zap
   

especiais

seções

colunistas

blogs

enquete

Na sua opinião, o Pantanal já sente os efeitos do desmatamento?
Sim
Não
Não sei
Ver resultados

tempo

newsletter

receba nosso newsletters
   
Rádio Independente

expediente

Pantanal News ®
A notícia com velocidade, transparência e honestidade.

Diretora-Geral
Tereza Cristina Vaz
direcao@pantanalnews.com.br

Editor
Armando de Amorim Anache
armando@pantanalnews.com.br
jornalismo@pantanalnews.com.br

Webmaster
Jameson K. D. d'Amorim
webmaster@pantanalnews.com.br

Redação, administração e publicidade:
Aquidauana:
Rua 15 de Agosto, 98 B
Bairro Alto - CEP 79200-000,
Aquidauana, MS
Telefone/Fax (67) 3241-3788
redacao@pantanalnews.com.br

Escritório:
Corumbá:
Rua De Lamare, 1276 - Centro
CEP 79330-040, Corumbá, MS
Telefone: (67) 9235-0615
comercial@pantanalnews.com.br
pantanalnews4@terra.com.br

 
Artigos - 08/12/2015 - 06h00

Expedição Centenária R-R – 2ª Fase (V Parte)




Fotos: Divulgação










Por Hiram Reis e Silva (*)

Hiram Reis e Silva, Bagé, RS, 04 de dezembro de 2015. 

A 16 de janeiro (1914), chegávamos a Tapirapoã, Quartel General da Comissão. Carinhosa acolhida, bandeiras das Nações americanas festivamente desfraldadas. Organizaria aí a marcha por terra, através dos sertões Paresis e Nambikuaras. Para essa marcha, mandara eu reunir uma tropa de dez muares e 70 bois cargueiros – dos que se empregam em Mato Grosso no transporte de cargas e cangalhas – já estão no local, à espera da Expedição. A mula destinada ao Sr. Roosevelt era um animal forte de passo macio, que o governo mandara ajaezar (arrear) com arreios de prata. (VIVEIROS) 

Ilha da Amizade a Tapirapoã (25.10.2015) 

 

Tropa Ponta Cortada ao Carlito de Itararé.

(Luciano Rosa)  

Duzentas mulas argentina, mansas, xucras, caborteiras.

Cruzaram pela fronteira nadando pro nosso lado.

Ponta, corrida, cortada, porque as melhores vêm na frente.

Sistema de antigamente selecionando a mulada.

Tropa pronta e faturada, burro cargueiro e bruaca (mala de couro cru).

 

E o velho Tito Guaiaca, cozinheiro e ponteador.

Na frente, as mansas de arreio e a velha mula ruana (marrom suave).

Na goela, leva a campana do cincerro cantador (polaca).

De São Borja até Cruz Alta, foi quase um mês estradando.

 

Mais meio até Passo Fundo folgando pra descansar.

Dois dias e um pouco mais, tropa na estrada de novo.

Estirada ao novo povo, da Vacaria dos Pinhais.

Estalo, relho e assovios, do cincerro à badalada.

Planalto, picada e rio, no rumo de Itararé. (...) 

 

A terceira e derradeira jornada fluvial foi executada pela manhã. O leito do Rio Tenente Lira tornou-se cada vez mais raso e pedregoso, diversos rápidos e corredeiras sucediam-se exigindo habilidade e atenção dos piloteiros. Volta e meia eu me sentava à proa procurando orientar o Coronel Angonese na condução da voadeira, a transparência das águas facilitava a detecção de obstáculos. O número de pesqueiros particulares e de pescadores sucediam-se ininterruptamente em ambas as margens, não era de admirar que o pescado estivesse tornando-se cada vez mais escasso naquelas águas. Aportamos em Tapirapoã no final da manhã, depois de navegar por 29 km, carregamos nossas bagagens para a sala de informática da Escola Estadual Marechal Rondon e nos despedimos de nosso amável guia e piloteiro Alemão. Depois do almoço e um breve repouso fui fazer um reconhecimento da área visitando a “Casa de Rondon” (14°51’02,4” S / 57°46’05,3” O) e o restaurante da D. Vanda. Em fevereiro de 2012, o prédio conhecido como “Casa Rondon” foi considerado como patrimônio histórico e cultural do Mato Grosso. A residência foi sede e moradia da Comissão Telegráfica liderada pelo Marechal Rondon, a partir de 1906. Nela hospedou-se, também, o Presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt quando por aqui passou, em 1914, em busca do Rio da Dúvida.  

