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Artigos - 04/12/2015 - 06h20

Expedição Centenária R-R – 2ª Fase (IV Parte)




Fotos: Divulgação










Por Hiram Reis e Silva (*)

 

 

Hiram Reis e Silva, Bagé, RS, 02 de dezembro de 2015.

 

 

 

Pensando no crescimento do agronegócio mato-grossense, o Grupo Fogliatto com seu Diretor Presidente Argeu Fogliatto, no ano de 1983 adquiriu a Fazenda Porto do Campo, localizada no município de Lambari do Oeste, MT. A partir daí desenvolveu um projeto ecológico de abertura de área, com idéias revolucionarias que transformou a fazenda em um modelo de desenvolvimento ecológico e sustentável. (http://www.fogliatto.com.br/porto/).

 

 

 

Pesqueiro da D. Josefina à Ilha da Amizade (24.10.2015)

 

 

 

Partimos às 09h40 do Pesqueiro da D. Josefina e, depois de percorrer 08 km, às 10h00 aportávamos na Fazenda Porto do Campo (15°42’36,3 S / 57°42’38,4” O) de propriedade do Sr. Argeu Fogliatto. A família Fogliatto tem uma história de sucesso ligada ao melhoramento genético do gado nelore que é considerado como um dos melhores do Brasil. O Sr. Argeu concedeu-nos uma entrevista, à sombra de uma mangueira que teria sido plantada, em 1914, por Theodore Roosevelt, discorrendo sobre sua trajetória de vida e sua parceria de sucesso com os índios Paresi.

 

A história da propriedade está intimamente ligada às Expedições promovidas por Rondon e sua equipe. O Sr. Argeu mostrou-nos a figueira onde Rondon teria determinado que pendurassem o veado abatido por Roosevelt – “Penduramos o veado numa árvore” (ROOSEVELT). Difícil confirmar tal versão baseado apenas nos diários de Roosevelt e Rondon, mas o Sr. Argeu afirma que assim reza a tradição oral. Posso afirmar, porém, com certeza, que, em 1912, sob a mencionada figueira, foram montadas as redes de Rondon e Roquette-Pinto – “No mesmo dia da partida armamos nossas redes à margem direita do Sepotuba, debaixo de uma figueira enorme, na fazenda de Porto do Campo.” (ROQUETTE-PINTO).

 

As instalações de fazenda primam pelo bom gosto, limpeza e funcionalidade e a bela e centenária residência da Fazenda foi reformada e ampliada mantendo o estilo arquitetônico da época. Partimos, depois de desfrutar de um lauto almoço com a hospitaleira família Fogliatto. Encerramos nossa jornada, depois de navegar por mais de 85 km, na Ilha da Amizade (15°02’01,0” S / 57°41’56,0” O) onde, depois de nos refrescarmos nas corredeiras do Rio, jantamos e pernoitamos na varanda da residência de um amável pescador. 

 

Relatos Pretéritos - Fazenda Porto do Campo 

Rondon (1914) 

Deixando Cáceres, deixamos também o Nioaque – não poderia ele ir além. Começamos a subir o Sepotuba [Tapir], explorado cientificamente em 1908. Rio claro, descendo do planalto para as florestas das terras baixas, só era navegável no tempo das águas. Subimos até Porto do Campo, onde pousamos a 07.01.1914. Pela primeira vez armamos barracas. Eram elas armadas, nos pousos, em torno da do Sr. Roosevelt e da minha, fincados, em frente, dois postes. Mesmo nos dias mais duros, eram as bandeiras das duas Nações hasteadas e arriadas ao nascer e ao por-do-Sol, enquanto o corneteiro dava o toque de estilo e todos permaneciam em posição de sentido. (RONDON) 

Theodore Roosevelt (1914) 

 

07.01.1914 – Num destes locais, chamado Porto do Campo, de 60 a 70 (50 quilometros) quilômetros acima da Foz, existe uma fazenda de boa extensão. Ali fizemos alto, pois a lancha e as duas pranchas – embarcações nativas de comércio, com casa no convés – que ela rebocava, não comportavam toda a comitiva e bagagem. Assim, grande parte da bagagem e alguns do nosso grupo foram mandados à frente para Tapirapoã, ponto onde devíamos encontrar nossa tropa cargueira. Enquanto isso, nós com o resto da comitiva fizemos nosso primeiro acampamento de barracas em Porto do Campo, para aguardar a volta das embarcações. As barracas ficaram enfileiradas. Ao centro, lado a lado, a do Coronel Rondon e a que abrigava a mim e a Kermit. Em frente às duas, em altos mastros, as bandeiras do Brasil e da América; ao nascer e ao pôr do Sol as bandeiras eram içadas e arriadas ao toque de corneta e nós todos nos perfilávamos. O acampamento foi instalado junto à casa da fazenda. Nas árvores próximas viam-se admiráveis orquídeas violáceas. (...) 

