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Artigos - 31/07/2015 - 06h00

A Retirada Laguna e a Marcha dos Dez Mil




Fotos: Divulgação

Brasão do Mato Grosso



Dom Aquino



Anábase



Expedicionários, Rio dos Bois, Goiás
Por Hiram Reis e Silva (*)

 A Retirada da Laguna

(Dom Francisco de Aquino Corrêa)

 

Fora tão bela e heróica essa avançada!

Trazíeis tantos louros ao Brasil,

Quando eis que o céu e o fogo e a peste irada,

Tudo vos assaltou com fúria hostil!

 

Martírio atroz! Toda essa terra amada

Banhou-se em vosso sangue tão gentil!

Ah! Fostes mais heróis na Retirada

Do que batendo a fera em seu covil!

 

Qual outrora os Dez Mil, vendo raiar,

Ao longe, o azul da imensidade equórea (alto mar),

Romperam neste grito: O Mar! O Mar!

 

Assim vós, ao entrardes para a História,

Que então se vos abriu, de par em par,

Fostes cantando: a Glória! a Glória!

 

O grande poeta e escritor Dom Francisco de Aquino Corrêa, foi “Presidente” do Estado do Mato Grosso, no período de 1918 a 1922, e criador dos dois símbolos oficiais mais importantes do Estado: o Hino e o Brasão.

 

Hino de Mato Grosso

(Dom Francisco de Aquino Corrêa)

 

[...] Ouve, pois, nossas juras solenes

De fazermos em paz e união

Teu progresso imortal como a Fênix

Que ainda timbra o teu nobre Brasão. [...] 

O Hino foi oficializado pelo Decreto N° 208, de 05.09.1983, adotando a letra do poema “Canção Mato-grossense” de autoria do augusto prelado. O Brasão, por sua vez, criado pela Resolução n° 799, de 14.08.1918, traz, sobre o escudo, ao estilo português, a emblemática imagem de uma Fênix, lendária ave que personifica o renascimento, e apresenta sob o escudo o memorável e inspirador dístico latino “Virtute Plusquam Auro” ‒ “Pela Virtude Mais que Pelo Ouro”. Dom Aquino Corrêa criou, em 1919, o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, do qual foi eleito Presidente Perpétuo, tendo publicado na Revista do Instituto, no mesmo ano, o soneto intitulado “A Retirada da Laguna”. Fundou, também, em 1921, a Academia Mato-grossense de Letras na qual foi aclamado, por unanimidade, Presidente de Honra. Dom Aquino compara a Retirada da Laguna à marcha dos Dez Mil mercenários gregos que realizaram aquele que ficou conhecido como o mais famoso Movimento Retrógrado da história da humanidade.

–  A Marcha dos Dez Mil 

A fantástica Marcha, Retirada, ou Avançada, como preferem alguns, é relatada pelo historiador, militar e filósofo Xenofonte no épico “Anábasis”, que conta a história dos “Dez Mil” mercenários gregos comandados por Ciro, o jovem, e que após a sua morte na Batalha de Cunaxa e a traiçoeira execução, pelos persas, do espartano Clearcus e de vários chefes helenos se vêem obrigados a recuar e atravessar o Império Persa, comandados por Xenofonte e Cheirisophus. Os expedicionários empreenderam uma extenuante e perigosa jornada de 600 léguas, em apenas 122 dias, cruzando os territórios hoje conhecidos como Armênia, Geórgia, Curdistão, Macrônia chegando à colônia helênica de Trapezus, às margens do Mar Negro. Neste trajeto os combatentes, durante toda a jornada, enfrentaram as forças persas, sofreram emboscadas promovidas por tribos rivais, arrostaram afanosos obstáculos naturais, suportaram o cansaço, a neve, o frio e tiveram de tomar de assalto várias Fortalezas e Vilas para debelar a fome que os assediava. Ao, finalmente, avistar o Mar Negro, do alto de uma elevação, os 6.000 guerreiros gregos sobreviventes, gritaram: “O Mar! O Mar!”, manifestação singular que ultrapassou as barreiras do tempo transformando-se em um brado que evoca a superação dos limites humanos, digno apenas dos mais audazes, disciplinados, fortes e determinados. O heroísmo dos Expedicionários tanto helenos como brasileiros ganhou, na época, merecidas páginas de glória em prosa e verso. É importante rememorar os feitos do passado para que um dia, passados os melancólicos e vergonhosos momentos presentes, fundamentados nos mais probos exemplos pretéritos possamos encontrar novamente nosso caminho rumo ao futuro depois de uma longa, sinistra e desqualificada década perdida. Affonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, professor, poeta, historiador e político brasileiro, no seu livro “Porque me Ufano do meu País”, dedica um capítulo especial à “Retirada da Laguna” onde faz, igualmente, a analogia desta odisseia com a marcha dos Dez Mil: 