Lá pelas 16h00, chegou a comitiva comandada pelo “Boi” (Sr. Eduardo Ramos) com suas nove mulas e burros e um cavalinho polaqueiro, curiosamente número idêntico de montarias da Expedição original. Ao desembarcar o polaqueiro machucou a pata traseira que recebeu especial atenção nas duas semanas que se seguiram até estar completamente curada.  

Polaqueiro: tem a mesma função da “égua madrinha” que como o polaqueiro serve de guia à tropa já acostumados com aquele que traz em seu pescoço uma polaca (cincerro, chocalho ou sineta). (Hiram Reis) 

Relatos Pretéritos - Tapirapoã 

Rondon (1914)  

16.01.1914 - Foram necessários alguns dias para organizar essa nova etapa da Expedição e Kermit aproveitou-os adquirindo tatus, cotias, quatis, sariguês (gambá, mucura – Didelphis albiventris ou Didelphis marsupialis) para os naturalistas. Cherrie e Miller tinham concluído o preparo de mil pássaros e de 250 mamíferos, muitos dos quais desconhecidos. Esses espécimes e a bagagem dispensável seriam enviados para Nova York, pelo Paraguai e a cargo de Harper. 

Seria muito incomodo e trabalhoso viajar com tão grande comboio. Ficou, pois, estabelecido que o Capitão Amílcar chefiaria uma coluna que, pelas cabeceiras dos Rios Verde, Sacre, Papagaio, Buriti e Sauêuiná, seguiria diretamente para o Juruena, conduzindo cerca de 70 bois de carga, com provisões, ferramentas e tudo aquilo de que só teríamos necessidade quando principiássemos a descer para a Bacia do Amazonas. Teria essa coluna, sobre nós, avanço de 24 horas, para que nos não detivesse algum embaraço da estrada. O Capitão Amílcar, encarregado da reparação de pontes e estivados (troncos colocados sobre terrenos alagadiços), o removeria a tempo. 

O Corpo principal da Expedição - o Sr. Roosevelt, eu, o Tenente Lira, o Dr. Cajazeira, Father Zahm, Kermit - constituiria, com suas bagagens e provisões, a cargo de Fiala, outra coluna, com o mesmo destino, dando, porém, uma volta, a fim de passar, por Salto Belo, sobre o Rio Sacre, e por Salto Utiariti, sobre o Papagaio, enormes reservatórios de energia mecânica, de incomparável beleza. Teria também o Sr. Roosevelt ocasião de ver algumas Aldeias dos índios Paresi, empregados na conservação das obras das linhas telegráficas. Deveríamos seguir rumo Norte, através do planalto, de onde os Rios que correm para o Norte vão ter à Bacia do Amazonas e os que vertem para o Sul, à Bacia do Prata. (RONDON) 

Theodore Roosevelt (1914)  

13.01.1914 – No dia 13 levantamos acampamento, carregamos a lancha e a chata com todos os nossos objetos e nossas pessoas, e arrancamos Rio acima para Tapirapoã. Éramos ao todo 30 homens, com cinco cães, e levávamos barracas, camas e provisões; a carne fresca que cada vez menos fresca ia ficando; e as peles e tudo o mais amontoado com essas cousas.

Choveu quase todo o primeiro dia e parte da primeira noite. A seguir, o tempo continuou em geral enfarruscado, agradável para viajar; algumas vezes a chuva e a soalheira tórrida se alternavam. A cozinha – aliás excelente – era feita num curioso fogãozinho ao ar livre, na popa da chata coberta. Esse fogão era formado de pedaços de cupim colocados entre os bordos da embarcação. Junto a ele o escuro cozinheiro, com filosófica solenidade, trabalhava ao Sol e à chuva com duas ou três panelas. 

Nossos homens, boas almas debaixo de peles de todas as cores e matizes, dormiam, na maior parte do tempo, encolhidos entre caixas, fardos e mantas de carne seca. Uma enorme tartaruga terrestre estava peada na proa da chata. Quando os homens dormiam muito próximos, ela fazia esforços inúteis para trepar sobre eles; em retribuição, alguns deles, de vez em quando, transformavam-na em assento. 