08.01.1914 – Certo dia, quando remávamos numa canoa esperando que os cães tocassem uma anta para nós, eles trouxeram para o Rio um casal de pequenos veados catingueiros. Não seria decente matá-los a tiro, por isso apanhamo-los a laço. Os naturalistas queriam obtê-los como espécimes; e nós outros como petisco. Um dos homens foi picado por um marimbondo vermelho. Sentiu fortes dores durante vinte e quatro horas e ficou impossibilitado de trabalhar. Em uma lagoa dois cães tiveram as pontas das caudas arrancadas por piranhas, quando nadavam, e o pessoal da fazenda contou que na mesma lagoa um cão fora despedaçado e devorado por aqueles peixes vorazes. Foi esse um outro exemplo a mais da variedade de comportamento daqueles monstrozinhos ferozes. Em outras lagoas deixaram incólumes a nós e aos cães por vezes repetidas. Variam em agressividade conforme o local, exatamente como os tubarões e crocodilos variam em mares e Rios diversos. 

09.01.1914 – A 9 de janeiro, pela manhã, saímos para uma caçada de antas. Caça-se a anta em canoas, pois elas moram no mato cerrado e, quando tocadas pelos cães, vêm para a água. Naquela região havia extensos pantanais com papiros e grandes lagoas longe do Rio. Muitas vezes as antas rumavam para elas em busca de abrigo, despistando os cães. Nesses lugares era excessivamente difícil apanhá-las e nossa melhor oportunidade seria ficar no Rio e levar as canoas para o ponto a que a corrida parecesse dirigir-se.

 

Partimos em quatro canoas. Três delas eram montarias de índios, calando muito na água. A quarta era a nossa excelente canoa canadense, leve, segura e espaçosa, feita de finas fasquias de madeira cobertas de tela revestida de cimento. O Coronel Rondon, Fiala com sua câmara fotográfica e eu fomos na canoa com dois remeiros, nativos das classes mais pobres, gente boa. O remeiro da frente era de quase pura raça branca; o da ré, quase preto legítimo, e evidentemente era o de melhor caráter entre os dois. As outras duas canoas levavam dois estancieiros que tinham vindo de Cáceres com seus cães. Estas montarias estavam tripuladas com remeiros índios e mestiços; e os fazendeiros, que eram brancos quase puros, também remavam vigorosamente algumas vezes. 

Todos vestiam roupas quase iguais, sendo que as dos “camaradas”, isto é, homens mais pobres ou trabalhadores, eram esfarrapadas. Nas canoas não usavam senão camisa, calças e chapéu, todos de pés descalços. A cavalo punham compridas perneiras que eram realmente simples botas altas, flexíveis, sem solas; usavam esporas nos pés descalços. Havia todas as gradações de raças entre branca quase pura, a negra e a indígena. No conjunto, havia mais sangue branco nas classes altas e mais de negro e índio entre os camaradas; mas notavam-se exceções em ambas as classes, e não havia distinções por questão de cor. Todos eram igualmente corteses e amistosos. Os cães foram a princípio conduzidos em duas das montarias, sendo então soltos sobre o barranco. (...) 

Afinal, saltamos em terra num ponto onde havia mato baixo e onde a floresta era um palmeiral de franco acesso. Era um lindo trecho de floresta. O Coronel Rondon seguiu para um lado, voltando uma hora depois com um caxinguelê (serelepe – Sciurus pricktossauro hex) para os naturalistas. Fiala e eu fomos pelo palmeiral até um alagadiço coberto de papiros. Muitas trilhas se dirigiam para o mato, especialmente ao longo das margens do alagadiço e, embora fossem quase todos feitos pelo gado, havia neles também pegadas de anta e de veado. A anta deixa um rasto muito semelhante ao de um pequeno rinoceronte, sendo um dos singulares ungulados. Podíamos ouvir os cães, de vez em quando, evidentemente espalhados em várias trilhas. Era um lote de cães de fila sem préstimo. Corriam anta ou veado, ou qualquer coisa que deles fugisse, enquanto a trilha fosse fácil de seguir; mas não eram perseverantes, mesmo a perseguir animais em fuga e não queriam saber de animais perigosos.