XXXV 

[...] Graças à coragem, prudência e sabedoria dos chefes, bem como à perseverança e disciplina dos soldados, atravessam vales, montanhas, Rios; vencem traições, assaltos, falta de víveres, discórdias, toda sorte de perigos; chegam enfim a salvamento. E Xenofonte se imortaliza escrevendo os episódios do cometimento em que fora parte importante. A nossa história registra sucesso análogo, em que as tropas brasileiras mostraram constância e heroísmo, iguais, senão superiores, aos dos gregos, sustentando luta mais terrível, passando por maiores riscos, arrostando piores provações. Nem nos faltou quem, como Xenofonte, tendo sido um dos atores do drama, o descrevesse depois num livro admirável. 

Alfredo d’Escragnolle Taunay, mais tarde Visconde de Taunay. foi um dos oficiais da expedição que, em 1865, ao começar a guerra do Paraguai, operou no Sul de Mato Grosso, havendo sido obrigada a retirar-se de Laguna, naquele país, até o Rio Aquidauana, no território nacional. Narrou Escragnolle Taunay as peripécias do fato num trabalho que a crítica nacional e europeia proclamaram rival do de Xenofonte. (CELSO)

 

–  Personagens de Taunay 

CARDOSO GUAPORÉ 

Negro velho, muito feio, filho da cidade de Mato Grosso e de quem falo um tanto detidamente em meu livro “A cidade de Mato Grosso (antiga Vila Bela), o Rio Guaporé e a sua mais ilustre vítima” ‒ Laemmert, 1890. Era uma espécie de orangotango. Rábula, não pouco inteligente e sagaz, exercia na Vila de Miranda o cargo de coletor das rendas gerais e provinciais e fugiu para os Morros com a velha mulher, ambos chegados a mais de oitenta anos. Dotado de não pequena papeira (bócio), ostentava Guaporé os sinais característicos dos grandes antropoformos, prognatismo (crescimento excessivo da mandíbula) pronunciadíssimo, dentes valentes e saídos para fora da boca, exageradamente enormes, nariz chato com enormes ventas em cujo topo mal podiam aguentar-se uns óculos de grossos aros de prata, olhinhos piscos, protegidos por sobrancelhas em matagal e fronte minúscula e fugidia. 

Entretanto, contra tantos e tão claros prenúncios de absoluta estupidez, dispunha de bastante agudeza de espírito e passava até por capacidade na Vila, em que chegou a gozar de não pouca influência, já pelos recursos intelectuais de que dispunha e empregava ativamente no mexerico e na intriga, já pela amizade que o ligava ao Tenente-Coronel Albuquerque. Era um dos nossos vizinhos mais chegados nos Morros e não pouca graça e interesse achava eu em sua conversa, pois se referia, com um sem número de historietas e anedotas, à vida da antiga capital da Capitania do Cuiabá e Mato Grosso e à popularidade, ao prestígio e às façanhas do meu tio, Amado Adriano Taunay, que ali estivera em fins de 1827 e de lá nunca mais saiu, afogando-se no Rio Guaporé a 05.01.1828. Metia-se a falar corretamente e dava boas cincadas (gafes), de que nos ríamos a valer depois em conciliábulo íntimo, eu, Lago e Pacheco. Quando já saíramos dos Morros, morreu-lhe a velha e pitecóide (simiesca) esposa de modo bem singular. Em noite de forte ventania, possante árvore, ao cair, rachou a meio o rancho de palha e literalmente esborrachou a pobre que dormia ao lado do importante esposo. 

