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Artigos - 21/12/2015 - 06h11

Expedição Centenária R-R – 2ª Fase (XI Parte)












Por Hiram Reis e Silva (*)

Hiram Reis e Silva, Bagé, RS, 21 de dezembro de 2015. 

 

Percorre, a “Rondônia”, um caminho que vai da objetividade daquelas páginas, um tanto insípidas para os profanos, em que o cientista técnico faz a biometria de tribos inteiras, ou daquelas em que a meticulosidade do médico, nunca deslembrado do seu ofício, descreve o fenômeno de dermatose esfoliativa observada nos índios locais até o surgimento do escritor de humana sensibilidade e excelente forma de expressão. Citemos, a propósito, um trecho da sua página mais afamada entre os leigos, de efeito mais literário a página “A Morte do Cavalo” certamente julgada antológica, que merecia, ouço dizer, a preferência do próprio Roquette-Pinto: 

Em pé, pernas abertas para não cair, arquejante, o pêlo riscado por alguns fios de sangue a jorrar do pescoço, da anca e da barriga, um triste pedrês (branco e preto), magro e pisado, tremia num arrepio imenso, como se fosse um grande cavalo de gelatina. Das feridas surgiam, oscilantes, ensanguentadas também, longas flechas retidas no corpo do animal pelas farpas agudas. Extraímo-las do mísero cavalo. E seguimos lentamente, dando-lhe tempo para que nos acompanhasse no seu passo de moribundo. Sempre a tremer, ia arrastando o corpo. Parava um pouco. Depois continuava com esforço, como desejando livrar-se, em último arranco, daquele meio fúnebre. Um quilômetro adiante, deteve-se, dobrou os joelhos, deitou-se sobre o flanco; pôs-se a tremer ainda mais, e lá ficou morrendo... (...) 

São feios, efetivamente, aqueles sertanejos; muitos, além disso, vivem trabalhando, trabalhados pela doença. Pequenos e magros, enfermos e inestéticos, fortes todavia, foram eles conquistando as terras ásperas por onde hoje se desdobra o caminho enorme que une o Norte ao Sul do Brasil, como um laço apocalíptico, amarrando os extremos da pátria. É preciso ir lá para retemperar a confiança nos destinos da raça, e voltar desmentindo os pregoeiros da sua decadência. Não é, nem pode ser nação involuída, a que tem meia dúzia de filhos capazes de tais heroísmos. Como são pequeninas estas observações científicas, diante da grandeza da construção daquela gente! (LINS) 

Rondônia (1935) ‒ Edgard Roquette-Pinto 

 

Roquette-Pinto acompanhou a Comissão de Rondon à Serra do Norte, nos idos de julho a novembro de 1912, desempenhando as funções de antropólogo, arqueólogo, botânico, cineasta, etnógrafo, farmacêutico, folclorista, fotógrafo, geógrafo, legista, linguista, médico, sociólogo e zoólogo. Percorrendo os ermos dos sem fim daquela inóspita região, descreveu, de maneira notável, o relevo, a hidrografia, a geologia e os mais diversos elementos da fauna e da flora. Analisou criteriosa e minuciosamente a anatomia dos Paresí e Nambikwara, suas manifestações culturais, atividades sociais, crenças, ritos, língua e endemias. Recolheu artefatos indígenas, filmou o cotidiano nativo e gravou os cantos dos íncolas Nambikwara e Paresí. Os Nambikwara, no tempo de Roquette-Pinto, como ele mesmo relata, viviam na Idade Lítica, usavam machados de pedra e facas de madeira, não dominavam arte da cerâmica, desconheciam as técnicas de construir embarcações e, por isso mesmo, usavam talos de Buriti (Mauritia flexuosa) para atravessar os Riosnão e não sabiam tecer redes ‒ dormiam no chão. 