 Enquanto parados junto ao alagadiço, ouvimos algo que vinha por um dos carreiros. Em poucos momentos apareceu um garboso macho da maior espécie de veado mateiro. Parou e flechou para trás logo que nos percebeu, não nos dando oportunidade de atirar; em seguida avistamo-lo correndo a toda velocidade no palmeiral. Apontei minha arma para uma abertura entre duas palmeiras. Por sorte o cervo surgiu ali, dando-me tempo a firmar o ponto à frente dele e atirar. Caiu no mesmo lugar. O projétil “ponta de umbela” furou-lhe a paleta e indo para a frente quebrou-lhe o pescoço. A parte plúmbea (de chumbo) da bala, da exata forma do cogumelo ou umbela, parou sob o couro do pescoço, no lado oposto. É um projétil excelente. (...) 

Penduramos o veado numa árvore. O Coronel Rondon regressou e com pouca demora um dos remeiros que ficara observando o Rio gritou para nós que havia uma anta nágua, a uma boa distância Rio acima, e que duas das canoas estavam no seu encalço. 

Pulamos na canoa e os dois remeiros fincaram os remos n’água, impelindo-a contra a forte correnteza, cortando-a de viés para a outra margem. A anta vinha Rio abaixo a grande velocidade, tendo somente a sua característica cabeça fora d’água, enquanto as pirogas vinham rapidamente alcançando-a, entre gritos dos remeiros. Quando a anta se voltava um pouco para um e outro lado, a tromba comprida ligeiramente erguida e o forte arqueado do alto da cabeça e parte superior do pescoço davam-lhe um aspecto peculiar e pouco usual. 

Não consegui atirar porque o animal estava emparelhado com uma das pirogas que o perseguiam. Subitamente mergulhou, baixando um pouco a tromba, em curva, ao fazê-lo. Não havia mais sinal dela; olhávamos atentos para todos os lados. A piroga da frente acostou à nossa canoa e os canoeiros esperaram com os remos prontos. Vimos então a anta subindo o barranco. Tinha nadado sob a água, em ângulo reto com a direção em que vinha, até a margem, surgindo sob a ramaria pensa em um ponto onde um carreiro de caças beberem abria uma brecha na barranca. 

Os ramos parcialmente ocultavam a anta que ficava na sombra escura. Não se podia atirar bem. Minha bala penetrou-lhe o corpo muito atrás e a anta desapareceu no mato a correr, como se não fosse atingida, embora a bala realmente houvesse acertado o alvo, tirando-lhe a vontade de confiar na velocidade e de deixar a proximidade da água. Três ou quatro cães estavam a esse tempo nadando para o outro lado, enquanto os outros ladravam no lado oposto; tão logo alcançaram a outra margem foram postos no rasto da anta e correram ganindo. Em dois minutos vimos a anta cair n’água à distância, Rio acima, e fomos ao seu encalço tão rápidos quanto nos permitiam os remos cortando a água. Não chegamos a tempo de cercá-la, mas por fortuna alguns cães tinham chegado à beira do Rio justamente no ponto onde a anta ia ganhar a terra e repontaram-na para trás. Dois ou três cães estavam nadando. Estávamos a mais de meia largura do Rio, longe da anta, um tanto Rio abaixo, quando ela mergulhou. 

Fez desta vez um mergulho surpreendente, muito demorado, nadando sob a água como se fosse um hipopótamo, pois passou sob a nossa canoa e surgiu entre nós e a barranca próxima. Alvejei-a. A bala atingiu-lhe o crânio. Afundou imediatamente.

Nada havia agora a fazer, senão esperar que o corpo flutuasse. Eu temia que a correnteza forte o arrastasse para baixo, pelo leito do Rio. Mas meus companheiros asseguraram-me que não era assim e que o corpo ficaria onde afundara até que flutuasse, o que se daria dentro de uma ou duas horas. Tinham razão, exceto quanto ao tempo. Por espaço de duas horas remamos ou paramos a canoa sobre o local, firmando-nos nas galhadas, ou então rodamos por um quarto de légua e subimos de novo costeando a praia, a ver se o corpo havia engastalhado nalgum ponto. 