Coisa curiosa e que aqui menciono como engraçado assinalamento histórico, nos anais do casamento civil, Cardoso Guaporé quis estabelecer naquele lugar de refúgio, em que não havia Padres, essa útil instituição por cuja promulgação tanto trabalhei nas Câmaras e na Imprensa, incorrendo em muitos ódios e insultos, e que o Governo Provisório, nos primeiros dias da República, a 24.01.1890, decretou, sem protesto nem relutância de ninguém, como lei do país. A idéia de Cardoso Guaporé veio do seguinte modo: um médico, cirurgião do Exército e notável pelas excentricidades e reconhecida ignorância, que fora ter também aos Morros, enamorou-se, embora idoso, de certa moça, filha de pobre velho chamado Cadete, morador no acampamento do Chico Dias. A este propôs tomar por conta, e em casa, o objeto da paixão, até aparecer por ali sacerdote que regularizasse a sumária união. Teve o pai escrúpulos e foi consultar o oráculo do lugar – o nosso Cardoso Guaporé, ainda que a mãe se mostrasse muito mais fácil e condescendente: “Ora, Sr. Cadete”, dizia filosoficamente, “pois não comecei a vida amasiada e por muito favor? Quanto não rolei por aí, até me casar com o Sr.?” O marido porém não concordava e a tudo resistia. Achou o rábula o caso muito sério e pediu logo dois mil réis, ou então meio alqueire de feijão, para pensar na dificuldade e buscar resolvê-la. 

No dia seguinte, apresentou o desenlace: era proceder-se a uma cerimônia civil, presidida por ele, de que se lavraria auto, dizia com muita gravidade, segundo as formas do Direito e assinado por três testemunhas, comprometendo-se o médico, em nome de Deus, do Filho e do Espírito Santo a casar-se perante os altares no primeiro ensejo possível. A princípio concordou o esculápio (médico), mas depois se desdisse (negou), de modo flagrante e afinal rompeu qualquer acordo, tudo isto no meio de muita agitação das famílias e de toda a gente dos Morros. Não se falava noutra coisa e não havia quem desse razão ao velho doutor. “Não passa de rufião”, berrava o Cadete, enquanto a mãe da pretendida observava com e bom senso especial de uma Mme. Cardinal (o grotesco tipo literário criado por Ludovic Halevy):

 

‒  Vocês o que fazem é espantar a caça. O tal méco (médico) é muito burro, mas convinha bem à Antônia. A menina já está com os seus dezoito anos e precisa estabelecer-se. 

Tive ocasião de ver o original do documento redigido pelo Cardoso Guaporé e apresentado à assinatura recalcitrante do pretendente e dei bem boas gargalhadas. O mais desapontado de todos foi o autor do expediente, que viu fenecer ao nascedouro uma fonte de possíveis reditos. Também sabia vingar-se, “metendo as botas” no desconfiado médico. “Não”, afirmava, enrugando de modo muito cerrado e compungido o feiíssimo rosto de octogenário macacão, “não era homem sério!” E acrescentava com lisonjeira gravidade: “Dos nossos!...” Parece, aliás, que o Sr. Cardoso Guaporé não podia pretender foros de modelo, apontado como useiro e vezeiro em muitas e muitas irregularidades e até falcatruas no exercício do cargo de coletor. Pacheco acusava-o, quase cara a cara, de ter trazido da coletoria, como seu, grande saco de moedas de cobre, o que parecia pouco provável pelo peso da incomodativa moeda. Certo é que pagava tudo quanto comprava – e tornara-se um dos melhores fregueses dos índios – com vinténs. 

