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Artigos - 10/09/2015 - 06h28

Circunavegação da Laguna dos Patos















Por Hiram Reis e Silva (*)

A verdadeira medida de um homem não se vê na forma como se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio. (Martin Luther King) 

Hiram Reis e Silva (*), Bagé, RS, 10 de setembro de 2015 

Nossa proposta para esta “VI Jornada na Laguna dos Patos” era a de realizar a sua Circunavegação, partindo da Varzinha rumo Sul pela Margem Oriental, atravessando-a na altura da Ilha Marechal Deodoro e retornando pela Margem Ocidental desde a Ilha da Feitoria até Ipanema. 

Preparativos Finais (12.05.2015) 

O Comandante Norberto Weiberg e suas duas filhas Caroline e Anelise passaram em minha residência onde atrelamos o caiaque ao reboque que já carregava o veleiro “Corais”, modelo “Day Sailer”, e nos deslocamos até a Varzinha. 

No Camping da Varzinha (30°19’19,8” / 50°54’24,9”) foi preciso contar com o concurso de um trator para lançar o veleiro às águas. Ajudei o Comandante Norberto a colocar o mastro no “Corais” e montamos o acampamento, por questão de segurança, na praia, em terreno descampado, próximo às embarcações e à nossa carga. Usamos o caiaque como quebra vento para diminuir a força do vento Nordeste, de mais de 20 km/h, que golpeou, sem trégua, a barraca durante toda a noite. 

Rumo à Fazenda Vitória (13.05.2015) 

Propus a construção de duas carretas grandes o suficiente e resistentes o bastante para que se colocasse um lanchão sobre cada uma delas – e a atrelagem de bois e de cavalos na quantidade necessária para puxá-las. Minha proposta foi aceita e eu fui incumbido de levá-la a efeito.
(Giuseppe Garibaldi – DUMAS)
 

Hoje pela manhã, partimos, por volta das 08h30, com a proa na direção da Ponta do Abreu (30°20’12,1” / 50°47’44,3”) e depois de uma breve parada aproamos para a Ponta do Anastácio (30°22’02,7” / 50°43’46,5”), limites da Lagoa do Casamento (uma enseada da Laguna dos Patos) palco da memorável manobra levada a efeito por Giuseppe Garibaldi que embora não tenha sido usada pela primeira vez na história da humanidade, com certeza, surpreendeu as força imperiais. O profundo conhecimento da História e, em especial, da História da Roma Antiga inspiraram Garibaldi a realizar a épica transposição. As águas da Lagoa do Casamento e do Saco do Cocuruto são bem oxigenadas, e apresentam um baixo índice de poluição que pode ser atestado pela quantidade de moluscos que povoam a área. As margens encontram-se em excelente estado de conservação e a vegetação apresenta raros indícios de desmatamento. 

Logo depois de reiniciarmos nossa jornada, a vela principal do “Corais” rasgou-se totalmente, era um mau sinal, o Comandante Norberto teria agora de contentar-se apenas com a bujarrona e o motorzinho de popa para a navegação. 

Bujarrona: vela que se iça no mastro principal e fica presa ao estai de proa. O curioso nome foi dado em função da semelhança com o formato de um bujão que a vela assume ao ser enfunada pelo vento. (Hiram Reis) 

Aportamos a algumas dezenas de metros ao Norte da Fazenda Vitória. A semelhança do terreno, da tomada d’água e de um barracão próximo a mesma induziram-nos ao erro. Acampamos novamente na praia e depois do jantar preparado pelo Comandante Norberto dormimos. O vento, desta feita, dera-nos uma trégua e a noite foi bastante tranquila. 

