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Artigos - 21/07/2015 - 05h55

Amazona​s II - Santarém/Porto de Santana V

Almeirim, PA – Porto de Santana, AP















Por Hiram Reis e Silva (*)

Acordamos cedo, o Cabo Mário e o Marcos aportaram a Delta na rampa a jusante do hidroporto de Almeirim. No meu planejamento inicial eu tinha previsto alcançar o Porto de Santana em quatro dias, mas agora eu estava resolvido a diminuir em um dia a jornada para recuperar um dos dois dias que levara de Santarém a Monte Alegre. De Almeirim a Porto de Santana teríamos de percorrer aproximadamente 271 km, impossível de serem superados em apenas dois dias, mas que poderiam, se as condições meteorológicas e marés permitissem, serem vencidos em três. 

14.03.2015 (sábado) – Almeirim, PA – AC do Palmital, PA 

Mantivemos nossa espartana rotina, coloquei a lanterna de cabeça, e parti, às 05h30, inicialmente com a intenção de passar pela margem Meridional da Ilha do Comandaí. A forte correnteza e a possibilidade de ter de enfrentar fortes banzeiros fizeram-me alterar a rota passando pela margem Setentrional da Ilha Comandaí no Paraná conhecido como Arrailos, homônimo do Rio que desemboca na margem esquerda do Rio Amazonas. A rota era tranquila e navegamos serenamente até avistar a Comunidade de Porto Franco a 52 km de Almeirim. Continuamos nossa progressão e adentramos no Paraná da Velha em cujas margens avistamos as enormes Aninga-açus (Montrichardia linifera). As raras flores da planta que avistamos pareciam enormes copos-de-leite (Zantedeschia aethiopica) com espádice e espata totalmente brancos.  

Aninga-açus (Montrichardia linifera): planta macrófita aquática encontrada nas margens dos Rios, Lagos, Igapós, Paranás, Furos e Igarapés. Suas folhas e frutos são usados como alimento pelos peixes e quelônios e mamíferos como o peixe-boi, capivara e gado bovino e bubalino. (Hiram Reis) 

Espádice: tem o formato de uma pequena espiga que abriga minúsculas flores. Normalmente, a espádice acha-se envolvida por uma espata. (Hiram Reis) 

Espata: suas formas e cores exóticas atraem os agentes polinizadores, tendo em vista que as verdadeiras flores que ela protege são insignificantes e são agrupadas na espádice. (Hiram Reis) 

Fizemos nossa primeira parada, depois de remar 63 km, por volta das 12h30, na Boca de um Igarapé, na margem esquerda do Paraná da Velha onde estava sendo construída uma enorme residência de madeira. Segundo carpinteiros a fazenda tinha sido adquirida recentemente por um investidor que residia em Macapá, AP. 

O Mário entrara no Igarapé e na hora de partir verificou que a Delta encalhara. Aguardei sem remar, arrastado pela forte correnteza do Paraná da Velha, até que a Delta estivesse novamente em condições de navegar. Na Boca de jusante do Paraná da Velha avistamos novamente o Amazonas que se bifurca depois de receber as águas do Rio Xingu formando, logo em seguida, o intrincado e ciclópico labirinto do Amazônico Delta formado por inúmeros Rios, Ilhas, Igarapés, Furos, Paranás, Lagos e Canais. 

Segui costeando a margem esquerda, durante algum tempo. Eu pretendia somente aproar para a margem direita quando me aproximasse da Ilha Taiaçu onde o Canal convenientemente se torna mais estreito (1,6 km) e permitiria, graças a isso uma travessia mais segura. Como o vento e as ondas tivessem amainado seus ímpetos resolvi atravessar logo os poucos mais de 4 km que me separavam da margem oposta, achando com isso que a correnteza do talvegue me proporcionaria um adicional importante de velocidade. Assim que atingi o talvegue do Canal, aonde a correnteza deveria ser mais favorável, os ventos fortes acompanhados por ondas travessas frearam substancialmente meu avanço. 

Depois de me aproximar da margem direita do Canal procurei costeá-la com o intuito de buscar abrigo da ventania e águas mais serenas. Tinha sido uma jornada extremamente cansativa, chamei o pessoal de apoio e indiquei algumas casas adiante onde poderíamos procurar abrigo. No mapa do Google Earth podia-se identificar um pequeno canal junto às casas onde o Mário poderia, possivelmente, ancorar com segurança a Delta. Quando aportei, às 15h00, depois de remar 90 km, o pessoal já tinha contatado o morador local que nos recebeu com a característica cortesia ribeirinha.