Pobre Cardoso Guaporé! Para que sermos rigorosos para com ele? Em extremo bajulador, frequentemente descia ao acampamento dos Buritis para intrigar-nos com o Comandante, levando-lhe um sem-número de bisbilhotices e mexericos. A cada momento estranhava que os dois engenheiros, um Capitão e outro, simples Alferes, não prestassem mais obediência a tão elevada patente da Guarda Nacional. E tanto insistia nisto que o velho mandão da roça, ainda que astucioso e prático na vida, afinal se impressionara com a pretendida falta de disciplina e conosco armou aberto conflito. Cardoso Guaporé faleceu uns dez ou doze anos depois da nossa estada nos Morros, em 1876 ou 1878. Voltara à Vila de Miranda, onde fora reintegrado nas funções de coletor. (TAUNAY, 1948) 

CAPITÃO COSTA PEREIRA 

Oficial reformado de cavalaria, morador em Nioaque, passara pelas mais terríveis inclemências para salvar a família, composta de mulher, ainda moça e bonita, distinta nos modos, e de dois filhinhos. Falador, metido a valente e, aliás, exprimindo-se bem e não raro com calor e até eloquência, tinha particular propensão à gabolice. A ouvi-lo, fora ele só quem pusera todos os habitantes do Distrito de Miranda fora do alcance da espada dos paraguaios. Verdade é que, depois, na Retirada da Laguna, mostrou, não poucas vezes, singular valentia. 

Em todo o caso, nos Morros atirara-se com decidida coragem ao trabalho e abrira uma das maiores roças de milho e arroz. A mulher... que pena me metia aquela senhora, visivelmente de origem, maneiras e aspirações muito superiores ao triste meio em que se vira coagida a viver! Vestida de farrapos, em estado de adiantada gravidez, numa barraca esburacada, de pés no chão, no último grau da anemia, era a imagem da desolação e do desânimo. Costa Pereira casou-se novamente, no Rio de Janeiro, com uma professora pública e morreu, creio que em 1889, já então quase totalmente cego. Inteligente e com algumas qualidades até distintas, este homem muito se prejudicou pela índole vária (inconstante) e a imprudência da linguagem, o que afinal o forçou a pedir reforma e abandonar a carreira das armas, passo de que sempre se arrependeu. Era muito ruivo, com cabelos anelados, cílios quase brancos, rosto todo mosqueado de grandes manchas de sarda. (TAUNAY, 1948) 

JOÃO FAUSTINO DO PRADO 

Tenente da Guarda Nacional, com um pai muito idoso, João Leme do Prado, descendente dos grandes e temerários sertanistas das bandeiras paulistas que, no século passado, haviam devassado todo esse Sul de Mato Grosso. Era casado com uma mulher indiática e feia. Esse João Faustino tomou-se de grande amizade por mim e dele conservo a expressão angustiosa com que me interrogou, ao abraçar-me depois da retirada da Laguna. “Ah! meu Taunay”, dizia em lágrimas, “como é que você, tão delicado, criado na Corte, pôde salvar-se? Saia quanto antes deste Mato Grosso; são terras demais brutas para sua educação e natureza. Deixe-as a mim e a outros que tais, nascidos aqui como gado bravio!” Morava no Morro do Azeite, perto do Rio Miranda. (TAUNAY, 1948)

 JOÃO MAMEDE CORDEIRO DE FARIA 

Outro mirandense que me dedicou muita simpatia, senão amizade. Bastante calado, saía-se de repente com ditos agudos e engraçados. Para gracejar com ele compus uma quadrinha em língua chané, que ensinei aos companheiros, e até às índias, e com que acolhíamos o Mamede, quando ele, vindo das matas do Aquidauana, onde se acoitara (homiziara), aparecia nos Morros. Também ecoavam estrondosos os aplausos e gargalhadas, provocadas por esta saudação, a que apliquei, ó profanação! Um trecho do minueto (sonata 49, n° 2) do grande Beethoven. (TAUNAY, 1948)

 

Chané: língua do grupo Chané formado pelas etnias Terenas, Laianos, Guanás e Quiniquinaus. (Hiram Reis) 

O Mamede e o João Canuto eram filhos de uma D. Maria Domingas, que tinha fazenda de criação, não pouco importante, do lado esquerdo e direito do Aquidauana. Nestas terras é que deveria efetuar-se, segundo opináramos, a passagem das nossas forças para entrarem no Distrito de Miranda, ainda então ocupado pelos paraguaios. A evacuação do nosso território pelo inimigo, que se concentrou todo na linha do Apa, tornou desnecessária qualquer precaução, abrindo-nos bem franca a estrada geral que passa pelo Porto do Sousa, fazendeiro vizinho daquela D. Maria Domingas. Já de volta ao Rio de Janeiro troquei com Mamede de Faria algumas saudosas cartas. Com pesar real recebi a notícia do seu falecimento. (TAUNAY, 1948) 

