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Artigos - 20/07/2015 - 06h20

Descida do Rio Roosevelt I

Centenário da Expedição Científica Roosevelt-Rondon















Por Hiram Reis e Silva (*)

 É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glórias, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito, nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota. (Theodore Roosevelt) 

–  Convite Irrecusável 

Tendo em vista o adiamento de nossa descida pelo Rio das Amazonas, de Santarém a Belém, no mês de agosto passado, provocado pela dolosa morosidade da justiça gaúcha, no que tange a uma simples venda de um imóvel residencial, resolvi arregaçar as mangas e partir para o planejamento de uma nova jornada pelos amazônicos caudais ainda em outubro deste ano. No dia 28.02.2014, eu tinha sido convidado pelo Dr. Marc Andre Meyers para participar de uma histórica, oportuna e necessária homenagem ao Centenário da Expedição Científica Roosevelt-Rondon:

 Prezado Coronel Hiram,

Foi um grande prazer familiarizar-me com suas Expedições de caiaque nos grandes Rios da Bacia Amazônica. Realmente fascinante. Pretendo, também, adquirir seu livro. Gostaríamos imensamente de manter discussões preliminares que levariam a uma possível participação de sua equipe em uma Expedição conjunta. (...)

 

–  Dr. Marc Andre Meyers

 

O Dr. Marc é Professor Distinto de Ciência dos Materiais na Universidade da Califórnia, San Diego, EUA, e já realizou extensas investigações sobre espécimes biológicos do Brasil, incluindo o bico de tucano, escamas de pirarucus e dentes de piranha. Estas pesquisas, apoiadas pela National Science Foundation, usam as ricas lições da natureza para criar novos materiais sintéticos em um campo emergente chamado biomimética. As pesquisas do Dr. Meyers foram apresentadas na PBS NOVA, National Geographic Magazine, no Canal de História, e outros.

 

–  Falta de Apoio

 

A ambiciosa proposta do Dr. Marc visava fundamentalmente três objetivos fundamentais:

 

1. Refazer a rota da Expedição Científica Roosevelt-Rondon original para obter conhecimento e celebrar o esforço sobre-humano e o sacrifício da primeira expedição.

 

2. Colecionar amostras biológicas únicas encontradas ao longo da rota e realizar novas pesquisas científicas.

 

3. Comparar as mudanças ao longo do século passado, utilizando relatórios originais de Roosevelt detalhando a geografia, fauna, flora e habitantes nativos. 

Como na expedição original, os dados colhidos serão utilizados para fins científicos e divulgados através dos diversos órgãos de comunicações, incluindo a criação de um documentário produzido por Jeffrey Lehmann de Barnstormer Productions que será fornecido gratuitamente para redes públicas do Brasil, EUA e demais países. A divulgação das informações produzidas pela expedição são tão importantes quanto seus três objetivos fundamentais e estas incluem fotos e filmagens aéreas e submarinas não reportadas pela expedição original. Toda a expedição deveria ser coberta pelas mídias sociais, em tempo real, em todo o mundo. 

Infelizmente o apoio que o Dr. Marc esperava encontrar por parte do Exército Brasileiro não aconteceu e um a um de seus apoiadores, foram abandonando o empreendimento, até que só sobrou este articulista. Se o Gen Ex Ueliton José Montezano Vaz, Chefe do DECEX (Departamento de Educação e Cultura do Exército), conseguir sensibilizar o Gen Ex Oswaldo de Jesus Ferreira, Comandante do CMN (Comando Militar do Norte), poderemos contar, quem sabe, com o apoio de meu fiel escudeiro, e voluntário para a missão, o Cabo Mário Elder Guimarães Marinho, do 8° BEC (Santarém, PA).

 

–  Velhinhos Atrevidos!

 Em 1999, quando cursava o Curso de Operações de Selva, categoria A, para oficiais superiores, nosso grupo compôs uma jocosa canção:

 

Nós somos uns velhinhos atrevidos

Para quem o perigo não existe

Com orgulho (...)

