desenvolvida com a multiplicação de ovinos prolíficos pode agregar valor à ovinocultura no Brasil que atualmente possui baixos níveis de produtividade. Realidade também do Nordeste brasileiro, região detentora do maior rebanho ovino do País. O pacote tecnológico será valioso para que a produção nacional consiga aumentar para atender ao mercado interno. Historicamente, o Brasil é importador de carne ovina e o consumo por habitante ainda é baixo em relação a outros países, demonstrando potencial de crescimento. Estudos mostram que a atividade ainda pode crescer muito, na medida em que o mercado crescer e incorporar a carne de cordeiro na sua dieta rotineira, como aconteceu com o frango.
 
Em especial, a tecnologia pode beneficiar significativamente os sistemas produtivos e agricultores familiares da região Nordeste do Brasil, além de outras regiões brasileiras. "Apesar de essa variante ter sido inicialmente identificada e validada na raça Santa Inês, já temos resultados experimentais de sua presença em praticamente todas as raças localmente adaptadas de ovinos deslanados do Brasil, em especial a raça Morada Nova", complementa o pesquisador Samuel Paiva.
 
Levando em consideração que um dos maiores entraves para a criação de ovinos no Brasil é o baixo índice de produtividade em consequência do fraco desempenho reprodutivo e produtivo dos rebanhos, a tecnologia desenvolvida pela Embrapa pode resultar em impactos significativos para a ovinocultura do País.
 
A genética de ovinos da raça Santa Inês contendo a variante FecGE estará disponível no sistema de produção nos próximos dois anos. "A ideia é continuar selecionando, mantendo, multiplicando, caracterizando e validando o uso desses animais mais prolíficos e ao mesmo tempo analisando o impacto da sua utilização na produtividade e eficiência econômica dos sistemas de produção", disse o pesquisador Hymerson. "Em pouco tempo, matrizes, reprodutores, sêmen e embriões de ovinos Santa Inês mais prolíficos poderão estar disponíveis para os produtores", acredita ele.

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