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Artigos - 20/07/2015 - 07h21

Descida do Rio Roosevelt VIII

Pousada Rio Roosevelt – Pousada Amazon Roosevelt















Por Hiram Reis e Silva (*)

07.11.2014 (sexta-feira) – AC15 (KM 602 – Pousada Rio Roosevelt) – AC16 (KM 628 ‒ Ilha) 

O dia iniciou com a passagem dos Rápidos do Infernão. Tínhamos deixado para trás a Cachoeira mas não seus Rápidos. Fui à frente reconhecendo as possibilidades que são muitas tendo em vista a largura do Rio chegar a 800 metros permeada de Ilhas e rochedos, felizmente ultrapassamos sem maiores dificuldades os obstáculos apresentados. 

Cachoeira da Glória 

Logo adiante, a 3 km, a Cachoeira da Glória, que se estende por quase 2 km, cujas corredeiras podem ser transpostas facilmente exceto a que fica a meio curso dela (08°28’18,5”S / 60°58’37,4”O). Parei em umas pedras (08°28’48,8”S / 60°58’40,0”O) antes da curva à esquerda onde se iniciam os rápidos e aguardei o Dr. Marc se aproximar. Informei-lhe que ele devia colar na margem esquerda logo depois da curva e me acompanhar até onde eu aportasse. O Dr. Marc fez a curva aberta demais e teve, depois, de passar por uma rota menos segura, pedi a ele que orientasse os “camaradas” e que eles aportassem em segurança logo adiante porque eu precisava fazer um reconhecimento à frente. 

Desembarquei na margem esquerda para reconhecer o melhor ponto de passagem e depois me desloquei até meus parceiros informando-lhes que iria atravessar e verificar se era seguro eles descerem por ali também. Coloquei a saia no caiaque, por precaução, e atravessei a torrente veloz, o problema não era a queda nem a velocidade das águas eram os grandes redemoinhos que se apresentavam logo depois, o rebojo formado por eles poderia provocar um desastre. Aportei mais adiante e pedi que eles viessem para a margem esquerda onde transporíamos as embarcações à sirga. Felizmente conseguimos vencer esta etapa sem grandes problemas. 

Cachoeira do Inferninho 

Navegamos em águas calmas, pelos dez quilômetros de uma longa curva à esquerda, antes de encontrar o “Inferninho”, que também se estende por uns dois quilômetros. Fui à frente e a primeira passagem à esquerda foi simples, mas os obstáculos se sucediam e, em um deles, tivemos de usar o recurso da sirga por garantia para transpor a canoa. Foram muitas as surpresas, não tive tempo de reconhecer cada passagem, demoraria demais, então atravancamos. Depois do Inferninho encontramos mais algumas rochas e rápidos que não apresentavam nenhuma dificuldade. Aportei em uma Ilha (08°22’11,2”S / 60°59’42,8”O) onde decidíramos acampar e embora tivesse sugerido aos “camaradas” o uso da sirga em um local bastante seguro para isso eles preferiram realizar a passagem à remo. Ganhavam confiança, dia-a-dia, nossos “camaradas” depois de enfrentar tantos desafios. Foram 26 km de pura emoção. 

08.11.2014 (sábado) – AC16 (KM 628 – Ilha) – AC17 (KM 658 – Acampamento de apoio da Pousada Rio Roosevelt)

 O dia anterior tinha sido cheio de emoções em vivo contraste com o de hoje que transcorreu num marasmo só. Eu tinha programado alcançar a Foz do Rio Machadinho (08°22’11,2”S / 60°59’42,8”O) que estava a exatos 30 km da Ilha onde acampáramos. Segundo informação dos funcionários da Pousada Rio Roosevelt alguns metros à montante do Machadinho e na mesma margem estava localizado o Acampamento de apoio da Pousada Rio Roosevelt onde poderíamos pernoitar. 