 

Todos os índios da Serra do Norte viviam, até agora, em plena Idade Lítica, usando machados de pedra mal polida, facas de madeira, ignorando a navegação, dormindo diretamente sobre o solo, ignorando a fabricação da cerâmica e a rede de dormir. (...) Para atravessar modestos Rios arranjam uma pinguela, derrubando uma árvore da margem e ajeitando a queda do madeiro de modo conveniente. Se o Rio é largo, fazem um molho de palmas de Buriti, à maneira de flutuante, e deixam-se levar pela corrente, cruzando o curso d’água em diagonal. Não conhecem canoa, nem praticam a navegação. (ROQUETTE-PINTO) 

Para atravessar o Rio, um deles colocou por baixo dos braços duas bóias finas de talos de buriti, enquanto o outro, firmado nos pés do primeiro, foi por este rebocado até onde estávamos. (MAGALHÃES, 1941) 

Esta experiência fantástica foi reportada, com maestria, por Edgard Roquette-Pinto no seu livro “Rondônia” do qual repercutimos algumas observações relativas aos índios Nambikwara. 

 

VIII 

Infelizmente, em 1912, os Nambikwara ainda não se achavam bastante acostumados com a presença de estranhos naquelas serranias. Apesar de sua condescendência, a custa de brindes conseguida, minhas pesquisas foram recebidas com justificável desconfiança. Os índios examinados pertenciam aos grupos: Kôkôzú, Anunzê, Tagnani e Tauitê. Dos Uaintaçú, grupo ainda hostil, só consegui uma observação, essa mesmo incompleta. O estado de excitação em que o índio se encontrou, durante o tempo em que o examinei, não permitiu melhor resultado. 

* 

A pele é de cor amarelo-siena queimada, escura nos Kôkôzú, clara nos outros. Nos Tagnanis o colorido, em certos indivíduos, chega ao róseo. Muitos tipos quase pretos são encontrados entre os do Juruena e do Juína; são os índios mais escuros do Brasil. Na tabela dermocrômica [Roquette-Childe], usada no Museu Nacional do Rio de Janeiro [N° 223], o colorido desses índios varia entre os n° 6-10. Epiderme grossa, enrugada. 

* 

Os pelos são retilíneos, duros [lissótricos] (cabelos lisos). Em certos indivíduos há cabelos largamente ondulados [“waved” dos antropólogos ingleses], semelhantes aos dos Polinésios. Os índios, em geral, arrancam os pelos do corpo e da face e cortam os cabelos, na fronte, com uma concha de lamelibrânquio (moluscos bivalves). Raros indivíduos deixam fios de bigode; alguns consentem na presença da barba do mento (queixo). 

* 

Quase todos deixam crescer livremente as unhas; à hora da comida são utensílios valiosos para dilacerar as carnes. As plantas dos pés nunca se espessam em calosidades extensas, como nos indivíduos de raça negra, que andam descalços. Os pés são relativamente grandes. Pernas finas e musculosas. Abdômen saliente. Mãos pequenas; membros torácicos encordoados, pouco volumosos. As mensurações que pudemos obter nos tipos masculinos, adultos, normais, constam dos quadros anexos. 

O quadro “C” contém os dados fornecidos pela pelvimetria (medição do tamanho e da capacidade da bacia), praticada em algumas mulheres. Os diâmetros da bacia, como se vê, são pequenos; trata-se daquele tipo que os obstetras denominam bacia grácil, se não for modalidade normal da chamada “equabiliter justa minor”, que, a título aberrante, aparece em nossos serviços clínicos. A estatura das mulheres, portadoras de pélvis assim reduzida, é bem pequena: as Nambikwara medem 1,47 m de altura, contra 1,62 m que têm os homens. Sendo admitido, em geral, que a estatura feminina é sempre menor que a masculina, cerca de 7%, a altura das Nambikwara deveria andar por 1,51 m. Grosso modo, pode dizer-se que a estatura feminina tem menos de 12 centímetros que a do outro sexo. No quadro “C” encontramos, todavia, alguns tipos que excedem essa relação. 

* 

O exame das proporções do corpo, realizado em alguns tipos que representavam o conjunto dos caracteres somáticos mais nítidos da mulher Nambikwara, revelou fatos interessantes, cujo conhecimento é indispensável para o trabalho de comparação antropológica. A altura da cabeça contém-se pouco mais de seis vezes na altura total do corpo [6,5]. O segmento cerebral do rosto e o segmento respiratório são iguais; o digestivo é maior que os precedentes. A distância entre os olhos [diâmetro bipalpebral interno] é maior que a fenda palpebral; assim os olhos acham-se muito afastados um do outro, pela espessura da raiz nasal. 