JOÃO PACHECO DE ALMEIDA 

Bem moço ainda, pois não completara 30 anos. Muito magro, estatura média, branco, ou antes, mestiço disfarçado, rosto sobre o comprido, com maçãs muito salientes e faces encovadas, olhos grandes e um tanto esbugalhados, pouca barba, cabelos agarrados ao casco, orelhas sobremaneira destacadas da cabeça, de abano, como dizem. Ativo, simpático, bastante inteligente, amável de natureza, alegre, até certo ponto generoso apesar de alguns hábitos interesseiros, em extremo atirado às mulheres, como, aliás, o geral dos mato-grossenses que conheci. Este, entretanto, era terrível, realizando o tipo do famoso cavalheiro de Pierre de Brantôme nas “Damas Galantes”, apesar da amásia, extremamente ciumenta, de nome Augusta. 

Era esta mulher quem nos fazia a cozinha, mas como vivia muito retraída nunca a vi bem, trocando com ela bem poucas palavras. Ouvi-a, entretanto, queixar-se várias vezes, e com amargura, das façanhas do amante. “Parece”, dizia ela, “que valho menos do que quanta índia suja e sarnenta há por aí.” 

E, com efeito, grassava o “acarus scabiei” (ácaro que produz a escabiose ou sarna) de modo pavoroso entre os índios, por vestirem quantas roupas conseguiam roubar aos paraguaios, muito afeitos a este mal. Nós mesmos não escapamos do terrível parasita e por causa dele não pouco sofremos, com grandes acúmulos nas articulações, sobretudo cotovelos. 

Pacheco de Almeida portou-se sempre bem e simpaticamente conosco. Embora ganancioso, jamais quis receber coisa alguma, a menor retribuição, pela hospedagem que nos dava e que durou nada menos de meses. Não pouca gratidão devemos à sua memória, pois era de rosto aberto e jovial que sempre nos falava e respondia quando queríamos discutir essa delicada questão de pagamento. Tinha, entretanto, nos livros de notas e escrituração coisas impagáveis e que denotavam modos de proceder bem diverso em relação a outros. Emprestava dinheiro e adiantava aos índios roupa e gêneros. O capital empregado não podia deixar de ser limitadíssimo, dois mil réis a um, cinco mil réis a outro e quando muito dez mil réis aos que lhe mereciam mais confiança; mas as cobranças, capital e juros se faziam rigorosamente, sendo tudo especificado nos cadernos do “Deve e Haver”. 

Com semelhantes teorias e processos, mais de louvar se tornou o desapego de João Pacheco de Almeida para conosco. Depois de certo período de convivência consagrou-nos verdadeira amizade, achando graça em tudo quanto eu dizia e admirando no Lago a decisão e o bom senso. 

‒  É a cabeça e o braço ‒ costumava dizer. 

Por nossa causa, tão identificados em breve tempo ficamos, inimizou-se com o tutu de Miranda, Tenente-Coronel da Guarda Nacional, estabelecido à base da Serra de Maracaju num ponto chamado Buriti a que pomposamente intitulara “Acampamento três léguas e meia em frente ao inimigo”, por se achar, com efeito, àquela distância do Rio Aquidauana. Nem por isso, porém, deixava de ser cauteloso e seguro esconderijo, encerrado em pedregosa brenha de bem difícil acesso. Qual o destino de João Pacheco de Almeida? Acompanhou, descendo dos Morros, as forças expedicionárias quando a elas nós, eu e Lago, nos juntamos; fez a marcha de Nioaque para a Colônia de Miranda e daí para a fronteira do Apa e Forte de Bela Vista. 

Tomou parte na Retirada da Laguna e, nos elogios oficiais lavrados, todos, por minha pena exclusiva, pus todo o empenho em lhe fazer valer os serviços de guerra, já então Tenente em Comissão. Também mereceu o Hábito da Rosa. 