Cheguei cedo, a cozinha e casa de hóspedes estavam fechados com cadeado, os dois aposentos destinados aos funcionários, porém, estavam abertos. Depois de colocar a barraca para secar fiz uma faxina nos quartos e montei a barraca em um deles. Tomei um bom banho de chuveiro, a caixa d’água estava abastecida, e fiquei aguardando meus parceiros. O Jeffrey montou a barraca no outro aposento espalhando seu material por todo canto. O Angonese ia dormir no mesmo aposento que eu e não sobraria espaço para o Dr. Marc montar sua barraca no aposento em que estava o Jeffrey. Nosso caro Mestre já estava montando, resignadamente, sua barraca ao relento quando resolvi organizar as coisas. Reposicionei a barraca e as tralhas do Jeffrey e coloquei a barraca do Angonese que era menor que a do Dr. Marc no mesmo cômodo e com isso o caro Mestre podia ocupar confortavelmente o mesmo aposento que eu. 

Desde pequeno meu velho pai me ensinou a olhar ao redor e verificar se minhas ações poderiam estar causando algum transtorno a alguém. Coisas simples como num dia de chuva, portando guarda-chuva não andar sob as marquises ‒ deixe-as para quem está desabrigado, em um supermercado, ao parar, cole o carrinho junto aos balcões e entre dois produtos expostos, assim você não interrompe o tráfego e não bloqueia o acesso das pessoas aos gêneros. Infelizmente o individualismo parece estar cada vez mais e mais presente nas ações das pessoas de todas as classes sociais que jamais se preocupam com o coletivo. Os japoneses, na última Copa aqui no Brasil, foram os verdadeiros campeões ao recolher o lixo deixado pelos torcedores relaxados. 

O Cel Angonese pescou 12 belos tucunarés no Rio Machadinho, em apenas 30 minutos, soltou dez e separou dois belos espécimes para degustarmos no nosso “almojanta”. Limpei os peixes e o Angonese assou-os.

 

09.11.2014 (domingo) – AC17 (KM 658 – Acampamento de apoio da Pousada Rio Roosevelt) – AC18 (KM 692 – Pedras)

 

Parti cedo, como de costume e parei na casa do Dr. Rogério para um café. Os paranaenses parecem se adaptar excepcionalmente na Amazônia. Parti logo em seguida pois queria achar um local confortável para acampar. Eu marcara umas Ilhas de pedra a 34 km de onde pernoitáramos como ponto mais curto para acampar e caso o local não fosse satisfatório eu iria continuar procurando avante. 

Novamente a equipe demorou-se para sair e parou tempo demasiado na casa do Dr. Rogério, o resultado dessa combinação fatídica de atrasos foi que enfrentaram fortes ventos de proa que os impediu de prosseguir até que a ventania diminuísse seu ímpeto. Eles vinham dando oportunidade, desde o início da Expedição, para que isso acontecesse e apesar de tudo continuaram a agir de igual forma do primeiro até o último dia de viagem. 

Eu tinha chegado cedo à referida Ilha, antes das 11h00. Preparei o local do fogo coloquei os esteios para fixação da lona, colhi lenha para o fogo, cobri a lenha com um plástico, fixei a trempe, montei minha barraca, lavei minhas roupas, tomei banho, troquei a roupa e nada do restante da equipe chegar. Os camaradas chegaram somente por volta das 17h00 e o Dr. Marc visivelmente cansado, chegou logo depois, achando que tinha sido deixado para trás e quase resolvera acampar em outro local. A desorganização pode provocar fadiga e os dois juntos levam-nos a tomar decisões que podem comprometer a segurança e o bom andamento de um projeto. Eu sabia que isso viria a acontecer mais cedo ou mais tarde desde que não corrigíssemos alguns desvios de conduta.

 10.11.2014 (segunda-feira) – AC18 (KM 692 – Pedras) – AC19 (KM 717 – Montante da Cachoeira Carapanã) 

Parti sozinho por um longo Estirão, quase 10km, e logo depois de uma suave curva à esquerda avistei, à margem direita, a Foz do Igarapé Caripe e estava passando por umas pequenas corredeiras quando ouvi um grito, olhei para trás e só então enxerguei, à margem esquerda, a Casa de Apoio que um ribeirinho, que passou por mim de voadeira, mencionara no dia anterior, quando cruzara por mim na sua voadeira. Aportei e fui até a casa onde ficamos conversando durante algum tempo, ele me informou que por ali passara, também, a equipe capitaneada pelos americanos Paul Schurke e Dave Freeman mas que ao contrário da nossa desciam juntos e se comunicando pelo rádio durante todo o tempo.