O tronco é quadrangular, sem depressão lombar, nem vislumbre de esteatopigia (hipertrofia das nádegas por acúmulo de gordura). Os seios, nas moças púberes, são pequenos, em forma de taça, pela classificação Ploss-Bartels. Nas mulheres mães, são grandes, de auréola dirigida para fora, mamilo levantado, nem sempre muito afastados um do outro. O espaço intermamário, em algumas das mulheres mães, tem o valor da metade do diâmetro de uma das mamas. O meio do corpo acha-se acima da sínfise pubiana (articulação semimóvel que une o púbis formando a cintura pélvica). 

Mede a distância jugo-xifoidiana – [da fúrcula esternal ao apêndice xifóide] – metade da distância xifo-pubiana; sendo, assim, a altura do abdômen igual ao dobro da altura do tórax. Por sua vez, a distância xifo-umbilical é igual ao dobro da linha umbílico-pubiana. Do que se conclui que a mulher Nambikwara tem o umbigo mais próximo do púbis. Pinard já tinha notado a importância prática do conhecimento dessas relações, na semiologia (estudo dos sinais) da prenhez (gravidez). Mostrou quanto andaria errado quem fosse aplicar, a todas as raças, elementos de pesquisas que só para umas tantas podem servir. Vi algumas Nambikwara grávidas. A prenhez evoluía já adiantada, mas não consentiram num exame sério; nada posso, destarte, dizer a respeito. Vem, todavia, a propósito referir que nenhuma era lanhada pelos sulcos intradérmicos, devidos à distensão forçada do abdômen, frequentes na mulher branca [vergões da gravidez]. Aliás, a pele não tem sempre o mesmo coeficiente de extensibilidade. A dos índios é favorecida por condições especiais, mal conhecidas. Martius figurou no seu Atlas um índio Miranha cujas narinas, perfuradas, atingiam insólita extensão; o indivíduo conseguia passá-los ao redor do pavilhão da orelha do lado respectivo. O lábio dos botocudos é outro exemplo disso. 

* 

No tipo masculino, os três segmentos principais da cabeça seguem a mesma norma. O segmento digestivo é maior que os outros dois. Também a altura do tórax é igual à metade da altura abdominal. As mesmas relações encontradas entre tórax e abdômen e entre as partes deste último, no tipo feminino, acham-se nos homens. 

* 

Por essas relações toracoabdominais (que pertencem ao tórax e ao abdômen), e pela altura do umbigo sobre o púbis, pode dizer-se que o homem Nambikwara tem tronco de mulher; e, levando mais longe a consideração dessas interessantes disposições recíprocas, ainda não seria errado afirmar que, no adulto, nessa gente, permanecem caracteres morfológicos próprios à infância: altura do umbigo, por exemplo. 

* 

Um caráter diferencial dos sexos é a situação do meio do corpo: nos homens ele se encontra na borda inferior da sínfise pubiana. É que as mulheres têm membros inferiores mais longos; e os homens, o tronco mais comprido; elas são, antes, macrosquélicas (macroscélicas – possuem pernas compridas), e eles braquisquélicos (braquiscélicos – possuem pernas curtas). Notemos que observações de Ales Hrdlicka (antropólogo tcheco criador da teoria monogenista-Asiática ‒ doutrina que defende ter o gênero humano uma única origem, a Asiática), entre adolescentes, na América do Norte, encontraram fenômeno inverso nas populações brancas. 

* 

No tipo masculino, a cabeça cabe 7,5 vezes na altura; obedece ao cânon dos gregos (na verdade seria 8,0 vezes), o que é realmente interessante. A distância interocular é maior que o comprimento da fenda ocular; a altura total da face é pouco maior que o comprimento da mão. A mão tem cerca de 1/10 da altura total do corpo; o pé corresponde a 1/8 daquela altura. Braço e antebraço têm comprimentos equivalentes; são sensivelmente iguais. O olho mongol, de Metchnikoff, é raro. 