O mísero, porém, nem sequer soube dessa distinção que o teria enchido de justo desvanecimento, arrebatado à vida, em junho ou julho de 1867, nesse mesmo lugar dos Morros, por um tiro homicida, mandado dar, dizem, por ordem de um inimigo de longa data. 

O assassino achara-o dormindo encostado à parede de um rancho de palha; entreabrira simplesmente a delgada separação e encostando-lhe a boca da garrucha ao corpo, fê-lo instantaneamente passar do sono à morte, na bela frase da Bíblia. A cruenta e fácil proeza não ficou, porém, impune. Perseguido pelos amigos e companheiros de Pacheco, foi o miserável capanga morto no mesmo dia. 

Não é singular, tantos anos depois, estar eu a evocar a lembrança desse bom e obscuro camarada de passadas eras e para ele pedir, se possível for, um olhar de benevolência da posteridade? Muito não se podia exigir do mais que modesto filho de Mato Grosso na apertada esfera em que nascera, fora criado e finou-se. Não me é lícito, entretanto, esquecer a boa e franca hospitalidade que me dispensou por tantos meses, sempre risonho, amável e a seu modo generoso e largo. (TAUNAY, 1948) 

VALÉRIO DE ARRUDA BOTELHO 

Já meio idoso, mas muito alegre e cheio de atividade e iniciativa, morava com a mulher e duas filhas, quase moças, longe do nosso acampamento, num sítio formosíssimo, junto ao Ribeirão das Piraputangas. Ali nos hospedamos, Lago e eu, quando fomos explorar a margem direita do Aquidauana, como complemento da Comissão trazida do Coxim. 

Que dia agradável e quanta anedota divertida, quanto episódio grotesco nos narrou da invasão paraguaia! Não se poupou a si mesmo, descrevendo os medos tremendos que curtira, apavorando-se de tudo, de um matagal, de uma vaca parada, de um tronco de árvore! Difícil era ter mais verve (imaginação), mais espírito natural, do que este bom homem, extremoso e ciumento da sua, aliás, bem organizada família. 

Na madrugada seguinte acompanhou-nos e por um raiar esplêndido de incomparável aurora, cantou em dueto com o João Pacheco, ambos bem afinados de voz, melodiosa modinha que sobremaneira me agradou e cuja música ainda hoje reproduzo ao piano.

 

Como vem linda surgindo

A serena madrugada! 

Que saudades agora, neste momento, sinto, ao lembrar-me daquele estupendo cenário, do cantar incipiente de mil pássaros, do ruído longínquo do Aquidauana, encachoeirado naquele trecho, e do colorido purpúreo e áureo do céu em que víamos subir, leve e adelgaçadamente, novelos de fumaça, a mais e mais densa. 

Eram os paraguaios que, na margem de lá do Rio, começavam a lançar fogo à macega dos campos a fim de prepararem pastagens para o gado... E como nos agradava sentir uma pontinha de frio no calidíssímo Mato Grosso! É que também estávamos em não pequena altitude, naqueles contrafortes da serra. Recordo-me bem, a este respeito, que no dia 24.06.1866, dia de São João Batista, curti tanto, tanto frio no meu rancho de folhas de palmeira, que mandei fazer fogo no chão e peguei no sono meio asfixiado pelo fumo. Também essa temperatura baixa só dura uns seis a oito dias; depois volta o calor violento, sobretudo em Cuiabá. 

Valério de Arruda Botelho sempre nos mostrou muita dedicação e amizade. Ainda vive, estabelecido em Nioaque, onde perdeu a mulher e casou as duas estremecidas (queridas) filhas. Deve estar bem adiantado em anos, talvez para cima dos oitenta. (TAUNAY, 1948) 

MEMBROS DA COMISSÃO DE ENGENHEIROS:

 

‒  Antônio Florêncio Pereira do Lago, Capitão do Corpo de Estado-Maior da 1ª Classe.

 

Dedicamos, anteriormente, um capítulo especial ao Capitão Pereira Lago reproduzindo um artigo do Taunay enaltecendo o mesmo.

 

‒  Catão Augusto dos Santos Roxo, Primeiro-Tenente do Corpo de Engenheiros. 