José Caripe: foi nessa região que a expedição original encontrou o Sr. Caripe proprietário de um armazém e que Cherrie afirmou que “imperava como o Rei da extração da borracha” no Rio Roosevelt. (Hiram Reis) 

O prestativo amigo reforçou, mais uma vez, que na Cachoeira do Infernão eu deveria procurar apoio do caseiro Kleber que trabalhava na Pousada do Vitão. Orientou-me à respeito da localização da trilha que permitiria contornar a Cachoeira Carapanã. Despedi-me do prestativo ribeirinho e continuei minha descida. 

A pouco mais de um quilômetro Rio abaixo passei à direita da Ilha Santa Rosa, que tem uns 03km de comprimento, e onde o Rio apresenta sua largura recorde de 1,3km. Após a Ilha o Rio inflete para a direita, as águas calmas prenunciam um grande obstáculo mais à frente, a região é muito bela e tranquila o som das águas revoltas ainda não chegaram aos meus ouvidos.

 Mantenho a rota junto à margem esquerda conforme mencionara, pela primeira vez, o paranaense que trabalhava com o Dr. Rogério. Vou margeando uma grande Ilha à minha direita até avistar a entrada da referida Trilha (07°47’41,3”S / 60°54’48,1”O). Desembarco e ando pela trilha mais de 03km (seis de ida e volta) e não encontro nada, meus informantes não haviam me repassado as distâncias, volto e resolvo navegar mais à frente e encarar a famosa Cachoeira do Carapanã. Embora a largura de margem a margem ultrapasse os 700 metros, grande parte do caudal é carreado, graças a um infindável número de Ilhas e rochas de todos os tamanhos e formas, para a margem esquerda à uma velocidade impressionante. 

Deixo o caiaque ancorado entre as rochas e atravessado em relação à torrente para que meus parceiros possam avistá-lo à distância quando se aproximarem e vou até a margem verificar se existe alguma outra trilha mais curta. Não existe nenhuma trilha recente e a passagem embora relativamente curta (400 m) necessitaria ser aberta à facão até uma pequena praia à jusante onde depois encontrei o reboque e as voadeiras do Vitão.

 

Retorno à trilha anterior e resolvo medir a distância até a referida praia pela trilha usada pelo pessoal do manejo florestal. Foram aproximadamente 3.900 metros até a praia que ficava à jusante da Carapanã e a aproximadamente 1.200 metros à jusante havia outro Salto que teríamos também de desbordar. A mata fervilhava de vida, avistei pacas, cutias, caitetus, ouvi o barulho de um animal rompendo a mata em desabalada carreira que só podia estar sendo produzido por uma anta, mutuns de várias espécies (mutum-cavalo, mutum-de-fava, mutum-de-penacho), bandos de jacamins, macacos prego, aranha e barrigudos, enfim um paraíso ecológico sem precedentes. 

Voltei até a margem onde deixara meu caiaque e lá encontrei meus parceiros, eu tinha acabado de andar mais de 15 quilômetros e estava exausto. Reportei as distâncias encontradas e afirmei que a melhor e praticamente a única opção plausível era conseguirmos apoio mecanizado com o tal do Kleber. O Angonese e o Jeffrey, depois de descansarem um pouco resolveram encarar a mesma trilha que eu percorrera 03km. Os dois regressaram à noite e o Angonese disse que andaram por volta de 10 km até chegar a uma pousada onde contataram o Kleber que ficou de conseguir algum apoio para o dia seguinte. 11.11.2014 (terça-feira) – AC19 (KM 717 – Montante da Cachoeira Carapanã)

 

Não acordamos muito cedo aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Caso o Kleber conseguisse algum apoio ele só iria aparecer à tarde. O Dr. Marc conseguiu convencer o Angonese de reconhecer a margem direita da Cachoeira Carapanã. Não achei viável a empreitada tendo em vista a disponibilidade de tempo do Jeffrey. A “portagem” das próximas cachoeiras serio extremamente exaustiva e demorada demais. 