Para manter nossas armas sempre em riste. 

Acho que o atrevimento destes dois idosos de 63 e 68 anos que se lançam em um Rio que percorre os ermos sem fim formando dezenas de formidáveis Saltos, Cachoeiras, Corredeiras e Rápidos é um desafio para poucos bravos. Hipotequei, desde o início, total apoio ao meu novo amigo Marc Meyers e independente de contarmos ou não com qualquer tipo de apoio institucional vamos descer o Rio Roosevelt. 

O Dr. Marc homenageando o ex-Presidente norte-americano Theodore Roosevelt e eu o maior brasileiro de todos os tempos, Cândido Mariano da Silva Rondon, o nosso valoroso Marechal da Paz. Se ao escutarmos o fragor tenebroso do choques das águas céleres saltando, batendo e rebatendo nas grandes formações rochosas, projetando-se aos borbotões pelos abismos ignotos, contorcendo-se em desesperadas e infindas convulsões, borrifando diáfanas nuvens matizadas com as cores do arco-íris, o medo vier abalar nossos espíritos e o tremor a sacudir nossos membros, nossa memória, madrugando no longínquo pretérito, resgatará a imagem do General Turenne. 

O grande General francês, Henri de la Tour d’Auvergne (1611-1675), Visconde de Turenne liderava, nas batalhas, suas tropas marchando corajosamente à frente de seus homens. Um dia indagaram-lhe o porquê desta insólita atitude, para um General, e ele resoluto respondeu: 

 

Eu me comporto como um homem corajoso, mas sinto medo o tempo todo. Não cedo ao medo e ordeno ao meu corpo:

 

–  Carcaça, tu tremes? Tremerias mais ainda se soubesses aonde te levo (Carcasse tu trembles? Tu tremblerais bien davantage, si tu savais, où je te mène).

 

–  Flashes da Expedição Científica Roosevelt-Rondon

 

A América pode apresentar ao mundo duas realizações ciclópicas: ao Norte o Canal do Panamá, ao Sul o trabalho de Rondon ‒ científico, prático, humanitário. Rondon não é apenas oficial e “gentleman” como os que mais o são nos mais bem organizados exércitos do mundo. É também excepcional, audaz e competente explorador, ótimo naturalista, cientista, estudioso, filósofo. Com ele a conversa vai da caçada de onças e dos perigos da exploração do Sertão à antropologia indígena; dos perigos da civilização industrial, puramente materialista, à moralidade positivista. O Positivismo do Coronel Rondon é realmente a Religião da Humanidade, doutrina que o impele a ser justo, bondoso e útil, a viver corajosamente sua vida e, com igual bravura, afrontar a morte. Nunca vi, nem conheço obra igual. Os homens que a estão realizando são, pela sua abnegação e patriotismo, os maiores que existem. Um povo que tem filhos desta ordem há de vencer. O século XX pertence-lhes. (ROOSEVELT) 

A Comissão 

O Governo Brasileiro, atendendo aos desejos manifestados pelo notável e saudoso estadista da América do Norte, organizou uma Comissão brasileira para o acompanhar na arrojada travessia do Sertão de nossa Pátria e escolheu para chefiar essa comissão “the right man to the right place” ‒ o então Coronel Rondon. À larga visão de um jovem estadista ‒ o Senhor Lauro Muller ‒ Ministro das Relações Exteriores nessa época, devem-se os extraordinários benefícios que advieram para o nosso País, com a acolhida de tal iniciativa, não só pelo reconhecimento geográfico de uma região até aí desconhecida e pelos estudos de História Natural realizados na zona percorrida, como também pelo valor da propaganda do Brasil no estrangeiro, especialmente na América do Norte, através do livro que Roosevelt publicou sob o título “Through the Brasilian Wilderness”, livro que ele foi escrevendo no decorrer da própria Expedição. (...) Logo que Lauro Muller transmitiu o convite a Rondon, este acedeu imediatamente ao apelo do Governo ponderando, em todo caso, que estaria pronto ao desempenho da Comissão, certo de que “não se tratava de um mero passeio de sport, mais ou menos perigoso, mas que o Governo ligaria, aos intuitos de uma travessia pelo Sertão, objetivos científicos de utilidade para nossa Pátria”. Isto indica o ponto de vista elevado em que Rondon se colocava, ao mesmo tempo em que evidencia estar ele a par do que se passava no mundo, não obstante viver na floresta anos seguidos! O Escritório Central tem sempre a incumbência de lhe transmitir, por telegrama, o resumo dos principais acontecimentos dentro e fora do País, telegramas a que alguns telegrafistas chamavam ‒ o Jornal de Rondon. (MAGALHÃES) 