Vagarosamente a máquina resfolegante ia impelindo a lancha e seu pesado reboque contra a rápida correnteza. O Rio tinha subido, e fazíamos cerca de dois quilômetros por hora. À frente, a escura faixa das águas estendia-se em curvas entre intermináveis muralhas de floresta tropical. Era como se atravessássemos uma gigantesca estufa. Coqueiros babaçu e buriti, sarãs, enormes figueiras, bambus empenachados, árvores estranhas de troncos amarelos, árvores baixas com folhas enormes, árvores altas com delicada folhagem rendilhada, árvores de troncos com escoras naturais, outras com o estipe erguendo-se esguio, liso e direito a incríveis alturas, todas entrançadas entre si por um emaranhado de trepadeiras se debruçavam à beira do Rio. Os galhos pendiam até a água, formando uma cortina através da qual era impossível ver o barranco e excessivamente difícil atingi-lo. Raramente alguma ostentava flores – grandes cachos brancos ou de pequenas flores vermelhas ou azuis. As mais das vezes, as flores lilases das begônias trepadeiras faziam largas manchas coloridas. Inúmeras parasitas cobriam os galhos e até cresciam sobre os troncos enrugados. Vimos pouca vida alada. Alguns biguás, de vez em quando, e martins-pescadores voando de galho em galho. 

Com longos intervalos passávamos por alguma fazenda. Em uma delas a casa grande, coberta de telhas vermelhas e caiada, ficava numa encosta gramada, atrás de mangueiras. As folhas de madeira estavam abertas nas janelas sem vidraças e suas grandes salas eram inteiramente nuas, sem um livro, sem um enfeite. Uma palmeira, carregada dos pendentes ninhos de guaches (japiim-do-mato – Cacicus haemorrhous), ficava próxima da porta. Para o lado de trás havia laranjeiras e pés de café e perto ficavam o bananal, o arrozal e a plantação de fumo. O capataz, de tez lívida, era hospitaleiro e cortês. O mulherio trigueiro se manteve, furtivo, nos bastidores. Como a maior parte das fazendas, esta era propriedade de uma firma com escritório em Cáceres. (...) 

Ao fim da primeira tarde acostamos numa modesta fazenda, das mais pobres. As casas eram cobertas de folhas de palmeiras. Até as paredes eram de grandes palmas folhudas de babaçu, fincadas em pé no solo e acamadas umas sobre as outras. Alguns da comitiva saltaram em terra, outros ficaram a bordo. Não havia mosquitos, o calor não era excessivo e dormíamos bem. 

14.01.1914 – Pelas 05h00 da manhã seguinte cada um de nós havia bebido uma xícara do delicioso café brasileiro e as embarcações continuavam a viagem. Durante o dia todo navegamos lentamente Rio acima. Passamos por duas ou três fazendas. Paramos em uma para arranjar leite. Ali as árvores estavam recobertas de pequenas orquídeas amarelas. Ao escurecer paramos numa aberta onde não havia galhadas para impedirem que encostássemos as embarcações no barranco. Não havia quase mosquitos. A maior parte do pessoal levou as redes para terra e o acampamento foi armado nos arredores singularmente belos. 

As árvores eram palmeiras babaçu, algumas com suas folhas coroando altos troncos; outras havia com palmas mais longas, que subiam quase do solo. Estas folhas eram de grande comprimento, algumas de não menos de 13 ou 14 metros. Arbustos e capim alto, cobertos de orvalho e brilhando com o verde das esmeraldas, cresciam nos espaços abertos. 

15.01.1914 – Partimos ao amanhecer do dia seguinte. Um dos marinheiros se tinha extraviado no interior do terreno. Começou a dar voltas sem conseguir achar o Rio; tínhamos partido sem notar sua ausência. Paramos de pronto ao dar por ela, e com dificuldade o homem abriu caminho através dos cipós e dos espinheiros do matagal, na direção do ruído do motor da lancha e dos toques de buzina com que lhe indicávamos o lugar onde estávamos. Naquela densa mataria, quando o Sol está oculto nas nuvens, um homem sem bússola, que se afaste cem metros do Rio, pode facilmente se extraviar irremediavelmente. 

Ao passo que subíamos o Rio, os coqueiros babaçu se tornavam cada vez mais numerosos. Naquele trecho, por espaço de muitos quilômetros eles davam um aspecto característico às matas marginais. Em toda parte seus ramalhetes de folhas compridas e curvas se erguiam entre as outras árvores e em certos pontos as sobrepujavam em altura. Mas nunca igualavam em altura aos gigantes das outras árvores comuns. Num coqueiro altíssimo vimos um aglomerado de orquídeas violetas crescendo a meia altura do tronco. Numa outra árvore enorme - não coqueiro -, que sombreava uma pequena clareira, havia cerca de cem ninhos de guaches. 