À tarde, depois de permanecer um bom tempo de “molho” nas águas límpidas do Roosevelt, parti com o Angonese, no encalço do Kleber carregando, nas mochilas, material para acantonamento na Pousada do Vitão, se fosse o caso. Tínhamos caminhado pouco mais de dois quilômetros pela trilha quando surgiu uma camionete pilotada pelo Sr. Antônio, doravante tratado por nós de Santo Antônio. 

Fomos até o porto à jusante da Cachoeira Carapanã buscar o reboque do Vitão e, em seguida, até o acampamento onde a dupla americana permanecera. Colocamos os dois caíques no reboque e os carregamos com uma carga leve, em cima dos caiaques colocamos a canoa e o material mais pesado foi na caçamba da camionete. Passamos pela Pousada do Vitão e fomos direto até a margem do Roosevelt descarregar o material no local da partida, já que teríamos de nos deslocar para lá a pé no dia seguinte. Levamos apenas o material imprescindível de acantonamento já que na pousada encontraríamos um local abrigado e colchões. 

Despedimo-nos do prestativo Santo Antônio que adiara uma viagem já agendada para nos apoiar. A noite foi muito agradável, a Pousada tem uma infraestrutura privilegiada, a energia é gerada por uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH), há uma bela estrutura de madeira, com churrasqueira, mesas, enfim um fantástico restaurante encravado sobre as águas de um agradável Igarapé em plena selva amazônica. O Kleber cobriu-nos de gentilezas, conseguiu carne para o churrasco, arroz, ovos, enfim um jantar gastronomicamente equiparado ao do nosso amigo Jair da Buritizal. 

12.11.2014 (quarta-feira) – AC20 (KM 727 – Porto da Pousada do Vitão) – AC21 (KM 736 – Praia) 

Saímos um pouco tarde da Pousada e ainda tínhamos uma longa caminhada até o Rio. Partimos do Porto do Vitão (07°42’59,9”S / 60°55’14,6”O) juntos já que existiam muitas corredeiras pela frente.  

A uns 700 metros resolvemos, por segurança, passar à sirga sem grande problemas e continuamos colados à margem esquerda como recomendara o Kleber, mais algumas corredeiras pequenas e de repente a temível Cachoeira Samaúma acostamos e enquanto fui à frente verificar se era possível transpô-la o Cel Angonese achou a entrada da trilha de 250m que a desbordava. A Samaúma podia ser transposta a remo mas não com os nossos caíques oceânicos. 

Transportamos todo o material para uma agradável praia à jusante de uma pequena Capela que os ribeirinhos veneram. No jardim uma grande cruz de metal com a inscrição “Semaúma”, e na capela, diversas muletas, pernas e braços de madeira, fotos, roupas e outros objetos ofertados por crentes agradecidos. O Kleber havia-nos dito que “Semaúma” fora uma menina que morreu, há muitos anos, afogada nas águas da Cachoeira Samaúma e foi enterrada ali mesmo onde hoje é o jardim da atual Capela que mais tarde foi construída em sua homenagem. “Semaúma”, desde então, vem operando verdadeiros milagres.

 

Meus parceiros ficaram aguardando na praia enquanto eu fui verificar se havia um local de passagem no Canal do Meio ou o Canal da direita já que o Angonese constatara que o da esquerda era inviável para a canoa. Aproei para montante direto para a Samaúma, eu tinha de atravessar o Rio e não queria que a força de suas águas me desviasse para jusante. Aportei próximo ao Canal do Meio em uma zona de águas calmas e atravessei um banco de areia submerso para analisar o Canal. Tive de escalar diversas rochas para conseguir uma visada mais adequada e por fim constatei que a transposição, por ali, também era inviável.