A Expedição 

Ficou assentado que a Expedição Roosevelt estudaria a fauna daquela região e dela forneceria exemplares ao American Museum of Natural History de New York, particularmente interessado em coleções provindas das regiões divisoras das Bacias do Amazonas e do Paraguai. As bagagens da Expedição foram, assim, rotuladas com os dizeres: “Colonel Roosevelt’s South American Expedition for the American Museum of Natural History”. 

Completariam a Expedição dois naturalistas, Cherrie e Leo E. Miller, veteranos das florestas tropicais; o Secretário de Roosevelt, Frank Hasper; Jacob Sigg ‒ que acumularia as funções de cozinheiro, enfermeiro e assistente de Father Zahm; Anthony Fiala, antigo explorador dos Polos. Seria este Chefe do equipamento que deveria conter, especialmente, tudo o que pudesse defender os expedicionários de insetos e répteis, além de 90 latas de alimento concentrado, cada uma com ração para cinco homens, em um dia, rações compostas e acondicionadas pelo próprio Fiala. O filho do Senhor Roosevelt, o Senhor Kermit, reunir-se-ia à Expedição, no Sul do Brasil, onde se achava havia alguns meses. (VIVEIROS)

 

A Crueldade da Vida dos Trópicos 

Entrávamos agora no teatro dos trabalhos por nós iniciados em 1907, tendo-se já descoberto a maior parte desse Sertão ‒ ligado por meio das linhas telegráficas, a Santo Antônio do Madeira e a Cuiabá, portanto ao Rio de Janeiro ‒ Sertão já estudado e cartografado. A Comissão criada pelo Presidente Afonso Pena abrira à civilização, havia cinco anos, esse Sertão que, desde 1890, vinha eu percorrendo e estudando à custa de sofrimentos incríveis, suportados com a resignação de quem se consagrou a um ideal, vendo morrer companheiros, amigos devotados, de polinevrite, febres e disenteria, flechados pelos Índios, devorados pelas piranhas, exaustos de cansaço, eu próprio quase perdendo a vida em diversas ocasiões, inclusive a percorrer mais de 3.000 quilômetros, para atingir o Madeira, com 40° de febre. Diria o Senhor Roosevelt, mais tarde, depois de atravessar a região:

 

‒  É incrível a quantidade de insetos ‒ que mordem, picam, devoram, depositam bernes, causam sofrimentos atrozes; vai além do que se possa imaginar. O patético mito da benfazeja natureza não pode ser aplicado à crueldade da vida dos trópicos. (VIVEIROS) 

O Head-Ball 

Notava ele, com vivo interesse, os objetos de uso dos Índios, os tecidos feitos pelas mulheres, os costumes ‒ as mulheres sempre ativas, ocupando-se dos filhos com infinita paciência, carregando-os em faixas largas a tiracolo, inseparáveis de seus fusos que faziam rodopiar desde que tivessem as duas mãos livres, ainda que fosse por um instante, uma para suspender o fio, a outra para fazer girar o irrequieto aparelho. Teve o Senhor Roosevelt ocasião de assistir a interessante esporte dos Parecis ‒ a que chamou head-ball (izigunati, ou matianá-ariti). Uma bola de borracha leve, por eles mesmos fabricada, era jogada com a cabeça, em destros movimentos de pescoço, sem que fosse tocada com mãos ou pés.