Rumo ao Porto do Barquinho (14.05.2015) 

Andando à beira do mar da Galileia, Ele viu dois irmãos, Simão, que é chamado Pedro, e André, seu irmão, abaixando uma rede no mar, pois eram pescadores. (Mateus 4:18) 

Quando partimos, de manhã cedo, avistamos um pescador que recém começara a inspecionar uma de suas redes. Em seu barco 50 quilos de traíras mostravam que a pescaria noturna fora altamente compensadora. O vento Nordeste baixara em mais de 20 cm o nível das águas forçando-nos a empurrar o “Corais” sobre alguns bancos de areias antes submersos. 

Os avistamentos de bandos de capororocas (Coscoroba coscoroba) tornavam-se cada vez maiores e mais frequentes. Tanto o nome científico como o popular lembram o som emitido pela ave (onomatopeia). O capororoca tem um pescoço curto demais para ser considerado um cisne e é muito grande e possui hábitos bastante distintos dos gansos tornando-se, portanto, sua classificação um enigma para a ciência. 

O Comandante Norberto perdera-se de mim desde a última parada. O Sol estava alinhado com minha posição e isso impedia que ele me avistasse, mas, como tínhamos combinado de nos encontrar na Ponta de São Simão, quando lá cheguei encontrei-o me aguardando. Pedi que ele fosse à frente contatar nosso velho amigo pescador o conhecido o Sr. Jaime de Souza Laguna que residia no Porto do Barquinho. 

Depois de remar 115 km em dois dias mantendo uma média de pouco mais de oito horas de remo diárias eu aportara com tranquilidade no Porto do Barquinho. Quando lá cheguei apoiado pelo Sr. Jaime e mais dois pescadores arrastamos o veleiro para a margem para poder drenar a água que se infiltrara pela caixa da bolina. O veleiro usado, que meu amigo comprara, vinha apresentando problemas desde o primeiro dia de navegação. 

Montamos nossos colchões na casa do Sr. Jaime e deitamos aguardando o fruto de sua pescaria. Como o companheiro tardasse demais acabamos adormecendo sem ter jantado. 

 

Rumo ao Farol Capão da Marca (15.05.2015) 

O canal navegável na Lagoa dos Patos segue paralelo à costa Oriental, rumo NE até o Farol Capão da Marca, quando se inflete sensivelmente para o Norte, até o Farol de Itapoã, na Barra do Guaíba. (DNPM) 

De manhã empurramos o veleiro para água e partimos aproados para o Farol Cristovão Pereira construído na ponta de idêntico nome. Ao me aproximar do Banco do Cristovão Pereira avistei dois pescadores que estavam verificando suas redes e enquanto perguntava a eles qual o melhor lugar para a passagem do veleiro o Comandante Norberto já tinha desembarcado e empurrava o “Corais” tranquilamente pelo Banco.  

Fizemos uma pequena parada, às 10h20, no Farol antes de continuarmos nossa jornada. Na segunda parada, na Ponta do Cristovão Pereira, estendi meus pertences sobre alguns pinheiros que tinham sido cortados anos atrás. A ação das águas tinha erodido, entre dez e vinte metros, as praias Ocidentais da Ponta Cristovão Pereira e os pinheiros que antes ocupavam a terra firme estavam agora mergulhados nas águas tumultuárias da Laguna. Quando passei por aqui, no dia 12.04.2011, acompanhado pelo Professor Romeu Henrique Chala a realidade era outra. 

Os troncos cortados entrelaçavam suas raízes formando um curioso corredor que lembrava o esqueleto de ancestral trapiche. Incrustados nos troncos dos carcomidos pinheiros, graciosos cogumelos com colorido forte, formato elaborado e peculiar tornavam mais terna, mais viva a imagem daquela tétrica necrópole arbórea. As frutificações daqueles fungos superiores lembravam broas de milho torneadas pelas hábeis mãos de celestiais cozinheiros. 

Aportamos no Farol Capão da Marca por volta da 17h20, depois de remar 46 km. Novamente acampamos na beira da praia e como as marcas de pneus denunciassem a passagem de veículos por ali providenciei a colocação de obstáculos além de deixar o lampião elétrico aceso durante toda a noite. O Comandante Norberto preparou nosso rancho ao lado do Farol e logo depois de consumi-lo fomos repousar. 