 

Voltei ao caiaque e naveguei rumo à margem direita que encontrei bloqueada por rochedos. Subi o Rio margeando até que avistei, depois de uma estreita passagem, um Canal que descia sem muito estardalhaço o que poderia significar uma boa alternativa para descermos. Aportei e novamente tive de escalar os rochedos acompanhando toda a rota até chegar a um lugar de remanso, encontrei, no caminho, uma isca artificial que entreguei ao Angonese, havia algumas passagens mais estreitas mas contornáveis até chegar à última abordagem que tinha duas opções, a da esquerda embora mais tranquila tinha à sua frente um paredão que bloquearia perigosamente quem por ali adentrasse e a da direita era mais estreita e de menor calado mas não tinha nenhum obstáculo à sua frente – descidi que naquele ponto cruzaríamos pela direita. 

Regressei, muito cansado, até a praia e informei a meus companheiros o que tinha decidido. Carregamos os caiaques e a canoa e partimos para a travessia do Canal da Direita. Na chegada confundi-me com uma das entradas de acesso ao Canal mas voltei a tempo de orientar corretamente os camaradas, o cansaço começava a prejudicar meu discernimento. Fomos ultrapassando os obstáculos com sucesso até chegar ao último, antes do remanso. Os camaradas estacionaram diante das duas opções à sua frente e embora eu já tivesse decidido que a melhor era à da direita ultrapassei-os e enveredei pela da esquerda. Passei tranquilamente pela estreita garganta mas depois fui atirado pela torrente veloz contra o paredão de arenito, a proa chocou-se violentamente contra as pedras e o caiaque adernou violentamente para a direita e inclinou-se para a esquerda empurrando-me para baixo. Segurei-o firmemente, e tentava evitar que ele soçobrasse, O Dr. Marc surgiu não sei de onde e me ajudou a mantê-lo fora d’água, retirei a câmera fotográfica e entreguei-a ao Dr. informando-lhe- que não conseguiríamos segurá-lo durante muito tempo e a solução era empurrá-lo no sentido da corrente. Foi o que fizemos, agarrei-me a Cabo Horn e fui conduzindo-o para uma área remansosa. Retirei a água do caiaque enquanto recuperava o fôlego. A “portagem”, os reconhecimentos e agora esse quase naufrágio, o segundo em mais de 40.000 km de navegação em um caiaque Cabo Horn, tinham-me exaurido as poucas forças que ainda me restavam. Naveguei até as rochas onde o Dr. Marc tinha deixado minha câmera, havia perdido, nesta ocasião, meu boné e os mapas, continuamos nossa emocionante jornada. As águas continuavam rápidas, as inúmeras Ilhas só perdiam em beleza para as do Alto Rio Negro. Tivemos alguns sobressaltos aqui e ali mas nada de muito sério.

 

Por fim o Angonese, que tinha uma 2ª via dos mapas, optou por parar numa extensa faixa de areia (07°40’46,8”S / 60°53”16,9”O). Coloquei meu material para secar e ajudei o Angonese catando lenha e na proteção do fogo. Ouvíamos o ruído dos motores que passavam na BR-230 distante apenas 1.300m de onde estávamos e, de repente, escutamos, pela primeira vez no Rio Roosevelt, o bufo conhecido de um boto-vermelho (Inia geoffrensis) macho. A presença de um boto em qualquer região é o prenúncio de navegação tranquila à jusante. As cachoeiras são barreiras geográficas que os botos não conseguem transpor, portanto, isso significava que a partir dali até o Rio Madeira não existia nenhum obstáculo significativo à navegação.  

À título de ilustração gostaria de citar o caso do Rio Madeira, onde existem duas espécies de botos-vermelhos que estão separadas por estas barreiras geográficas. No Alto Madeira, existem 16 cachoeiras que separam duas espécies distintas – a Inia boliviensis “endêmica” da região acima das cachoeiras, e a Inia geoffrensis, abaixo delas. 

Os Sistemas de Transposição de Peixes construídos nas Hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio levaram em conta esse fator impedindo, como antes, que os botos, que vivem a jusante destes obstáculos naturais, possam utilizar, agora, estes sistemas para subir o Rio, comprometendo todo o ecossistema a montante das Hidrelétricas. Esta realidade poderá ser alterada num futuro próximo quando a Hidrovia do Madeira for definitivamente implantada. As eclusas vão permitir que os mamíferos aquáticos e outros peixes as usem para alcançar áreas que antes a natureza se encarregara impedir. Percorrêramos 09km de muitas emoções. 