Passamos durante esse dia por uma grande fazenda, além de dois ou três pequenos sítios. As várias casas e ranchos, todos cobertos de folhas de coqueiros, ficavam junto ao Rio, num largo espaço de solo descoberto, escalonado de coqueiros babaçu. Uma chata coberta estava encostada ao barranco. Mulheres e crianças olhavam das janelas sem vidraças; os homens achavam-se parados à frente das casas. A construção maior era cercada por uma estacada feita de rachas de palmeiras fincadas no chão. Bois e vacas pastavam em volta, e carros de sólidas rodas inteiriças de madeira estavam inclinados, com suas lanças encostadas no chão. 

Fizemos nossa parada do meio-dia em uma ilha onde existiam altas árvores, cheias de frutas agradáveis ao paladar [Deviam ser ingazeiros, que abundam naquelas paragens]. Outras árvores da ilha estavam cobertas de flores de um vermelho vivo e amarelas; delicadas florinhas azuis e outras brancas, estreladas, atapetavam o chão. Aqui e ali, pela superfície do Rio, voavam andorinhas com tanta cor branca em sua plumagem que, brilhando ao Sol, pareciam ter os corpos níveos suportados por asas pretas. A correnteza do Rio se ia tornando mais rápida; havia trechos de águas revoltas quase semelhando corredeiras; máquina, incansável, fazia força e arfava sob a dificuldade crescente com que impelia para a frente a lancha e sua pesada companheira. À noite amarramos junto ao barranco, num claro da mata que permitia acampamento confortável. Nessa noite os cupins abriram largos furos no mosquiteiro de Miller e quase lhe destruíram as meias e os cordões dos sapatos. 

16 a 20.01.1914 - Ao nascer do Sol continuamos a viagem. Havia trechos de água rápida e encarneirada, quase formando corredeiras; em toda parte a correnteza era forte e nosso avanço muito lento. A prancha era rebocada por um cabo e sua tripulação recorria aos varejões. Mesmo assim, às vezes com muita dificuldade, conseguíamos vencer a correnteza. Duas ou três vezes, socós e biguás, pousados em alguma tranqueira do Rio, ou em árvores da margem, deixavam a lancha se aproximar até alguns metros. Em um trecho de mato alto notamos um bando de tucanos, visíveis, mesmo entre as copas das árvores, devido aos seus enormes bicos, e à destreza sossegada com que andavam, subiam e saltavam entre a galharia. Passamos por várias fazendas. 

Pouco antes do meio-dia, a 16 de janeiro, chegamos a Tapirapoã, sede da Comissão Telegráfica. Era um lugar atraente dando sobre o Rio, e se achava garridamente engalanado em nossa honra, não só com as bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos, como com as de todas as repúblicas americanas. Havia ali um grande espaço coberto de grama verde com árvores no centro. Em um lado desse espaço ficava o escritório da Comissão e, no outro, o de uma grande fazenda que ali tinha sua sede. Adicionem-se a isso, estrebarias, ranchos, abrigos externos, currais e, nas proximidades, áreas cultivadas. 

Vacas leiteiras, bois para corte, bois carreiros e burros andavam quase que à vontade. Havia dois ou três caminhões e carros, assim como um trator utilizados na construção das linhas telegráficas, mas inservíveis na época das chuvas, ao tempo de nossa expedição. Daquele lugar iríamos começar nossa viagem por terra com burros e bois de carga, várias dúzias dos quais foram reunidos para nos esperar. Muitos dias foram necessários para repartir as cargas e organizar várias combinações necessárias para que tão grande comitiva pudesse empreender a longa travessia do sertão, atravessando uma região onde não havia alimento bastante para homens ou animais e onde era sempre possível entrar nalguma zona em que reinassem pestes fatais ao gado ou aos cavalos. 

Fiala, com a habitual eficiência, tomou a seu cargo os aprestos relativos ao grupo americano da expedição, tendo em Sigg um ativo e útil auxiliar. Harper, que como os outros trabalhava com zelo dedicado e jovial, ajudava-o também, exceto quando ocupado a auxiliar os naturalistas. Estes últimos, Cherrie e Miller, tinham feito, tanto quanto possível, o melhor e mais difícil trabalho da expedição. Haviam colhido cerca de mil aves e 250 mamíferos. Não era provável que conseguissem outro tanto no resto de nossa viagem, pois tencionávamos, dali por diante, fazer tão poucas paradas e jornadear tão rapidamente quanto nos permitissem o terreno, o tempo e as condições dos meios de transporte. 