CATÃO AUGUSTO DOS SANTOS ROXO 

Filho do Rio Grande do Sul, moreno, de olhos apertados, nariz grosso, testa toda enrugada pelo hábito de franzi-la, muito simpático na feição e nos modos a que de contínuo procurava imprimir o cunho guasca, conforme denominava, mas com um “quid” (que) um tanto grotesco, sem ser, contudo, ridículo, antes engraçado naturalmente e mau grado seu, bambo das pernas e sempre a se queixar desta fraqueza. Dei-lhe na escola o apelido de “gato gordo”, que pegou pela semelhança com algum roliço bichano. Foi dos rapazes e companheiros a quem na minha vida consagrei mais viva e real afeição. Tudo quanto fazia e dizia o Catão tinha para mim irresistível graça. 

Quando, depois de mais de dez anos de íntima e constante convivência, rompemos relações por causa do canalhíssimo Coronel A. (e deveras não valia a pena), experimentei um dos mais fortes e penosos sentimentos de toda a minha existência, espécie de espinho que pungiu muitos anos, até a nossa reconciliação em 1881. Estava, porém, quebrado o encanto. Bom caráter, egoísta, mas capaz de rasgos de dedicação, sabe bem o que estudou e conhece administração, tendo sido ótimo e leal auxiliar de vários Ministros da Guerra; é, porém, pouco lido em literatura. Padecendo de surdez, que se vai acentuando, gosta em extremo de música. 

Gênio bastante melancólico, concentrou-se cada vez mais no sistema de vida, da qual excluiu, desde o princípio da carreira, qualquer estímulo de ambição. Já na subida da Serra do Cubatão, a braços com um reumatismo que o atacara violentamente, exclamava com uns “ais” e “uffs” que me faziam torcer de riso: 

Vou me reformar! Não nasci para façanhas! Leve a breca a farda, a fama, a glória! Não sou disto; prefiro o meu cômodo a todas essas bobagens! Ai, meu reumatismo, ai!” 

Quanto me ri com Catão Roxo e por causa dele! Quanto!... Uma vez atirei-me ao chão, na relva para poder rolar-me a gosto e desfazer-me em gargalhadas – quase estourei! 

Estávamos a caminho para a Vila das Dores do Rio Verde, vulgarmente chamada Abóboras, na Província de Goiás e levantamos pouso sem o Catão, que ficara a procurar uma bestinha de montaria Rosilha, desaparecida de madrugada. À tarde, nós, há muito acampados na barranca de grosso e límpido Córrego, quase Ribeirão, eis que apareceu o nosso retardatário, na estrada do lado de lá, na atitude ambos do maior cansaço e abatimento, o animal, sujo até às orelhas caídas, o cavaleiro todo derreado e com as abas do chapéu do Chile caídas e viradas. Enorme vaia os acolheu. Parado algum tempo na borda oposta a procurar melhor descida, de repente fraqueou a Rosilha das mãos e o Catão, saindo pela cabeça do animal, rolou o barranco todo e foi cair sentado no meio do córrego com a figura mais extraordinária que dar-se pode, entre resignação e furor. 

Nós não podíamos mais de tanto rir, enquanto ele nos descompunha: “Miseráveis, canalhas, infames, zombarem da desgraça de um companheiro!” E todo pingando, a custo subiu a margem de cá com as botas cheias d’água e a espada, por cima, a se lhe meter pelas pernas, o que o ameaçava a cada tropicão de focinhar novamente. Desses episódios, um mundo. (TAUNAY, 1948)

 

‒  José Eduardo Barbosa, Primeiro-Tenente do Corpo de Engenheiros.

 

JOSÉ EDUARDO BARBOSA 

Louro, de olhos azuis, amigo de mistérios e retraimentos, primava pelo egoísmo, sem, contudo, ter qualidades que impedissem certa intimidade de relações. Tinha o cacoete de torcer a cabeça, ora para o lado direito ora esquerdo, sestro (vício) nervoso que lhe valem a engraçada alcunha de engole sardinhas. Às vezes, parecia que a tal imaginária presa recalcitrava ao entrar na garganta, de maneira que os esforços se amiudavam, até que voltava a serenidade. Então um de nós gritava: “Passou!”, o que era acolhido com grandes brados: “Passou, passou, mais uma!” E o Barbosa ria-se com os demais. (TAUNAY, 1948)

 

‒  João da Rocha Fragoso, Segundo-Tenente do Corpo de Engenheiros. 