Cruzamos então o Rio e fomos almoçar no lugar onde o veado fora pendurado, lugar ideal para piqueniques. Quase havíamos desistido da anta, quando de súbito ela surgiu apenas alguns passos abaixo do lugar onde afundara. O corpanzil negro e redondo foi com grande dificuldade içado para a canoa e todos viramos de proa Rio abaixo. O tempo estava se tornando carregado, e agora – já tarde para atrapalhar a caçada ou nos aborrecer – um pesado aguaceiro nos apanhou em cheio. Pouco nos importava, pois a canoa avançava com a anta e o grande veado no fundo e um acampamento confortável e seco estava à nossa espera. (...) 

Aquele acampamento era interessante e atraente por mais de um motivo. Os vaqueiros, com esposas e filhos, estavam alojados nos dois lados do campo onde nossas barracas foram armadas. De um lado havia uma grande casa caiada e coberta de telhas, onde residia o administrador – um homem azeitonado, de constituição delgada e férrea, com uma esposa também cor de azeitona, e oito pequenos bonitos com lindíssimos cabelos. Geralmente o administrador andava descalço e suas maneiras não só eram boas, como também distintas. Currais e ranchos estavam próximos àquela casa. No lado oposto do campo ficava a fileira de cabanas de coberta inclinada de folhas de coqueiro em que os vaqueiros residiam com suas escuras companheiras e os filhos. Todas as noites ouvíamos, partindo do lado daquelas choças, os sons amortecidos de uma música que lhes fazia lembrar a ascendência selvagem, tão próxima no tempo e simultaneamente distanciadíssima; no ar quente e parado, sob o luar brilhante, ouvimos o bater monótono de um tambor e o tanger de algum antigo instrumento de corda. (...) 

A anta que eu matara era das grandes. Não desejava abater outra, exceto, é claro, se fosse isso aconselhável para obtermos alimento; desejava conseguir alguns espécimes do grande porco selvagem de beiço branco, o “queixada” dos brasileiros [em inglês pronuncia-se “cashada”], que tornariam quase completa nossa coleção de grandes mamíferos das florestas brasileiras. Os outros membros da expedição mataram mais duas ou três antas. Um era macho adulto, porém muito menor que o exemplar que eu matei. Os caçadores disseram que era uma variedade diferente. O crânio e o couro foram remetidos com os outros espécimes para o Museu, onde depois do devido exame e comparação sua identidade específica seria estabelecida.

As antas são animais solitários. Raramente se encontram duas juntas, exceto no caso da mãe com a cria. Vivem no matagal denso, dormindo durante o dia e à noite saindo para pastar, frequentando o Rio ou alguma lagoa para banhar-se e nadar. (...) 

Levei dois dias de árduo labor para apanhar o grande queixada de beiço branco – denominação imprópria, aliás, pois toda a parte inferior da maxila é branca, assim como a parte baixa da cara. Informaram-nos de que a certa distância, além da outra margem do Rio, eles seriam encontrados. O Coronel Rondon mandara um de nossos homens, um índio Paresi puro sangue, seu antigo companheiro, à procura de rastos. Era um homem excelente que trajava e procedia como todos os excelentes homens que tínhamos. Chamava-se Antônio Paresi. Ele encontrou o rasto de uma vara de 30 ou 40 queixadas e no dia seguinte partimos no seu encalço. 

Nada matamos no primeiro dia. Éramos um grupo muito grande, pois alguns dos fazendeiros que nos visitavam levaram seus cães. Tenho minhas dúvidas sobre se estes homens queriam mesmo encontrar os queixadas grandes, pois estes são mortíferos inimigos de cães [e às vezes perigosos para os homens]. Um dos visitantes se recusou francamente a ir ou a deixar que seus cães fossem, explicando que os ferozes porcos-do-mato “eram muito mal-educados” [segundo suas próprias expressões] e que os homens e cães que se prezavam não deviam aproximar-se deles. 

Os outros fazendeiros só se mostravam receosos unicamente por seus cães; receio sem fundamento, segundo creio, pois não penso que os cães pudessem ser, por qualquer meio, levados até a perigosa vizinhança de tais adversários. Benedito, capataz da fazenda, foi conosco assim como dois ou três outros camaradas, inclusive Antônio, o índio Paresi. Os cavalos foram levados a nado através do Rio, cada um ao lado de uma piroga. Passamos em seguida com os cães e, selados os cavalos, partimos. 