Eu sempre desejava que dispuséssemos de mais tempo para estudar os hábitos de vida de empolgante interesse dos belos e admiráveis animais de pelo e aves que víamos a cada momento. Todo museu de primeira classe deve ainda organizar competentes colecionadores de espécimes; julgo, porém, que um museu poderia atualmente trazer benefícios mais duradouros se mandasse para os sertões imensos, onde a natureza selvática domina, observadores competentes que registrassem aquilo que observassem. Tais homens deveriam também colher espécimes, pois essa colheita ainda é necessária; mas teriam de ser, de preferência, capazes de ver por si, e de expor sugestivamente aos olhos alheios os hábitos e costumes das criaturas que moram nas regiões desabitadas do mundo. 

Naquele lugar tanto Cherrie como Miller conseguiram certo número de mamíferos e aves que antes não haviam obtido; se alguns eram novos para a ciência, era cousa que só podia ser determinado após a chegada dos espécimes ao Museu Americano. Quando fazia inspeção de suas armadilhas para pequenos mamíferos durante a manhã, Miller encontrou um exército de terríveis formigas. A espécie era das pretas grandes e moviam-se em uma frente bem extensa. Estas formigas, algumas vezes chamadas formigas militares, como as invasoras africanas, marcham em grandes corpos que destroem ou fazem sua presa qualquer coisa viva que não se possa afastar a tempo de seu caminho. Andam depressa e tudo foge ante seu avanço. Os insetos constituem sua presa principal; é de admirar como até as mais perigosas e agressivas criaturas das espécies inferiores não lhes oferecem resistência séria. A atenção de Miller foi atraída para esse exército de formigas por ter visto uma grande centopeia de 23 a 25 centímetros procurando fugir-lhes. Certo número de formigas estava a mordê-la, e ela se torcia a cada mordida, mas não cuidava de utilizar contra as assaltantes suas compridas mandíbulas encurvadas. Em outras ocasiões ele vira grandes escorpiões e grandes aranhas caranguejeiras procurando fugir de forma idêntica, mostrando a mesma incapacidade para atacar suas vorazes inimigas ou para se defenderem. As formigas sobem a grande altura nas árvores, chegam aos mais altos ninhos e do pronto matam e despedaçam os filhotes das aves. Mas não são tão comuns como imaginam alguns escritores; podem-se passar dias sem se encontrar seus exércitos, e por certo muitos ninhos nunca são por elas visitados nem ameaçados. Em alguns casos parece provável que as aves se salvam, e a seus filhos, de outras maneiras. Alguns ninhos são inacessíveis. De outros, os pais talvez retirem os filhotes. Miller uma vez, na Guiana, estivera por alguns dias a observar um ninho de carriças formigueiras, com filhos implumes. Lá chegando uma manhã, viu a árvore e o ninho repleto de formigas. Supôs, a princípio, que os filhotes tinham sido devorados, mas logo viu os pais que, a uns 30 m apenas de distância, penetravam na mata levando alimento nos bicos e dela saindo sem alimentos, e isso por vezes repetidas. Miller nunca descobriu seu novo ninho, mas estava certo de que os passarinhos alimentavam seus filhotes, que haviam sido removidos do ninho antigo. Estas carriças esvoaçam por cima e à frente das colunas de formigas assaltantes, alimentando-se não só dos insetos que elas espantavam, como também das próprias formigas. 

Este fato tem sido posto em dúvida, porém Miller matou algumas com formigas no bico e no estômago. Libélulas em grandes bandos muitas vezes adejam sobre as correições, flechando para cima delas; Miller não pôde vê-las apanhando as formigas, mas essa era sua opinião. Eu próprio vi essas formigas atacando uma caixa de marimbondos muito agressivos e perigosos. Os marimbondos zumbiam em grande excitação, mas pareciam incapazes de lhes resistir. Vi também limparem um broto ocupado por suas parentas, as venenosas formigas de fogo; estas lutaram e não tenho dúvida de que mataram e aleijaram muitas das suas inimigas pretas, ativas e numerosíssimas, que em pouco deram cabo das primeiras. Daquelas terríveis formigas só encontrei de cor preta, mas há espécies vermelhas. Atacam seres humanos, precisamente como o fazem a todos os animais, e em casos tais o único recurso é a fuga precipitada. (...) 