Era difícil decidir o que mais admirar ‒ se a destreza e força das cabeçadas, se a habilidade com que a bola era aparada. Referindo-se a esse esporte, em seu livro “Through the Brazilian Wilderness”, confirmou o Senhor Roosevelt a opinião que expendi em 1911 de que era instituição autóctone sobre a qual nunca lera nem ouvira contar nada que permitisse supor ser praticada por qualquer outro povo do mundo. (VIVEIROS) 

O Assassinato do Sargento Paixão 

Além da grave afecção palustre que acometeu Roosevelt, cuja vida esteve em sério perigo, além da redução que sofreram as rações normais dos expedicionários, além do trágico naufrágio de uma canoa, do qual salvou-se milagrosamente o destemido Kermit Roosevelt e de que resultou o desaparecimento de um dos canoeiros da Expedição, um trágico acontecimento teve por teatro as margens do Rio Roosevelt. Roosevelt narra-o com escrupulosa exatidão, transcrevendo em seu livro citado o documento que os expedicionários todos firmaram em testemunho da verdade. Vamos referi-lo sumariamente, para depois comentar a diversidade dos pontos de vista Norte-americano e brasileiro na maneira de encarar os fatos. Na travessia de uma Serra que tomou o nome do Morto, foi assassinado traiçoeiramente por um dos soldados canoeiros o Sargento Paixão, belo tipo de negro, cujas tradições honrosas ao serviço da Comissão Rondon e da pacificação dos silvícolas, angariaram-lhe sempre a simpatia de seu Chefe. Passava-se a carga de montante para jusante da cachoeira e o Sargento Paixão dirigia o pessoal. Cumpridor de seus deveres e das ordens que recebia e que fazia cumprir sem tergiversações, impedira que o Soldado subtraísse alimento em conservas. 

O Soldado que era um tipo covarde e perverso, iludindo a vigilância do Sargento, apossou-se de uma carabina Winchester carregada, ocultando-se atrás de uma grande árvore no pique do varadouro. Aí aguardou a passagem do Sargento e desfechou-lhe um tiro de bala a queima-roupa, matando-o quase instantaneamente. Ouvindo o estampido, correram os expedicionários a verificar do que se tratava e já foram encontrar o Sargento nos últimos arquejos da morte. Seguindo a pista do criminoso, floresta dentro, encontrou-se caída ao solo a carabina de que se servira, ao pé de um tronco, onde uma escoriação da casca parecia revelar que o assassino abalara em uma corrida louca, como que perseguido e chicoteado pelo remorso atroz, esbarrando ali com a arma, que lhe escapara das mãos... No desespero da fuga, prosseguira em carreira desordenada, para não perder tempo em apanhar a arma, como se sentisse já quase a estrangulá-lo a mão da Justiça!... Não foi possível alcançar o criminoso e voltaram os expedicionários ao acampamento, sob a triste impressão do lamentável acontecimento. (MAGALHÃES) 

O Choque de Doutrinas

 

O Coronel Rondon tem, como homem, todas as virtudes de um sacerdote, é um puritano de uma perfeição inimaginável na época moderna; e, como profissional, é tamanho cientista, tão grande é o seu conjunto de conhecimentos, que se pode considerar um sábio. Quanto mais eu o conhecia e o estudava, em meio da contemplação da grandeza do Brasil, mais me firmava na idéia de que essa grandeza não era maior do que a do filho ilustre desse recanto prodigioso da Natureza. (ROOSEVELT) 

Em face do assassinato, apresentaram-se então em campos opostos a teoria dos americanos e a dos brasileiros. Roosevelt, intérprete da primeira, entendia que o assassino devia ser fuzilado, sem mais formalidades, por qualquer dos expedicionários que lhe pusesse os olhos em cima. E argumentava que, estando os expedicionários de ração reduzida, não era lícito dividirem o que restava com um homicida; que este se mostrara indigno de qualquer sacrifício dos companheiros de exploração; que recebê-lo seria aumentar uma boca a comer, sem que se pudesse ter mais confiança nos dois braços para o trabalho. 