 

Eu estava cuidando de meus afazeres quando o Mário subiu a bordo correndo noticiando que uma sucuri tinha pego uma galinha. Fui correndo ver o que estava acontecendo e lá chegando deparei-me com uma cobra de seus 2,6 m com a boca cheia de penas e desfalecida com a paulada que lhe dera o ribeirinho. Resolvi preparar o ofídio para uma sessão de fotos, retirando-lhe cuidadosamente as penas da boca, e chamei o Teixeira. 

Convencionei chamar este acampamento de “AC do Palmital” tendo em vista que o proprietário tentou aqui montar uma fábrica de palmitos retirados do açaí que não vingou. As touceiras de açaizeiro possuem de 4 a 5 caules permitindo que a extração seja feita alternadamente. O intervalo ideal para a colheita é feito a cada 4 anos e a grande vantagem do açaí em relação a outras palmáceas é de que o açaizeiro rebrota após o corte. 

15.03.2015 (domingo) – AC do Palmital, PA – Foz Rio Cajari, AP 

Partimos, às 06h40, com a temperatura agradável e ventos amenos. Passamos pela Boca do Paraná Miruim e entramos no Paraná Taiaçu e logo que deixamos para trás a Boca de jusante do Taiaçu avistamos a costa do Amapá e à nossa retaguarda o Rio Jari, que faz a divisa dos Estados do Pará e Amapá e tem muita história para contar. 

Rio Jari 

 

O Rio Jari, afluente da margem esquerda do Rio Amazonas, tem aproximadamente 800 km de extensão, delimita os Estados do Pará e Amapá, nasce na Serra do Tumucumaque e desemboca no Amazonas na altura da Ilha Grande de Gurupá, a 2ª maior Ilha do Delta do Amazonas. O Jari apresenta sérios obstáculos à navegação em decorrência do grande número de cachoeiras ao longo de seu curso. As principais são as cachoeiras da Pancada, do Desespero e a de Santo Antônio, na divisa com o Amapá. 

A hidrelétrica de Santo Antônio do Jari opera a fio d’água, com um reservatório, de 31,7 km2, localizado logo acima da cachoeira de Santo Antônio. A capacidade plena da usina é de 373,4 MW e sua potência firme 217,7 MW. A hidrelétrica está interligada ao Sistema Integrado Nacional (SIN) e entrou em operação no dia 01.01.2015. 

Projeto Jari 

 

José Julio de Andrade nasceu em, 1862, no Município de São Francisco de Uruburetama, hoje Itapajé, CE. O Coronel José Julio veio para a Amazônia, em 1879, com apenas 17 anos no apogeu do ciclo da borracha e instalou-se na região do Jarí, em 1882, onde conseguiu, graças a tramóias políticas, dominar o comércio extrativista da região e transformar-se em um grande latifundiário tomando posse de uma área de aproximadamente 16.000 km2 que tinha como principal via de acesso o Rio Jari. 

Revolta no Jari 

 

O Encantado Vale do Jari

(Compositores: Aureliano Neck e Nonato Soledade)

 

Às margens do Rio

O Beiradão surgiu

Era gente de todo lugar

Querendo explorar

Num sistema de semiescravidão

Trabalhavam sempre devendo ao patrão

 

Zé Cesário vendo a situação

Liderou a revolta da região

Os índios com medo

Dos novos habitantes

Fugiram para matas distantes. [...] 

 

Em 1928, os extrativistas revoltaram-se contra o Coronel, tomaram um barco e foram até Belém denunciar as péssimas condições de trabalho e os crimes praticados pelo Coronel José Julio e seus capatazes. Relata-nos o historiador Lúcio Flávio Pinto: 

A população de Belém só tomou conhecimento do inferno que era trabalhar no Jari quando dezenas de cearenses, liderados por Cesário Medeiros, sublevaram-se, tomaram um navio e obrigaram o dono da propriedade a aceitar a fuga em massa. Chegaram a capital aliviados: haviam conseguido abandonar o cativeiro disfarçado nas terras do Coronel José Júlio de Andrade. (PINTO) 

Estas denúncias só surtiram efeito quando, após a vitória do movimento de 1930, o Governo Federal nomeou Joaquim de Magalhães Cardoso Barata como interventor do Pará (novembro de 1930 a abril de 1934). O Tenente Barata determinou a prisão do Coronel José Júlio obrigando-o a fugir para o Rio de Janeiro. Em 1948, Zé Júlio vendeu suas propriedades para um grupo de quatro comerciantes portugueses e um brasileiro, que deram continuidade ao sistema de extrativismo.