Era uma cavalgada pitoresca. Os caçadores nativos, homens de todas as cores, desde o branco ao cobreado escuro, usavam todos perneiras de couro sobre os pés descalços munidos de esporas, com rosetas de quatro polegadas de diâmetro. Seguíamos à retaguarda, pois só esse modo de viajar era possível. Dois ou três homens à frente levavam os facões desembainhados, abrindo com eles cada metro da trilha, enquanto estávamos no mato. Os caçadores iam em cavalos inteiros e seus cães eram castrados. Na maior parte do tempo estávamos em mata pantanosa. Em certos trechos transpusemos ou contornamos campos alagadiços. Num deles pastava uma manada de gado semisselvagem. Garças, socós, patos e jaburus existiam nesses charcos; e vimos um bando de lindos colhereiros róseos. 

Em um capão, as figueiras estavam asfixiando as palmeiras assim como na África matam os pés de sândalo. À sombra desse capão não havia flores nem arbustos. O ar era pesado, o solo escuro coberto de folhas secas. Cada palmeira servia de suporte a uma figueira que apresentava todos os estágios de desenvolvimento. As mais novas subiam pelos estípites (caules das palmeiras) como simples trepadeiras. No estágio seguinte, a trepadeira já encorpada estendia seus rebentos, envolvendo o tronco em um amplexo mortal; alguns destes abraçavam-no como tentáculos de enorme polvo. Outros pareciam garras, cravadas em cada fenda, em torno de qualquer saliência. No estágio que a este se sucedia, a palmeira já fora morta e seu esqueleto sem vida aparecia entre os fortes braços da grossa trepadeira nela enroscada; afinal, em outros casos, a palmeira já desapareceu e as grossas hastes se uniram para formar uma grande figueira. Havia negros poços d’água aos pés das árvores mortas e de suas assassinas. Algo de sinistro e diabólico pairava na penumbra silenciosa do capão, como se, naquele ermo, seres conscientes estivessem envolvendo e estrangulando outras criaturas conscientes. 

Passamos por matas admiráveis de altas palmeiras babaçu. Os estípites erguem-se esbeltos e fortes a grande altura, com os ramalhetes de palmas de sete a dez metros de comprimento, nos quais as espatas verdes se inserem aos pares, em ângulo reto. Em torno às lagunas, solenes buritis levantam-se como grandes colunas, abrindo em leque as grandes palmas de compridas e rijas folhas, que irradiam do ponto extremo do tronco. Havia uma árvore recoberta das cores vivas de um bando de araras multicores. Ao alto, em algazarra, voavam papagaios. (...) 

Naquelas matas, a multidão de insetos que picam, ferretoam, devoram e preiam outras criaturas, muitas vezes com o complemento de atrozes sofrimentos, excede tudo o que se possa acreditar. O mito comovente da “natureza benfazeja” não poderia enganar até mesmo à criatura mais ingênua, se a esta fosse dado verificar por si própria a férrea crueldade da vida na zona tropical. É fora de dúvida que “a natureza” – expressão inteiramente imprópria, diga-se de passagem, na linguagem comum, especialmente quando usada para designar um todo único – é verdadeiramente implacável, não menos com relação aos tipos do que aos indivíduos, e absolutamente indiferente ao bem e ao mal, prosseguindo em suas finalidades com inteiro desprezo pela desgraça e pela dor que inflige. (ROOSEVELT) 

Filmete Expedição pelos Rios Paraguai e Sepotuba:

 

https://www.youtube.com/watch?v=-ek3beISFFA 

 

Fontes: 

MAGALHÃES, Amílcar Armando Botelho de. Impressões da Comissão Rondon ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Companhia Editora Nacional, 1942.

 

 

ROOSEVELT, Theodore. Nas Selvas do Brasil ‒ Brasil ‒ São Paulo ‒ Livraria Itatiaia Editora Ltda ‒ Editora da Universidade de São Paulo, 1976.

 

 

ROQUETTE-PINTO, Edgard. Rondônia ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Companhia Editora Nacional, 1938.

 

 

VIVEIROS, Esther de. Rondon Conta Sua Vida ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Livraria São José, 1958.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);

Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

 

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