* 

Nos índios da Serra do Norte não se vê a queda precoce dos incisivos, tal qual é encontrada nos Paresí. A norma da erupção dos dentes, pelo que andei observando em alguns rapazes e meninos, não é a mesma que se costuma deparar na raça branca; porque as idades, em que a segunda dentadura se completa, me pareceram outras. (...) Aos sete anos rompe o primeiro molar; aos oito, os incisivos medianos e aos nove os laterais. Aos dez, o primeiro pré-molar; aos 11, o segundo. Os caninos, aos 12. O segundo molar, aos 13. O dente do siso, que é o terceiro molar, aparece aos 18, mofino (acanhado) e sem préstimo, quando não se deixa ficar metido no alvéolo durante toda a vida. Os fatos mais interessantes relativos à dentição daqueles índios são precisamente os que se relacionam com os dentes de siso; porque, mais de uma vez, verifiquei a presença deles em rapazes que não tinham, seguramente, atingido os 18 anos. A dentição completa-se, naquela gente, ao que me pareceu, muito mais cedo. Os molares, que o povo chama dentes do siso, e tendem a desaparecer na raça branca, nos índios, não são dentes de enfeite. Têm função e tamanho de considerar. Acredito que o excesso de trabalho, imposto ao aparelho da digestão, tenha seu rebate nessas características dentárias. Os grandes molares aparecem mais cedo porque são solicitados por mastigação frequente e forte. 

Comem sempre, de tudo, sem regra nem medida. Não sei de animal que não devorem. Rejeitam, apenas, o tubo intestinal da caça abatida. Os do Juruena comem mais carne que os outros; os de José Bonifácio alimentam-se mais de mandioca e milho. Sua pneumatose intestinal (flatulência) fá-los companheiros desagradáveis. Todos têm língua saburrosa e muitos as gengivas arregaçadas pela piorreia alveolar. Os dentes, ao contrário do que se verifica frequentemente nos crânios dos sambaquis, não sofrem o processo de usura que Lund, em 1842, descreveu no homem de Lagoa Santa; padecem da cárie que lhes não poupa as coroas. 

* 

Uma dermatose especial grassa entre os índios da Serra do Norte. Em verdade, alguns oficiais da Comissão Rondon haviam notado as placas características da doença. Mas, talvez porque não tivessem sido encontrados casos típicos, como esses que me caíram sob as vistas, as manchas passavam por simples descamações epidérmicas traumáticas, oriundas do atrito do corpo na terra, pois que os índios da Serra do Norte dormem sobre o solo. Examinando os indivíduos, cujas fotografias aqui se encontram, verifiquei, porém, a existência de verdadeira dermatose, imitando diversas das que se acham indicadas entre os nossos aborígenes. 

Pereba: como curiosidade pere’wa (ferida) é nome tupi para lesões cutâneas. (Hiram Reis) 

* 

A doença aparece em toda idade; foi encontrada em crianças de peito e em velhos. Ataca igualmente ambos os sexos. Parece ser mais frequente nos índios dos Rios Juruena e Juína. Os Paresí, próximos vizinhos deles, não conhecem o mal; e não me consta que já se tenha verificado qualquer caso no pessoal da Linha Telegráfica. Nenhuma região do corpo é poupada, a não ser o couro cabeludo. As unhas são respeitadas, e a face não é sede predileta das lesões. A doença não é rara; em muitos índios é fácil reconhecer traços de sua existência. No entanto, creio que evolui com intensidade mui variável, porque só em oito indivíduos, dentre cerca de 400, pude verificar suas manifestações bem definidas. (...) 

* 

Expedição Centenária R-R – II Parte ‒ Fase I (Tapirapoã / Kamai) 

https://www.youtube.com/watch?v=rECpPlEurDI 

Expedição Centenária R-R – II Parte ‒ Fase II (Kamai / Utiariti) 

https://www.youtube.com/watch?v=wxA1AJchYFM 

Fontes: 

 

LINS, Álvaro de Barros. Estudo da Obra de Roquette-Pinto ‒ Brasil ‒ Jornal de Crítica ‒ Sétima Série, 1963. 

 

MAGALHÃES, Major Amílcar Botelho de. Pelos Sertões do Brasil ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Editora Brasiliana, 1941. 

 

ROQUETTE-PINTO, Edgard. Rondônia ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Companhia Editora Nacional, 1938  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Integrante do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);

Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

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