Rumo à Barra Falsa do Bojuru (16.05.2015) 

Partimos depois de o Sol nascer. Aproei diretamente para as formidáveis figueiras fotografadas pelo Comandante Geraldo Knippling no seu livro: “O Guaíba e a Lagoa dos Patos”, onde aportamos por volta das 12h30, depois de ter feito uma parada intermediária. A erosão provocada pelos veículos que denunciáramos em 2011 continuavam a solapar criminosamente os alicerces daquelas monumentais figueiras. Dali nos dirigimos diretamente para o Farol do Bojuru onde o Comandante Norberto conseguiu aproximar-se e ancorar com seu versátil veleiro. 

Rumamos, então, diretamente para a Barra Falsa do Bojuru onde poderíamos desfrutar das confortáveis instalações da Fazenda do amigo Paulo Santana previamente alertado pelo Coronel PM Sérgio Pastl.  

Os funcionários já tinham sido informados de nossa chegada e além das gentilezas habituais, acomodações limpas, banheiro quente e um jantar quente a base de peixes ainda conseguiram um trator para arrastar o veleiro até a margem para que a água que penetrara no seu casco fosse devidamente drenada. Remei 50 km neste dia. 

Rumo à Ponta dos Lençóis (17.05.2015) 

Nossos novos amigos empurraram o Veleiro para a água e continuamos nossa jornada enfrentando forte neblina que só veio a dissipar-se por volta das 13h00. O assoreamento obrigou o veleiro a se afastar da costa e tive de acompanhá-lo para não perdermos o contato visual. 

Na segunda parada para descanso indaguei de um ribeirinho sobre a localização da Z2, colônia de pescadores a que pertence meu caro amigo José Luís Jardim da Silva, mais conhecido como Zé do Dedé. Ele nos deu algumas dicas de como nos aproximar contornando o Banco de areia que se estende à frente da Z2.  

Quando cheguei à Z2 estranhei o avançado estado de degradação da antiga residência do Zé. Não havia viva alma na colônia e havia uma casa nova próxima das demais que achei se tratar da nova residência de meu caro amigo que tão gentilmente nos acolhera em 2011. Eu tinha remado 40 km, totalizando 251 km na Costa Ocidental. 

Levando a Bordo El-Rei D. Sebastião 

 

(Fernando Pessoa) 

II. HORIZONTE 

[...] Linha severa da longínqua costa –

Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta

Em árvores onde o Longe nada tinha;

Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:

E, no desembarcar, há aves, flores,

Onde era só, de longe a abstrata linha. [...] 

 

Rumo à Ilha da Feitoria (18.05.2015) 

E é conhecida por Ilha da Feitoria a Ilha de Cangussu, na Lagoa dos Patos, por ter sido nela, por ordem do governo português, estabelecida, em 1785, uma Feitoria para o cultivo do linho, que aí dá de qualidade superior. (Fernando Luiz Osório) 

O Comandante Norberto, através da Carta Náutica, marcou as coordenadas da Ilha Marechal Deodoro no GPS e partimos, encobertos pela bruma, rumo à pequena Ilha artificial. Não gosto de navegar sem divisar o continente, sinto falta das praias, do murmúrio dos arroios, das grandes figueiras esculpidas pelos ventos, das cores das flores dos campos, da beleza invulgar das orquídeas e das bromélias. A névoa durou a manhã inteira e só veio a se desfazer por volta das 13h00. Depois de navegar por 23 km aportamos na Ilha Mal Deodoro. O odor de peixes, descartados pelos pescadores, em decomposição empestava o ar no entorno da Ilha. Fizemos um breve descanso e partimos rumo à Fazenda Soteia na Ilha da Feitoria. 

Aportamos, às 14h00, na Fazenda Soteia, depois de navegar mais 11 km, totalizando 285 km de circunavegação. Fui, imediatamente, fazer contato com o “Catarina” (caseiro da fazenda). 

