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Religião - 28/09/2015 - 06h18

Casa de madeira esconde santo de 140 anos, achado por bisavó em guerra paraguaia




Fotos: Gerson Walber

Devoção começou em dona Francisca e há duas décadas alcançou a bisneta Ramona.



Arcanjo foi encontrado em campo de batalha, após a Guerra do Paraguai, em 1870.



Balas de canhão vindas da Guerra do Chaco viraram vaso de flores.



Novena começou terça-feira passada e termina amanhã, em missa, no Dia de São Miguel.
Por Paula Maciulevicius do Campo Grande News / Redação Pantanal News

A casa de madeira da Vila Carvalho reserva o primeiro cômodo para São Miguel. O arcanjo que desde 1875 é passado de mãe para filha. Começou em dona Francisca e há duas décadas alcançou a bisneta Ramona. No oratório, estão presentes da história de duas guerras do Paraguai. Abaixo de São Miguel, os vasos de flores foram feitos a partir de balas de canhão, vindas da Guerra do Chaco. 

A devoção a São Miguel na família começou com a imagem encontrada no fim da Guerra do Paraguai, nos anos de 1870. "Minha bisavó foi sargenta na guerra de Solano Lopez, quando terminou, cada um foi para a sua casa. Ela veio dos campos de batalha, andando, em meio aos corpos", conta Ramona Lugo Samúdio, de 79 anos.

Francisca, a bisavó, tinha entre 19 e 20 anos e foi para a guerra como enfermeira. Saiu de um campo de batalha em Cerro Corá e a pé, levou dias para chegar até a Fazenda São José, próximo de Coronel Oviedo, onde morava com a família. No trecho ela encontrou um baú e levou consigo.

"Quando ela chegou na fazenda, só tinha uma irmã, pai e mãe tinham morrido. Elas ficaram e um bispo as trouxe para Assunção, ele quem explicou que São Miguel era um arcanjo. Ninguém sabia o que fazer", conta Ramona. A bisneta não conheceu Francisca pessoalmente, só pelas histórias que assim como a fé, são passadas entre as mulheres da família.

A data de 1875, gravada no chapéu do arcanjo, é o que a família se baseia para contar desde quando o dia de São Miguel é comemorado.

"É uma relíquia para nós. É a devoção da família e dos amigos", descreve Ramona. O Dia de São Miguel mesmo é amanhã, 29 e desde terça-feira da semana passada, uma novena reúne familiares e conhecidos de Ramona no quintal de casa, em frente ao oratório.

"Ele é poderoso, depois de Deus, São Miguel. Se você seguir muito bem, consegue tudo o que deseja. Ele luta contra o mal, é chefe da igreja ao lado dos arcanjos Rafael e Gabriel", conta Ramona.

Da bisavó Francisca Martinez Canavessi, São Miguel passou para a avó Agostina Canavessi, até chegar à mãe de Ramona, Maria Candelária Canavessi Valejo de Lugo. Esposa de João Lugo, que lutou na Guerra do Chaco, na década de 1930, de lá veio outra relíquia, de menor valor simbólico, as balas de canhão que se transformaram nos vasos de flores do oratório.

"Em 1983 minha mãe veio morar comigo e trouxe São Miguel e antes de ela falecer, ela fez o oratório porque ele tinha de ficar no lugar dele", conta Ramona. Depois o arcanjo passou primeiro para a irmã dela, Joana, para então, em 1992, voltar à casa.

A origem de São Miguel, para a família, é um mistério. "A gente só sabe que ele foi encontrado. Mas quem fez ele? Ninguém sabe", se pergunta Ramona. A rotina da senhorinha de fé é acordar cedo e todos os dias acender velas ao arcanjo e pedir pelos filhos e netos. "Quando eles vão viajar, eu peço por proteção. Meu filho faleceu de repente e todo mundo achou que eu ia deixar de fazer, mas não. Minha fé é tão grande que eu jamais vou deixar. É uma coisa, se parar para pensar, minha bisavó encontrou ele, num campo de batalha, entre os corpos e só passa para as mulheres..." narra.

O arcanjo não é de ninguém da família. Na avaliação de dona Ramona, pode ser ela quem cuide e prepare a novena, mas com a ajuda de todo mundo. Acompanha do livro de oração em espanhol, ela nos convida para a novena. Amanhã, na terça-feira, 29 de setembro, Dia de São Miguel mesmo, a casa chega a ter 150 pessoas para a missa.

"Milagres? São Miguel faz e muitos. Todos os dias eu rezo, pelos devotos ou não. Tenho sempre mais agradecimentos do que pedidos. Se você recebe, agradeça e eu recebo muito. Saúde e principalmente união da família, essas coisas tem um valor bem maior", diz.

Entre a família, eles brincam que é São Miguel quem escolhe com quem vai ficar. "A gente não entende porquê, mas sempre tem que ser uma mulher, não sei se tem que ser, ou se por um acaso fica. Ele foi encontrado por uma mulher e nunca passou para os homens", finaliza Ramona.

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