Os brasileiros, porém, entendiam que se deveria acolher o malvado, alimentá-lo e exigir dele o trabalho compensador do alimento a que tinha direito embora, como prisioneiro, à espera do contato com o meio civilizado, para os fins do processo legal a que deveria oportunamente responder. No dia seguinte ao do assassinato, a Expedição prosseguiu a descida do Rio e quis a fatalidade que o assassino, arrependido, no desespero de quem se sente isolado em pleno deserto, condenado de improviso a representar o papel do homem primitivo da Terra, surgisse a pedir socorro justamente quando passava a canoa de Roosevelt! O primeiro ímpeto de Roosevelt foi, como era natural, levar a sua arma ao rosto e apontar... Certo, porém, no seu espírito refletido passou a imagem da teoria brasileira, como um anjo protetor e benigno... e ele retirou a arma, franziu o sobrolho e informou ao médico, que o acompanhava na mesma canoa, não desejar que a embarcação atracasse para receber o assassino. Os seus desejos foram satisfeitos e lá ficou a implorar perdão e piedade, debruçado sobre um galho à beira d’água, a figura sem dúvida asquerosa, mas infeliz, daquele pobre bandido... O desgraçado acompanhou com o olhar a canoa até que esta desapareceu na primeira curva do Rio, como quem vê extinguir-se a sua última esperança!... O seu olhar desvairado compreendeu então que o abandonavam definitivamente aos azares de uma sorte cruel. 

Ele merecia incontestavelmente um tremendo castigo, pela hediondez de seu crime, mas justo é refletir que só uma grande dureza de sentimentos aprovaria semelhante solução, nada civilizada. Quando a Expedição acampou, a ocorrência foi comunicada ao Chefe da Comissão Brasileira. Discutido o caso em presença de todos os expedicionários, Rondon fez sentir a Roosevelt o que a propósito determinava a Lei Brasileira e que, em face da nossa legislação, o seu dever era aprisionar o assassino e conduzi-lo consigo: aos juízes competiria sentenciar-lhe o castigo. Imediatamente Roosevelt responde-lhe:

 

‒  Pois bem, Senhor Coronel Rondon, se a lei de seu país é esta, eu estarei pronto a cumpri-la! 

Nenhuma prova mais cabal poderia Roosevelt ter dado da superioridade de seu espírito! Rondon determinou então a permanência de um dia no novo acampamento e organizou uma patrulha que subiu o Rio em busca do homicida, e que o devia prender, sem maltratar. Essa patrulha, porém, subiu o Rio até o ponto em que fora visto o assassino, foi ainda muito além, rebuscou a mata em todas as direções, deu tiros de sinal, mas não conseguiu deparar com o criminoso. Este, sem dúvida, temera apresentar-se, supondo que o quisessem matar!

À noite, recolheu-se a patrulha e ao dia seguinte prosseguiu a Expedição águas abaixo, sem que nunca mais se tivesse notícias do assassino. Teria sido comido pelas onças? Teria encontrado Índios que o acolheram? Teria morrido de fome? Ninguém nunca o saberá talvez; a sua vida ficou envolta no mais profundo mistério e faz-me de vez em quando pensar em todas essas peripécias, arrastando-me a imaginação a uma infinidade de hipóteses. (MAGALHÃES)

Uma Valquíria Brasileira 

Curioso episódio também foi observado em relação à mulher de um dos soldados regionais do Destacamento que acompanhou Roosevelt, desde Tapirapoan (Rio Sepetuba) às margens do Rio da Dúvida. Grávida já de nove meses, essa mulher acompanhou a pé todas as marchas da Expedição, por terra, o que era motivo para admiração geral. Aconselhada em Tapirapoan a alojar-se ali para seguir depois de dar à luz, recusou-se peremptoriamente e declarou que estava acostumada a andar no Sertão nesse estado de gravidez, sem se cansar. A convicção de suas afirmativas levou o Comandante do Destacamento à tolerância de a deixar seguir, embora contra o voto do médico. 