O Catarina autorizou que acampássemos junto a um tabocal próximo ao trapiche, rebocou o veleiro com um trator para a margem para que se esgotasse a água do porão e permitiu que usássemos o banheiro, um conforto muito especial para humildes marujos. Depois do banho ficamos conversando até as 19h00 enquanto o Norberto preparava o jantar. Como havia eletricidade, carregamos as baterias do computador e máquinas fotográficas. 

Trepado em um mourão de cerca, consegui sinal de celular e convidei a Rosângela para passar um dia comigo em São Lourenço. 

Rumo à São Lourenço do Sul (19 a 20.05.2015) 

S. Lourenço – Fundou-a, em 1858, Jacob Rheingantz, na Serra das Taipas, Município de Pelotas, com auxílios do governo. Sua prosperidade tem ido gradualmente em aumento. [...] Os colonos dedicam-se à lavoura e à indústria de criação. A produção agrícola consiste em trigo, centeio, cevada, milho, feijão, batatas, etc. (DANTAS) 

Partimos cedo, e aportamos na Pérola da Laguna, “Terra de Todas as Paisagens”, no dia 19.05.2015. A viagem curta (33 km) transcorreu sem maiores alterações, o vento de proa de até 15 km/h não prejudicou por demais a navegação. Consegui, durante a viagem contatar, novamente, a Rosângela que já estava a caminho de São Lourenço do Sul. 

Quando nos acercamos da cidade, a Rosângela já nos esperava na Foz do Arroio São Lourenço. Aportamos em uma das rampas do Iate Clube de São Lourenço do Sul, o Norberto acampou nas instalações do Iate Clube e eu e a Rosângela fomos nos hospedar na Pousada da Laguna Apart Hotel. Foi muito bom poder contar, ainda que por apenas um dia, da companhia da minha querida prenda e desfrutar dos confortos da civilização. Totalizamos até agora 318 km de circunavegação. 

Rumo à Fazenda Flor da Praia (21.05.2015) 

Lago Verde-Azul

(Helmo de Freitas) 

 

https://www.youtube.com/watch?v=X4F7K7v2Lk0 

 

Um medo de andar solito

Ouvindo vozes e gritos

E até do barco um apito

Na sua imaginação

Olhos esbugalhados

Do moleque assustado,

Olhando aquele mar bravo

Ora doce, ora salgado

Num temporal de verão. [...]

 

Tempos que ainda tinha

O bailado da tainha

Quando o boto vinha

Com gaivotas em revoada

E entre outros animais,

No meio dos juncais,

Surgiam patos baguais

E hoje não se vê mais

Este símbolo da aguada. [...] 

Helmo de Freitas, o “Carijó Cantador”, nascido na fazenda Flor da Praia, às margens da Laguna dos Patos, Município de Camaquã, foi sempre uma figura destaque nos festivais sulistas. O “Carijó” é pesquisador, letrista, musicista e intérprete de suas próprias composições. 

Despedi-me da Rosângela e partimos antes do alvorecer rumo à Fazenda Flor da Praia, um tiro longo de 53 km. O veleiro do Comandante Norberto apresentou pane no motor de popa, logo depois de ultrapassar a ponta do Quilombo, e voltou para São Lourenço do Sul. Perdi uma hora e meia ao ter de retornar até o veleiro, carregar o material no caiaque e, em virtude disso, não consegui chegar até a Fazenda Flor da Praia. 

Tive de pernoitar, confortavelmente, no Engenho (IRGA) onde fui muito bem recepcionado pelo amigo Jarbas e o caseiro que me cobriram de atenções. Remei mais do que o programado (56 km), em virtude da pane do motor de popa do veleiro, totalizando 374 km de circunavegação. 