Daniel Keith Ludwig 

 

Ludwig adquiriu, em 1967, as terras deste grupo. Instalando um complexo agroindustrial que produzia celulose e arroz, dedicava-se à criação de gado além de explorar recursos minerais como a bauxita e o caulim. Foi desmatada uma área de mais de 200 mil hectares de floresta, para o cultivo de espécies exóticas (gmelina - Gmelina arborea) – com a finalidade de produzir celulose. O milionário, invadiu territórios indígenas e ribeirinhos que viviam às margens dos Rios Paru e Cajari gerando sérios conflitos com os moradores locais. A partir da década de 1980, teve início a derrocada financeira do Projeto Jari que foi transferido para um grupo de empresários brasileiros, liderado pelo Banco do Brasil e pelo Grupo Caemi Mineração. 

Grupo Jari 

 

Em 1999, o Projeto foi adquirido pelo Grupo ORSA pelo valor simbólico de 1 dólar. A negociação com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) durou dois anos. O projeto passou a ter o nome de Grupo Jari, e os empresários firmaram compromisso em sanar passivos sociais e ambientais. 

Chegamos por volta das 15h30 à Foz do Rio Cajari, depois de percorrer 72 km, e aportamos no trapiche da Comunidade Santa Ana área da Reserva Extrativista do Rio Cajari.  

Reserva Extrativista do Rio Cajari 

 

A Reserva foi criada pelo Decreto n° 99.145, de 12.03.1990, com 481.650 hectares e 5.000 habitantes. A população local dedica-se ao manejo da castanheira, da seringa, do açaí e da copaíba. Essas terras pertenceram ao Coronel José Júlio de Andrade, que usou de sua influência política quando exerceu os mandatos de Deputado Federal e Senador para registrar, através de ardilosas manobras cartoriais, um enorme latifúndio nos dois Estados. 

16.03.2015 (segunda-feira) – Foz Rio Cajari, AP – Porto de Santana, AP 

Faltavam apenas 109 km para encerrar o Projeto Desafiando o Rio-mar. Parti às 05h30, as águas do Cajari fluíam velozmente no sentido do Rio Amazonas, a maré baixa, que atingiria a sua cota mínima às 07h28, iria ajudar-me bastante durante a manhã. Mantive a rota próxima à margem esquerda do Canal do Norte. A viagem transcorreu sem alterações pela manhã até que à tarde a força da maré cheia, com pico às 12h24, mudou o sentido das águas do Rio Amazonas. 

Fiz minha única parada a bordo da Delta para evitar que a torrente fizesse meu caiaque retornar caso parasse de remar em pleno Rio. O maior Rio do Planeta Terra não era páreo para o Atlântico que subjugava o Rio-mar à sua vontade. Observar o gigantesco manancial retroceder sua torrente a mais de 150 km de distância do oceano era uma experiência ímpar além de nos apresentar uma real noção da relatividade das coisas. 

Um fato curioso deixou meus parceiros preocupados, eu estava progredindo ao longo da margem Setentrional de uma Ilha, bem longe deles, e um enorme transatlântico subindo o Rio. Desviei várias vezes minha rota para Boreste e o navio continuava vindo na minha direção, resolvi, então, mudar a rota para bombordo evitando uma possível a colisão. Evidentemente, a minha tomada de decisão e a minha avaliação das velocidades do Rio e barcos estavam embasadas na minha experiência no Guaíba em Porto Alegre onde preciso constantemente cruzar pelo canal usado por grandes embarcações. Meus amigos, porém, ficaram preocupados achando que eu estava próximo demais da formidável nau e das enormes marolas por ela provocadas. 

Aportamos no caótico Porto de Santana às 18h30, depois de remar durante 13 horas, e percorrer exatos 109 km. Uma média sofrível de 8,7 km/h, um pouco superior à que costumo fazer em lagunas e lagoas onde não existe correnteza para ajudar a navegação. O Cabo Mário teve de embarcar às 19h00 em uma lancha para Santarém onde precisava realizar os testes físicos que o habilitavam a pilotar embarcações maiores enquanto eu e o Teixeira fomos de táxi para Macapá nos hospedar em um hotel. 

Fonte: PINTO, Lúcio Flávio. Jari: Toda a Verdade sobre o Projeto de Ludwig – Brasil – São Paulo – Marco Zero, 1986.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);

Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

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