Naquele acampamento o calor era elevado, de 33° a 40° C, e o ar pesado, saturado de umidade; caíam frequentes aguaceiros, mas não havia mosquitos e tínhamos muito conforto. Graças à proximidade da fazenda, passávamos regaladamente com abundância de carne, galinhas e leite fresco. Dois ou três pratos brasileiros eram deliciosos: a canja, uma sopa espessa feita de arroz e galinha, a melhor sopa que um homem com fome possa ingerir; e o picadinho de carne, servido com um molho simples mas bem temperado. 

A besta que me coube como montaria era um animal possante, de boa marcha. O governo brasileiro pusera ali à minha espera bonitos arreios guarnecidos de peças de prata, que muito me agradaram, embora minhas roupas muito surradas e grosseiras fizessem com ele um visível contraste. 

Em Tapirapoã dividimos a bagagem e a nossa comitiva. Mandamos à frente, num carro puxado por seis bois, a canoa canadense, com seu motor e algumas caixas de gasolina e cem latas fechadas, cada uma com rações diárias para seis homens. Tinham sido arranjadas em Nova York, sob a direção especial de Fiala, para serem utilizadas quando chegássemos a lugar onde quiséssemos ter alimento variado e bom, em volume reduzido. Todas as peles, crânios e espécimes em álcool, assim como toda a bagagem que não era de absoluta necessidade, foram remetidas pelo Rio Paraguai abaixo, para Nova York, aos cuidados de Harper. A tropa cargueira, sob a direção do Capitão Amílcar (Amílcar Armando Botelho de Magalhães), fora organizada para seguir formando um destacamento separado. O grosso da expedição, composto pelos membros americanos, Coronel Rondon, Tenente Lira e Dr. Cajazeiras, com a bagagem de todos e com provisões, formava outro destacamento. (ROOSEVELT) 

Filmete Expedição pelos Rios Paraguai e Sepotuba:  

https://www.youtube.com/watch?v=-ek3beISFFA

Fontes:  

MAGALHÃES, Amílcar Armando Botelho de. Impressões da Comissão Rondon (1942) - Brasil - Rio de Janeiro - Companhia Editora Nacional, 1942.  

ROOSEVELT, Theodore. Nas Selvas do Brasil ‒ Brasil ‒ São Paulo ‒ Livraria Itatiaia Editora Ltda ‒ Editora da Universidade de São Paulo, 1976.  

VIVEIROS, Esther de. Rondon Conta Sua Vida ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Livraria São José, 1958. 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Integrante do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);

Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

Os artigos publicados com assinatura não representam a opinião do Portal Pantanal News. Sua publicação tem o objetivo de estimular o debate dos problemas do Pantanal do Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso, do Brasil e do mundo, garantindo um espaço democrático para a livre exposição de correntes diferentes de pensamentos, idéias e opiniões. 

Compartilhe


Deixe o seu comentário

Todos os campos obrigatórios. Seu e-mail não será publicado.

Nome:

E-mail:

Seu comentário:
Sistema antispam

Digite aqui o código acima para confirmar:


 

zap2
Comentários
 
Últimas notícias do canal
22/05/2017 - 09h01
Heraldo Pereira e Bosco Martins: um breve reencontro entre amigos
04/05/2017 - 14h30
Dr. Francisco Cavalcante Mangabeira – Parte VI
02/05/2017 - 11h08
O poeta de Sobral
24/04/2017 - 09h53
Dr. Francisco Cavalcante Mangabeira – Parte V
20/04/2017 - 15h12
Adolescentes em risco de suicídio e o jogo da Baleia Azul
 
Últimas notícias do site
26/05/2017 - 12h16
Projeto prevê salas de amamentação em shoppings, aeroporto e igrejas
26/05/2017 - 11h48
Polícia Militar capturou quatro foragidos da justiça nos últimos dias
26/05/2017 - 10h59
PMA apreende meia tonelada de pescado e aplica R$ 33 mil em multas
26/05/2017 - 10h20
Fim de semana em MS tem eventos gratuitos na capital e no interior
26/05/2017 - 09h25
7º Batalhão da PM fecho o cerco contra assaltos à bancos
 

88

Untitled Document
 ® 2009  

CPN - Central Pantaneira de Notícias
PantanalNEWS - Marca registrada 1998-2009
Todos os direitos reservados.