Rumo à Arambaré (22 a 24.05.2015) 

Parti, às 06h15, para Arambaré onde aportei no Clube Náutico local, às 15h20, depois de deleitar-me com a visão ímpar das inúmeras figueiras ao longo de toda a margem. Percorrera 48 km desde o IRGA até Arambaré, totalizando até agora 422 km. Resolvi pernoitar na Pousada Recanto Gipa e convidar a Rosângela para passar o fim de semana comigo na agradável cidade, evitando navegar enfrentando ventos fortes de proa. 

Em Arambaré recebemos, no sábado (23.05.2015), a visita do grande amigo Pedro Auso Cardoso e, no domingo (24.05.2015), ao ir até o Clube verificar o meu caiaque encontrei os canoístas Rodrigo Ventura Oliveira e Maurício Lima que partiram de Jaguarão com destino à Tapes. No percurso de Jaguarão a Pelotas os dois foram acompanhados pelo meu dileto amigo Antonio Buzzo que acompanhou-nos, na Circunavegação da Lagoa Mirim da Ilha Grande do Taquari (01.01.2015) até a Ponta do Santiago (06.01.2015). 

Rumo à Costa de Santo Antônio (25.05.2015) 

A Rosângela me ajudou a carregar o material até o Clube Náutico e depois o caiaque até o Arroio Velhaco de onde parti por volta das 06h20. Aproei diretamente para o Pontal D. Helena enfrentando ondas de través de mais de metro geradas por um vento de Sudeste de 20 km/h. Depois de uma breve parada no Pontal, continuei a viagem com a proa apontada diretamente para o Pontal de Santo Antônio com o Sol, pouco acima da linha do horizonte, batendo de frente o tempo todo. 

Os bancos de areia no entorno do Pontal D. Helena forçavam-me a alterar a rota constantemente. O vento aumentou de intensidade e as ondas de través de mais de metro e meio golpeavam com violência a borda de Boreste do meu valoroso caiaque “Cabo Horn”. O “Cabo Horn” seguia seu curso impassível como um Lorde britânico, estável, firme, inabalável como um rochedo. 

Aportei uns 4 km adiante do Pontal. Subi na duna mais alta e tentei falar com o Coronel Pastl e familiares sem sucesso, finalmente consegui me comunicar com a Rosângela e pedi que os mantivesse informados de minha progressão. O vento e as ondas amainaram e tinha decidido remar, sem parar até o pôr-do-sol, quando, de repente, fui convidado a ancorar no acampamento de um simpático pescador. O acampamento simples primava pela limpeza e higiene, dos 17 cães de outrora só contei quatro agora. É uma parada emergencial bastante interessante, com abrigo e fogão à disposição. 

Despedi-me do gentil amigo e seu parceiros e continuei minha jornada remando forte aproveitando o vento de popa. Aproei rumo às falésias procurando encurtar caminho evitando contornar a longa e suave enseada de Santo Antônio. Por volta das 16h00, apareceram estranhas nuvens encurvadas e resolvi, por segurança, me aproximar mais da margem.  

Eu tinha de me aproximar, o mais possível, do Morro da Formiga para que amanhã eu conseguisse chegar até a Vila de Itapoã onde me abrigaria em uma pousada protegido do mau tempo previsto para a quarta-feira (27.05.2015). Aportei no mesmo local onde eu e o professor Hélio acampáramos no dia 24.09.2011, encontrei ali vestígios da enorme fogueira que acendêramos com o objetivo de sinalizar para o Coronel Pastl. Eu havia percorrido neste dia 63 km, totalizando 485 km até agora. Montei a barraca atrás das dunas e coloquei o caiaque como quebra-vento e ancoragem da barraca caso os ventos aumentassem. 

Consegui, de uma duna mais alta à Sudoeste do acampamento, falar com a Rosângela e informar-lhe que estava tudo bem. A noite foi tranquila, a duna amortecia a velocidade do vento. 

Rumo à Itapoã (26 a 27.05.2015) 

Acordei cedo, comuniquei-me com a Rosângela, desmontei a barraca, preparei as mochilas, arrastei o caiaque vazio para a praia, carreguei o “Cabo Horn” e parti, depois das 07h30. Aproei para o acampamento dos pescadores da Praia do Canto do Morro à Oeste do Morro da Formiga. 