JOÃO DA ROCHA FRAGOSO 

Muito alto, magro, dispéptico (que padece de indigestão). Quase sempre ingênuo, às vezes arrogante, aturava, segundo a disposição do dia, com paciência, ou não, os nossos contínuos gracejos, em que o fazíamos figurar com uma ladainha de cognomes: João Prosa, João Macieza, João Beleza, João Bússola, conforme a ocasião e a gabolice que apregoara mais particularmente.

Os índios de Mato Grosso lhe aplicavam a alcunha muito característica de cabeça de nuvem por causa da cabeleira toda solta e arrepiada. 

Foi-lhe desastroso o fim, depois de grande dúvida com o Ministro Afonso Celso, em 1880, morrendo no Hospício de D. Pedro II. Casara com uma artista de Ópera, a contralto Leopoldina Iweskowska, mãe dedicadíssima e exemplar de três filhinhos órfãos, com quem ficou após a desgraça do marido. (TAUNAY, 1948)

 

‒  Joaquim José Pinto Chichorro da Gama, Primeiro-Tenente do Corpo de Engenheiros. 

JOAQUIM JOSÉ PINTO CHICHORRO DA GAMA 

Era de todos nós o mais velho. Esguio, muito chupado, quase esquelético com barbas esquálidas, de um louro sujo, já passando para branco, testa larga que abria em funda calva, maneiras esquisitas de alquimista ou descuidado sábio, nos lhe chamávamos o vovô. Possuía instrução variada e sólida, sobretudo em matemática; conhecia botânica e geologia e vivia agarrado aos livros. Inspirava-nos, senão respeito, pelo menos tal ou qual acatamento, não só pela erudição sincera, modesta e nunca encarecida, como também por ter na vida certos lados misteriosos que não penetrávamos e que ele zelosamente encobria. 

Era homem já afeito ao sofrimento e aos reveses. Um deles conhecíamos desde a Escola. Apaixonara-se loucamente por uma filha de um Coronel de Artilharia e vira-se preterido por um colega de ano, não só na pretensão à mão da disputada moça, como na candidatura a uma das cadeiras da Praia Vermelha. Parece que por tudo isto ficara algum tempo transtornado do juízo (valeria a pena?). Em relação ao Chichorro falavam também em desavenças e desgostos muito sérios com os pais na Bahia, berço de toda aquela família, conceituada pelos princípios intransigentes de honra e dignidade, de que o nosso colega era, decerto, digno e nobre tipo. 

De constituição muito débil, sempre adoentado, pilhou fortíssima bronquite ao chegar a São Paulo naqueles frigidíssimos dias de um abril excepcionalmente áspero. Tão mau nos pareceu o seu estado, que o nosso chefe, Miranda Reis, propôs-lhe a volta ao Rio, o que recusou com a máxima energia. “O primeiro dever do militar é saber morrer. Ou de bala ou de moléstia, a distinção pouco importa.” Entretanto, apesar da debilidade, eu o pirraçava quanto podia. “Culpa não tem você”, exclamava furioso, “culpa tem o governo que nomeia para Comissões de Engenheiros beldroegas (expressão que lhe era favorita) da sua idade, meninozinhos, Segundos-Tenentes de artilharia!” (TAUNAY, 1948)

 

Beldroegas: pessoa insignificante, inútil. (Hiram Reis) 

E tais palavras mereciam os aplausos do Barbosa e do Fragoso, muito ciosos ambos das funções de Engenheiros Militares e da gola de veludo que lhes ornava a farda. Pobre Chichorro! Para diante muito me hei de referir a este bom e infeliz companheiro, cuja morte foi horrível. (TAUNAY, 1948)

 

 

 

Fontes: 

CELSO, Affonso. Porque me Ufano do meu País ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ H. Garnier, Livreiro-Editor, 1918.

TAUNAY, Afonso d’Escragnolle. Memórias do Visconde de Taunay ‒ Brasil ‒ São Paulo ‒ Instituto Progresso Editorial, 1948.

 

 

 

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