13.11.2014 (quinta-feira) – AC21 (KM 736 – Praia) – AC22 (KM 765 – Pousada Amazon Roosevelt) 

Último dia de navegação no Roosevelt foram 21 dias de muita emoção, aprendizado e camaradagem, com uma breve interrupção de dois dias entre a 1ª e 2ª Fase, totalizando 23 dias. Cada remada fazia-me recordar a determinação e coragem de um veterano que do alto de seus 68 anos abandonou o conforto e a tranquilidade da longínqua Califórnia para se aventurar nos ermos sem fim de um Rio tumultuário, inóspito por vezes, mas pleno de vida e de uma beleza sem par. Rarefeito em termos de população mas não de hospitalidade, encontramos em cada lar, em cada parada uma mão estendida pronta para dividir o pouco que tinham. A cordialidade típica do ribeirinho sempre me encantou em cada uma de minhas amazônicas jornadas e continua me maravilhando. A coragem desses homens e mulheres capazes de sobreviver com tão pouco esbanjando tanta alegria e afetividade. 

Tenho certeza de que este velho Mestre brasileiro de coração e americano por adoção guardará eternamente com muito carinho a odisséia que cumpriu com a fibra e determinação inquebrantável de um guerreiro Mundurucu de outrora e a serenidade ancestral dos Lamas tibetanos. 

Obrigado, mais uma vez, Dr. Marc pelo convite. Como disse antes mais uma convocação do que um chamado, foi um privilégio participar com o amigo desta épica jornada. 

O Angonese, velho amigo, companheiro de outras jornadas, não me surpreendeu, apenas confirmou ser um militar de escol, competente como “Jungle Expert” e remador audaz. Parceiro para todas as missões, não mediu esforços para que conseguíssemos abreviar o tempo de deslocamento e nos tranquilizasse quanto à segurança e destreza que imprimia na condução da pesada e pouco manobrável canoa. O Angonese permitiu que variássemos nosso cardápio da ração americana liofilizada trazida pelo Dr. Marc, com saborosos carreteiros e, principalmente, no Médio e Baixo Roosevelt, com peixes pescados e assados por ele próprio. 

Nas proximidades da Confluência do Aripuanã encontramos alguns pescadores, que estavam hospedados na Pousada Amazon Roosevelt, que nos presentearam com refrigerantes gelados – muito bem vindos. Aportamos no píer da Pousada depois de percorremos 29 km. 

Nesta pousada, diferente da anterior, o gerente foi bastante solicito e embora estivesse com a lotação esgotada permitiu que acampássemos nas suas instalações e desfrutássemos das comodidades das instalações sanitárias, área de lazer e refeições junto com os demais hóspedes. 

O Dr. Marc, o Cel Angonese e o Jeffrey foram até a Balsa (Vila do Carmo), Rio Abaixo, combinar com o “Pelado” nossa viagem de camionete até Humaitá onde estaria esperando-nos o Sgt BM Douglas para conduzir-nos até Vilhena. Preferi relaxar e permanecer na área de lazer da pousada, minha missão, finalmente, estava concluída. Nas minhas outras descidas a programação geral, as metas diárias enfim todas as variáveis eram decididas apenas por mim. Nesta missão o Dr. Marc era o coordenador e eu tentei me ater tão somente à segurança no deslocamento, escolha dos acampamentos e contatos prévios para transposição das cachoeiras. É difícil, para alguém acostumado a liderar, transformar-se, de uma hora para outra, em apenas mais um membro da equipe, tentei cumprir meu papel, por vezes bufei, mas acho que no final conseguimos chegar a um consenso. Agradeço aos meus parceiros a compreensão e a paciência. 

Minha intransigência quanto aos horários e distâncias diárias a serem percorridas visava tão somente acelerar nossa progressão o suficiente para que, ao enfrentar as grandes Cachoeiras como Carapanã, Apuí e Samaúma tivéssemos tempo suficiente para analisá-las e transpô-las, sem necessitar de socorro de terceiros, desfrutando das sua belezas naturais e curtindo seus desafios. 

(*) Hiram Reis e Silva é Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);

Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

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