Enfrentei ondas de até dois metros de altura na Costa de Santo Antônio, felizmente estas “Três Marias” mais pareciam rechonchudas e lentas matronas romanas, eu navegava longe da costa procurando evitar a rebentação. Aportei, depois de remar 18 km, no acampamento dos pescadores, cumprimentei-os e segui, em seguida, minha rota, já que meu caro amigo “Bussunda” se encontrava em tratamento de saúde. O acampamento dos pescadores estava, estrategicamente, protegido dos ventos pelo Morro da Formiga. Logo que contornei a Ponta da Formiga comecei a enfrentar fortes ventos de través e contrariando a orientação dos amigos pescadores rumei direto para o Farol de Itapoã. Logo que atingi a Latitude do Farol procurei me abrigar dos ventos aproximando-me da Costa Leste. Remei direto até a Pousada dos Quiosques, por 29 km, sem parar totalizando 532 km. Concluí a Circunavegação da Laguna dos Patos, aportando na Vila de Itapoã. 

1. Assim os céus, a terra e todo o seu exército foram acabados.

2. E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito.

3. E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera. (Bíblia Sagrada - Gênesis 2:1-3) 

 

Foram 14 dias, com 3 de descanso. Como o Grande Arquiteto do Universo descansaria 2 dias, se tivesse concluído sua criação em duas semanas, eu humildemente tive de parar um dia a mais. Foram 532 km de uma dura prova. 

Nos três dias de descanso a minha amada Rosângela estava comigo, uma companheiraça. Como a previsão do tempo para a quarta-feira (27.05.2015) era de muita chuva e vento optei por permanecer confortavelmente instalado na Pousada dos Quiosques, na Vila de Itapoã. O velhinho não é de ferro!!! 

Rumo à Ilha do Chico Manoel (28.05.2015) 

Parti da Vila Itapoã, com destino à Ilha do Chico Manoel, às 09h30. As ondas de través de quase três metros golpeavam a bochecha de bombordo do meu “Cabo Horn” com violência enquanto rajadas de vento de 50 km/h tentavam arrebatar meu remo.

O caiaque, fabricado pelo amigo Fábio Paiva, corcoveava altaneiro sem perder o prumo e a rota. Ao passar próximo aos Pontais as ondas formavam um formidável banzeiro golpeando a proa e a bochecha de bombordo alternadamente. Lembrei-me dos tempos de guri quando gineteava com os irmãos Marcelo e Maurício Fernandes Hunnicutt os novilhos da Fazenda de seu pai em Pouso Alegre nas Minas Gerais. 

Aportei às 12h00 na Ilha onde o Toco, alertado pelo amigo velejador Christian Willy, já me aguardava com as instalações em condições. Meu amigo zelador estava empenhado numa pesada faxina em virtude do temporal do dia anterior. Tomei um banho quente, coloquei uma roupa seca e ingeri massa crua a título de refeição para me recompor. Foi um deslocamento de apenas 17 km, totalizando 549 km. 

Rumo Praia de Ipanema (29.05.2015) 

Parti às 06h30, o amigo Toco ligara o gerador permitindo que eu arrumasse minha bagagem com mais facilidade. Foi um deslocamento lento e tranquilo até a Ponta Grossa onde cheguei às 08h45. Aportei na Praia de Ipanema exatamente às 10h00 como programara, depois de remar 18 km, totalizando 567 km. Lá estava o pessoal da Comunicação Social do Comando Militar do Sul, liderados pela Major Mônica. Dez minutos depois chegou a repórter Lara Ely da Zero Hora que publicou a reportagem no dia seguinte. 

Zero Hora, sábado, 30 de maio de 2015 

 

Contra Capa 

 

O Coronel da Lagoa dos Patos 

Ondas de quase três metros e vento de Compartilhe



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