Pois bem, essa mulher extraordinária não só marchou diariamente quatro a cinco léguas a pé, como também só interrompeu a marcha um dia (24 horas) para dar à luz. Ao dia seguinte do parto, prosseguia a marcha a pé carregando o filho ao colo. (MAGALHÃES) 

Fim da Jornada Apenas Para Roosevelt 

Às 11 horas, o Dunstan, onde viajava a Comissão Americana, levantava âncora rumo ao oceano... ainda o acompanhamos por algum tempo, a bordo do aviso “Cidade de Manaus”. Afinal, por entre as névoas da saudade, que já envolvia nossos corações, lançamos, ao espaço, as últimas despedidas, erguendo vivas ao Chefe da Expedição Americana e à grande República que tinha a glória de tê-lo por filho. 

Às 23 horas, voltava eu, no “Cidade de Manaus”, à Capital do Amazonas, de onde segui pelo Madeira acima e, depois, pelo Jamari, de onde demandaria à estação de Barão de Melgaço, a fim de continuar os meus trabalhos de construção da Linha Telegráfica de Cuiabá ao Madeira.

Escreveu o Senhor Roosevelt o volumoso livro “Through the Brazilian Wilderness”, descrição de sua viagem. Foi esse livro traduzido, tendo eu pedido prévia autorização à viúva. Essa delicadeza muito a sensibilizou e a autorização veio assinada, não só por ela, como por todos os filhos e pelo editor. Quando o Senhor Roosevelt foi à Europa, para fazer conferências sobre sua excursão, fui eu também convidado. Nessa ocasião, disse um português, a propósito do Rio da Dúvida, que os portugueses já lhe conheciam a Barra, ao que retrucou o Senhor Roosevelt:

 

–  Só a Barra era conhecida, isto é, alguns poucos quilômetros dos seus 1.500 quilômetros de curso. (VIVEIROS) 


–  Vídeos:

 

River of Doubt – Roosevelt-Rondon Expedition – Parte 1 de 7 

https://www.youtube.com/watch?v=ghTUz9nXNS4#t=17

River of Doubt – Roosevelt-Rondon Expedition – Parte 2 de 7 

 

https://www.youtube.com/watch?v=BE5CEeBuXW4

River of Doubt – Roosevelt-Rondon Expedition – Parte 3 de 7

 

https://www.youtube.com/watch?v=uyQYbI5zO7Q

River of Doubt – Roosevelt-Rondon Expedition – Parte 4 de 7

 

https://www.youtube.com/watch?v=mUDxUMNYQu0 

River of Doubt – Roosevelt-Rondon Expedition – Parte 5 de 7

https://www.youtube.com/watch?v=bSujFFXo81M 

 

River of Doubt – Roosevelt-Rondon Expedition – Parte 6 de 7

https://www.youtube.com/watch?v=uKk3wwZKid4

 

River of Doubt – Roosevelt-Rondon Expedition – Parte 7 de 7

https://www.youtube.com/watch?v=6v5KL6BGr7Y  

 

–  Fontes: 

MAGALHÃES, Major Amílcar Botelho de. Impressões da Comissão Rondon ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Editora Brasiliana, 1921. 

ROOSEVELT, Theodore. Nas Selvas do Brasil ‒ Brasil ‒ São Paulo ‒ Livraria Itatiaia Editora Ltda ‒ Editora da Universidade de São Paulo, 1976. 

VIVEIROS, Esther de. Rondon Conta Sua vida ‒ Brasil Rio de Janeiro ‒ Livraria São José, 1958.

  

(*) Hiram Reis e Silva é Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);

Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

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